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Bloodier than blood: Wilco, os clássicos

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Primeiro vamos pular o LIDEZÃO e contextualizar essa bagaça:

1) Isso foi escrito em algum momento de 2011. Me lembrei disso porque tinha enviado pro queridaço/ídolo/irmão Marcelo Costa e fui vasculhar meus emails, encontrando a data. Aliás, correspondência hilária: ainda sem ter a intimidade que tenho com o Mac hoje, tentava convencê-lo de que, apesar do tamanho (aproximadamente 19 páginas de word), valia a pena, etc.  Acabamos desencanando,  e coloquei uma meta desde então…

2)…que seria publicar essa parada quando a banda voltasse ao Brasil. Pois bem, essa semana teremos 3 shows do Wilco por aqui. Promessa é dívida e tals.

3) Seguramente temos desatualizações, erros, etc. Por um motivo simplão: cinco anos se passaram, a gente muda, o mundo gira, etc. E sim, fiquei na maior preguiça de editar o texto. Sim, possivelmente algumas avaliações seriam mudadas. Não, não me importei de publicar assim mesmo.

4) Tem um lado cruel nisso aqui: eu não vou ao(s) show(s). Por despeito (wilco pós-2009 simplesmente parou de me interessar), esnobismo (já vi os caras algumas vezes), respeito à história dessa banda que tanto me fez feliz (a primeira vez, em 2005, deve ter sido aquele famoso SHOW DA MINHA VIDA), falta de grana/tempo (queria muito ver no Circo Voador), etc

5) Tem um lado mágico nisso aqui: esses são (alguns) dos discos da minha vida. Mesmo. Difícil de dar conta da importância que essas canções tem pra mim. Sei exatamente o momento exato onde o Wilco deixou de ser uma bandinha simpática dos anos 90 (minha cópia de “Being There”, comprada numa promoção das lojas Sem Nome do Shopping Del Rey(!) por volta de 2000 empoeirava na coleção) para se tornar candidata a banda da minha vida (que meu irmão sintetizou com a clássica hashtag #amuulico) e de muitos colegas que vão entender essa referência ao meu irmão…

6) Foi no carro do Lú  The Alk, onde eu, Terence, James, Mari e Batista (era isso gente?) estávamos indo justamente cobrir o Tim Festival 2005, no Rio (melhor festival da minha vida. ponto.). Em algum momento da trilha de viagem, pintou “Nothingsevergonnastand…” e aí bateu. O show lacrou tudo e desde então, passei uns bons seis, sete anos escutando Wilco com devoção, paixão e fé. Comprei tudo, livros, DVDs, discos solo, enchi tanto o saco do Adriano Falabella que consegui que ele me desse a camiseta que ele tinha da banda, assisti show na gringa, tocava algumas coisas na guitarra, etc.

7) Hoje acho o Tweedão um gordinho feliz, meio cosplay de cantautor norte-americano, confortavelzão com a estante rock clássico- e quando tenta sair dela, esbarra numa chatice danada, vide os últimos discos…

8) Eu gosto muito de Gordinhos felizes, deixo claro. Mas não nego que prefiro Tweedinho na sofrência, assinando versos como estes aí:

The ashtray says
You were up all night
When you went to bed
With your darkest mind
Your pillow wept
And covered your eyes
And you finally slept
While the sun caught fire
You’ve changed

 

9) Um lindo show para todos!

Wilco loves you baby!

Uma das melhores definições sobre o Wilco foi escrito na imprensa brasileira, salvo engano numa edição da revista Zero. Não é a maior banda do mundo-é simplesmente a melhor. A primeira afirmação é naturalmente verdadeira, já que o grupo nunca rompeu aquela barreira que permite encher estádios, vender astronomicamente ou estampar a capa da Rolling Stone, por exemplo. Mas para convertidos,é uma banda muito especial, a ponto de merecer o título contido na segunda afirmação. Mais do isso, trata-se de uma trajetória interessantíssima, principalmente nos padrões atuais da música pop.

Culpa maior de Jeff Scott Tweedy. nascido no dia 25 de agosto de 67, em Belleville, Illinois. Sua primeira banda, o Uncle Tupelo(onde dividia forças com o talentoso conterrâneo Jay Farrar), formatou algumas das medidas para o chamado country alternativo no início dos anos 90.O Wilco melhorou, transformou, jogou fora a fórmula e criou um trajeto mui particular nos décadas mais recentes da música pop.

Alguns motivos estão elencados abaixo.

“AM” (1995)

A melhor definição de “AM” é a seguinte: enquanto Jay Farrar gastou suas melhores fichas logo na saída, lançando o pequeno clássico do alt.country “Trace”, Jeff Tweedy mostrou que estava apenas começando. É uma ótima justificativa para um trabalho que, melhorou muito com o tempo, mas que na época poderia soar extremamente perdido e prematuro. O disco mostra um compositor apressado em mostrar suas vontades, angustiado depois de anos sob a administração Jay Farrar, no Uncle Tupelo. Tanto que “AM” foi gravado muito rápido, com Tweedy ainda arregimentando sua nova banda. Algumas peças antigas- e fundamentais- foram mantidas: o empresário Tony Margherita (que explicou a preferência por continuar com Tweedy: “Com ele não preciso adivinhar o que (ele) está pensando”, uma referência a personalidade retraída e difícil de Farrar), o fabuloso baterista Max Coomer e o baixista John Stirrat. Aliás, é do baixista uma das faixas mais bonitas do disco, “It´s Just That Simple”, que na época ainda sonhava em se transformar na segunda força de composição da banda. Mas parou por aí-nenhuma outra música registrada pela banda leva apenas sua assinatura.

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A possível explicação são os embates de Tweedy com Farrar no Uncle Tupelo (alguns fãs vêem o hit único “Box Full Of Letters” com uma mensagem velada)- o cara queria, finalmente, ter uma banda só dele. “AM” é o um dos discos mais caretas do Wilco (que só voltaria a soar tão tradicional 15 anos depois, com “Wilco-The Álbum”), um disco típico de country alternativo, focado nas presenças de Brian Hennemann (da boa banda Bottle Rockets) na guitarra-solo e principalmente no especialista Max Johnson tocando dobro, banjo, fiddle e outras especiarias country. Gravado na mítica Memphis, o disco faz referência a uma das maiores bandas da cidade, o Big Star, de Alex Chilton (especialmente em “Box Full Of Letters”, “Blue Eyed- Soul” e “Shouldn´t Be Ashamed”), mas se fosse para soprar apenas uma influência capital no disco, pode cravar: Rolling Stones, fase Exile On Main Street. Comercialmente, o disco não deu em muita coisa: vendas modestas (e pior, perdeu feio a disputa de público e crítica com “Trace”), mas artisticamente, serviu como um diapasão para Tweedy-principalmente sobre o que NÃO fazer.

Curiosidades: O primeiro contato de muitos brasileiros com a banda se deu com o clipe de “Box Full Of Letters”, que teve alguma rodagem na MTV. As garrafas quebradas no final da gravação de “Cassino Queen” foram de autoria de Brian Hennemann, na época vivendo problemas pessoais e bastante chegado num goró. O nome Wilco nasceu de um trava-línguas.

 Melhores momentos: “Cassino Queen”, “Shouldn´t Be Ashemed”, a bonita “Dash 7” a voz emaconhada de Tweedy durante boa parte do disco, o power pop pefeito de “Box Full Of Letters”.

 NOTA: 7,0

 “Being There” (1997)

O Wilco amado por boa parte dos fãs (do tradicionalista ao experimental) até hoje nasceu aqui, de forma torta e redentora. Se com “AM” Jeff Tweedy ainda estava dividido entre manter o cargo de “Funcionário do Mês” do country alternativo, ou chutar o balde geral, a decisão ficou bastante clara com “Being There” -um disco duplo. Um episódio é marcante na construção desta nova personalidade. Em 1996 o grupo foi até Nova Iorque fazer a abertura de um show de ninguém menos que Johnny Cash. Mas a lenda pediu para trocarem de posições, e ficou a cargo do Wilco fechar a noite. Tweedy e cia assistiram ao show de Cash emocionados, ao lado do palco, mas completamente amedrontados com a possibilidade de entrar na seqüência. Pois bem: logo que subiram ao palco, a banda disparou alguns novos trabalhos, para desespero da platéia, ávida por rocks básicos como “Cassino Queen”. Depois de vaias e confrontamentos diretos com a platéia, Tweedy desabafou nos camarins ao final do show: “Eles não queriam os Heartbreakers (de Tom Petty)? Pois bem, tiveram os reais Heartbreakers (de Johnny Thunders)!”. O crachá começou a ser rasgado aí.

A comparação não foi à tona, as vontades do jovem punk de Belleville, Illinois, não vieram à tona de graça. Tweedy escolheu um lado: fazer a música que queria. O resto de sua carreira foi mera repetição dessa escolha, na época traduzida por uma discreta (aos olhos do público) obra-prima chamada “Being There”.

Um personagem amado/odiado na história da banda entra em cena um pouco antes: Jay Bennett. Guitarrista da banda de Chicago Titanic Love Affair (que fazia pop-rock típico do começo dos anos 90 nos EUA), possuía poucas coisas comparáveis com seu talento: talvez uma certa esquizofrenia capilar e a imensa obsessão com música. Ele entra na banda no lugar de Hennemann durante a turnê de “AM” e se mostra um dos maiores escaneadores da música americana que se tem notícia. Multi-instrumentista (mas guitarrista-solo incorrigível) espécie de Professor Pardal, ele proveria ao mesmo tempo pirações em estúdio e alocubrações roqueiras que faziam a alegria dos velhos fãs. Foi a pessoa mais próxima artisticamente de Tweedy durante um bom tempo.

