Bloodier than blood: Wilco, os clássicos

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Primeiro vamos pular o LIDEZÃO e contextualizar essa bagaça:

1) Isso foi escrito em algum momento de 2011. Me lembrei disso porque tinha enviado pro queridaço/ídolo/irmão Marcelo Costa e fui vasculhar meus emails, encontrando a data. Aliás, correspondência hilária: ainda sem ter a intimidade que tenho com o Mac hoje, tentava convencê-lo de que, apesar do tamanho (aproximadamente 19 páginas de word), valia a pena, etc.  Acabamos desencanando,  e coloquei uma meta desde então…

2)…que seria publicar essa parada quando a banda voltasse ao Brasil. Pois bem, essa semana teremos 3 shows do Wilco por aqui. Promessa é dívida e tals.

3) Seguramente temos desatualizações, erros, etc. Por um motivo simplão: cinco anos se passaram, a gente muda, o mundo gira, etc. E sim, fiquei na maior preguiça de editar o texto. Sim, possivelmente algumas avaliações seriam mudadas. Não, não me importei de publicar assim mesmo.

4) Tem um lado cruel nisso aqui: eu não vou ao(s) show(s). Por despeito (wilco pós-2009 simplesmente parou de me interessar), esnobismo (já vi os caras algumas vezes), respeito à história dessa banda que tanto me fez feliz (a primeira vez, em 2005, deve ter sido aquele famoso SHOW DA MINHA VIDA), falta de grana/tempo (queria muito ver no Circo Voador), etc

5) Tem um lado mágico nisso aqui: esses são (alguns) dos discos da minha vida. Mesmo. Difícil de dar conta da importância que essas canções tem pra mim. Sei exatamente o momento exato onde o Wilco deixou de ser uma bandinha simpática dos anos 90 (minha cópia de “Being There”, comprada numa promoção das lojas Sem Nome do Shopping Del Rey(!) por volta de 2000 empoeirava na coleção) para se tornar candidata a banda da minha vida (que meu irmão sintetizou com a clássica hashtag #amuulico) e de muitos colegas que vão entender essa referência ao meu irmão…

6) Foi no carro do Lú  The Alk, onde eu, Terence, James, Mari e Batista (era isso gente?) estávamos indo justamente cobrir o Tim Festival 2005, no Rio (melhor festival da minha vida. ponto.). Em algum momento da trilha de viagem, pintou “Nothingsevergonnastand…” e aí bateu. O show lacrou tudo e desde então, passei uns bons seis, sete anos escutando Wilco com devoção, paixão e fé. Comprei tudo, livros, DVDs, discos solo, enchi tanto o saco do Adriano Falabella que consegui que ele me desse a camiseta que ele tinha da banda, assisti show na gringa, tocava algumas coisas na guitarra, etc.

7) Hoje acho o Tweedão um gordinho feliz, meio cosplay de cantautor norte-americano, confortavelzão com a estante rock clássico- e quando tenta sair dela, esbarra numa chatice danada, vide os últimos discos…

8) Eu gosto muito de Gordinhos felizes, deixo claro. Mas não nego que prefiro Tweedinho na sofrência, assinando versos como estes aí:

The ashtray says
You were up all night
When you went to bed
With your darkest mind
Your pillow wept
And covered your eyes
And you finally slept
While the sun caught fire
You’ve changed

 

9) Um lindo show para todos!

Wilco loves you baby!

Uma das melhores definições sobre o Wilco foi escrito na imprensa brasileira, salvo engano numa edição da revista Zero. Não é a maior banda do mundo-é simplesmente a melhor. A primeira afirmação é naturalmente verdadeira, já que o grupo nunca rompeu aquela barreira que permite encher estádios, vender astronomicamente ou estampar a capa da Rolling Stone, por exemplo. Mas para convertidos,é uma banda muito especial, a ponto de merecer o título contido na segunda afirmação. Mais do isso, trata-se de uma trajetória interessantíssima, principalmente nos padrões atuais da música pop.

Culpa maior de Jeff Scott Tweedy. nascido no dia 25 de agosto de 67, em Belleville, Illinois. Sua primeira banda, o Uncle Tupelo(onde dividia forças com o talentoso conterrâneo Jay Farrar), formatou algumas das medidas para o chamado country alternativo no início dos anos 90.O Wilco melhorou, transformou, jogou fora a fórmula e criou um trajeto mui particular nos décadas mais recentes da música pop.

Alguns motivos estão elencados abaixo.

“AM” (1995)

A melhor definição de “AM” é a seguinte: enquanto Jay Farrar gastou suas melhores fichas logo na saída, lançando o pequeno clássico do alt.country “Trace”, Jeff Tweedy mostrou que estava apenas começando. É uma ótima justificativa para um trabalho que, melhorou muito com o tempo, mas que na época poderia soar extremamente perdido e prematuro. O disco mostra um compositor apressado em mostrar suas vontades, angustiado depois de anos sob a administração Jay Farrar, no Uncle Tupelo. Tanto que “AM” foi gravado muito rápido, com Tweedy ainda arregimentando sua nova banda. Algumas peças antigas- e fundamentais- foram mantidas: o empresário Tony Margherita (que explicou a preferência por continuar com Tweedy: “Com ele não preciso adivinhar o que (ele) está pensando”, uma referência a personalidade retraída e difícil de Farrar), o fabuloso baterista Max Coomer e o baixista John Stirrat. Aliás, é do baixista uma das faixas mais bonitas do disco, “It´s Just That Simple”, que na época ainda sonhava em se transformar na segunda força de composição da banda. Mas parou por aí-nenhuma outra música registrada pela banda leva apenas sua assinatura.

