“2009 é que foi um ano ruim, John Fante”; ou: “Precisamos falar sobre Verón”; ou ainda: “Às Margens do Mineirão, sentei e chorei”

 

Existe uma espécie de categoria narrativa chamada de “micro história”, que diz dos grandes acontecimentos da humanidade- sejam eles períodos inteiros, sejam de trajetórias específicas, seja de datações particulares- que são relatados por sujeitos anônimos, que a grande história não cataloga que o macroscópio de importâncias não detecta, mas que a realidade, ou os fissurados por ela, teimam em não deixar escondido debaixo do tapete da vida. Vários desses Menochios (para citar a célebre obra de Carlo Ginzburg a respeito das micro histórias, “O Queijo e os Vermes”) orbitaram a esfera enquadrada pelas avenidas Carlos Luz e Abraão Caram, aquele que é o mais importante palco do futebol brasileiro, o Mineirão. Vários deles também habitaram páginas heróicas (ops) e imortais de grandes cronistas- de cabeça agora me lembro do João Antônio de “É Uma Revolução”, modelo dos modelos quando se trata de jornalismo lítero-esportivo a respeito do velho Magalhães Pinto.

Portanto, sob essa sombra, não me deitarei meu chapa. Proponho aqui nos desavergonharmos, espírito dos tempos, Marcelo Camelo cantando “O Vencedor”, Leonardo Cohen tecendo loas aos “Beautiful Losers”, sejamos mais Jon Cryer e menos Charlie Sheen (#notwinning). Glorificarei uma imensa derrota testemunhada no Mineirão. A maior de todas, ora, pois. Aquele passeio germânico do ano passado foi na verdade um presente que os deuses da vergonha na cara (aqueles que nos esquecem com alguma freqüência) nos deram e que, a despeito de toda nossa cordialidade, ainda não foi aberto, pelo menos onde ele foi endereçado (“Alô Marin, manda direto para Miami ou agora não adianta mais?”). Estou falando de uma gloriosa e acachapante derrota, que fez as lágrimas represadas depois do apito final temerem inundar aquele imundo e divino chão do Mineirão.

E não, não inundaram. Lá, não.

Ah… O Mineirão moleque, de raiz. De maconha escondida nos bandeirões, de Chicabom vendido a preços decentes (será que foi daí que o Tio Nelson cunhou a imortal frase? É uma boa pra explicar o mood shopping center e pouco passional do Neo Mineirão, uma coisa meio muita farinha pra pouco tropeiro), dos abraços e beijos simultâneos ao desdentado e ao engravatado, da liberdade, da igualdade, da fraternidade. Das revoluções por minuto, determinadas pelo filho da puta que estivesse apitando o jogo da vez. Oitava maravilha, utopia realizada, as estrelas lá do céu, nós fomos buscar, tantas e tantas vezes. Mineirão cheio e repleto de poesia barata, de teorias furadas, de cornetas ensandecidas, de ouvidos colados nos radinhos de pilha, que sintonizavam não um exemplar ludopédio, mas o coração de toda uma nação, uma China Azul (saudades Fernando “Tá no Filó” Sasso!) que chamava e ainda tem a exclusividade de chamar aquilo de casa. Só aquilo ali tem o tamanho, a grandeza do que somos.

 

Mineirão cheio e repleto de VIDA. Do melhor e do pior dela. Poderia até chamar o que pretendo fazer aqui de micohistória, mas nossas pequenas tragédias não devem ser simiamente reduzidas aqui. Au contraire, a figura do macaco nos serve para pensar em evolução, em andar pra frente, em inventar grandes invenções.

Futebol é uma delas. Outra, que, atenção neófito, atenção recalcado, vêm frequentemente acompanhada desta, são as grandes tragédias. Ou seja: as décadas que colecionaram lapadas em vossos lombos naquele estádio magnífico, a ponto de usá-lo impunemente como bode expiatório para tantas incompetências e pequenezas, e irem plantar apagões suspeitos no Horto, são riqueza pura.