“Being There” é, noves fora, um presente de Tweedy a si mesmo. Registro impressionante de composições para lá de inspiradas, ao mesmo tempo em que joga para o futuro, consegue compilar o melhor da música rock em todos os tempos em uma coleção que remete ao filé do filé. Johnny Cash se faz presente no reverb seco do country “Someday Soon”, ecos de Neil Young são ouvidos em “The Looner”, Alex Chilton teria assinado com prazer “I Got You”, Stones está em “Monday”, Faces em “Dreamer In My Dreams”, a fase doce e final dos Replacements em “Say You Miss Me”, Beatles em “Outtamind”…E uma das melhores baladas de Tweedy está aqui, a dolorida “Red Eyed And Blue”.

Mas o disco tem duas peças-chave, justamente as aberturas de cada lado: “Misunterstood” e “Sunken Treasure”. Estas duas canções contêm tudo que Tweedy pretendia com a banda dali pra frente: beleza, estranheza e redenção. A primeira, seguramente uma das três melhores músicas já gravadas pela banda (não sei quais são as outras duas…) começa biográfica e sentimental, acerta as contas em definitivo com Jay Farrar (“… you´re just a mama´s boy” foi um dos insultos que ele recebeu do ex-parceiro), remete ao passado musical iconoclasta citando “Amphetamine” do Pere Ubu (“Take the guitar player for a ride”) e explode, sintetizando o disco logo na primeira faixa: “I `d like to thank you all, for nothing”. Ao vivo, esse verso é uma das coisas mais bonitas da história do rock-quem estava no Rio de Janeiro naquela noite de 2005 pôde ter certeza disso…

“Sunken Treasure” muda o rumo de composição de Tweedy, trabalhando em imagens meio abstratas, compondo um quadro bonito (“Rows and rows of houses, lights from tv“), meio sem definição clara-muito diferente das historinhas de “Cassino Queen” ou “Monday” – além de dylanescamente, não ter exatamente um ponto final, deixando a banda meio louca dentro do estúdio, remetendo as gravações do clássico “Blonde On Blonde”. E se não começo ele agradecia por nada, agora agradecia por tudo: “Music is my savior, i was mainemd by rock n´roll, tammmed by rock n´roll, got my name by rock n´roll…

Além de mostrar que o lado B do disco seria menos festivo que o lado A, conseguindo equilibrar um disco que beira a perfeição. Só não ganha nota dez porque, bem, é um disco-duplo (capricho de Tweedy que foi respaldado pela ousadia na gravadora. Se bem que eles perderam uma grana em royalties para poder vender o disco a preço de simples…) e uma ou outra canção até poderiam ficar de fora…

Trata-se de um dos melhores discos de rock, que versam sobre o mesmo.

Curiosidades: O nome do disco veio do filme de mesmo nome, de Hal Ashby estrelado por Peter Sellers. O caótico começo de “Misunderstood” tem uma explicação simples: em sua execução eles trocaram de instrumentos, cada um tocando algo que não dominava. No show do Brasil, em 2005, eles mixaram “Poor Places” de Yankee Hotel Foxtrot com a inesperada “Kingpin”, de Being There. Foi fabuloso.

 Melhores momentos: A abertura incrível com “Misunterstood”, a desolação de “Red Eyed and Blue, o romantismo eletrificado de” I Got You “, o pop pegajoso em” What´s The World Got In Store”, os delírios de “Sunken Treasure”, a força de “Kingpin” o honky tonky meio bêbado de “Was I In Your Dreams”.

 Nota: 10

 Summerteeth (1998)

I´ve got summerteeth…some are teeth, some aren´t”. Essa piada imbecil foi o ponto de partida para batizar o disco, que inicialmente iria se chamar “Small Sorrow” (Pequena Tristeza). Se bem que, analisando o disco com a lupa da pessoalidade, um pouco de ironia e despretensão caí muito bem. “Summerteeth” é o disco mais deprê do Wilco, característica esta que pode ficar escondida na produção sofisticada e “cheia” do álbum. Mas boa parte das canções soam terrivelmente tristes e diretas se tocadas apenas com violão.

Pode-se usar três clichês para analisar o disco. Vamos nessa.

1)   Trata-se do disco de amadurecimento do Wilco

 Faz sentido, em vários sentidos. O primeiro pessoal: Jeff Tweedy agora se via como pai, marido e cidadão responsável por uma série de pessoas envolvidas com o Wilco. O nascimento de seu primeiro filho, o casamento com Sue Miller (ex-proprietária de uma das maiores casas de shows underground de Chicago, o Lounge EX)…A famosa crise dos 30 (assumida em “When You Wake Up Feeling Old”), onde o sujeito se vê trocando as cervejas por fraldas, a liberdade pela Dona Censura, os cachês simbólicos de botecos por reuniões com engravatados. Aquela história já confidenciada por alguns amigos músicos: quando se tem vinte e poucos anos, solteiro, corpo pronto pra ser um béquer humano, sem preocupação com porra nenhuma, é o paraíso. Quando você tem um filho que não consegue ver, uma esposa que não consegue ver, e, nos raros momentos em que realmente está com eles (coisa de dois, três dias) não consegue tirar o fuso da estrada de você, a vida pode ser um inferno (“When i forget how to talk i sing” ele canta em “She´s a Jar”). Um dos poucos sopros de esperança e positividade do disco é a beatlenesca “My Darling”, onde Tweedy canta ao filho com uma doçura que derrete qualquer coração-e tem um dos backing vocals mais cativantes do disco. Mas “My Darling” é uma menção ao futuro da sua cria. “Summerteeth” fala de um presente amargo.Na primeira visita do grupo à Paris, Tweedy só saiu do quarto de hotel para ir ao McDonalds. No quarto ao lado, colegas de banda conseguiam escutar rascunhos de coisas como “She´s A Jar”.

2)   É o “Sgt Peppers” pessoal do grupo

Muito em função da “subida” de cargo hierárquico de Jay Bennett. O professor pardal começa a mostrar suas asinhas aqui, envelopando a produção do disco em um software então recente no mercado: o Pro-Tools. É ele que explica a quantidade de barulhinhos, efeitinhos, loops, samplers, enfim a carinha de moderno que “Summerteeth” tem. Não é à toa que Bennett assina praticamente todas as músicas em parceria com Tweedy. Ele recriou as idéias do líder de acordo com as possibilidades oferecidas em estúdio e isso é visível. Tente tocar, por exemplo, “A Shot In The Arm” no violão. São três, quatro acordes, coisa simples.Fica bonito até. Mas que soa radicalmente pobre se comparado à versão “estúdio”. O sintetizador de “I´m Always In Love” teve inspiração em “Just Like Heaven” do Cure. O som de despertador de “Nothinsevergonnastandinmyway” fazia referência à “A Day In The Life” dos Beatles. Os climas etéreos de “Via Chicago” e, especialmente, “In A Future Age” sugerem trabalhos sofisticados em estúdio, coisa de quem escutou/estudou Brian Eno ou “Ok Computer”.

3) Jeff Tweedy é um poeta

“Summerteeth” foi alicerçado basicamente em cima destes dois clichês. O resultado poderia ter sido “desonesto”, “autopiedoso”, um pulo desesperado no trem da modernidade. Não foi. Muito pelo contrário. O que poderia soar oportunista se torna necessário. E os fãs ganharam também um letrista favorito: Tweedy se tornou leitor voraz de autores como Henry Miller e passou a escrever de forma diferente, atingindo outro nível de grandeza nas letras. Se alguém afirmar que “Summerteeth” é o melhor disco da banda, não responda com agressividade, apenas reescute o álbum. Você pode até discordar (como eu), mas vai entender.Como contra-argumentar canções como “A Shot In the Arm” e “How Can You Fight Loneliness?”.

O disco abre com uma tentativa meio perdida de se emplacar um hit, “I Can´t Stand It”. Cativante e tals, mas apenas mediana – e não logrou sucesso, o que exasperou mais uma vez a gravadora que continuava a apostar suas fichas no grupo. A partir da segunda música, o disco ganha um padrão, altíssimo. “She´s A Jar” é a música mais polêmica da banda, por causa de verso final: “She begs not to hit her”. Todos acusaram o golpe, e rumores de que Tweedy vivia um momento “Lei Maria da penha” básico circulavam-prontamente desmentidos pela esposa. Mas era um verso pessoal, a frustração de Tweedy com a vida transportada para a arte.

“A Shot In The Arm” traz alguns dos versos mais bonitos já escritos pelo homem, especialmente os de abertura (“The ashtray says,you were up all night, when you went to bed with your darkest mind/ Your pillow wept and covered your eyes /And you finally slept while the sun caught fire/ You’ve changed), e resume boa parte do disco (“What you once were isnt what you want to be any more”) exumando o espírito no refrão ( até hoje um dos favoritos dos fãs em shows) : “Maybe all I need is a shot in the arm something in my veins bloodier than blood”.

A vibe “bloodier than blood” segue no disco: “We´re Just Friends”, “How To Fight Loneliness” traz a infalível receita: sorria o tempo todo. E “Via Chicago”, um magnífico conto musicado em cima de três acordes, volta a temas pesados (“I dreamt about killing you again last night, and it felt allright to me”) traz uma linda referência à cidade-base da banda (“But the wind blew me back, Via Chicago”) e tem um momento musical maravilhoso, na penúltima estrofe, onde a banda perde totalmente o controle e Tweedy segue, plácido, carregando os versos da canção. É um dos musts em qualquer apresentação do Wilco ao vivo.

