Arquivo da categoria: #futebol

O negro Jayme, a loira Fernanda: um pequeno ensaio sobre as (im)possibilidades do futebol e da vida com mais perguntas que respostas

Well, the only person talking about love thy brother is the
(preacher.)
And it seems nobody’s interested in learning but the
(teacher.)
Segregation, determination, demonstration
Integration, aggravation, humiliation
Obligation to our nation
Ball of confusion. oh yeah, that’s what the world is today
Woo, hey, hey

The Temptations- “Ball Of Confusion”

Il calcio è la cosa più importante delle cose non importanti”

Arrigo Sachi

Quem ligasse a televisão segunda-feira, logo após o tradicional horário do almoço, na ESPN Brasil, corria o risco de botar para fora tudo que tinha consumido pouco antes. Ao vivo e a cores (o clichê usado  acaba se justificando no decorrer deste texto), os integrantes da mesa redonda do canal basicamente informavam ao então técnico do Flamengo, Jayme de Almeida, que ele, desde a manhã do mesmo dia, perdera este posto. De folga na praia, comendo “um peixinho com a esposa” em algum ponto do Rio de Janeiro,  Jayme garantia aos jornalistas via telefone que ele não fora informado de demissão nenhuma; que acreditava que poderia perder o cargo por questões técnicas, mas que custava a crer que o processo se daria daquela forma tipo “o último a saber”.

Pode-se desconfiar que Jayme, até sabiamente, fez o jogo da mídia: ciente de que as notícias seguiam quentes horas antes, aproveitou a brecha em tempo real para amplificar o absurdo da situação- já que, de qualquer forma, ele não fora oficialmente comunicado de sua situação.

Pode-se argumentar também que o técnico, que teve seu currículo pessoal louvado por todos os presentes na mesa redonda (Lúcio de Castro fez um bonita e significativa metáfora, de Jayme ser um dos poucos que entra na carvoaria suja e aética do futebol e sai com a camisa alva e limpa), realmente entrava nessa de traído, desinformado, que encontrou naquela mídia (e vale sempre frisar que é aquela mídia, a ESPN, um dos pouquíssimos exemplares de jornalismo avançado que se faz hoje nos suportes tradicionais), um espaço seguro e confortável para, além do sensacionalismo, desabafar sobre sua condição de então.

De qualquer forma, os discursos pareciam alinhados e corretos: o réu, julgado sob a espada pesada e oculta de seus chefes,  encontrava naquela sessão advogados corretos e compreensivos. Num momento pequeno, mas extremamente significativo, os jornalistas assumiam que preferiam perder o “furo”, preferiam estar errados naquela informação apurada com algum esmero a acreditar num absurdo como aqueles. A civilidade, o bom senso, e a providencial vergonha na cara ainda valem como moeda em momentos como esses.

Estamos falando aqui, antes de qualquer coisa, de um encontro de posturas exemplares.

Depois do choque inicial- além da admiração e uma certa sensação de sorte por estar acompanhando todo esse encadeamento de coisas ao vivo- me veio à cabeça que aquela era uma situação particular de um clube- o Flamengo- que se amplia, sem muitas rasuras, para todos os outros grandes escudos do futebol brasileiro.

Cerca de 5 anos atrás, o mesmo clube demitiu um treinador de perfil relativamente semelhante ao de Jayme, Andrade. Ambos tem um histórico dentro do Flamengo; ambos vinham de conquistas de título razoavelmente improváveis, ambos eram consideradas apostas, profissionais sem grife, que chegaram como paliativos e se tornaram a solução final.

Ambos, negros.

Mais do que isso, Jayme, assim como Andrade, é um dos poucos negros treinadores de grandes clubes no Brasil.

Essa questão mapeia um ponto triste e verdadeiro, que vai, infelizmente, muito além da Gávea. O mesmo futebol, esse negócio que, como cantaram os Racionais MC´s é um dos míseros bolsões de riqueza e possibilidade de ascenção social do “Negro Drama”, do enorme, gigantesco, continental Brasil de pele escura e de poucas, pouquíssimas condições, ainda é, fundamentalmente, espelho triste e nítido de nossas miudezas antropológicas e sociais.