O manual do macho sensível hoje tem que reservar, no capítulo futebol, algumas lindas e tristes notas de rodapé sobre nossas tragédias. Falo aqui, da minha maior, por mais que teimo em minimizar para os colegas de resenha esportiva de ambos os lados (“Sofri mais com aquele gol do Guilherme Lobo Mau chapelando”, “A eliminação pro Once Caldas foi o que me fez chorar”, “Aquele gol do Oséias, naquele ângulo impossível!”, “Maldito Dinei!” entre outras lorotas cinicamente contadas) é nela que me afogo nos copos mais nostálgicos; é através dela que busco os afagos mais fortes e compreensíveis da dama que, por infelicidade gigantesca, pode estar dividindo a cama comigo numa noite de penitência terrível a respeito daquele trágico jogo.

(Isso porque falo à noite, dormindo. Já me disseram que NARRO jogos durante meu sono)

Acordado, dependendo do grau alcoólico, consigo transformar uma Vera em Verón, apenas com a força da imaginação baixo astral. Ou, “The Power Of Negative Drinking”, para contra-citar Lou Reed. Que não entendia porra nenhuma de futebol, suponho. Mas entendia tudo de Vera /Verón, em outros campos, bolas e travessssss… Aposto minha coleção do Velvet Underground nessa última.

Foi bom pra você querido?

Não, não foi.

Mas, ó, quer saber? Foi também.

Nada como uma broxada para levantar um gigante adormecido

Ou ao menos um peso-pena, não é turminha dos 6 x 1?

Que Deus ou Charles Miller louve aqueles que criam todo um novo mundo depois de grandes tragédias

2

Essa noite foi, seguramente, uma espécie de despedida do meu velho e bom Mineirão. Mentira, não foi não. Esse foi também o ano do flanelinha né? Piscadinha marota para todos que aqui ainda sabem aquela paródia clássica de Mamonas Assassinas. Mas usaremos nesse momento a sempre bem vinda licença poética.

E falando nela, a poesia, lembro-me que foi embebido em doses generosas dela e de cerveja que me recordo de ter visto esse Velho Mineirão pela última vez, com o mesmo olhar que o via quando menino, quando nos mais loucos devaneios juvenis pensava em batizar meu futuro filho de Boiadeiro, Ademir ou Nonato. Ih, olha só: nessa tarde/noite de final de Libertadores, minha filha já tinha oito anos de idade. Minha filha, que se chama MARIA. Esse nome, que os rivais, pós-modernões que só eles, taxaram como algo ofensivo. E que os pós-pós-modernões celestes resolveram devolver com LOURDINHAS. Nome de minha amada e cruzeirense avó.

Não me lembro desse tipo de babaquice nominal pouco criativa no meu Velho Mineirão. Deve ser memória seletiva. Ou seria uma manobra afetiva pra encobrir os cânticos de “Ô Marques, vi-a-do”? Seguimos…

É bem possível que, horas antes de ter alcançado o portão seis, entrando pela Catalão, eu devesse ter deixado Maria na escola. Como é bem possível que eu já tivesse ligado para minha mãe pedindo benção e boa sorte. Como é bem possível que eu já tivesse rememorado mentalmente o chute libertador de Eliveltón em 97. Como é bem possível que… Bem, de uma coisa eu tenho certeza: como estava de carona, já estava de “carona” cheia lá pelas cinco da tarde, quando finalmente, armados do médio e velho Pack de Skol quente, conseguimos atravessar aquele lindo mar de veículos azuis, rádios ligados no talo, hinos e cantos randomicamente tocados, escafandristas celestes numa Carlos Luz afundada em euforia e trânsito mais lento que o atual meio de campo do Cruzeiro.

Foi por aí, preocupados com superlotação, que decidimos não ficar de onda lá fora.

