Alta rotação: Meus discos de 2014, blá blá blá…

Credito a uma certa ressaca laborial, de mais de década: 2014 foi um dos anos que menos acompanhei “o mundinho da música”. Ouvidos e mãos cansadas, preferi me isolar no silêncio ou em ilhas já vastamente conhecidas e amadas (acho que desde os 15 anos não tinha gastado tanto tempo com a discografia dos Smiths, por exemplo)

Nesse sentido, meus favoritos do ano são favoritos mesmo, aqueles que ficaram no som, no you tube, no rádio do carro, nos pendrives da vida. São escolhas absolutamente descompromissadas daquela preocupação profissional de dar conta de muita coisa.

Esses são discos que realmente amei; que não desgastaram nestes meses, porque, depois de encontrados, voltei basicamente a eles no quesito descobertas/novidades.

(Tanto que ainda não escutei discos que vou acabar escutando como Racionais, Pato Fu, Silva, Neneh Cherry e a lista é longa…)

E meu favoritíssimo do ano chega depois, em um post só pra ele


 

Shellac- “Dude Incredible”

A onda “Sonic Highways” que fez uma marola na timeline de alguns amigos me trouxe de volta o lado músico de Steve Albini. Nem escutei o disco do Foo Fighters; assisti apenas ao episódio que o produtor é destacado. O que me bastou para Googlar/You Tubar nostalgicamente seu lado  de insane guitar hero: Big Black, Rapeman e Shellac, grupos que, basicamente 1) Achava legal 2) Nem tanto 3) Foda-se. Qual não foi a surpresa com esse “Dude Incredible”. Deste ano! Um mix lindaço de referências eternas e evidentíssimas de Mr Albini ( Gang Of Four!) e um lado, hum, cancional que mui me agrada. Delícia, delícia e se alguém vier com aquele papo de math rock, não hesite: mande estudar. A faixa título é aquela do repeat, incansável. E a capa é daquelas que minha estante IMPLORA por uma edição em vinil

Eno-Hyde-”Someday World”

Pescado da timeline de alguém (acho que do Pedro Hamdam do Transmissor), um vídeo de “Daddy´s Car” foi a ótima porta de entrada pra essa belezura. É frito às vezes, é imensamente poético às vezes e é exatamente o que você esperaria do encontro entre o mago-mor Eno e um cara do Underworld, na maior parte do tempo. Música pop à serviço da inteligência; ambiência à serviço da imaginação. Paisagismo sonoro feito por um dos maiores arquitetos da música pós-moderna e um designer antenadíssimo, que se curva com reverência ao mestre, mas não abre mão de seus créditos.

Sharon Van Etten- “Are We There”

Não tem o arrebatamento do anterior: é mais classudo, mais redondo, mais careta, mais…chato. Mas tive de considerar minha obsessão com o anterior, “Tramp”, para não cobrar demais. E “Are We There” foi ficando…A moça tem uma voz que me conforta de um jeito difícil de explicar e “Every Time The Sun Comes Up” foi decididamente uma das melhores companhias do ano, principalmente naqueles fins de noite solitários e meio paranóicos. Um dos melhores versos do ano, aliás: “People say i´m a one hit wonder/ But what happens when i have two?. Os outros nos cobram demais não é garota?

Juçara Marçal-”Encarnado”

“Encarnado” é assim, um pequeno milagre nessa lista. Escutei ele e fiquei impressionadíssimo, logo quando saiu- janeiro?- tanto que corri pra entrevistar a Jussara. Mas sinceramente eu tinha certeza que sua “aridez” calorosa não ganharia a aderência necessária aos meus ouvidos durante o resto do ano.

Errei, claro. Tô chapado com o disco até hoje.

Giancarlo Rufatto-”Cancioneiro”

A sensação que eu tive ao escutar “Enseada”, ousada abertura de “Cancioneiro”, me levou de volta à sua possível inspiração (“Straight To Hell”, The Clash?) e mais adiante à aqueles adoráveis épicos indies do Death Cab For Cutie ( “Marching Bands Of Manhattan”, “Transatlanticism”) e aí liguei os pontos: ali ele estava conectando o que sempre me ligou ao som dele são (as melodias) e seu lado mais, digamos, nerd, fanfarrão dos estúdios caseiríssimos. Maravilha. Mas aí o disco entra numa MARAVILHOSA espiral pop, radiofônico, cancioneira, que me fez deixar de lado a ambiência inicial e ir buscar um café e ir pensar na vida e lembrar que são essas canções que ninguém ouviu que fazem essa nossa existência besta valer mais a pena.

Beck-”Morning Phase”

Basicamente a continuação do “Sea Change”. Precisa de mais?

(“Blue Moon” me causa arrepios depois de quase 12 meses)

Bones- “Garbage”

Nunca tinha nem ouvido falar, e de tanto ver a devoção (SESH aka Leo Pyrata e Renato Rios Neto) de alguns nas redes, fui buscar. Beleza: é música de branco ianque tentando ocupar o vazio monumental dos subúrbios norte-americanos com um IMENSO saudosismo dos anos 90- repare nos lindos clipes, aliás. Sei lá porque, me remeteu, ao mesmo tempo, aquela poesia travestida de barulho dos Deftones e ao poder de jovem cronista de Mike Skinner. Acho que isso pode estar mais espantando que atraindo possíveis ouvintes, rs. Mas foda-se, dá o play aí em cima e vai com o cara.