Por trás da vontade de ser visível que os jogadores (em sua imensa maioria, muito jovens) demonstram com seus carrões, seus colares e suas festas customizadas à base de muito ego e, insisto, algum senso de revolta, de jogar o ouro todo de volta em cima de vocês, fica escamoteada um fato absurdo.

Se a imensa maioria dos jogadores é negra, os treinadores, o líder, o técnico, o professor, em sua grande parcela é formada por brancos. Não é uma (apenas) uma questão financeira, de acumulação monetária (Neymar, tão negro como Jayme, já deve ter garantido a aposentadoria para não sei quantas gerações de sua família) ; me soa mais como algo simbólico, como se a ideia do cargo de chefia, de comando, fosse ainda  destinado aos “brancos”.

É como se a diretoria do clube carioca se acomodasse na situação onde o negro se situa na maior parte das vezes neste país.  E é extremamente forte e notável que ele aconteça, e de certa forma pela segunda vez, no chamado maior clube do país: dimensiona ainda mais nossas misérias éticas, amplifica de forma mais cruel a sensação de que a noção de povo, de massa, funciona apenas enquanto cada um cumprir, calado e respeitosamente, seu papel.

Os negros que levantam as taças são majoritariamente comandados por brancos.

É simplista o raciocínio? Pode até ser. Mas é urgente demais para passar…em branco.

Jayme, ao vivo, não falou de cor de pele, não citou o caso Andrade. Jayme não expressou a coincidência de ser, novamente. um tapa buraco, um sujeito que muitas vezes foi notado apenas como algo provisório,  que não serve para líder e que pode ser tratado daquela forma.

Jayme apenas desabafou, absurdado, incrédulo, que um trabalhador, como outro qualquer, estava passando por mais um caso de desrespeito moral. Se essas questões estavam todas ali, nas entrelinhas fora-do-campo é só mais uma obrigação que temos em ler, em notar que o futebol é ainda muito análogo às tradições e, esperança, sempre esperança,  às transformações pelas quais nossa sociedade passa e ainda pode passar.


Uma destas transformações é a inserção da mulher, do sexo feminino como atuante dentro do campo, como participante ativa do jogo- e não escanteada no papel de “esposa acomodada com a grana do marido”, “maria chuteira”, “repórter/apresentadora gostosa”, entre tantos outros papéis por tanto tempo distribuídos e congelados pela narrativa do esporte.

E quem chegasse no bar onde assisti ao clássico no domingo, e escutasse os gritos de “cadela, puta, vagabunda”, especialmente entre os cruzeirenses; ou os “elogios” de “gostosa, delícia, tesão”, compartilhados por ambas torcidas, e conhecesse um pouco do ambiente histórico do esporte, dificilmente conseguiria entender o que se passava. Os palavrões no feminino, mirados no caso para a bandeirinha Fernanda Colombo na TV, ainda são uma novidade nas cercanias masculinas do ludopédio.

Passado o susto inicial (porque incomoda e muito escutar alguma pessoa do sexo feminino ser vilependiada aos brandos com esses termos em qualquer situação) me veio o óbvio:

Ora, se passamos a vida toda xingando o juiz, porque não xingaríamos a juíza?

O futebol ao vivo, in loco, ainda é o lugar onde o pai ou a mãe liberam o filho(a) para xingar, para falar palavrões, colocar para fora todo tipo de animosidade verbal, como num contrato de exceção, desde que toda essa agressividade venha com um tom lúdico, brincalhão, como se assiste um filme, uma comédia, um esquete de humor politicamente incorreto.