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A possível explicação são os embates de Tweedy com Farrar no Uncle Tupelo (alguns fãs vêem o hit único “Box Full Of Letters” com uma mensagem velada)- o cara queria, finalmente, ter uma banda só dele. “AM” é o um dos discos mais caretas do Wilco (que só voltaria a soar tão tradicional 15 anos depois, com “Wilco-The Álbum”), um disco típico de country alternativo, focado nas presenças de Brian Hennemann (da boa banda Bottle Rockets) na guitarra-solo e principalmente no especialista Max Johnson tocando dobro, banjo, fiddle e outras especiarias country. Gravado na mítica Memphis, o disco faz referência a uma das maiores bandas da cidade, o Big Star, de Alex Chilton (especialmente em “Box Full Of Letters”, “Blue Eyed- Soul” e “Shouldn´t Be Ashamed”), mas se fosse para soprar apenas uma influência capital no disco, pode cravar: Rolling Stones, fase Exile On Main Street. Comercialmente, o disco não deu em muita coisa: vendas modestas (e pior, perdeu feio a disputa de público e crítica com “Trace”), mas artisticamente, serviu como um diapasão para Tweedy-principalmente sobre o que NÃO fazer.

Curiosidades: O primeiro contato de muitos brasileiros com a banda se deu com o clipe de “Box Full Of Letters”, que teve alguma rodagem na MTV. As garrafas quebradas no final da gravação de “Cassino Queen” foram de autoria de Brian Hennemann, na época vivendo problemas pessoais e bastante chegado num goró. O nome Wilco nasceu de um trava-línguas.

 Melhores momentos: “Cassino Queen”, “Shouldn´t Be Ashemed”, a bonita “Dash 7” a voz emaconhada de Tweedy durante boa parte do disco, o power pop pefeito de “Box Full Of Letters”.

 NOTA: 7,0

 “Being There” (1997)

O Wilco amado por boa parte dos fãs (do tradicionalista ao experimental) até hoje nasceu aqui, de forma torta e redentora. Se com “AM” Jeff Tweedy ainda estava dividido entre manter o cargo de “Funcionário do Mês” do country alternativo, ou chutar o balde geral, a decisão ficou bastante clara com “Being There” -um disco duplo. Um episódio é marcante na construção desta nova personalidade. Em 1996 o grupo foi até Nova Iorque fazer a abertura de um show de ninguém menos que Johnny Cash. Mas a lenda pediu para trocarem de posições, e ficou a cargo do Wilco fechar a noite. Tweedy e cia assistiram ao show de Cash emocionados, ao lado do palco, mas completamente amedrontados com a possibilidade de entrar na seqüência. Pois bem: logo que subiram ao palco, a banda disparou alguns novos trabalhos, para desespero da platéia, ávida por rocks básicos como “Cassino Queen”. Depois de vaias e confrontamentos diretos com a platéia, Tweedy desabafou nos camarins ao final do show: “Eles não queriam os Heartbreakers (de Tom Petty)? Pois bem, tiveram os reais Heartbreakers (de Johnny Thunders)!”. O crachá começou a ser rasgado aí.

A comparação não foi à tona, as vontades do jovem punk de Belleville, Illinois, não vieram à tona de graça. Tweedy escolheu um lado: fazer a música que queria. O resto de sua carreira foi mera repetição dessa escolha, na época traduzida por uma discreta (aos olhos do público) obra-prima chamada “Being There”.

Um personagem amado/odiado na história da banda entra em cena um pouco antes: Jay Bennett. Guitarrista da banda de Chicago Titanic Love Affair (que fazia pop-rock típico do começo dos anos 90 nos EUA), possuía poucas coisas comparáveis com seu talento: talvez uma certa esquizofrenia capilar e a imensa obsessão com música. Ele entra na banda no lugar de Hennemann durante a turnê de “AM” e se mostra um dos maiores escaneadores da música americana que se tem notícia. Multi-instrumentista (mas guitarrista-solo incorrigível) espécie de Professor Pardal, ele proveria ao mesmo tempo pirações em estúdio e alocubrações roqueiras que faziam a alegria dos velhos fãs. Foi a pessoa mais próxima artisticamente de Tweedy durante um bom tempo.

“Being There” é, noves fora, um presente de Tweedy a si mesmo. Registro impressionante de composições para lá de inspiradas, ao mesmo tempo em que joga para o futuro, consegue compilar o melhor da música rock em todos os tempos em uma coleção que remete ao filé do filé. Johnny Cash se faz presente no reverb seco do country “Someday Soon”, ecos de Neil Young são ouvidos em “The Looner”, Alex Chilton teria assinado com prazer “I Got You”, Stones está em “Monday”, Faces em “Dreamer In My Dreams”, a fase doce e final dos Replacements em “Say You Miss Me”, Beatles em “Outtamind”…E uma das melhores baladas de Tweedy está aqui, a dolorida “Red Eyed And Blue”.