“Summerteeth” tem um lado pop latente, mas não refresca para quem procura entrelinhas do disco o tempo inteiro. “Nothingevergonnastandinmywayagain” chega esperançosa ( “Well find a way regardless /To make some sense out of this mess/ Well, It’s a test, but I believe/ A kiss is all we need”), mas a grandiosa “Pieholden Suite” (In the beginning we closed our eyes/ Whenever we kissed we were surprised/ To find so much inside) não dá margem para trégua, com seu arranjo inspirado em Van Dye Park. “ELT”, a despeito de ser uma das coisas mais radiofônicas já cometidas pelo grupo (e lembra o começo de ‘I Can´t Stand Up For Falling Down “na versão de Elvis Costello), traz mais versos pra lá de sombrios (Oh, what have I been missing/ Wishing, wishing that you were dead).

“Summerteeth” só poderia fechar com a sombria “In A Future Age”. Com a voz meio pastosa, como se anestesiado pelo caos, Tweedy prevê os próximos tempos, em imagens pouco gentis: oceanos de automóveis, cães latindo, árvores caídas.

Já diria seu mestre Bob Dylan: “A Hard Rain is a Gonna Fall”. O Wilco ainda estava no meio da refrega.

Curiosidades: “Candyfloss” saiu como faixa escondida ( e não creditada” do disco. Mesmo tendo sido feita antes de muitas outras faixas, na seleção final, Tweedy achou que essa canção ( que caberia em algum dos primeiros discos de Elvis Costello nos anos 80) ficou “power pop” demais, reminiscências de um repertório antigo. Discretamente essa opção marcou uma fissura que iria crescer muito entre ele e Jay Bennett, que não gostou da escolha de deixar uma canção tão melodiosa e “cathy” fora do disco./Ao mesmo tempo em que a banda e especialmente a gravadora buscavam o lugar do Wilco ao sol nas rádios, um dos grandes nomes do pop na época, Rob Thomas, do Matchbox 20, elegia “Summerteeth” como um de seus discos favoritos pra sempre.

 Melhores momentos: as notas de piano que carregam “A Shot In The Arm”, o coro da banda em “My darling”, a entrada sem introdução de “Nothingsvergonnastandinmywayagain”, “Via Chicago”, o pop sem vergonhas de “I´m Always In Love” e “ELT”

 Nota: 10

 Yankee Hotel Foxtrot

 “Yankee Hotel Foxtrot” é o tipo de trabalho que entra naquela lista meio mística e mítica, rara na história do rock. Trata-se de um trabalho que tirou de vez o Wilco da lista de segredos bem guardados em certas rodas, de bandas favoritas em determinados clubes, para o grupo se tornar referência enciclopédica para o resto dos dias. É a realização perfeita do artista, a tal obra-prima: para alguns isso chega bem cedo (pense em Van Morrison e seu “Astral Weeks”), para outros, chega mais pela metade do caminho (pense no U2 e “Achtung Baby”) e para outros, nunca chegará, a tal conjunção de talento, timing, época, transpiração, etc.

Em 2001 essa benção chegou para Jeff Tweedy. E durante os nove anos restantes da cabulosa década que apenas se iniciava, ele conseguiria carregar o título de dono da obra mais expressiva de seu tempo. Motivos não faltam.

“YHF” é uma obra atemporal, mesmo que volta e meia seja atrelada ao acontecimento mais marcante do século até agora: os atentados de 11 de setembro. O disco já estava pronto e quando os aviões mudaram a história, Jeff já estava registrando o trabalho paralelo, “Minus 5 With Wilco”, junto com o amigo Scott MCaughey. Mas foi um choque sem precedentes na vida de qualquer norte-americano, mesmo para alguém que fez muito para tentar fugir da vida típica no Meio-Oeste ianque. Mais um item para sua lista pessoal de revoluções pós-Summerteeth.

Mas se o disco anterior não garantiu o “estouro” do Wilco, pelo menos Tweedy tranqüilizou-se um pouco mais na vida pessoal e conseguiu mudar a rota de expectativas: ao invés de encarar a maratona de estúdios e pressões para o sucesso, conseguiu que a Warner se convencesse de que o melhor para a banda seria formatar seu quartel-general. Em Chicago, nascia o Loft, o estúdio do grupo. E, no Loft, surgiu a grande filosofia pro trás do disco: construir, para depois destruir.“You´ve got to learn how to die, If you wanna be alive”.

Eram dias gastos com a construção de músicas, arranjos, de forma “clássica”, para depois pensar: “Como podemos foder isso tudo?”. Dessa linha de pensamento nasceram coisas que são, francamente, bizarras e absolutamente geniais.

Tente decupar mentalmente a banda em canções como a abertura, “I´m Trying To Break Your Heart”. A impressão que passa é que você pode achar de tudo ali: é uma fanfarra bizarra em cima de três acordes e de uma levada de bateria histórica. A banda se perde, se acha, se enche, se esvazia…A voz de Tweedy sedada no éter, até acordar, nos minutos finais, recortando para a frase “I´m the man who loves you”. Que diabos é isso?É como se aqueles segundos de caos usados em “Via Chicago” se transformasse na ética para um álbum inteiro.

Ética que podia ser ao contrário: o power pop perfeito de “Kamera”, na linhagem de Alex Chilton, tinha guitarras estridentes em sua primeira versão, coisa de fazer roqueiro chorar. Pois bem: eles secaram, amansaram a canção, em violões, coros, soando predominantemente acústica, quase marcial. “Radio Cure” segue ainda mais esquisita: a voz abafada, o violão alto como se precisássemos escutar as batidas dos dedos nas cordas, ruídos vindos do além, a entortada absurda que a melodia recebe e, meu deus, o xilofone entrando com o refrão, meio “Pet Sounds”. Tweedy chora/morre: “Oh, distance has no way, making love understandable. Uma voz na beira do precipício que ressurge, serena e sábia cantando que “It´s a war on war” e você tem aprender a morrer, se quer continuar vivendo. O disco nem chegou na metade ainda e você já se sente meio sufocado por tanta beleza saindo do meio do caos sonoro.

Na seqüência, três das coisas mais lindas já escritas por Tweedy. “Jesus Etc” é fortíssima candidata a maior clássico/hit do Wilco, parece uma continuação estética de “Year Of The Cat”, hit soft rock de Al Stewart, no sentido que querer ser a canção perfeita, clima, ambiência, ta tudo aí. “Ashes Of American Flags” talvez seja a peça central do disco, com sua letra meio beatnik ( “The cash machine is blue and green /For a bundle of twenties and a small service feeI/I could spend three dollars and sixty-three cents:/On Diet Coca-Cola and unlit cigarettes/ Wonder why we listen to poets when nobody gives a fuck/How hot and sorrowful, the machine begs for luck)

E em sua referência morbidamente premonitória aos ataques terroristas, trás ainda uma das linhas mais bonitas já escritas por Tweedy: “All my lies are only wishes”.

“Heavy Metal Drummer”, uma canção sobre inocência e alegria tão perfeita que a melhor descrição dela está aqui:http://www.youtube.com/watch?v=0f4s427bx7c

“I´m The Man Who Loves You” é a rendição ao legado de Neil Young, quase uma homenagem ao Crazy Horse-influência que seria bastante sentida no próximo álbum da banda. É a canção mais quadrada, mais normal do disco. O amor de Tweedy ao pop oitentista chega em “Pot Kettle Black” a melhor música do Cure que Robert Smith não escreveu. Um primor, aliás: repare na dobrada de bateria com os violões corridos, antes do primeiro refrão. Repare no tecladinho fazendo cama para o resto da banda se deitar. Repare na QUANTIDADE ABSURDA de informação que eles colocam em uma das canções mais simples (de se ouvir) do disco, sem que isso soe enfadonho, disperso, etc. A perfeição, a perfeição.

Para fechar, mais duas obras-primas: “Poor Places” é uma canção folk típica que ganha um arranjo crescente, emocionante, épico…Escolha qualquer adjetivo similar a grandioso, que serve. É um ponto revelador do disco: ele é pesado sem distorção, é delicado sem frescura é fortíssimo sem dispensar sutilezas. No final de “Poor Places”, vem à voz: “Yankee Hotel Foxtrot”, em loop fantasmagórico, entre a tempestade sônica, anunciando o fim da viagem, o fim do parto.

Pra fechar, o standard, a canção eterna: “Reservations” é um dos momentos mais desnudos que alguém registrou em disco nas últimas décadas. Em um disco cheio de imagens textuais, alegorias sonoras, poesia torta, “Reservations” soa como a maior revolução: a canção de letra que parece um diálogo eterno, entre qualquer casal, entre qualquer relação. O tímido e introvertido Jeff Tweddy abre o coração para o ouvinte. É o encerramento de um filme inesquecível, de uma viagem pra sempre. Sobem os créditos.

Cacete, como é difícil tentar descrever esse disco.

Mas o saldo interno para um resultado tão brilhante foi sangrento: dois membros foram “saídos” do grupo antes do disco ser lançado. Uma saída polêmica até hoje, a do guitarrista Jay Bennett, que entrou numa inútil guerra de forças (e egos) com Tweedy. E uma mudança bem-vinda, que modificou o som do Wilco: o baterista Glen Kotche. (quando Tweedy canta “I felt in love with the drummer” está carregando um simbolismo fortíssimo aí).