Mais do que isso: o futebol (e talvez os ambientes de esporte ou as audiências de competição em geral) é esse espaço meio deslocado,  meio permissivo, onde alguns princípios morais parecem entrar em suspensão naqueles 90 minutos. “Ganhamos roubado, mas é gostoso“; “o título é mais importante”; “a vitória acima de tudo”, “o juiz é um viado”, “ô técnico filho da puta”; temos uma extensão infinita de frases e posturas pouquíssimo louváveis dentro do estádio de futebol.

Então, assim como a alegria de um título nos faz acreditar na capacidade do ser humano ainda sonhar e conseguir, a presença do juiz ali- desde sempre a figura mais desacatada em campo- nos faz pensar que outras frustrações se realizam de forma material a cada grito, a cada impropério. Não dá para editar a vida apenas na parte boa.

Mas, arrisco, esse “cadela“, tosco, nojento, pode também soar como um espécie de conquista, no sentido de quebrar o silêncio e atestar uma presença, que deve ser muito, muitíssimo comemorada. Não sob gritos de “cadela”, claro, mas…

Em quantos lares brasileiros a presidenta não recebe todo tipo de saudação pouco afetuosa, diariamente? Não, não é uma questão de igualar, simplesmente a coisa, ir pro mínimo denominador comum, medir as agressões com a mesma régua. Mas é saber que essas agressões estão dentro de um contexto que, nem sempre, sinalizam uma barbárie catastrófica.

Como diz Karina Buhr: sexo frágil é o c…Sexo ágil, isso sim.

“Macaco”, “Cadela”, “Viado”…são termos que devem e podem ser esvaziados de seus sentidos, digamos, tradicionais, para se transmutarem  em algo que sinalize mudanças sociais significativas. A graça agora é não deixar nada disso passar; questões que antes eram dadas naturalmente (“Lugar de negro é ali, lugar de mulher é acolá“, etc etc etc) hoje não descem sem uma boa dose de reflexão e ação.

Estamos falando do sinal do machismo/racismo/misoginia/ignorância nossa de cada dia ou estamos falando de um jogo onde as regras fogem do senso politicamente correto?

E perceba: toda autoridade, INDEPENDENTE DE GÊNERO está aí para ser contestada, discutida e , respeitosamente discordada. E ainda bem que é assim.

No futebol, essa questão me parece novamente um jogo simbólico: árbitros de qualquer espécie- seja o filho da puta do seu chefe que está aí vigiando você, que lê esse texto no trabalho, seja a vadia da crítica de cultura que assina aquela resenha negativa de seu artista querido,  seja o viadinho que escreve esse blog cagando regras, etc, etc, etc- está nessa posição para aguentar essa bronca mesmo.Afinal, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, já disse Sheldon Cooper à Penny, depois de perder um duelo.

Tudo no limite do respeito, da integridade moral, física, etc.

A questão  é que, graças, vivemos uma época onde essas noções (limites, correção) estão sendo tensionadas ao extremo. O que pode e o que não pode? O que é “viadinho” e o que é “vadia“? O que é fabulação, ficção, personagens que assumimos ao torcer (a criança educada que se libera no estádio) e o que é crença, o futebol como desculpa para as mais terríveis e toscas certezas e posturas ideológicas?

Ainda estamos construindo tudo isso, partilhando esses sensíveis, descartando narrativas absolutas e tentando mobilizar e, mais difícil, harmonizar novos contextos. Por que o futebol, pequena representação do mundo, da vida, assim como a literatura, ficaria fora disso?

Por que existe o Bom Senso Futebol Clube? Por que um jogador de futebol americano sai do armário? Por que existem as torcidas queer? Por que existe essa nova (e espetacular) representação do Romário?

Me parecem iniciativas, mais do que isso, acontecimentos, anti-folclóricos, no sentido de dispensar as representações anteriores e já mistificadas do esporte. É um sistema antigo absorvendo outras práticas, é um sinal sadio de novos tempos, de novas esferas públicas até. Representações não fixas, que se deslocam, que se sobrepõem.

Elas são unânime e universalmente aceitas? Não, não são. Old habits die hard, e tirar algo de seu lugar comum provoca vaias, ruídos, estranhamentos.