Mas o disco tem duas peças-chave, justamente as aberturas de cada lado: “Misunterstood” e “Sunken Treasure”. Estas duas canções contêm tudo que Tweedy pretendia com a banda dali pra frente: beleza, estranheza e redenção. A primeira, seguramente uma das três melhores músicas já gravadas pela banda (não sei quais são as outras duas…) começa biográfica e sentimental, acerta as contas em definitivo com Jay Farrar (“… you´re just a mama´s boy” foi um dos insultos que ele recebeu do ex-parceiro), remete ao passado musical iconoclasta citando “Amphetamine” do Pere Ubu (“Take the guitar player for a ride”) e explode, sintetizando o disco logo na primeira faixa: “I `d like to thank you all, for nothing”. Ao vivo, esse verso é uma das coisas mais bonitas da história do rock-quem estava no Rio de Janeiro naquela noite de 2005 pôde ter certeza disso…

“Sunken Treasure” muda o rumo de composição de Tweedy, trabalhando em imagens meio abstratas, compondo um quadro bonito (“Rows and rows of houses, lights from tv“), meio sem definição clara-muito diferente das historinhas de “Cassino Queen” ou “Monday” – além de dylanescamente, não ter exatamente um ponto final, deixando a banda meio louca dentro do estúdio, remetendo as gravações do clássico “Blonde On Blonde”. E se não começo ele agradecia por nada, agora agradecia por tudo: “Music is my savior, i was mainemd by rock n´roll, tammmed by rock n´roll, got my name by rock n´roll…

Além de mostrar que o lado B do disco seria menos festivo que o lado A, conseguindo equilibrar um disco que beira a perfeição. Só não ganha nota dez porque, bem, é um disco-duplo (capricho de Tweedy que foi respaldado pela ousadia na gravadora. Se bem que eles perderam uma grana em royalties para poder vender o disco a preço de simples…) e uma ou outra canção até poderiam ficar de fora…

Trata-se de um dos melhores discos de rock, que versam sobre o mesmo.

Curiosidades: O nome do disco veio do filme de mesmo nome, de Hal Ashby estrelado por Peter Sellers. O caótico começo de “Misunderstood” tem uma explicação simples: em sua execução eles trocaram de instrumentos, cada um tocando algo que não dominava. No show do Brasil, em 2005, eles mixaram “Poor Places” de Yankee Hotel Foxtrot com a inesperada “Kingpin”, de Being There. Foi fabuloso.

 Melhores momentos: A abertura incrível com “Misunterstood”, a desolação de “Red Eyed and Blue, o romantismo eletrificado de” I Got You “, o pop pegajoso em” What´s The World Got In Store”, os delírios de “Sunken Treasure”, a força de “Kingpin” o honky tonky meio bêbado de “Was I In Your Dreams”.

 Nota: 10

 Summerteeth (1998)

I´ve got summerteeth…some are teeth, some aren´t”. Essa piada imbecil foi o ponto de partida para batizar o disco, que inicialmente iria se chamar “Small Sorrow” (Pequena Tristeza). Se bem que, analisando o disco com a lupa da pessoalidade, um pouco de ironia e despretensão caí muito bem. “Summerteeth” é o disco mais deprê do Wilco, característica esta que pode ficar escondida na produção sofisticada e “cheia” do álbum. Mas boa parte das canções soam terrivelmente tristes e diretas se tocadas apenas com violão.

Pode-se usar três clichês para analisar o disco. Vamos nessa.

1)   Trata-se do disco de amadurecimento do Wilco

 Faz sentido, em vários sentidos. O primeiro pessoal: Jeff Tweedy agora se via como pai, marido e cidadão responsável por uma série de pessoas envolvidas com o Wilco. O nascimento de seu primeiro filho, o casamento com Sue Miller (ex-proprietária de uma das maiores casas de shows underground de Chicago, o Lounge EX)…A famosa crise dos 30 (assumida em “When You Wake Up Feeling Old”), onde o sujeito se vê trocando as cervejas por fraldas, a liberdade pela Dona Censura, os cachês simbólicos de botecos por reuniões com engravatados. Aquela história já confidenciada por alguns amigos músicos: quando se tem vinte e poucos anos, solteiro, corpo pronto pra ser um béquer humano, sem preocupação com porra nenhuma, é o paraíso. Quando você tem um filho que não consegue ver, uma esposa que não consegue ver, e, nos raros momentos em que realmente está com eles (coisa de dois, três dias) não consegue tirar o fuso da estrada de você, a vida pode ser um inferno (“When i forget how to talk i sing” ele canta em “She´s a Jar”). Um dos poucos sopros de esperança e positividade do disco é a beatlenesca “My Darling”, onde Tweedy canta ao filho com uma doçura que derrete qualquer coração-e tem um dos backing vocals mais cativantes do disco. Mas “My Darling” é uma menção ao futuro da sua cria. “Summerteeth” fala de um presente amargo.Na primeira visita do grupo à Paris, Tweedy só saiu do quarto de hotel para ir ao McDonalds. No quarto ao lado, colegas de banda conseguiam escutar rascunhos de coisas como “She´s A Jar”.

2)   É o “Sgt Peppers” pessoal do grupo

Muito em função da “subida” de cargo hierárquico de Jay Bennett. O professor pardal começa a mostrar suas asinhas aqui, envelopando a produção do disco em um software então recente no mercado: o Pro-Tools. É ele que explica a quantidade de barulhinhos, efeitinhos, loops, samplers, enfim a carinha de moderno que “Summerteeth” tem. Não é à toa que Bennett assina praticamente todas as músicas em parceria com Tweedy. Ele recriou as idéias do líder de acordo com as possibilidades oferecidas em estúdio e isso é visível. Tente tocar, por exemplo, “A Shot In The Arm” no violão. São três, quatro acordes, coisa simples.Fica bonito até. Mas que soa radicalmente pobre se comparado à versão “estúdio”. O sintetizador de “I´m Always In Love” teve inspiração em “Just Like Heaven” do Cure. O som de despertador de “Nothinsevergonnastandinmyway” fazia referência à “A Day In The Life” dos Beatles. Os climas etéreos de “Via Chicago” e, especialmente, “In A Future Age” sugerem trabalhos sofisticados em estúdio, coisa de quem escutou/estudou Brian Eno ou “Ok Computer”.