Foi por aí que começou meu clássico ritual, requintes de transtorno obsessivo compulsivo, diante do Velho Mineirão.

1)      Adorava subir pelo matão, pela barranqueira; nunca pela escadinha. Dava um tom de aventura fantástico, uma mini-escalada, um esquenta na adrenalina, encontrando companheiros de esforço pelo caminho, adornado por aquele cheiro indelével de urina pilsen. Guerreiro dos gramados, enfim.

2)      Gostava muito, quando sozinho, sem levar a filha, daquela zona, aquele universo paralelo que eram as bilheterias/entrada. Tipo show de hardcore no Estrela ou no Butecário. Um aperta-aperta do caralho, olhares ameaçadores e suspeitos, aroma maravilhoso de churrasquinho (engraçado pensar em quantas memórias sensoriais guardo do Old Mineras) temperando aquilo que o bom senso nunca chamaria de “fila”. Geral filmando quando os PM´s passavam carregando algum torcedor a tira-colo, o olhar cúmplice e de certa forma invejoso a quem pulava o muro, os gritos de guerra já queimando a garganta na largada…

3)      Depois, um pit-stop providencial no banheiro- só pra sentir aquele clima meio Trainspotting, a clássica cena do Ewan McGregor entrando na privada, começava a escalada final, um, dois lances de escada…

4)      …E encontrar, lá do alto, o Mineirão em 360°. Coração aos pulos, feito ovelha desgarrada que encontra seu bando. Nunca chegava pulando ou cantando: gostava desse momento de filmar, em panorâmica, travelling, planos médio e grande, o estádio em todo seu esplendor. Tipo aquela seqüência incrível do “O Segredo de Seus Olhos”, com o Darín. Só que na vida real. Era maravilhoso. Era a melhor coisa.

À noite, era ainda mais especial. Adorava Mineirão à noite, desde muito moleque. Primeiro, porque era uma desculpa maravilhosa para fugir do horário padrão de TV- cama- escola de manhã. Quer dizer, sempre tinha escola de manhã, mas ir ao campo à noite parecia uma coisa meio marginal, subversiva, enchia a boca para falar que tinha ido ao Mineirão com os sonados coleguinhas no dia seguinte. Obrigado pai! Segundo, anos depois, já com o brevê de adolescente jovem adulto, era a desculpa perfeita para um rolê boêmio posterior, seja para dividir aquele mexidão, completar a resenha, seja para uma baladinha esperta- já me “casei” (por) uma noite com uma cruzeirense uniformizada num desses botecos de rock, depois de um domingão de clássico (hum, na época era ex-clássico, insuperável gestão Adílson Baptista). O divórcio, na manhã seguinte, não foi doloroso: tínhamos as imagens esportivas na televisão, repetindo aquele gesto politicamente incorreto do Gladiador, ad infinitum, para curar a fossa.

Mas nada superava assistir aquele chão de estrelas suspenso sobre nós, in loco. Tudo a ver, match made in heaven: daquele tanto de astros lá de cima, sessenta caíam sobre os mantos que desfilavam no gramado. Outros milhares se espalhavam sobre nós, meros mortais e espectadores. Era mágico, porra. Entendo e admiro a ideia atual de se praticarem jogos pela manhã, acho novo, acho louvável, acho família. Bonito até. Mas, puxa Mineirão à noite é demais, uma experiência absolutamente sem parâmetros. Tem a ver com iluminação- e não estou falando aqui da luz sintética dos celulares. Estou falando daquela luz natural que as áreas mais esvaziadas de prédios, tipo a Pampulha, têm. Do frio que a lagoa ali do lado conduz nas noites de maio/junho, nas fases decisivas da Libertadores e que tentávamos amainar com o calor humano de multidões que ainda ultrapassavam os seis dígitos. Da escuridão ameaçadora que rondava aquele estádio do lado de fora, o arvoredo metamorfoseado em banheiros orgânicos, o fumacê dos cigarros nervosos mixados com os fogos de artifícios (principalmente os silenciosos-sempre odiei rojões) que ficavam ainda mais coloridos contrastados com o breu noturno. O verde pra-que-te-quero-ainda-mais verde no gramado, focalizando toda nossa atenção…

(Ameaço escorrer uma lagriminha aqui. Mas ela se detém antes que você, leitor, possa soletrar E-S-T-U-D-I-A-N-T-E-S)

3

Será que pulo a parte do jogo em si?