Curiosidades: O disco foi o pivô do desligamento da banda da Warner Records, em uma das histórias mais malucas da música recente. Assista ao documentário “I´m Trying To Break Your Heart”, de Sam Jones. O filme torna esse e qualquer outro texto sobre “Yankee Hotel Foxtrot” dispensável. A clássica capa mostra o complexo de edifícios comerciais e residenciais Marina City, em Chicago-que já tinham aparecido de forma mais sutil no encarte de outro clássico da música pop, “There´s A Riot Goin´ On” de Sly And Family Stone

 Melhores momentos: Tudo

 Nota: 11

A Ghost Is Born (2004)

 https://www.youtube.com/watch?v=psKZgp_ec9s&list=PLLzF2a-_zru_6AzFMEA6nnn-Q9ST2sCLy

Jeff Tweedy em estado de graça, taí uma leitura esquisita, (para um disco tão forte), mas possível para “A Ghost Is Born”. Isso é devaneio de fã, mas boto muita fé que este deve ser o disco favorito de Tweedy. É o disco do desbunde. Se “YHF” tirou Jay Bennett do grupo (para alguns uma injustiça histórica um momento Führer de Tweedy), o álbum trouxe Glen Kotche, um dos melhores bateristas do mundo, o respeito absoluto dos críticos (foi o melhor disco de 2001 para a Village Voice e uns dos melhores para a Rolling Stone), recebeu um lobby forte de artistas considerando Tweedy o grande compositor americano clássico da época. Tipicamente, “A Ghost Is Born” iria receber o Grammy de Melhor Álbum de Rock Alternativo, um reconhecimento tardio do legado criativo de Tweedy.

E, claro, é o disco onde Jeff Tweedy lembra a todo mundo que ele é um guitarrista. Com insights de guitar hero, aliás. Se certa vez amigos e familiares de Tweedy deram para ele de presente uma aula particular com Richard Lloyd, do Television, (e quem viu o próprio Television ao vivo no Rio no mesmo Tim Festival em 2005 se lembra de Tweedy, bonezinho enterrado na cabeça, assistindo ao show com devoção), em “A Ghost Is Born’ ele resolveu mostrar que entendeu a lição. Outra leitura menos boazinha é simples algo do tipo :” Jay Bennett era foda, mas eu também foda. Ah, e, aliás, essa é a MINHA banda.”“.

Mas ele resolveu aceitar uma mãozinha insana de Jim O´ Rourke, o novo melhor amiguinho dele. Eles se conheceram quando Tweedy foi chamado para fazer um show solo em um festival em Chicago, e tinha direito de chamar um acompanhante. Ele surpreendentemente chamou Jim O ´Rourke, com quem nunca tinha se encontrado na vida, mas por quem estava perdidamente apaixonado pelo trabalho, especialmente no disco” Bad Timing “, de 1997. O ´Rourke teve participação ativa em” Yankee Hotel Foxtrot “, sendo elogiado até pelo ciumento e exigente Jay Bennett. Mas é em” A Ghost Is Born” que ele deita e rola, assinando a co-produção do disco

A abertura magistral da vez é “At Least That´s What You Said”, matadora, Crazy Horse em voltagens absurdas, com Tweddy descrevendo os solos finais como a transcrição guitarrística de seus ataques de pânico. Aliás, pouco depois do lançamento do disco, ele encarou uma rehab básica em função de sua dependência de analgésicos-ele possuí dores de cabeça crônicas desde a infância.

Vale destaque ainda maior um outro delírio: a teutônica “Spiders”, encontro de Television com kraut alemão, um must nos shows do grupo, emocionante.

E coisas lindas, mais ”básicas” pérolas do cancioneiro tweedyiano, formando um relicário invejável para qualquer compositor. O dedilhado de “Muzzle Of Bees”, o piano que carrega “Hell Is Chrome” direto para os anos 70; acenos óbvios a Paul McCartney em “Hummingbird”, a suave “Wishfull Thinking” e especialmente em “Handshake Drugs” e “Company On My Back”. Não é à toa que essas duas composições servem de base hoje em dia para alguns dos grandes momentos do guitarrista Neils Cline ao vivo. A primeira, espaçosa, relaxada, pautada em três acordes que se repetem enquanto a banda brinca atrás. Já “Company In My Back” é maravilhosamente esquisita, letra e música e traz um dos versos mais rascantes do disco (“I will always die, so you can remember me”).

“A Ghost Is Born’ é, enfim, o trabalho onde Tweddy parece ter soltado seus demônios criativos de forma mais independente, sem pressões externas ou internas. E acerta, impressionantemente, na mosca. Até quando volta aos anos 80 e lembra um de seus heróis, Paul Westerberg, dos Replacements, a banda soa deliciosamente fútil, solta, desamarrada, em” I´m A Wheel ““.

Melhores momentos: a abertura de fazer Neil Young sorrir satisfeito; o mantra sônico induzido de “Spiders”, o desleixo que ele canta o verso “And if I ever was myself, I wasn’t that night” de “Handshake Drugs…”

 Curiosidades:Todos os membros da banda contribuíram com o sintetizador de “Less Than You Think”. Jay Bennett lançou um disco solo na mesma época de “A Ghost Is Born”. “The Palace Of 4AM” trazia uma boa música, “Curiosity”, com os seguintes versos: “And now I hear that you’re still singing thirds/But I’m still drinking fifths”. Parece endereçada a alguém, não?

 https://www.youtube.com/watch?v=r9xOng5qcF4

 Nota: 9.5

Sky Blue Sky (2009)

É o álbum que marca o início de uma sub-seita entre alguns fãs da banda, cujo lema é: “Nels Cline é meu pastor, e nada me faltará”. Compreensível: trata-se de um animal raro nas seis cordas, um gêniozinho, um dos melhores músicos freelancers de qualquer gênero, que tocou em mais de 150 álbuns desde que se tornou músico, no final dos anos 70. O tipo de sujeito que escaneia, em poucas notas, coisas tão absurdamente desconexas como Coltrane, Minutemen e Dire Straits e com isso, imprime uma marca pessoal muito forte, a ponto de “Sky Blue Sky” poder ser considerado quase um álbum seu.

Exagero? Talvez. O fato é que é muito difícil descolar boa parte das grandes canções do disco do exemplar trabalho de guitarra de Cline. De alguma forma, ela parece captar e orientar com perfeição o clima do disco: gentil, bucólico, introspectivo, triste, caseiro. Os trabalhos de guitarra de “Either Way”, “Sky Blue Sky” e “You Are My Face” carregam esses adjetivos, quase “conversando” com o ouvinte. E, claro, “Impossible Germany” traz um dos melhores e mais característicos solos de guitarra dos últimos vinte anos, daqueles que fazem o público todo cantar junto, nota por nota-glória maior de uma guitarrista, não é?

Só para seguir na ordem do disco, “Side With The Seeds” por exemplo, é um ótimo exemplo dos elementos que compõe “Sky Blue Sky”: é plácida, lenta, mas têm um certo vigor, uma pegada que esbarra na soul music, e solos de guitarra estonteantes de Cline. É uma das melhores músicas da banda, meio escondida no meio do disco e, pode –se dizer, fecha o “lado A” do disco com “Please Be Patient To Me”, tão crua que parece um recado explícito do vocalista para sua mulher.

No que chamo de “lado B”, menos inspirado, repousa maior diversidade. Um pastiche meio besta de Dylan (“What Light”), um ótimo pastiche de Beatles circa 67(“Walken”), a letra divertida e familiar de “Hate It Here”, um suingue torto meio desajeitado em “Shake It Off”…A inspiração delicada do começo do disco volta no final, com “On And On And On”, daquelas canções que driblam uma certa bregice hínica (a letra, o solo…) para ser, simplesmente, linda de morrer.

É uma leitura meio maluca, eu sei, mas é como se, em “Being There”, Tweedy decidiu reler seus heróis mais óbvios, fazendo uma coletânea de sucessos inéditos dos anos 60 e 70. Já em “Sky Blue Sky”, as referências penderam para o lado de colecionador de discos mais obscuros, da mesma época, mas usando como diapasão ousiders como Alexander Skip Spence, Fairport Convention e Bert Jansch. Pautado por uma sonoridade que mistura mais o acústico com o elétrico, o que já o difere de seu anterior, “Sky Blue Sky” é um disco muito bom, no fim da contas. Não trás os momentos absurdos e geniais dos anteriores, mas é um trabalho impressionantemente bom em média.

Melhores Momentos: o final do primeiro solo em“Side With The Seeds”, quando volta o teclado e a voz meio rasgada de Tweedy. O climão desolado da faixa-título. O final triste e épico de “On And On And On”. As guitarras em todo o disco-menção especial e óbvia para o solo de “Impossible Germany”

Curiosidades: A banda licenciou seis músicas do disco para um comercial da Volkswagen. O título vem de uma referência de infância de Tweedy a sua cidade natal e a linda capa é uma fotografia de Manuel Presti, intitulada “Sky Chase”, tirada em Roma.