3) Jeff Tweedy é um poeta

“Summerteeth” foi alicerçado basicamente em cima destes dois clichês. O resultado poderia ter sido “desonesto”, “autopiedoso”, um pulo desesperado no trem da modernidade. Não foi. Muito pelo contrário. O que poderia soar oportunista se torna necessário. E os fãs ganharam também um letrista favorito: Tweedy se tornou leitor voraz de autores como Henry Miller e passou a escrever de forma diferente, atingindo outro nível de grandeza nas letras. Se alguém afirmar que “Summerteeth” é o melhor disco da banda, não responda com agressividade, apenas reescute o álbum. Você pode até discordar (como eu), mas vai entender.Como contra-argumentar canções como “A Shot In the Arm” e “How Can You Fight Loneliness?”.

O disco abre com uma tentativa meio perdida de se emplacar um hit, “I Can´t Stand It”. Cativante e tals, mas apenas mediana – e não logrou sucesso, o que exasperou mais uma vez a gravadora que continuava a apostar suas fichas no grupo. A partir da segunda música, o disco ganha um padrão, altíssimo. “She´s A Jar” é a música mais polêmica da banda, por causa de verso final: “She begs not to hit her”. Todos acusaram o golpe, e rumores de que Tweedy vivia um momento “Lei Maria da penha” básico circulavam-prontamente desmentidos pela esposa. Mas era um verso pessoal, a frustração de Tweedy com a vida transportada para a arte.

“A Shot In The Arm” traz alguns dos versos mais bonitos já escritos pelo homem, especialmente os de abertura (“The ashtray says,you were up all night, when you went to bed with your darkest mind/ Your pillow wept and covered your eyes /And you finally slept while the sun caught fire/ You’ve changed), e resume boa parte do disco (“What you once were isnt what you want to be any more”) exumando o espírito no refrão ( até hoje um dos favoritos dos fãs em shows) : “Maybe all I need is a shot in the arm something in my veins bloodier than blood”.

A vibe “bloodier than blood” segue no disco: “We´re Just Friends”, “How To Fight Loneliness” traz a infalível receita: sorria o tempo todo. E “Via Chicago”, um magnífico conto musicado em cima de três acordes, volta a temas pesados (“I dreamt about killing you again last night, and it felt allright to me”) traz uma linda referência à cidade-base da banda (“But the wind blew me back, Via Chicago”) e tem um momento musical maravilhoso, na penúltima estrofe, onde a banda perde totalmente o controle e Tweedy segue, plácido, carregando os versos da canção. É um dos musts em qualquer apresentação do Wilco ao vivo.

“Summerteeth” tem um lado pop latente, mas não refresca para quem procura entrelinhas do disco o tempo inteiro. “Nothingevergonnastandinmywayagain” chega esperançosa ( “Well find a way regardless /To make some sense out of this mess/ Well, It’s a test, but I believe/ A kiss is all we need”), mas a grandiosa “Pieholden Suite” (In the beginning we closed our eyes/ Whenever we kissed we were surprised/ To find so much inside) não dá margem para trégua, com seu arranjo inspirado em Van Dye Park. “ELT”, a despeito de ser uma das coisas mais radiofônicas já cometidas pelo grupo (e lembra o começo de ‘I Can´t Stand Up For Falling Down “na versão de Elvis Costello), traz mais versos pra lá de sombrios (Oh, what have I been missing/ Wishing, wishing that you were dead).

“Summerteeth” só poderia fechar com a sombria “In A Future Age”. Com a voz meio pastosa, como se anestesiado pelo caos, Tweedy prevê os próximos tempos, em imagens pouco gentis: oceanos de automóveis, cães latindo, árvores caídas.

Já diria seu mestre Bob Dylan: “A Hard Rain is a Gonna Fall”. O Wilco ainda estava no meio da refrega.

Curiosidades: “Candyfloss” saiu como faixa escondida ( e não creditada” do disco. Mesmo tendo sido feita antes de muitas outras faixas, na seleção final, Tweedy achou que essa canção ( que caberia em algum dos primeiros discos de Elvis Costello nos anos 80) ficou “power pop” demais, reminiscências de um repertório antigo. Discretamente essa opção marcou uma fissura que iria crescer muito entre ele e Jay Bennett, que não gostou da escolha de deixar uma canção tão melodiosa e “cathy” fora do disco./Ao mesmo tempo em que a banda e especialmente a gravadora buscavam o lugar do Wilco ao sol nas rádios, um dos grandes nomes do pop na época, Rob Thomas, do Matchbox 20, elegia “Summerteeth” como um de seus discos favoritos pra sempre.

 Melhores momentos: as notas de piano que carregam “A Shot In The Arm”, o coro da banda em “My darling”, a entrada sem introdução de “Nothingsvergonnastandinmywayagain”, “Via Chicago”, o pop sem vergonhas de “I´m Always In Love” e “ELT”

 Nota: 10

 Yankee Hotel Foxtrot

 “Yankee Hotel Foxtrot” é o tipo de trabalho que entra naquela lista meio mística e mítica, rara na história do rock. Trata-se de um trabalho que tirou de vez o Wilco da lista de segredos bem guardados em certas rodas, de bandas favoritas em determinados clubes, para o grupo se tornar referência enciclopédica para o resto dos dias. É a realização perfeita do artista, a tal obra-prima: para alguns isso chega bem cedo (pense em Van Morrison e seu “Astral Weeks”), para outros, chega mais pela metade do caminho (pense no U2 e “Achtung Baby”) e para outros, nunca chegará, a tal conjunção de talento, timing, época, transpiração, etc.

Em 2001 essa benção chegou para Jeff Tweedy. E durante os nove anos restantes da cabulosa década que apenas se iniciava, ele conseguiria carregar o título de dono da obra mais expressiva de seu tempo. Motivos não faltam.

