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Treat Her Right- “Tied To The Tracks”

TREATHERRIGHT 

Resenha publicada no jornal Hoje Em Dia, em 02/09/2004

Quando morreu em cima do palco em Palestrina, Itália, fulminado por um ataque cardíaco enquanto executava a sintomática “Super Sex” ( “Taxi!/Taxi!/!Hotel!/Hotel!/I got the whiskey baby, i got the whiskey/ I´ve got the cigarettes…”), Mark Sandman levava consigo também uma obra particular que corria paralelamente à música vigente na época.

Na metade dos anos 90, quando o pop estava extremamente derivativo, o Morphine era uma espécie de gota pura em um oceano de ruído, uma banda que conseguiu imprimir uma marca pessoal tão profunda quanto suas densas músicas. Assim como o ópio que serviu de inspiração para o batismo da banda, a mescla de bateria ,sax e baixo tinha a rara capacidade de sedar ouvidos mais combalidos, transportando o ouvinte para um universo liricamente barra pesada, mas embalado por uma música extremamente agradável , baseada naquilo que o próprio Sandman classificou como low rock- uma sonoridade em que o barulho vinha em baixos teores , e a instrumentação era esparsa e elegante. 

O Treat Her Right foi o laboratório paras as experimentações de Sandman, que viria ajudar a formatar o som que fez sua fama anos mais tarde. “Tied To The Tracks”, segundo e derradeiro disco da banda , é Sandman de melhor safra, servido puro, sem gelo. Dividindo as composições com David Champagne, líder e fundador da banda e contando com o apoio do baterista Billy Conway, que iria acompanhá-lo no Morphine, a voz grave de Mark, filtrada em nicotina e álcool, vai tecendo climas ideais para ambientar uma hora vagabunda, regada a sexo, drogas e emoções baratas.

Sempre sob o signo do blues, as composições aqui são pautadas em slide, gaitas e linhas econômicas de guitarra. Entre canções assustadoramente premonitórias, como “Picture Of The Future” (“Este é um retrato do futuro/ E você não está nele”), se destacam faixas que trazem marcas registradas de Mark, como a morbidez romântica de “Marie” e o groove sensual de “Junkyard”. Acima de todas elas, a obra –prima “No Reason”, coda perfeita para aquela inútil noite italiana de 99: “Não há razão nesta vida/ Alguém vive e alguém morre/ E isto não deveria vir como uma surpresa”. 

Uma mosca que ainda voa por várias gerações na sopa da MPB: “Toca Raul!”

crédito: Juan Luís Guerra/Divulgação
crédito: Juan Luís Guerra/Divulgação

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Hoje Em Dia em 26/08/2004

Em qualquer bimboca do país que tenha um palco, uma banda tocando e um público espirituoso, esse grito será ouvido. Sim, é uma espécie de praga, mas que não pode de forma alguma resumir a figura de Raul Seixas à uma piadinha qualquer. Apesar de muitas vezes ter sua obra reduzida a fetiche para neo hippies ou malucos beleza de plantão, Raul Seixas representa uma fatia muito mais representativa da música popular brasileira. Foi o fio condutor de uma linhagem que teve poucos seguidores – e boa parte deles equivocados – onde o cancioneiro popular brasileiro tem encontro com o rock n´roll tradicional americano, decodificando assim uma obra personalíssima, um mosaico sonoro de boleros, maxixes, baladas e rocks atrevidos que, se reunidos, apresentam um conjunto coerente e único. Para usar uma imagem, assim como os tantos personagens que assumiu, Raul era uma “com-tradição”, que espelhou nas suas metamorfoses o espírito rebelde de pioneiros como Eddie Cochran e Jerry Lee Lewis, mas com um sotaque brasileiro inédito, carregando consigo uma identificação incrível com o popular que está ali vivendo, esperando a morte chegar, sem maiores esperanças. Uma iconografia marcante, de apelo popular menor apenas se comparado a Roberto Carlos Em suma ele foi muitos em uma pessoa só, por vezes, caricato em excesso, mas honesto com sua própria loucura.