Será que minha memória (lá se vão seis anos…) docemente deletou tudo que aconteceu naquelas tristes quatro linhas?

Engraçado, me lembro perfeitamente do golaço do Henrique. Tirambaço de fora da área, with a little help do jogador deles, aquele montinho artilheiro humano. Presente atípico dos deuses do futebol: premia o operário na noite de gala. Sou um grande fã de volantes. A idade me permitiu isso. Como todo moleque normal (ou seja, que não tinha como ídolos goleiros), sempre fui magnetizado pelos astros-rei do futebol: os atacantes, naturalmente. Ora, geralmente são eles os responsáveis pela glória maior. O Mineirão me presenteou com grandes atuações de grandes artilheiros; e aí, independente de camisas. Vi Romário, o maior de todos, em qualquer posição, silenciar um domingo de Mineirão lotado, com a camisa do Vasco. Vi Evair numa noite pouquíssimo inspirada; vi um Ronaldo abrir um maroto sorriso de dentes horrorosamente detonados depois de ridicularizar Rodolfo Rodriguez. E vi Marques. Kleber. Viola. Túlio. Edmundo. Paulinho Mc Laren. Marcelo Ramos. Aristizabal. Charles Guerreiro. Washington. Dodô…

E vi Ademir. Ricardinho. Maldonado. Fabrício. Gente fibrosa, gente de garra, alguém tem que fazer o trabalho sujo. Longe de serem estilistas da bola, são esses heróis ocultos que fazem do esporte bretão uma nobre arte. Afinal, são eles que desbravam aquele campão a golpes de facão, chineladas elegantes, carrinhos inesquecíveis para que os craques, pimpões que só eles, possam passear nas Ferraris da glória.

E vi Henrique fazendo gol em final de Libertadores. Ali o ciclo se completaria.

Mas também vi Verón.

Que, sim, é meia. Mas naquele dia estava iluminado como o melhor dos volantes. Como o melhor dos atacantes. Como o melhor dos seres humanos.

Porque, sim, fez o que fazia de melhor (e tinha um time inteiro à disposição dele) que era distribuir bolas elegantemente- por vezes, genialmente- do meio pra frente.

Mas naquela noite, Verón ocupou todo o estádio. O MEU estádio.

Mesmo tentando disfarçar, acho que já entreguei meu time no decorrer desse texto, certo? Mas tem uma coisa: futebol é bom demais para ficar confinado apenas a sua paixão. O futebol é o amor, o Cruzeiro é a explicação e a explicitação desse amor. Mas quando garoto, por exemplo, “torcia” para times de todo o mundo. Na Itália, gostava do Milan (Van Basten… Baresi… Maldini…). Na Alemanha, Bayern de Munique. Na Inglaterra, Manchester United (Eric Cantona!). Na França, Lyon. Em Portugal, Benfica. E por aí vai. Na Turquia, só troquei o Galatassaray pelo Fener por causa, obviamente, do Alex. De todas as minhas simpatias, reconheço que apenas uma pesava mais e pesa até hoje: o Barcelona, de Romário.

A mesma coisa serve para jogadores de outros times- e até mesmo jogos de outros times. Nunca me esqueço do sorriso-mascando-chicletes de Telê Santana ao ver Raí fazer o gol naquela falta no Mundial de 92. Das comemorações helicóptero de Marcelinho Carioca. Do Edmundo fase Animal. Do Paraguai do genial Gamarra segurando a França no limite do humano…

Portanto, não tenho problemas em admitir que vi Seedorf acabar com meu time apenas com a elegância de seu jogo. Assisti de pertinho aquele gol do Gaúcho. Bati palmas não irônicas para Neymar naquela tarde triste no Independência, pra ficar em lembranças ainda frescas.