“YHF” é uma obra atemporal, mesmo que volta e meia seja atrelada ao acontecimento mais marcante do século até agora: os atentados de 11 de setembro. O disco já estava pronto e quando os aviões mudaram a história, Jeff já estava registrando o trabalho paralelo, “Minus 5 With Wilco”, junto com o amigo Scott MCaughey. Mas foi um choque sem precedentes na vida de qualquer norte-americano, mesmo para alguém que fez muito para tentar fugir da vida típica no Meio-Oeste ianque. Mais um item para sua lista pessoal de revoluções pós-Summerteeth.

Mas se o disco anterior não garantiu o “estouro” do Wilco, pelo menos Tweedy tranqüilizou-se um pouco mais na vida pessoal e conseguiu mudar a rota de expectativas: ao invés de encarar a maratona de estúdios e pressões para o sucesso, conseguiu que a Warner se convencesse de que o melhor para a banda seria formatar seu quartel-general. Em Chicago, nascia o Loft, o estúdio do grupo. E, no Loft, surgiu a grande filosofia pro trás do disco: construir, para depois destruir.“You´ve got to learn how to die, If you wanna be alive”.

Eram dias gastos com a construção de músicas, arranjos, de forma “clássica”, para depois pensar: “Como podemos foder isso tudo?”. Dessa linha de pensamento nasceram coisas que são, francamente, bizarras e absolutamente geniais.

Tente decupar mentalmente a banda em canções como a abertura, “I´m Trying To Break Your Heart”. A impressão que passa é que você pode achar de tudo ali: é uma fanfarra bizarra em cima de três acordes e de uma levada de bateria histórica. A banda se perde, se acha, se enche, se esvazia…A voz de Tweedy sedada no éter, até acordar, nos minutos finais, recortando para a frase “I´m the man who loves you”. Que diabos é isso?É como se aqueles segundos de caos usados em “Via Chicago” se transformasse na ética para um álbum inteiro.

Ética que podia ser ao contrário: o power pop perfeito de “Kamera”, na linhagem de Alex Chilton, tinha guitarras estridentes em sua primeira versão, coisa de fazer roqueiro chorar. Pois bem: eles secaram, amansaram a canção, em violões, coros, soando predominantemente acústica, quase marcial. “Radio Cure” segue ainda mais esquisita: a voz abafada, o violão alto como se precisássemos escutar as batidas dos dedos nas cordas, ruídos vindos do além, a entortada absurda que a melodia recebe e, meu deus, o xilofone entrando com o refrão, meio “Pet Sounds”. Tweedy chora/morre: “Oh, distance has no way, making love understandable. Uma voz na beira do precipício que ressurge, serena e sábia cantando que “It´s a war on war” e você tem aprender a morrer, se quer continuar vivendo. O disco nem chegou na metade ainda e você já se sente meio sufocado por tanta beleza saindo do meio do caos sonoro.

Na seqüência, três das coisas mais lindas já escritas por Tweedy. “Jesus Etc” é fortíssima candidata a maior clássico/hit do Wilco, parece uma continuação estética de “Year Of The Cat”, hit soft rock de Al Stewart, no sentido que querer ser a canção perfeita, clima, ambiência, ta tudo aí. “Ashes Of American Flags” talvez seja a peça central do disco, com sua letra meio beatnik ( “The cash machine is blue and green /For a bundle of twenties and a small service feeI/I could spend three dollars and sixty-three cents:/On Diet Coca-Cola and unlit cigarettes/ Wonder why we listen to poets when nobody gives a fuck/How hot and sorrowful, the machine begs for luck)

E em sua referência morbidamente premonitória aos ataques terroristas, trás ainda uma das linhas mais bonitas já escritas por Tweedy: “All my lies are only wishes”.

“Heavy Metal Drummer”, uma canção sobre inocência e alegria tão perfeita que a melhor descrição dela está aqui:http://www.youtube.com/watch?v=0f4s427bx7c

“I´m The Man Who Loves You” é a rendição ao legado de Neil Young, quase uma homenagem ao Crazy Horse-influência que seria bastante sentida no próximo álbum da banda. É a canção mais quadrada, mais normal do disco. O amor de Tweedy ao pop oitentista chega em “Pot Kettle Black” a melhor música do Cure que Robert Smith não escreveu. Um primor, aliás: repare na dobrada de bateria com os violões corridos, antes do primeiro refrão. Repare no tecladinho fazendo cama para o resto da banda se deitar. Repare na QUANTIDADE ABSURDA de informação que eles colocam em uma das canções mais simples (de se ouvir) do disco, sem que isso soe enfadonho, disperso, etc. A perfeição, a perfeição.

Para fechar, mais duas obras-primas: “Poor Places” é uma canção folk típica que ganha um arranjo crescente, emocionante, épico…Escolha qualquer adjetivo similar a grandioso, que serve. É um ponto revelador do disco: ele é pesado sem distorção, é delicado sem frescura é fortíssimo sem dispensar sutilezas. No final de “Poor Places”, vem à voz: “Yankee Hotel Foxtrot”, em loop fantasmagórico, entre a tempestade sônica, anunciando o fim da viagem, o fim do parto.

Pra fechar, o standard, a canção eterna: “Reservations” é um dos momentos mais desnudos que alguém registrou em disco nas últimas décadas. Em um disco cheio de imagens textuais, alegorias sonoras, poesia torta, “Reservations” soa como a maior revolução: a canção de letra que parece um diálogo eterno, entre qualquer casal, entre qualquer relação. O tímido e introvertido Jeff Tweddy abre o coração para o ouvinte. É o encerramento de um filme inesquecível, de uma viagem pra sempre. Sobem os créditos.