Nas obras de Raul é possível encontrar o novo pulsando em diversas direções, já que, poderia supor, ouviu Lennon criticar que “é fácil viver com os olhos fechados” em “Strawberry Fields Forever” e assumiu que não queria ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Para isso pautou sua obra em uma diversidade rítmica e temática que encontra eco – mesmo que não diretamente – em boa parte da melhor MPB atualmente. Sim, é possível repercutir e enxergar o legado de Raul no menestrel Wander Wildner em “Tu ès O MDC Da Minha Vida”, um pré mangue bit em “Mosca Na Sopa”, o rock safado da Cachorro Grande em “Al Capone”, na poesia urbana de Marcelo Yuka. Porque ele se fartou naquilo que o rock traz de belo: a falta de linearidade, o apelo dionisíaco que faltava a bossa nova ou aparecia apenas timidamente na Jovem Guarda. Era cabra macho em excesso para a carnavalizante Tropicália, mas sensível em canções do amor demais além de cronista afiado do falso milagre nacionalista.

Tudo isso sem pedir licença ou benção para entrar de sola na MPB. Sobreviveu ali como um corpo estranho- assim como o foram Melodia, Macalé, Ben- mas muito bem vindo. E enquanto os Doces Bárbaros estão confortavelmente autenticando eterna primavera, Raul foi enterrado como herói, mesmo não sendo um representante típico da baianidade aclamada por conterrâneos. Talvez porque Raul era maior que a própria Bahia, uma expressão genuína do rock Brasileiro. E agora, alcançados 15 anos de sua morte, por uma série de fatores que se confundem com sua própria obra, o tal roque nacional desbravado por ele pode ter alcançado sua maioridade. Já não é mais uma criança.

Ryan Adams- “Rock N´Roll”

Resenha publicada no site do Alto Falante em 10/12/2003
Alguém como Ryan Adams lançar um disco intitulado “Rock N´Roll” é extremamente perigoso. Quer dizer, batizar um trabalho com um título que abarca todo um gênero é um risco para qualquer artista, mas, no caso de alguém que faça um trabalho bastante derivativo como o de Adams, aí é um prato cheio para os críticos de plantão. Porque, desde que embarcou em carreira solo, Ryan Adams tem colecionado olhares de desconfiança por todos os lados: seria ele um picareta completamente despersonalizado, que atira para todos os lados na esperança de atingir o público-como julgaram os detratores do sucesso “New York, New York?”
Ou Adams seria o compositor de extremo bom gosto e pretensões poéticas que muitos estão esperando há bastante tempo? Não é com “Rock N´Roll” que a pergunta é respondida. No trabalho continuam implícitas as pretensões de Adams:o refinamento lírico de Bob Dylan, a sonoridade Young angry man dos Stones além de outras referências claras aos grandes nomes do rock- Iggy Pop e seus Stooges na raivosa “1974”, os títulos de “Wish You Were Here” e “She´s Lost Total Control”…E a partir dessa referência ao clássico do Joy Division, “She´s Lost Control”, que os críticos podem carregar a cartucheira de balas: o alvo da vez dos tiros musicais de Ryan Adams são os tão em voga reeditados sonoridades dos anos 80 atualmente- escolha que vai de encontros com o som de bandas bem faladas atualmente, como Strokes e Interpol-, mas especificamente os Smiths.
Se na faixa de abertura de seu primeiro disco solo “Heartbreaker”, Adams gravara um diálogo entre amigos onde o tema era qual o melhor disco de Morrissey em carreira solo, ele parece agora querer retomar essa conversa e vai fundo na sonoridade do inglês em canções como “So Alive”, “Anybody Wanna Take Me Home” e “Burning Photoghaphs”. Mas mesmo assim, despersonalizadas-assim como parece ser o padrão da boa música nestes nostálgicos anos 2000- ainda perfazem um conjunto de canções bem mais interessante que a maioria.
Tudo bem, “Rock N´Roll” não é tão certeiro quanto anteriores como “Gold” e “Heartbreaker”, mas ainda assim poucos discos hoje abrem com uma música tão angustiantemente boa quanto “This Is It” e seu explosivo refrão (outra referência: agora aos novatos Strokes), e já no finalzinho trás um trazem pop ensolarado como “Boys”. Ryan Adams pariu três frutos musicais em 2003: o primeiro foi prontamente renegado pela gravadora Lost Highway, com a absurda justificativa de que os dois volumes de “Love Is Hell” seriam por demais depressivos. Já, “Rock n´Roll” é o filho pródigo, recebido de braços abertos, embalado perfeitamente para o fácil consumo do mercado. O que não é demérito nenhum, diga-se de passagem-poucos artistas sabem escrever canções pop tão bem resolvidas quanto Mr Adams. Apesar de prontamente despersonalizadas, como parece ser a regra do mercado atualmente.