Nota: 8,5

DISCOGRAFIA PARALELA – ITENS BÁSICOS

 Projetos, participações, bandas paralelas: são muitos itens que perfazem o Complexo Discográfico Wilco de produção. Desde coisas mais sérias, como o Autumn Deffense, do baixista John Stirrat com o guitarrista Pat Sansone (que já tem 5 discos, recomendáveis, repletos de melodias assobiáveis) até o Loose Fur, projeto amalucadíssimo de Tweedy, O´Rourke e Kotche (o primeiro disco, de 2003, abre com a preciosa “Laminated Cat”, mas o segundo, de 2006, é mais interessante), sem dúvidas um caso de amor para Tweedy, seu lado mais descompromissado. Existe até um “obscuro” disco-solo de Tweedy, “Chelsea Walls” de 2002, na verdade a trilha sonora para o filme homônimo, dirigido por Ethan Hawke. Participação especialíssima no Minus 5 , o projeto de Scott MacCaughey (Young Fresh Fellows) e seu patrão no R.E.M, Peter Buck .“Down With Wilco” (2004) é um bom exercício de power pop, escudado por quatro membros Wilco, todos eles colocando em prova sua paixão por artistas como os Beach Boys em um repertório autoral bem interessante (escute a boa “The Days Of Wine And Booze”).

Mas dois projetos em especial merecem maior destaque. O primeiro é o Golden Smog-espécie de superbanda formada no final dos anos 80 por compadres da cena musical de Minneapolis (Soul Asylum, Jayhawks, Replacements) como parque de diversões para tarimbados músicos deitarem e rolarem em material próprio e covers inusitadas.Tweedy, um grande fã de todas essas bandas desde jovem (ele chegou a entrevistar Dan Murphy do Soul Asylum quando ainda era um iniciante de Belleuve, agüentando o então astro passar cantadas na sua namorada), foi chamado para a turma logo depois de terminar a gravação de “AM”. Ótimo momento: Tweedy ainda estava tentando se dar conta de seu talento e capacidade e o convite foi um carinho e tanto para seu ego.

Ele se transformou em Scott Summit (aos moldes do Travelling Wilburys, todos assumiam nomes falsos, combinações entre o nome real do meio e o nome da rua onde moravam) e encontrou um ambiente de camaradagem, bebidas, fuminhos e piadinhas necessários para um inseguro compositor pós-Uncle Tupelo. Sua participação no disco “Down By The Old Mainstream”, de 1995, foi bastante efetiva, assinando duas músicas sozinho e uma parceria com Gary Louris, do Jayhawks, a boa “Radio King”. O segundo disco, “Weird Tales”, é mais bacana ainda, mais sério e com a pérola “Please Tell My Brother”. No terceiro, já em 2006, “Another Fine Day”, a participação de Tweedy foi menor e pouco presencial, mas trás o registro dele cantando “Strangers”, dos Kinks.

Mas os destaques absolutos dos apêndices discográficos sem sombra de dúvidas são os discos “Mermaid Avenue”, volumes um e dois. Dois discos, especialmente o primeiro, magistralmente registrados em parceria com o menestrel inglês Billy Bragg dedicados à obra do legendário compositor folk norte-americano Woody Guthrie.

Historinha rápida: em 1995, a filha de Guthrie, Nora contatou Bragg com centenas de letras inéditas do pai, tesouros guardados com a família em Nova Iorque. A idéia dela era apresentar a obra do pai para a “geração MTV”, tentar tirar um pouco a questão do mito e ir ao ponto que interessa, a criação. E Bragg, para ela, era uma espécie de reencarnação britânica jovem do pai, com sensibilidade política e poética suficiente para honrar o material de Guthrie.

Em 1996, Billy Bragg, fascinado com “Being There”, resolveu convidar a banda para participar do projeto. Desde o início, Tweedy manteve os pés atrás. Para ele, o Wilco em nenhuma condição seria a “banda de apoio” de Bragg, um artista que ele nunca foi lá muito fã. Mas o Wilco tinha um enorme admirador de Bragg nas suas fileiras. Jay Bennett inclusive tinha tirado o nome de sua banda Titanic Love Affair de uma letra do músico inglês.

Com a idéia de Dylan e sua The Band em mente (Tweedy deixou inclusive a barba crescer), eles se juntaram em uma cidade neutra (nem Chicago nem Londres), Dublin, para brincarem a vontade no repertório de Guthrie. Não foi um processo fácil: disputas egocêntricas, berros ao telefone, acusações de fascismo, parte disso documentado no documentário “Man In The Sand”. Mas o resultado é espetacular, especialmente na primeira compilação.

Em muitos momentos beira o sublime: “Califórnia Stars” é uma letra simplória que Tweedy e Bennett transformaram em poesia auditiva; “One By One” é um dos grandes momentos da banda desde sempre, suingando como se fosse a The Band em uma interpretação tão convicta de Tweedy, a ponto de o desavisado guitarrista Bob Egan vir consolar o vocalista após a sessão (“Cara, não sabia que você estava passando por tudo isso…” Ao que Tweddy responde: “Isso foi escrito por Guthrie em 1939!”). Em “Another Man Done”, Tweedy fez o pessoal chorar no estúdio.Não é de estranhar, tamanha a beleza da música e da interpretação.

Outros balanços impressionam: “Hesitating Beauty”, “Walt Whitman´Niece”…As faixas cantadas por Bragg trazem um Wilco afiadíssimo, captando com coerência e carinho as interpretações do inglês e ganhou uma histórica crítica elogiosa de Greil Marcus na Rolling Stone. “Mermaid Avenue” foi a maior vendagem de Billy Bragg nos EUA e quase superou as vendas de “Being There”. Em 2000 sairia o segundo volume, menos inspirado, mas com grandes momentos como “Airline To Heaven” e o blues chapado de “Feed Of Man”. Mas a guerra entre os dois lados impediu a idéia de uma turnê de divulgação. Billy Bragg “roubou” o colaborador Bob Egan e sua guitarra steel e caiu na estrada sozinho com sua banda, colocando uma ou outra música no repertório. Recentemente as arestas parecem ter sido aparadas, e existe a possibilidade de uma espécie de homenagem do Wilco e de Billy Bragg no ano que vem, em homenagem ao centenário de nascimento de Guthrie.

~https://www.youtube.com/watch?v=AcmjRheVZmM&list=PLB0xGdhVdMlZA5tkHwk9igsVXCpldh2GX

Trata-se de um trabalho tão obrigatório quanto qualquer outro assinado somente pelo Wilco.

 Mixtape-Sobras

Para este escriba, o UILCÃO DA MASSA desceu ladeira abaixo depois desse período glorioso. Mas nem tudo é descartável. No meio de um tanto e material nota 6, tem umas coisas notas 8, 9 e até uns 10, dependendo do humor do professor. Pérolas espalhadas em discos medianos, etc…Vamos a um top 5 pessoal delas:

“Kicking Television”- do maravilhoso disco ao vivo, homônimo

“One Wing” – de Wilco-The Album

“Art of Almost”- de The Whole Love

“One Sunday Morning”- de The Whole Love

“Cry All Day”- de Schimilco

 

“2009 é que foi um ano ruim, John Fante”; ou: “Precisamos falar sobre Verón”; ou ainda: “Às Margens do Mineirão, sentei e chorei”

 

Existe uma espécie de categoria narrativa chamada de “micro história”, que diz dos grandes acontecimentos da humanidade- sejam eles períodos inteiros, sejam de trajetórias específicas, seja de datações particulares- que são relatados por sujeitos anônimos, que a grande história não cataloga que o macroscópio de importâncias não detecta, mas que a realidade, ou os fissurados por ela, teimam em não deixar escondido debaixo do tapete da vida. Vários desses Menochios (para citar a célebre obra de Carlo Ginzburg a respeito das micro histórias, “O Queijo e os Vermes”) orbitaram a esfera enquadrada pelas avenidas Carlos Luz e Abraão Caram, aquele que é o mais importante palco do futebol brasileiro, o Mineirão. Vários deles também habitaram páginas heróicas (ops) e imortais de grandes cronistas- de cabeça agora me lembro do João Antônio de “É Uma Revolução”, modelo dos modelos quando se trata de jornalismo lítero-esportivo a respeito do velho Magalhães Pinto.

Portanto, sob essa sombra, não me deitarei meu chapa. Proponho aqui nos desavergonharmos, espírito dos tempos, Marcelo Camelo cantando “O Vencedor”, Leonardo Cohen tecendo loas aos “Beautiful Losers”, sejamos mais Jon Cryer e menos Charlie Sheen (#notwinning). Glorificarei uma imensa derrota testemunhada no Mineirão. A maior de todas, ora, pois. Aquele passeio germânico do ano passado foi na verdade um presente que os deuses da vergonha na cara (aqueles que nos esquecem com alguma freqüência) nos deram e que, a despeito de toda nossa cordialidade, ainda não foi aberto, pelo menos onde ele foi endereçado (“Alô Marin, manda direto para Miami ou agora não adianta mais?”). Estou falando de uma gloriosa e acachapante derrota, que fez as lágrimas represadas depois do apito final temerem inundar aquele imundo e divino chão do Mineirão.

E não, não inundaram. Lá, não.

Ah… O Mineirão moleque, de raiz. De maconha escondida nos bandeirões, de Chicabom vendido a preços decentes (será que foi daí que o Tio Nelson cunhou a imortal frase? É uma boa pra explicar o mood shopping center e pouco passional do Neo Mineirão, uma coisa meio muita farinha pra pouco tropeiro), dos abraços e beijos simultâneos ao desdentado e ao engravatado, da liberdade, da igualdade, da fraternidade. Das revoluções por minuto, determinadas pelo filho da puta que estivesse apitando o jogo da vez. Oitava maravilha, utopia realizada, as estrelas lá do céu, nós fomos buscar, tantas e tantas vezes. Mineirão cheio e repleto de poesia barata, de teorias furadas, de cornetas ensandecidas, de ouvidos colados nos radinhos de pilha, que sintonizavam não um exemplar ludopédio, mas o coração de toda uma nação, uma China Azul (saudades Fernando “Tá no Filó” Sasso!) que chamava e ainda tem a exclusividade de chamar aquilo de casa. Só aquilo ali tem o tamanho, a grandeza do que somos.