Cacete, como é difícil tentar descrever esse disco.

Mas o saldo interno para um resultado tão brilhante foi sangrento: dois membros foram “saídos” do grupo antes do disco ser lançado. Uma saída polêmica até hoje, a do guitarrista Jay Bennett, que entrou numa inútil guerra de forças (e egos) com Tweedy. E uma mudança bem-vinda, que modificou o som do Wilco: o baterista Glen Kotche. (quando Tweedy canta “I felt in love with the drummer” está carregando um simbolismo fortíssimo aí).

Curiosidades: O disco foi o pivô do desligamento da banda da Warner Records, em uma das histórias mais malucas da música recente. Assista ao documentário “I´m Trying To Break Your Heart”, de Sam Jones. O filme torna esse e qualquer outro texto sobre “Yankee Hotel Foxtrot” dispensável. A clássica capa mostra o complexo de edifícios comerciais e residenciais Marina City, em Chicago-que já tinham aparecido de forma mais sutil no encarte de outro clássico da música pop, “There´s A Riot Goin´ On” de Sly And Family Stone

 Melhores momentos: Tudo

 Nota: 11

A Ghost Is Born (2004)

 https://www.youtube.com/watch?v=psKZgp_ec9s&list=PLLzF2a-_zru_6AzFMEA6nnn-Q9ST2sCLy

Jeff Tweedy em estado de graça, taí uma leitura esquisita, (para um disco tão forte), mas possível para “A Ghost Is Born”. Isso é devaneio de fã, mas boto muita fé que este deve ser o disco favorito de Tweedy. É o disco do desbunde. Se “YHF” tirou Jay Bennett do grupo (para alguns uma injustiça histórica um momento Führer de Tweedy), o álbum trouxe Glen Kotche, um dos melhores bateristas do mundo, o respeito absoluto dos críticos (foi o melhor disco de 2001 para a Village Voice e uns dos melhores para a Rolling Stone), recebeu um lobby forte de artistas considerando Tweedy o grande compositor americano clássico da época. Tipicamente, “A Ghost Is Born” iria receber o Grammy de Melhor Álbum de Rock Alternativo, um reconhecimento tardio do legado criativo de Tweedy.

E, claro, é o disco onde Jeff Tweedy lembra a todo mundo que ele é um guitarrista. Com insights de guitar hero, aliás. Se certa vez amigos e familiares de Tweedy deram para ele de presente uma aula particular com Richard Lloyd, do Television, (e quem viu o próprio Television ao vivo no Rio no mesmo Tim Festival em 2005 se lembra de Tweedy, bonezinho enterrado na cabeça, assistindo ao show com devoção), em “A Ghost Is Born’ ele resolveu mostrar que entendeu a lição. Outra leitura menos boazinha é simples algo do tipo :” Jay Bennett era foda, mas eu também foda. Ah, e, aliás, essa é a MINHA banda.”“.

Mas ele resolveu aceitar uma mãozinha insana de Jim O´ Rourke, o novo melhor amiguinho dele. Eles se conheceram quando Tweedy foi chamado para fazer um show solo em um festival em Chicago, e tinha direito de chamar um acompanhante. Ele surpreendentemente chamou Jim O ´Rourke, com quem nunca tinha se encontrado na vida, mas por quem estava perdidamente apaixonado pelo trabalho, especialmente no disco” Bad Timing “, de 1997. O ´Rourke teve participação ativa em” Yankee Hotel Foxtrot “, sendo elogiado até pelo ciumento e exigente Jay Bennett. Mas é em” A Ghost Is Born” que ele deita e rola, assinando a co-produção do disco

A abertura magistral da vez é “At Least That´s What You Said”, matadora, Crazy Horse em voltagens absurdas, com Tweddy descrevendo os solos finais como a transcrição guitarrística de seus ataques de pânico. Aliás, pouco depois do lançamento do disco, ele encarou uma rehab básica em função de sua dependência de analgésicos-ele possuí dores de cabeça crônicas desde a infância.

Vale destaque ainda maior um outro delírio: a teutônica “Spiders”, encontro de Television com kraut alemão, um must nos shows do grupo, emocionante.

E coisas lindas, mais ”básicas” pérolas do cancioneiro tweedyiano, formando um relicário invejável para qualquer compositor. O dedilhado de “Muzzle Of Bees”, o piano que carrega “Hell Is Chrome” direto para os anos 70; acenos óbvios a Paul McCartney em “Hummingbird”, a suave “Wishfull Thinking” e especialmente em “Handshake Drugs” e “Company On My Back”. Não é à toa que essas duas composições servem de base hoje em dia para alguns dos grandes momentos do guitarrista Neils Cline ao vivo. A primeira, espaçosa, relaxada, pautada em três acordes que se repetem enquanto a banda brinca atrás. Já “Company In My Back” é maravilhosamente esquisita, letra e música e traz um dos versos mais rascantes do disco (“I will always die, so you can remember me”).

“A Ghost Is Born’ é, enfim, o trabalho onde Tweddy parece ter soltado seus demônios criativos de forma mais independente, sem pressões externas ou internas. E acerta, impressionantemente, na mosca. Até quando volta aos anos 80 e lembra um de seus heróis, Paul Westerberg, dos Replacements, a banda soa deliciosamente fútil, solta, desamarrada, em” I´m A Wheel ““.