Mas, no gramado do Mineirão, nunca vi alguém fazer uma troça tão grande do meu time como esse sujeito chamado Verón. La Brujita. Yo no creo, pero que las hay… Las hay. Jesus. O cara tava possuído, um roteiro de cinema pra William Friedkin filmar. Ali aprendi, ao vivo e a cores, com Verón deixando bem claro, a cada suor pingado no nosso sagrado campo, uma questão que nunca será resolvida com nossos co-irmãos de América do Sul: COJONES. Se fizessem uma daquelas pesquisas super úteis do tipo média do pênis de cada povo, mas voltada un poquito mais para ao sul anatômico masculino, certeza que Brasilzão estaria mal na estatística.

O sujeito fez de tudo: distribuiu bordoadas, provocou, soltou carrinhos a rodo, desarmou. Logo no começo do jogo, um carinho com o cotovelo em Ramirez, que tirou o (ótimo) volante (pois é…) de prumo. Peitou e desmontou a marra do Kleber. Tirou cruzamentos de cabeça, de pé, de alma. Deu um belo passe, daqueles para ferir a retina, para sempre, para o cruzamento que originou o primeiro gol dos argentinos. Bateu com perfeição o escanteio que deu a eles o gol da virada. Quase fez o terceiro. Enfim, jogou p-a-r-a-c-a-r-a-l-h-o. Segurou o resto do jogo, segurou (e pisou em) setenta mil estraçalhados corações celestes. Segurou (e levantou) a taça no final.

Fez o Mineirão, depois dos gritos indignados (e indignos, digo) de “Raça! Raça!” calar um silêncio que até hoje não foi interrompido. Haja tetra campeonatos para acabar com essa ressaca.

Minerazzo é isso, meu camarada.

4

Toda essa descrição do jogo só me é possível depois de muita terapia. Na hora do jogo, sinceramente, estava absolutamente anestesiado. Primeiro, pela euforia. Depois, pela dor. Muita dor. Meu divã para resolver essa questão é o You Tube. Volta e meia, entre o desconsolado e o sádico, volto àquelas imagens do dia 15 de julho de 2009 para… Ah, sei lá pra que. Porque, assim como as melhores coisas da vida, as piores coisas da vida são aquelas que a gente não entende. Mas sente.

Voltando ao Mineirão, o que me lembro, depois da tragédia acontecida, foi olhar em volta, tentar ajudar feridos de guerra. Se o time não teve uma atitude heróica e honrosa, tentemos ter nós mesmos: tipo aquela cena do Forest Gump, fui indo, assim como outros, e voltando, recolhendo primeiro os amigos, alguns deles estatelados na arquibancada. Outros, cabeça baixa, imóveis, só as mãos pendendo para baixo. Outros, cuspindo revolta. Outros, hipnotizados, olhando para o gramado.

A autópsia do fracasso. Nunca quis tanto ir embora do Mineirão como aquele dia.

No meio do trajeto, com uns dois soldados pendurados em cada ombro, vejo um menininho, sete, oito anos. Acompanhado do pai, chorava, chorava, chorava, chorava. Bicho, a pior coisa do mundo é ver criança sofrendo. E no caso, o pai também parecia absolutamente sem ação. Já fomos filhos pequenos, então lembramos: no colo do pai ou da mãe, a tendência é amplificarmos a coisa toda, contando com aquele calor familiar e certa ausência de filtros né? Só que o pai estava feridíssimo. Possivelmente querendo o pai ou a mãe dele também.

Como se explica uma dor com as dimensões de um Mineirão para um filho? Tarefa difícil de executar na teoria. Imagina na prática. Depois de ser atropelado pelo Verón. Resolvi ser solidário.