 

Mineirão cheio e repleto de VIDA. Do melhor e do pior dela. Poderia até chamar o que pretendo fazer aqui de micohistória, mas nossas pequenas tragédias não devem ser simiamente reduzidas aqui. Au contraire, a figura do macaco nos serve para pensar em evolução, em andar pra frente, em inventar grandes invenções.

Futebol é uma delas. Outra, que, atenção neófito, atenção recalcado, vêm frequentemente acompanhada desta, são as grandes tragédias. Ou seja: as décadas que colecionaram lapadas em vossos lombos naquele estádio magnífico, a ponto de usá-lo impunemente como bode expiatório para tantas incompetências e pequenezas, e irem plantar apagões suspeitos no Horto, são riqueza pura.

O manual do macho sensível hoje tem que reservar, no capítulo futebol, algumas lindas e tristes notas de rodapé sobre nossas tragédias. Falo aqui, da minha maior, por mais que teimo em minimizar para os colegas de resenha esportiva de ambos os lados (“Sofri mais com aquele gol do Guilherme Lobo Mau chapelando”, “A eliminação pro Once Caldas foi o que me fez chorar”, “Aquele gol do Oséias, naquele ângulo impossível!”, “Maldito Dinei!” entre outras lorotas cinicamente contadas) é nela que me afogo nos copos mais nostálgicos; é através dela que busco os afagos mais fortes e compreensíveis da dama que, por infelicidade gigantesca, pode estar dividindo a cama comigo numa noite de penitência terrível a respeito daquele trágico jogo.

(Isso porque falo à noite, dormindo. Já me disseram que NARRO jogos durante meu sono)

Acordado, dependendo do grau alcoólico, consigo transformar uma Vera em Verón, apenas com a força da imaginação baixo astral. Ou, “The Power Of Negative Drinking”, para contra-citar Lou Reed. Que não entendia porra nenhuma de futebol, suponho. Mas entendia tudo de Vera /Verón, em outros campos, bolas e travessssss… Aposto minha coleção do Velvet Underground nessa última.

Foi bom pra você querido?

Não, não foi.

Mas, ó, quer saber? Foi também.

Nada como uma broxada para levantar um gigante adormecido

Ou ao menos um peso-pena, não é turminha dos 6 x 1?

Que Deus ou Charles Miller louve aqueles que criam todo um novo mundo depois de grandes tragédias

2

Essa noite foi, seguramente, uma espécie de despedida do meu velho e bom Mineirão. Mentira, não foi não. Esse foi também o ano do flanelinha né? Piscadinha marota para todos que aqui ainda sabem aquela paródia clássica de Mamonas Assassinas. Mas usaremos nesse momento a sempre bem vinda licença poética.

E falando nela, a poesia, lembro-me que foi embebido em doses generosas dela e de cerveja que me recordo de ter visto esse Velho Mineirão pela última vez, com o mesmo olhar que o via quando menino, quando nos mais loucos devaneios juvenis pensava em batizar meu futuro filho de Boiadeiro, Ademir ou Nonato. Ih, olha só: nessa tarde/noite de final de Libertadores, minha filha já tinha oito anos de idade. Minha filha, que se chama MARIA. Esse nome, que os rivais, pós-modernões que só eles, taxaram como algo ofensivo. E que os pós-pós-modernões celestes resolveram devolver com LOURDINHAS. Nome de minha amada e cruzeirense avó.

Não me lembro desse tipo de babaquice nominal pouco criativa no meu Velho Mineirão. Deve ser memória seletiva. Ou seria uma manobra afetiva pra encobrir os cânticos de “Ô Marques, vi-a-do”? Seguimos…

É bem possível que, horas antes de ter alcançado o portão seis, entrando pela Catalão, eu devesse ter deixado Maria na escola. Como é bem possível que eu já tivesse ligado para minha mãe pedindo benção e boa sorte. Como é bem possível que eu já tivesse rememorado mentalmente o chute libertador de Eliveltón em 97. Como é bem possível que… Bem, de uma coisa eu tenho certeza: como estava de carona, já estava de “carona” cheia lá pelas cinco da tarde, quando finalmente, armados do médio e velho Pack de Skol quente, conseguimos atravessar aquele lindo mar de veículos azuis, rádios ligados no talo, hinos e cantos randomicamente tocados, escafandristas celestes numa Carlos Luz afundada em euforia e trânsito mais lento que o atual meio de campo do Cruzeiro.

Foi por aí, preocupados com superlotação, que decidimos não ficar de onda lá fora.

Foi por aí que começou meu clássico ritual, requintes de transtorno obsessivo compulsivo, diante do Velho Mineirão.

1)      Adorava subir pelo matão, pela barranqueira; nunca pela escadinha. Dava um tom de aventura fantástico, uma mini-escalada, um esquenta na adrenalina, encontrando companheiros de esforço pelo caminho, adornado por aquele cheiro indelével de urina pilsen. Guerreiro dos gramados, enfim.

2)      Gostava muito, quando sozinho, sem levar a filha, daquela zona, aquele universo paralelo que eram as bilheterias/entrada. Tipo show de hardcore no Estrela ou no Butecário. Um aperta-aperta do caralho, olhares ameaçadores e suspeitos, aroma maravilhoso de churrasquinho (engraçado pensar em quantas memórias sensoriais guardo do Old Mineras) temperando aquilo que o bom senso nunca chamaria de “fila”. Geral filmando quando os PM´s passavam carregando algum torcedor a tira-colo, o olhar cúmplice e de certa forma invejoso a quem pulava o muro, os gritos de guerra já queimando a garganta na largada…

3)      Depois, um pit-stop providencial no banheiro- só pra sentir aquele clima meio Trainspotting, a clássica cena do Ewan McGregor entrando na privada, começava a escalada final, um, dois lances de escada…

4)      …E encontrar, lá do alto, o Mineirão em 360°. Coração aos pulos, feito ovelha desgarrada que encontra seu bando. Nunca chegava pulando ou cantando: gostava desse momento de filmar, em panorâmica, travelling, planos médio e grande, o estádio em todo seu esplendor. Tipo aquela seqüência incrível do “O Segredo de Seus Olhos”, com o Darín. Só que na vida real. Era maravilhoso. Era a melhor coisa.

À noite, era ainda mais especial. Adorava Mineirão à noite, desde muito moleque. Primeiro, porque era uma desculpa maravilhosa para fugir do horário padrão de TV- cama- escola de manhã. Quer dizer, sempre tinha escola de manhã, mas ir ao campo à noite parecia uma coisa meio marginal, subversiva, enchia a boca para falar que tinha ido ao Mineirão com os sonados coleguinhas no dia seguinte. Obrigado pai! Segundo, anos depois, já com o brevê de adolescente jovem adulto, era a desculpa perfeita para um rolê boêmio posterior, seja para dividir aquele mexidão, completar a resenha, seja para uma baladinha esperta- já me “casei” (por) uma noite com uma cruzeirense uniformizada num desses botecos de rock, depois de um domingão de clássico (hum, na época era ex-clássico, insuperável gestão Adílson Baptista). O divórcio, na manhã seguinte, não foi doloroso: tínhamos as imagens esportivas na televisão, repetindo aquele gesto politicamente incorreto do Gladiador, ad infinitum, para curar a fossa.

Mas nada superava assistir aquele chão de estrelas suspenso sobre nós, in loco. Tudo a ver, match made in heaven: daquele tanto de astros lá de cima, sessenta caíam sobre os mantos que desfilavam no gramado. Outros milhares se espalhavam sobre nós, meros mortais e espectadores. Era mágico, porra. Entendo e admiro a ideia atual de se praticarem jogos pela manhã, acho novo, acho louvável, acho família. Bonito até. Mas, puxa Mineirão à noite é demais, uma experiência absolutamente sem parâmetros. Tem a ver com iluminação- e não estou falando aqui da luz sintética dos celulares. Estou falando daquela luz natural que as áreas mais esvaziadas de prédios, tipo a Pampulha, têm. Do frio que a lagoa ali do lado conduz nas noites de maio/junho, nas fases decisivas da Libertadores e que tentávamos amainar com o calor humano de multidões que ainda ultrapassavam os seis dígitos. Da escuridão ameaçadora que rondava aquele estádio do lado de fora, o arvoredo metamorfoseado em banheiros orgânicos, o fumacê dos cigarros nervosos mixados com os fogos de artifícios (principalmente os silenciosos-sempre odiei rojões) que ficavam ainda mais coloridos contrastados com o breu noturno. O verde pra-que-te-quero-ainda-mais verde no gramado, focalizando toda nossa atenção…

(Ameaço escorrer uma lagriminha aqui. Mas ela se detém antes que você, leitor, possa soletrar E-S-T-U-D-I-A-N-T-E-S)

3

Será que pulo a parte do jogo em si?

Será que minha memória (lá se vão seis anos…) docemente deletou tudo que aconteceu naquelas tristes quatro linhas?