Melhores momentos: a abertura de fazer Neil Young sorrir satisfeito; o mantra sônico induzido de “Spiders”, o desleixo que ele canta o verso “And if I ever was myself, I wasn’t that night” de “Handshake Drugs…”

 Curiosidades:Todos os membros da banda contribuíram com o sintetizador de “Less Than You Think”. Jay Bennett lançou um disco solo na mesma época de “A Ghost Is Born”. “The Palace Of 4AM” trazia uma boa música, “Curiosity”, com os seguintes versos: “And now I hear that you’re still singing thirds/But I’m still drinking fifths”. Parece endereçada a alguém, não?

 https://www.youtube.com/watch?v=r9xOng5qcF4

 Nota: 9.5

Sky Blue Sky (2009)

É o álbum que marca o início de uma sub-seita entre alguns fãs da banda, cujo lema é: “Nels Cline é meu pastor, e nada me faltará”. Compreensível: trata-se de um animal raro nas seis cordas, um gêniozinho, um dos melhores músicos freelancers de qualquer gênero, que tocou em mais de 150 álbuns desde que se tornou músico, no final dos anos 70. O tipo de sujeito que escaneia, em poucas notas, coisas tão absurdamente desconexas como Coltrane, Minutemen e Dire Straits e com isso, imprime uma marca pessoal muito forte, a ponto de “Sky Blue Sky” poder ser considerado quase um álbum seu.

Exagero? Talvez. O fato é que é muito difícil descolar boa parte das grandes canções do disco do exemplar trabalho de guitarra de Cline. De alguma forma, ela parece captar e orientar com perfeição o clima do disco: gentil, bucólico, introspectivo, triste, caseiro. Os trabalhos de guitarra de “Either Way”, “Sky Blue Sky” e “You Are My Face” carregam esses adjetivos, quase “conversando” com o ouvinte. E, claro, “Impossible Germany” traz um dos melhores e mais característicos solos de guitarra dos últimos vinte anos, daqueles que fazem o público todo cantar junto, nota por nota-glória maior de uma guitarrista, não é?

Só para seguir na ordem do disco, “Side With The Seeds” por exemplo, é um ótimo exemplo dos elementos que compõe “Sky Blue Sky”: é plácida, lenta, mas têm um certo vigor, uma pegada que esbarra na soul music, e solos de guitarra estonteantes de Cline. É uma das melhores músicas da banda, meio escondida no meio do disco e, pode –se dizer, fecha o “lado A” do disco com “Please Be Patient To Me”, tão crua que parece um recado explícito do vocalista para sua mulher.

No que chamo de “lado B”, menos inspirado, repousa maior diversidade. Um pastiche meio besta de Dylan (“What Light”), um ótimo pastiche de Beatles circa 67(“Walken”), a letra divertida e familiar de “Hate It Here”, um suingue torto meio desajeitado em “Shake It Off”…A inspiração delicada do começo do disco volta no final, com “On And On And On”, daquelas canções que driblam uma certa bregice hínica (a letra, o solo…) para ser, simplesmente, linda de morrer.

É uma leitura meio maluca, eu sei, mas é como se, em “Being There”, Tweedy decidiu reler seus heróis mais óbvios, fazendo uma coletânea de sucessos inéditos dos anos 60 e 70. Já em “Sky Blue Sky”, as referências penderam para o lado de colecionador de discos mais obscuros, da mesma época, mas usando como diapasão ousiders como Alexander Skip Spence, Fairport Convention e Bert Jansch. Pautado por uma sonoridade que mistura mais o acústico com o elétrico, o que já o difere de seu anterior, “Sky Blue Sky” é um disco muito bom, no fim da contas. Não trás os momentos absurdos e geniais dos anteriores, mas é um trabalho impressionantemente bom em média.

Melhores Momentos: o final do primeiro solo em“Side With The Seeds”, quando volta o teclado e a voz meio rasgada de Tweedy. O climão desolado da faixa-título. O final triste e épico de “On And On And On”. As guitarras em todo o disco-menção especial e óbvia para o solo de “Impossible Germany”

Curiosidades: A banda licenciou seis músicas do disco para um comercial da Volkswagen. O título vem de uma referência de infância de Tweedy a sua cidade natal e a linda capa é uma fotografia de Manuel Presti, intitulada “Sky Chase”, tirada em Roma.

Nota: 8,5

DISCOGRAFIA PARALELA – ITENS BÁSICOS

 Projetos, participações, bandas paralelas: são muitos itens que perfazem o Complexo Discográfico Wilco de produção. Desde coisas mais sérias, como o Autumn Deffense, do baixista John Stirrat com o guitarrista Pat Sansone (que já tem 5 discos, recomendáveis, repletos de melodias assobiáveis) até o Loose Fur, projeto amalucadíssimo de Tweedy, O´Rourke e Kotche (o primeiro disco, de 2003, abre com a preciosa “Laminated Cat”, mas o segundo, de 2006, é mais interessante), sem dúvidas um caso de amor para Tweedy, seu lado mais descompromissado. Existe até um “obscuro” disco-solo de Tweedy, “Chelsea Walls” de 2002, na verdade a trilha sonora para o filme homônimo, dirigido por Ethan Hawke. Participação especialíssima no Minus 5 , o projeto de Scott MacCaughey (Young Fresh Fellows) e seu patrão no R.E.M, Peter Buck .“Down With Wilco” (2004) é um bom exercício de power pop, escudado por quatro membros Wilco, todos eles colocando em prova sua paixão por artistas como os Beach Boys em um repertório autoral bem interessante (escute a boa “The Days Of Wine And Booze”).

