Calamidade pública na República Independente e Autônoma Seleção Brasileira: não temos camisa 9

Olha só, por mim #nãovaitercopa, e a que realmente me importa enquanto digito essas é a Libertadores. Acho todo o contexto tão escabroso que o que me resta é criar para os 23 que vestem a camisa-pátria uma república autônoma, uma forma de conseguir falar de futebol/copa/Brasil sem se sentir minimamente enojado.

Mas se tiver, bora fazer o trem direito, pelo menos nas quatro linhas. E estamos com uma treta séria, seríssima, calamidade pública e de urgência na República Independente e Autônoma Seleção Brasileira: nobis IX shirt, sopram, com razão, as fumaças sagradas saindo das cornetas das mesas redondas- esta instituição impressionante do lazer/intelectual televisivo brasileiro (sem ironia, friso).

É isso, ex-geraldinos e pós-arquibaldos: não temos camisa 9, aquele centroavante “faz mais um pra gente ver“, aquele herói da pequena área, aquela figura mítica construída por empurrões, coiçadas, bundadas, bicos, barrigadas; enfim mau tratos à bola que no fim das contas realizam o que importa: fazê-la dormir nas redes, mesmo com os gritos insanos da galera.

Os esquemas táticos existem também para substituir essas saudades inúteis, claro: bota o Neymar mais na frente e tudo se resolve. Mas, o que fazemos com nossas necessidades além-prancheta? Não dá para dispensar nosso imaginário assim, assim como também não dá para jogar todo o peso político/social/econômico de nossa República no corpo meio bichado do excelente Fred, o atacante único, o sujeito que além do imenso talento, é daqueles que nasceu com o rabicó (como diriam na sua Teófilo Otoni natal) virado para a lua.

E quem é o reserva de Fred?

E com todo respeito ao vida loka Jô: não me convence, não me deixa seguro, independente de paixão clubística. É um craque? Não. Segurou a bronca quando chamado? Segurou. Está jogando bem este ano? Não. Saldo final da matemática: negativo. Mas escravos de Jô estamos.

Não estamos querendo Coutinho. Reinaldo. Careca. Ronaldo. Leivinha. Nunes. Baltazar.  O filé do filé.  Não, nesse momento osso duro, sonhamos hoje com um DVD directors´cut dos melhores momentos do Jardel; comemos torresmo saudosos daquele clássico do Viola; lembramos dos cabelos espetados do Luizão em 2002; do simpático Evair, do gigante Marcelo Ramos, do Guilherme Três Lobos, e claro, óbvio, ululante, de Ronaldo Nazário. Dos eternizados na voz de Januário de Oliveira como Túlio Maravilha, Super Ézio,  Charles Guerreiro e Valdir Bigode. Isso pra ficar na turma dos anos 90.

Essa nostálgica lista- seleção, se pensarmos que escalei 11- faz pensar: porque não temos mais esse NÓVÃO, sangrento, matador, impiedoso? Por que, nos últimos anos, nossos olhos brilham mais para volantes ou até goleiros, e não pela mítica figura do centroavante? Vamos estabelecer um arco histórico, do tipo “Como era bom meu goleador”, a partir dos últimos 10 anos de campeonato brasileiro.

2012 Fred (Fluminense) 20
2011 Borges (Santos) 23
2010 Jonas (Grêmio) 23
2009 Diego Tardelli (Atlético-MG) e Adriano “Imperador” (Flamengo) 19
2008 Kléber Pereira (Santos), Keirrison (Coritiba) e Washington (Fluminense) 21
2007 Josiel (Paraná Clube) 20
2006 Souza (Goiás) 17
2005 Romário (Vasco) 22
2004 Washington (Atlético PR) 34
2003 Dimba (Goias)

fonte: Campeões do futebol.com.br

Claro que esta é uma lista que trata de uma temporada, o que inclui brilharecos nunca mais reprisados. Dimba, Josiel, Kléber Pereira, Souza e Keirrison, por exemplo, fizeram água. Os outros nomes ( Romário não conta; Romário é Deus), longe de seus melhores momentos (ou seja, além dessa lista), não são exatamente memoráveis- e lembremos que alguns estão aí, na ativa: Tardelli ( seria meu candidato para a vaga se não estivesse em péssima fase), Borges (não dá), Jonas (bom jogador, precisava voltar para o país e , digamos, renascer midiaticamente). Sobraram Washington e Imperador.