Engraçado, me lembro perfeitamente do golaço do Henrique. Tirambaço de fora da área, with a little help do jogador deles, aquele montinho artilheiro humano. Presente atípico dos deuses do futebol: premia o operário na noite de gala. Sou um grande fã de volantes. A idade me permitiu isso. Como todo moleque normal (ou seja, que não tinha como ídolos goleiros), sempre fui magnetizado pelos astros-rei do futebol: os atacantes, naturalmente. Ora, geralmente são eles os responsáveis pela glória maior. O Mineirão me presenteou com grandes atuações de grandes artilheiros; e aí, independente de camisas. Vi Romário, o maior de todos, em qualquer posição, silenciar um domingo de Mineirão lotado, com a camisa do Vasco. Vi Evair numa noite pouquíssimo inspirada; vi um Ronaldo abrir um maroto sorriso de dentes horrorosamente detonados depois de ridicularizar Rodolfo Rodriguez. E vi Marques. Kleber. Viola. Túlio. Edmundo. Paulinho Mc Laren. Marcelo Ramos. Aristizabal. Charles Guerreiro. Washington. Dodô…

E vi Ademir. Ricardinho. Maldonado. Fabrício. Gente fibrosa, gente de garra, alguém tem que fazer o trabalho sujo. Longe de serem estilistas da bola, são esses heróis ocultos que fazem do esporte bretão uma nobre arte. Afinal, são eles que desbravam aquele campão a golpes de facão, chineladas elegantes, carrinhos inesquecíveis para que os craques, pimpões que só eles, possam passear nas Ferraris da glória.

E vi Henrique fazendo gol em final de Libertadores. Ali o ciclo se completaria.

Mas também vi Verón.

Que, sim, é meia. Mas naquele dia estava iluminado como o melhor dos volantes. Como o melhor dos atacantes. Como o melhor dos seres humanos.

Porque, sim, fez o que fazia de melhor (e tinha um time inteiro à disposição dele) que era distribuir bolas elegantemente- por vezes, genialmente- do meio pra frente.

Mas naquela noite, Verón ocupou todo o estádio. O MEU estádio.

Mesmo tentando disfarçar, acho que já entreguei meu time no decorrer desse texto, certo? Mas tem uma coisa: futebol é bom demais para ficar confinado apenas a sua paixão. O futebol é o amor, o Cruzeiro é a explicação e a explicitação desse amor. Mas quando garoto, por exemplo, “torcia” para times de todo o mundo. Na Itália, gostava do Milan (Van Basten… Baresi… Maldini…). Na Alemanha, Bayern de Munique. Na Inglaterra, Manchester United (Eric Cantona!). Na França, Lyon. Em Portugal, Benfica. E por aí vai. Na Turquia, só troquei o Galatassaray pelo Fener por causa, obviamente, do Alex. De todas as minhas simpatias, reconheço que apenas uma pesava mais e pesa até hoje: o Barcelona, de Romário.

A mesma coisa serve para jogadores de outros times- e até mesmo jogos de outros times. Nunca me esqueço do sorriso-mascando-chicletes de Telê Santana ao ver Raí fazer o gol naquela falta no Mundial de 92. Das comemorações helicóptero de Marcelinho Carioca. Do Edmundo fase Animal. Do Paraguai do genial Gamarra segurando a França no limite do humano…

Portanto, não tenho problemas em admitir que vi Seedorf acabar com meu time apenas com a elegância de seu jogo. Assisti de pertinho aquele gol do Gaúcho. Bati palmas não irônicas para Neymar naquela tarde triste no Independência, pra ficar em lembranças ainda frescas.

Mas, no gramado do Mineirão, nunca vi alguém fazer uma troça tão grande do meu time como esse sujeito chamado Verón. La Brujita. Yo no creo, pero que las hay… Las hay. Jesus. O cara tava possuído, um roteiro de cinema pra William Friedkin filmar. Ali aprendi, ao vivo e a cores, com Verón deixando bem claro, a cada suor pingado no nosso sagrado campo, uma questão que nunca será resolvida com nossos co-irmãos de América do Sul: COJONES. Se fizessem uma daquelas pesquisas super úteis do tipo média do pênis de cada povo, mas voltada un poquito mais para ao sul anatômico masculino, certeza que Brasilzão estaria mal na estatística.

O sujeito fez de tudo: distribuiu bordoadas, provocou, soltou carrinhos a rodo, desarmou. Logo no começo do jogo, um carinho com o cotovelo em Ramirez, que tirou o (ótimo) volante (pois é…) de prumo. Peitou e desmontou a marra do Kleber. Tirou cruzamentos de cabeça, de pé, de alma. Deu um belo passe, daqueles para ferir a retina, para sempre, para o cruzamento que originou o primeiro gol dos argentinos. Bateu com perfeição o escanteio que deu a eles o gol da virada. Quase fez o terceiro. Enfim, jogou p-a-r-a-c-a-r-a-l-h-o. Segurou o resto do jogo, segurou (e pisou em) setenta mil estraçalhados corações celestes. Segurou (e levantou) a taça no final.

Fez o Mineirão, depois dos gritos indignados (e indignos, digo) de “Raça! Raça!” calar um silêncio que até hoje não foi interrompido. Haja tetra campeonatos para acabar com essa ressaca.

Minerazzo é isso, meu camarada.

4

Toda essa descrição do jogo só me é possível depois de muita terapia. Na hora do jogo, sinceramente, estava absolutamente anestesiado. Primeiro, pela euforia. Depois, pela dor. Muita dor. Meu divã para resolver essa questão é o You Tube. Volta e meia, entre o desconsolado e o sádico, volto àquelas imagens do dia 15 de julho de 2009 para… Ah, sei lá pra que. Porque, assim como as melhores coisas da vida, as piores coisas da vida são aquelas que a gente não entende. Mas sente.

Voltando ao Mineirão, o que me lembro, depois da tragédia acontecida, foi olhar em volta, tentar ajudar feridos de guerra. Se o time não teve uma atitude heróica e honrosa, tentemos ter nós mesmos: tipo aquela cena do Forest Gump, fui indo, assim como outros, e voltando, recolhendo primeiro os amigos, alguns deles estatelados na arquibancada. Outros, cabeça baixa, imóveis, só as mãos pendendo para baixo. Outros, cuspindo revolta. Outros, hipnotizados, olhando para o gramado.

A autópsia do fracasso. Nunca quis tanto ir embora do Mineirão como aquele dia.

No meio do trajeto, com uns dois soldados pendurados em cada ombro, vejo um menininho, sete, oito anos. Acompanhado do pai, chorava, chorava, chorava, chorava. Bicho, a pior coisa do mundo é ver criança sofrendo. E no caso, o pai também parecia absolutamente sem ação. Já fomos filhos pequenos, então lembramos: no colo do pai ou da mãe, a tendência é amplificarmos a coisa toda, contando com aquele calor familiar e certa ausência de filtros né? Só que o pai estava feridíssimo. Possivelmente querendo o pai ou a mãe dele também.

Como se explica uma dor com as dimensões de um Mineirão para um filho? Tarefa difícil de executar na teoria. Imagina na prática. Depois de ser atropelado pelo Verón. Resolvi ser solidário.

-Oi…

-(choro, choro, choro)

-Acontece… ( A-ham. Obrigado Piaget!Isso ia colar mesmo)

-(choro, choro, choro)

-Futebol é assim mesmo

-(choro… silêncio… alguma atenção)

Pedi licença ao pai e botei o moleque no colo. Endureci o tom da voz, de leve, sem assustar.

-Olha só: a vida é assim mesmo. A fase boa passa, a fase ruim passa também…

-Vão me zoar na escola amanhã.

Ser criança pode ser uma merda, mesmo. Pode ser cruel. Um dos dias mais bacanas da minha vida escolar foi o pós- Kanapkis, aquele Hat Trick do Ronaldinho Fenômeno. Manhã gloriosa em (grande) parte do pátio do Colégio São Bento, 1994, para a Máfia Azul, divisão infanto-juvenil, bairro Minas Brasil. Três anos depois, o troco veio, via satélite, do Japão. Na caminhada matinal para a escola, escutava o foguetório, já imaginando a dureza daquele longo dia.

-É assim mesmo.

E é mesmo. No dia, nos anos seguintes, teria não apenas o futebol. Teria a Matemática. Teria a menina que não dava bola. A escolha do que quer ser quando crescer. Teria os pais, quem sabe, se separando… O futebol- e as tristezas que o acompanham- são um ótimo cursinho para o grande vestibular da vida. Puta filosofia. Mas não ia funcionar para aquele menininho.

-Olha só: você tem colegas que nunca chegaram perto disso que você viu hoje. Uma final de Libertadores. Ih, olha só: os pais dos seus colegas nunca viram algo nem perto disso! Peraí, pensando bem, OS AVÓS dos seus colegas nunca nem sonharam em estar numa situação dessas!

Mistura de tatibitate com jogo sujo, tô sabendo. Mas falei com a certeza que, com uma maior e sutil elaboração, ia servir pra mim também no dia seguinte.

Ganhei alguma coisa próxima de um sorriso do moleque. E um olhar cúmplice do pai. Cinco anos depois, eles, e eu, iríamos tirar uma onda grandona na escola ou no trabalho. A fase ruim passa, a fase boa…

O que não passa é o esse eterno Verón, que sombreia sob nosso Mineirão até hoje.