-Oi…

-(choro, choro, choro)

-Acontece… ( A-ham. Obrigado Piaget!Isso ia colar mesmo)

-(choro, choro, choro)

-Futebol é assim mesmo

-(choro… silêncio… alguma atenção)

Pedi licença ao pai e botei o moleque no colo. Endureci o tom da voz, de leve, sem assustar.

-Olha só: a vida é assim mesmo. A fase boa passa, a fase ruim passa também…

-Vão me zoar na escola amanhã.

Ser criança pode ser uma merda, mesmo. Pode ser cruel. Um dos dias mais bacanas da minha vida escolar foi o pós- Kanapkis, aquele Hat Trick do Ronaldinho Fenômeno. Manhã gloriosa em (grande) parte do pátio do Colégio São Bento, 1994, para a Máfia Azul, divisão infanto-juvenil, bairro Minas Brasil. Três anos depois, o troco veio, via satélite, do Japão. Na caminhada matinal para a escola, escutava o foguetório, já imaginando a dureza daquele longo dia.

-É assim mesmo.

E é mesmo. No dia, nos anos seguintes, teria não apenas o futebol. Teria a Matemática. Teria a menina que não dava bola. A escolha do que quer ser quando crescer. Teria os pais, quem sabe, se separando… O futebol- e as tristezas que o acompanham- são um ótimo cursinho para o grande vestibular da vida. Puta filosofia. Mas não ia funcionar para aquele menininho.

-Olha só: você tem colegas que nunca chegaram perto disso que você viu hoje. Uma final de Libertadores. Ih, olha só: os pais dos seus colegas nunca viram algo nem perto disso! Peraí, pensando bem, OS AVÓS dos seus colegas nunca nem sonharam em estar numa situação dessas!

Mistura de tatibitate com jogo sujo, tô sabendo. Mas falei com a certeza que, com uma maior e sutil elaboração, ia servir pra mim também no dia seguinte.

Ganhei alguma coisa próxima de um sorriso do moleque. E um olhar cúmplice do pai. Cinco anos depois, eles, e eu, iríamos tirar uma onda grandona na escola ou no trabalho. A fase ruim passa, a fase boa…

O que não passa é o esse eterno Verón, que sombreia sob nosso Mineirão até hoje.

Cansado, física e emocionalmente, desabei num pedaço de grama, do lado de fora do estádio. Bad trip total, um dantesco velório. De trilha, uma confusão de reclamações e choros. Além dos fogueteiros do pau alheio, fazendo a maior festa que fizeram desde 1971. O meu velho Mineirão, de costas pra mim, prenunciava o túmulo que viraria depois da reforma. Viajei rapidamente pelos cantos mais sombrios da memória futebolística, tentando encontrar consolo imediato. Fui me encontrar com 11 anos de idade, final do campeonato de futebol de salão da escolinha do bairro. Meu time era o azarão, e eu cheião de personalidade, me tornei capitão e artilheiro do time naquela tarde mágica. Seguramos um empate com os favoritos na final e fomos para os pênaltis. Na última cobrança, isolei a bola longe. Desabei no chão e fui consolado por todos os pais e torcedores do recinto. No fundo, a televisão da cantina da quadra anunciava que o Brasil era eliminado da Copa América depois que o Boiadeiro perdeu um pênalti. Micohistória.

Lembrei do menino e me senti culpado, porque, tinha certeza, aquela noite não ia passar nunca.

E aí chorei. Baldes.

Pouco depois um amigo veio chamar, ay, ay, ay, ay, está chegando a hora, a noite vai ser escura meu bem, nós temos que ir embora. Me lembrei de mirar o céu, ritual último, vida que segue, busca por um último restinho de magia.

Voltei a andar e aí sim, me despedi do meu Mineirão.

(Mas dessa vez não tinha estrelas quando olhei pra cima)

 

 

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