Transmissor- “De Lá Não Ando Só”

Outro que achei que tinha grandes chances de não chegar no final cut, por vários motivos. Um deles é simples: escuto ele desde o final de 2013, o que achei que poderia gerar uma espécie de desgaste, sei lá. Outro é mais complexo: sou absolutamente alucinado com o “Nacional”, disco anterior e achava muito difícil deixar a viuvez de lado em relação a ele. Mas aí vi que não conseguiria fechar 2014 sem “Retiro”, “O que você quer ouvir”, “Casa Branca”, “Todos Vocês”…

O patamar do Transmissor é outro. Alto, bem alto.

Spoon- “They Want My Soul”

Pensaê num álbum que beira a perfeição, jogando no misturador aquele indie de verniz, que na verdade é pop sem vergonha. Pensou no “Ga Ga Ga Ga” do Spoon? “They Want My Soul”, se bobear, é até melhor. Não tão brilhante, mas com uma concisão que chega a ser EMOCIONANTE. Joga no carro pra ir trabalhar de manhã, na sexta à noite, naquela quartinha tensa pré-jogo à tarde. Funciona, funciona, funciona. Adoro particularmente “Outlier” e sua jogadinha “Let´s Dance”, mas destacar uma só é até sacanagem.

D´Angelo- “Black Messiah”

(Frank Ocean curtiu isso)

Esse é da linhagem de artistas que só abrem a boca quando tem mesmo o que falar e quando falam sai de baixo, tipo Blue Nile. É tão bom quanto os dois anteriores, hoje, verdadeiros clássicos de gerações (o primeiro dos anos 90, o segundo dos anos 00). Não sei se “Black Messiah”, a despeito do nome, tem potencial para segurar essa mesma herança- e o que importa isso? A qualidade segue lá em cima e se o galã não atua mais como farol, e sim navegando no mar da fodãozice completa, é isso aí. Chegou meio do nada, fim de jogo, e colocou a bola lá em cima, categoria Éverton Ribeiro.

Câmera- “Mountain Tops”

Extrair caos da beleza (e não os contrário, reparem) parece ter sido a missão dos meninos nesse disco. Porque “Mountain Tops” é bonito, bonito pra burro; canções de inflexões radioheadianas muito bem resolvidas na voz do Parma sendo embaladas por uma espécie de bagunça sonora, de grandeza, que nos leva à territórios sonhadores de Grizzly Bear e até Fleet Foxes, para ficar em companheiros de geração dos mineiros. A guitarra  floydiana, do Matheus ganha destaque absoluto, carregando as lindas melodias para o sideral- e por lá ficamos, satisfeitíssimos.

É um segundo disco com cara e vocação de segundo disco: diferente, mais ousado, mais pretensioso.

Sun Kil Moon- “Benji”

“Benji” é trabalho de ourives musico-literato. Faz muito, muito mais sentido se ouvido como se escuta um velho contador de histórias moldado em certa afetividade cínica, em delírios reais, em contos que talvez Carver pudesse escrever e Altman filmar.  As reminiscências infanto juvenis de “Dogs” e “I Watched The Film The Song Remains The Same” são as que bateram mais forte por aqui, mas “Benji” está dividido em longos e belos capítulos.

 

The War On Drugs- “Lost In The Dream”

Meu disco gringo favorito do ano. O mais ouvido, o mais “aplicado nos amigos, aquele que a filha comenta no carro: “Tá ouvindo isso de novo?” quando percebe os versos de “Under The Pressure”. É uma espécie de redenção para tanta porcaria que é lançada usando o santo nome de Dylan, aos fãs enrustidos de Rod Stewart, guitarras empapuçadas de flanger e delays e um “tributo” a uma das grandes bandas e discos dos anos 1980: Waterboys e seu “This Is The Sea”.

Big music!

 

Média rotação: Mac de Marco (“Salad Days”), Afghan Whigs (“Do The Beast”) Chet Faker (“Built On Glass”), Damon Albarn (“Everyday Robots”), Biffy Clyro (“Simillarities”), Real State (“Atlas”), Morrissey ( “World Peace Is None Of Your Business”), Jenny Lewis (“The Voyager”), Kate Perry ( uma coletânea que saiu) Bruce Springsteen (“High Hopes”) Jack White ( “Lazzaretto”) Banda do Mar (“Banda do Mar”), Criolo (“Convoque seu Buda”)


Dez músicas

Luan Nobat- “LSD”

Bruno Mars e Mark Ronson- “Uptown Funk”

David Dines- “I´ve Seen Too Much”

Iggy Azalea- “Fancy”

Max Henrique- “Todo Dia”

Skank- “Esquecimento”

Kendrik Lamar- “I”

Beyoncé-”Drunk In Love”

Neil Young- “Needle of Death”

Michael Jackson e Justin Timberlake- “Love Never Felt So Good”

 

 

 

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