Black Crowes – “Amorica”





Resenha publicada no jornal Hoje Em Dia, em 26/11/2004

“Não foi isso o combinado, eu seria o guitarrista e você seria o vocalista, carregado de mística?” 

O trecho do diálogo acima foi tirado do filme “Quase Famosos”, o monumento cinematográfico do ex- jornalista musical Cameron Crowe ao rock n´roll. Em torno de uma banda fictícia, o Stillwater, ele recriou o espírito dos anos 70 refazendo a mitologia estradeira e arquitetada na tríade sexo, drogas e rock das bandas mais emblemáticas da época, como o Led Zeppelin, o Who, Faces…No frase citada, o guitarrista cobra do vocalista a clássica dinâmica das bandas referidas acima. 

E se a história narrada por Cameron Crowe em 2000 fosse realmente contemporânea aos anos 90? Bem, seriam grandes as chances da banda retratada ser os Black Crowes. São eles que preenchem perfeitamente todos os clichês que enfeitiçam e ajudam a renovar o público para esse tal de rock n´roll: longos cabelos, solos e shows, um apreço assumido por drogas alucinógenas como o ácido e a maconha, e uma explosiva mistura do binômio paz e amor cunhado pelos hippies com o temperamento instável entre o front man Chris Robinson ( carregado de “mistique”, como ensinou o guitarrista fictício Jeff Bebe) e o guitarrista solo, Rich -ainda por cima irmãos, seguindo a tradição encrenqueira dos Davies nos Kinks, dos Reid no Jesus and Mary Chain, e – porque não? -dos Gallagher no Oasis. 

Todos estes detalhes se tornariam confrontos que foram capazes de enterrar a banda. Assim como as bandas setentistas, praticamente todas que ousaram repetir em outras décadas o espírito vintage da chamada época “áurea” sucumbiram ao dialogar com seu próprio tempo. Basta lembrar do “falecido” Axl Rose, descansando inquieto com cinzas das glórias passadas do Guns N´Roses, banda que representou de certa forma (e mais intensamente) nos anos 80 o papel “conceitual” exercido pelos Crowes no decênio seguinte. 

Se a história dos corvos negros não reprisou o final feliz sugerido em “Quase Famosos”, deixou para a posteridade belos capítulos reais, estórias essas que colocam outras bandas retrô como meros coadjuvantes – do fraco Blind Melon ao irregular Pearl Jam – na saga trilhada em busca do rock n´roll puro, sem gelos , sem misturas mais aparentado com as tradições do r&b and blues do que com o rap, o heavy metal ou adjacências. 

Em 94 eles escreveram o capítulo mais perfeito de sua obra. “Amorica” não tem a crueza hard da estréia (“Shake Your Money Maker”, de 90) , nem a elaboração do segundo(“The Southern Harmony ..” de 92). Mas a lisergia presente no disco supera qualquer outro trecho da viagem sonora percorrida por eles. O sublime wah-wah presente em “A Conspiracy” embala a letra que parece ser uma resposta direta aos críticos da banda sobre a originalidade da banda (“I never stolen nothing, not a thing”) e ainda fazia piada sobre as bandas escolhidas pela imprensa para ser a sensação da temporada (“Did you ever hear the one about last year/It was all a lie/Ain´t it funny how time flies?”). “High Head Blues” tenta um embalo latino, um clima meio Santana, cujo swing acaba desaguando em um refrão memorável. Banda boa que se que preza têm de saber escrever baladas memoráveis, e se os Crowes tiveram sua carreira bastante impulsionada pelo sucesso da linda “She Talks To Angels”, do primeiro disco, “Amorica” atesta essa qualidade dos irmão Robinson com duas pérolas: a fossenta “Cursed Diamond” , que fala em “odiar a si mesmo” e o contra ponto em “Nonfiction”, letra alto astral que recorre aos amores deixados pela estrada. Estrada brilhantemente enaltecida na chapada “Wiser Time”, que fala em percorrer “ mais 3000 milhas em três dias”, em um balanço que poderia ter a assinatura de qualquer instituição clássica setentista, como o Lynard Skynyrd ou Allmann Brothers. 

As cenas dos próximos capítulos mostrariam que o vocalista Chris Robinson se casaria com a mocinha -a atriz Kate Hudson, não por acaso a protagonista do filme de Crowe. Ainda lançariam os peso- médios “Three Snakes and One Charm”(96), e “By Your Side”(99) e –glória máxima- dividiram um álbum ao vivo com Jimmy Page, resgatando o repertório do Led Zeppelin.Em 2001 lançaram o belo canto do cisne “Lions”, quando pouca gente notou que o vôo dos Crowes agora já tinha destino certo- o chão. Agora é esperar quem vai assumir a lacuna deixada por eles neste início de novo século: fazer rock com prazo de validade vencido a mais de trinta anos, mas ainda capaz de criar histórias boas como essas.  

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