Mas dois projetos em especial merecem maior destaque. O primeiro é o Golden Smog-espécie de superbanda formada no final dos anos 80 por compadres da cena musical de Minneapolis (Soul Asylum, Jayhawks, Replacements) como parque de diversões para tarimbados músicos deitarem e rolarem em material próprio e covers inusitadas.Tweedy, um grande fã de todas essas bandas desde jovem (ele chegou a entrevistar Dan Murphy do Soul Asylum quando ainda era um iniciante de Belleuve, agüentando o então astro passar cantadas na sua namorada), foi chamado para a turma logo depois de terminar a gravação de “AM”. Ótimo momento: Tweedy ainda estava tentando se dar conta de seu talento e capacidade e o convite foi um carinho e tanto para seu ego.

Ele se transformou em Scott Summit (aos moldes do Travelling Wilburys, todos assumiam nomes falsos, combinações entre o nome real do meio e o nome da rua onde moravam) e encontrou um ambiente de camaradagem, bebidas, fuminhos e piadinhas necessários para um inseguro compositor pós-Uncle Tupelo. Sua participação no disco “Down By The Old Mainstream”, de 1995, foi bastante efetiva, assinando duas músicas sozinho e uma parceria com Gary Louris, do Jayhawks, a boa “Radio King”. O segundo disco, “Weird Tales”, é mais bacana ainda, mais sério e com a pérola “Please Tell My Brother”. No terceiro, já em 2006, “Another Fine Day”, a participação de Tweedy foi menor e pouco presencial, mas trás o registro dele cantando “Strangers”, dos Kinks.

Mas os destaques absolutos dos apêndices discográficos sem sombra de dúvidas são os discos “Mermaid Avenue”, volumes um e dois. Dois discos, especialmente o primeiro, magistralmente registrados em parceria com o menestrel inglês Billy Bragg dedicados à obra do legendário compositor folk norte-americano Woody Guthrie.

Historinha rápida: em 1995, a filha de Guthrie, Nora contatou Bragg com centenas de letras inéditas do pai, tesouros guardados com a família em Nova Iorque. A idéia dela era apresentar a obra do pai para a “geração MTV”, tentar tirar um pouco a questão do mito e ir ao ponto que interessa, a criação. E Bragg, para ela, era uma espécie de reencarnação britânica jovem do pai, com sensibilidade política e poética suficiente para honrar o material de Guthrie.

Em 1996, Billy Bragg, fascinado com “Being There”, resolveu convidar a banda para participar do projeto. Desde o início, Tweedy manteve os pés atrás. Para ele, o Wilco em nenhuma condição seria a “banda de apoio” de Bragg, um artista que ele nunca foi lá muito fã. Mas o Wilco tinha um enorme admirador de Bragg nas suas fileiras. Jay Bennett inclusive tinha tirado o nome de sua banda Titanic Love Affair de uma letra do músico inglês.

Com a idéia de Dylan e sua The Band em mente (Tweedy deixou inclusive a barba crescer), eles se juntaram em uma cidade neutra (nem Chicago nem Londres), Dublin, para brincarem a vontade no repertório de Guthrie. Não foi um processo fácil: disputas egocêntricas, berros ao telefone, acusações de fascismo, parte disso documentado no documentário “Man In The Sand”. Mas o resultado é espetacular, especialmente na primeira compilação.

Em muitos momentos beira o sublime: “Califórnia Stars” é uma letra simplória que Tweedy e Bennett transformaram em poesia auditiva; “One By One” é um dos grandes momentos da banda desde sempre, suingando como se fosse a The Band em uma interpretação tão convicta de Tweedy, a ponto de o desavisado guitarrista Bob Egan vir consolar o vocalista após a sessão (“Cara, não sabia que você estava passando por tudo isso…” Ao que Tweddy responde: “Isso foi escrito por Guthrie em 1939!”). Em “Another Man Done”, Tweedy fez o pessoal chorar no estúdio.Não é de estranhar, tamanha a beleza da música e da interpretação.

Outros balanços impressionam: “Hesitating Beauty”, “Walt Whitman´Niece”…As faixas cantadas por Bragg trazem um Wilco afiadíssimo, captando com coerência e carinho as interpretações do inglês e ganhou uma histórica crítica elogiosa de Greil Marcus na Rolling Stone. “Mermaid Avenue” foi a maior vendagem de Billy Bragg nos EUA e quase superou as vendas de “Being There”. Em 2000 sairia o segundo volume, menos inspirado, mas com grandes momentos como “Airline To Heaven” e o blues chapado de “Feed Of Man”. Mas a guerra entre os dois lados impediu a idéia de uma turnê de divulgação. Billy Bragg “roubou” o colaborador Bob Egan e sua guitarra steel e caiu na estrada sozinho com sua banda, colocando uma ou outra música no repertório. Recentemente as arestas parecem ter sido aparadas, e existe a possibilidade de uma espécie de homenagem do Wilco e de Billy Bragg no ano que vem, em homenagem ao centenário de nascimento de Guthrie.

~https://www.youtube.com/watch?v=AcmjRheVZmM&list=PLB0xGdhVdMlZA5tkHwk9igsVXCpldh2GX

Trata-se de um trabalho tão obrigatório quanto qualquer outro assinado somente pelo Wilco.

 Mixtape-Sobras

Para este escriba, o UILCÃO DA MASSA desceu ladeira abaixo depois desse período glorioso. Mas nem tudo é descartável. No meio de um tanto e material nota 6, tem umas coisas notas 8, 9 e até uns 10, dependendo do humor do professor. Pérolas espalhadas em discos medianos, etc…Vamos a um top 5 pessoal delas:

“Kicking Television”- do maravilhoso disco ao vivo, homônimo

“One Wing” – de Wilco-The Album

“Art of Almost”- de The Whole Love

“One Sunday Morning”- de The Whole Love

“Cry All Day”- de Schimilco