Olhemos para nossas opções atuais: algum deles é mais ferino, mais confiável, que o Coração Valente, por exemplo? Que, aliás, nunca foi um habituê da camisa canarinho (nem dez jogos, pelos idos de 2001/2002)…

As opções disponíveis e atuantes são, francamente, de chorar. Falo do  Pato (quá), Éderson, Alecssandro Lek Lek,  do Hernane Brocador, do Kardec, do Rafael Moura do Waltinho (by Renato Gaúcho), Damião, do Caça-Rato (piadinha galera)… dessa turma toda aí que, no desespero do desespero, tem sido cotada nos butecos midiáticos ou não. Loucura, loucura, já que na real, são jogadores que não são unanimidades nem em seus próprios elencos.

Grandes talentos na posição, como Kléber e Nilmar, parecem perdidos na névoa do tempo, das escolhas, e da sorte, mesmo estando os dois em atividade.

Não é surpresa notar que o melhor time, do melhor ataque do último brasileirão, teve como ponto fatal para os adversários o chamado “artilheirismo intercambiável”: diversos jogadores (Borges e Goulart com 10, Ribeiro, Nilton, Vinícius Araújo e Wiliam com 7) se revezaram como goleadores.

Não é apenas interna a questão: lá fora, nosso melhor atacante ( e nem é um matador de origem) é Diego Costa. Que fez muito bem ao esnobar a CBF. O resto joga longe, muito longe para serem sequer cotados, como (o bom) Wagner Love ou (o fraco) Aloísio. Cito Robinho aqui apenas pela obrigação de citá-lo (apesar de existir sim a possibilidade de ser convocado amanhã, o que apenas amplifica o tamanho da tragédia).

Sinceramente vejo duas possibilidades, as duas no campo dos milagres, em tons diferentes de transfigurações.

Vejo, pragmaticamente falando, Luis Fabiano. Não consigo deixar de pensar nele por duas razões: falta concorrência, sobra experiência. E detesto pensar nele por, também, duas razões: não está exatamente na sua melhor fase, e, vida loka por vida loka, prefiro um que concentre esse lado fora das quatro linhas, lá pelos lados de Lagoa Santa, como o que já temos.

E vejo, alucinando, febril, num lindo sonho delirante, Adriano. Desintoxicado dos Danones, suando todo o pão líquido que o desconcentrou, que o transformou no próprio barril,  liberto de seus fantasmas psicológicos, ele volta com as roupas de Jorge, pronto para a batalha mais importante de sua vida profissional. Diz aí: de Roma à Vila Cruzeiro, todo mundo ia achar bonito.

Mas isso é só uma ficção que invento para mim mesmo. Em um outro capítulo, me vejo como aquele moleque de 12 anos de idade que chorou por Romário em 1994, e que não volta mais, nem numa Copa realizada no quintal de casa.

E fingindo ainda mais interesse, escalo meu escrete, tipo Felipão:

GOLEIROS

Fábio, Victor, Diego Alves

ZAGUEIROS

Thiago Silva, David Luiz, Dante, Miranda

LATERAIS

Marcelo, Daniel Alves, Filipe Luiz, Maicon

VOLANTES

Paulinho, Ramirez, Fernandinho, Hernanes

MEIAS

Oscar, Bernard, Wiliam

ATACANTES

Fred, Luis Fabiano, Neymar, Hulk

 

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