Cansado, física e emocionalmente, desabei num pedaço de grama, do lado de fora do estádio. Bad trip total, um dantesco velório. De trilha, uma confusão de reclamações e choros. Além dos fogueteiros do pau alheio, fazendo a maior festa que fizeram desde 1971. O meu velho Mineirão, de costas pra mim, prenunciava o túmulo que viraria depois da reforma. Viajei rapidamente pelos cantos mais sombrios da memória futebolística, tentando encontrar consolo imediato. Fui me encontrar com 11 anos de idade, final do campeonato de futebol de salão da escolinha do bairro. Meu time era o azarão, e eu cheião de personalidade, me tornei capitão e artilheiro do time naquela tarde mágica. Seguramos um empate com os favoritos na final e fomos para os pênaltis. Na última cobrança, isolei a bola longe. Desabei no chão e fui consolado por todos os pais e torcedores do recinto. No fundo, a televisão da cantina da quadra anunciava que o Brasil era eliminado da Copa América depois que o Boiadeiro perdeu um pênalti. Micohistória.

Lembrei do menino e me senti culpado, porque, tinha certeza, aquela noite não ia passar nunca.

E aí chorei. Baldes.

Pouco depois um amigo veio chamar, ay, ay, ay, ay, está chegando a hora, a noite vai ser escura meu bem, nós temos que ir embora. Me lembrei de mirar o céu, ritual último, vida que segue, busca por um último restinho de magia.

Voltei a andar e aí sim, me despedi do meu Mineirão.

(Mas dessa vez não tinha estrelas quando olhei pra cima)

 

 

Falso Ingênuo

Texto publicado na edição de 23/05/2015 do caderno Pensar, do jornal Estado de Minas

funny-girl

Que coisa terrível era uma boa educação se produzia o tipo de cabeça que despreza o entretenimento e as pessoas que o valorizavam”. O pensamento do personagem Dennis, produtor e diretor de programas de comédias da BBC nos anos 1960, quando se vê confrontado com a intelectualidade da esposa infiel, de certa forma sumariza uma porção generosa do ethos literário do britânico Nick Hornby, além de mostrar que, a centralidade da mídia- ou uma percepção espessa da noção de pop no mundo contemporâneo- volta à baila em seu novo romance, “Funny Girl” (Cia das Letras). Percebido pelo Guardian como um tributo do escritor à “era de ouro” do entretenimento leve, “Funny Girl” vai além da celebração: escancara novamente debates que se situam engenhosamente opacos na obra do escritor, travestidos de ordinariedade. Hornby se posiciona no campo literário, como um dos melhores comentaristas do embate entre alta e baixa cultura, embate este que as membranas cambiáveis do mundo contemporâneo frequentemente tentam esconder e estilizar, mas que ele, com toda razão, faz questão de trazer a tona.

 

O duelo amoroso travestido de intelectual (e vice versa!) travado entre Denis e o amante de sua esposa (um acadêmico comentarista da mesma BBC) é apenas uma das tantas peças que fazem de “Funny Girl” (mais) uma apaixonada e apaixonante defesa do escritor ao que podemos chamar aqui de sensibilidade pop. Afinal, os romances de Hornby pretendem-se, ao modo realista, uma janela transparente, que dê a ver o mundo contemporâneo que, como, já havia proposto a pop art cinquentista e sessentista, não pode ser descrita e compreendida sem os artefatos da cultura midiática. E é a partir desta cultura, hegemonicamente instaurada no mundo de hoje, que o autor recolhe algumas noções possíveis da ideia de uma cultura pop. Esses objetos espalhados cotidianamente pelo mundo também dão conta de quem somos, do que somos: modelam e modulam uma sensibilidade particular. Nossas escolhas também definem o que somos.

 

O que ele faz, portanto, é dar voz a este contexto, em suas possibilidades e contradições. A visada sob a construção de uma série cômico-televisiva – “Barbara (e Jim)”- soa formativa quando percebemos que esse formato de produção audiovisual, de Big Bang Theory à House Of Cards, talvez possua hoje uma voz que nunca falou tão alto no mundo do entretenimento. Um dos aspectos mais adoráveis e instigantes de “Funny Girl” é justamente sua escolha por ambientar essa análise nos bastidores de um programa de comédia, protagonizado pela sonhadora e sagaz garota nortista Barbara e por um grupo de jovens comunicadores – o galã desorientado Clive, o gay modernérrimo Bill, o romântico Tony e o inseguro Dennis- onde a narrativa acaba desvendando, deliciosamente, um período onde os Stones, os Beatles, a mini-saia e as pulsões sexuais eram definitivamente a pauta da vez. Dedicado a esse caráter “biográfico” da época, o livro recorre até ao uso de imagens, fotos que complementam e imploram a proximidade da ficção com o real, ambientando a Londres dos anos 1960 como um espaço vibrante (swinging), cheio de possibilidades. A época de ouro da cultura pop, o diapasão comportamental que de muitas formas não guia até hoje.

 

Mas desta vez Hornby resolve encarar como a mídia é construída, e não apenas como ela é percebida, pelo sujeito contemporâneo. Aqui no Brasil, encanta ainda mais esse enquadramento, por podermos notar que a comédia (talvez um dos gêneros mais diminuídos na estrutura formativa da cultura pop) alcançou nos últimos anos um espaço e uma importância na mídia como há tempos não acontecia. Portanto, acompanhar as desventuras de Dennis, Bill, Tony Clive e Barbara de certa forma nos conecta ao sucesso, ou ao entendimento da gênese deste sucesso, de produções como Porta dos Fundos, do “nascimento” da stand up comedy no país, de atores como Tatá Werneck ou Paulo Gustavo. Não soa estranho, quando ao final do romance, o grupo que fez história na BBC nos anos 1960 ser celebrado por um jovem produtor, que pretende os conectar com a era dos espetáculos online, da multiplicidade etária e sexual, e estranhamentos à parte, todos embarcam nesse novo mundo. De certa forma eles são os pioneiros, pais ou avôs de boa parte dos personagens apresentados por Hornby em muitos de seus outros romances.

 

Curioso pensar que, durante esse hiato literário (desde 2011), o escritor apresentou sua faceta criativa mais distante do pop, assinando roteiros cinematográficos ora mais elegantes ou tradicionais (“Educação”, de 2009) ora mais gráficos e fortes (“Livre”, de 2014). E agora ele volta com o que talvez seja o aceno mais carinhoso que ele tenha feito em toda sua carreira à chamada indústria do entretenimento, onde bons elementos da ótica hornbyana se espalham pela obra: o reconhecimento de si em algo formatado pela indústria do consumo (a obsessão de Barbara por Lucille Ball), o romance realista como dispositivo ideal para narrar grandes histórias, o entretenimento leve como um pano de fundo “teórico” complexo, uma meta defesa, típico jogo hornbyano, através de um romance leve, travestido de ingênuo. E historicamente, essa ambigüidade, esse caráter duvidoso presente nas grandes obras pop, nos deixam irresistivelmente tentados a filiar a obra de Hornby como um objeto pop em si: denso, potente, pleno de significações abertas, “disfarçada” em um romance simplório, mas que guarda em si o fator trickery da cultura popular apontado por John Fiske, a capacidade de significação que vai além das leituras fáceis ou aparentes.

 

Como escritor ficcional, Hornby parece buscar o que James Woods chama de vida animada, lifeness, a vida na página, a vida que ganha uma nova vida graças a mais elevada capacidade artística. E a existência que Hornby espelha é mediada pelo pop, e, nesse sentido, ele avança, como um comentarista social, buscando em sua trajetória literária traduzir o sujeito contemporâneo, ficcionalizando o cotidiano e dimensionando uma possível sensibilidade pop através de seus enredos, seus personagens, seus diálogos. Dos elementos formativos da cultura pop, Hornby “defendeu”, ou reportou muitos, com sedução e precisão. O esporte (futebol em “Febre de Bola”, skate em “Slam”), música (“Alta Fidelidade”, “Juliet Naked”) mídia e comunicações (“Um Grande Garoto”). Deu-se particularmente mal quando fugiu desses temas (“Uma Longa Queda” e “Como Ser Legal”, obras menores) e talvez tenha condensado brilhantemente sua “luta” no conto “Jesus Mamilo”, da coletânea de contos “Falando com o Anjo”, sem contar o sensível e biográfico “31 Canções”.

 

Temos, portanto, arte, mídia e literatura atuando como reflexo da vida, capturando o presente, e produzindo ou espelhando estruturas autopoieticas. Seja pela urgência de um relato da realidade, seja pela ambiguidade por vezes irônica, por vezes densa, essas noções em caleidoscópio formatam uma possível ótica pop. E essa ótica se apresenta como uma cartografia necessária para se entender o que somos (e como o somos) no aqui e agora. Se em “Juliet Naked”, seu último romance, ficava um pouco a dúvida de que o escritor queria crescer, amadurecer, em “Funny Girl” ascende outra vontade: a de olhar com carinho para o passado, como que buscando uma espécie de lastro histórico, como se somente com isso poderíamos celebrar as conquistas de hoje. Não é um romance sobre a era da inocência, talvez o contrário: sobre como o sujeito começa a perder ela, e entender que somente assim seria capaz de jogar, em condições mais ou menos iguais, o jogo da mídia. Hornby dá voz, todo o tempo, a sujeitos supostamente “ingênuos”- especialmente a protagonista Barbara- mas os percebendo e os dotando de uma perspicácia que, acreditamos, seria essencial para entender o período e entender a própria condição de jogar com o pop. No fundo da discussão, Hornby nota que não há marionetes, nem em relação ao público, nem em relação a quem faz.