Mas não é, afinal, assim que o mundo anda pra frente?


E por que o Tinga é humilhado no Peru? Por que o Daniel Alves recebe (e brilhantemente, come) a banana? Por que o dono do time de basquete posta mensagens racistas nas redes sociais?

Ação e reação, creio. A semente do intolerável, do totalitário, do conservador, das narrativas e possibilidades únicas, germinam justamente quando percebem rizomas gerando plantas diferentes, novas.

Fato é que é, muito, muito difícil delimitar o politicamente incorreto mas aceitável, e o preconceito em sua forma, mais pura- e que ás vezes, chega de forma mais discreta. Mas talvez seja essa uma missão primordial para os dias que correm: desembaçando isso, várias outras questões devem se mostrar mais nítidas.

O que me leva à uma questão que acredito fundamental, já suspeitada no caso Jayme e ESPN: em tempos confusos como este, temos de acreditar em posturas exemplares- e temos de questionar os velhos exemplos.

De todos.

Mas especialmente das chamadas autoridades, dos árbitros, dos responsáveis maiores que, por voto, mérito, salário, competência, regem essa bagunça supostamente democrática.

Exemplares como representações possíveis de um corpo coletivo, carregado com mais perguntas e questionamentos do que respostas; não de uma soberania que opera com a validade da certeza absoluta. O “exemplar” que sinalize alguns caminhos possíveis, sem fechamentos concretos; ao contrário dos soberanos, que exercem o labor da autoridade por simplesmente exercer.

Os dirigentes rubro-negros não foram exemplares ao agir da forma que agiram.  Eles ignorantemente fecharam questões: o lugar do negro é ali; o valor do negro é assim; o trabalhador e o ser humano pode ser tratado assado.

Alexandre Mattos, dirigente do Cruzeiro, não foi exemplar ao reclamar (com razão, diga-se) da atuação da bandeirinha Fernanda Colombo no último clássico.

Estão tentando promover ela porque ela é bonitinha e não é por ai. Ela tem que ser boa de serviço, profissional e competente. O erro dela foi muito, muito, muito anormal, coisa de quem está começando uma carreira. Se é bonitinha, que vá posar para a Playboy, não trabalhar com futebol”.

Ele fechou, ignorantemente,  várias questões: lugar de mulher bonita é ali; futebol é isso, todo inciante comete erros assim; bem, ela está sendo promovida porque é assado.

Mas, o que o dirigente celeste fez,  no fundo, no fundo, foi agir como o torcedor “comum”.  Coisa que a maior parte dos dirigentes faz,  e são injustamente louvados- seja pelas torcidas, seja pela mídia- por isso. Mas o dirigente, aquele que está em cima, no poder, tem que dar o exemplo. E o Brasil ainda é o país onde dirigente fala de jogador com todos os dentes; de donos de clube que negociam e autorizam o poder da selvageria “anônima” das organizadas; de poderosos de clubes envolvidos com quilos de cocaína.

É muito fácil justificar as imbecilidades que esses cidadãos falam o classificando como um torcedor, é muito fácil aguentar o festival de idiotices dos dirigentes  quando ele se justifica como igual ao neo-arquibaldo ou ao pós-geraldino.

Mas não, ele não é.

Assim como a imprensa, como brilhantemente aponta Rafael Gomes, não é.

Assim como o político, o presidente, o padre, o professor, o policial, etc também não são. De certa forma, a “cadela” da mesa do bar não é o mesmo “cadela” do dirigente que sugere à bandeirinha à capa da Playboy. Em termos absolutos, pode até ser ou não: o dirigente e o torcedor podem, ambos, serem machistas incuráveis, ou não (o que, particularmente, tendo a acreditar, não sei porque. Otimismo, talvez).

Aí está uma outra diferença, mal que assola boa parte do que vivemos. Dirigentes, de qualquer natureza, tem uma dificuldade tremenda de assumir a responsabilidade do que são: dirigentes, gerenciadores, gente que toma a frente das coisas, gente que tem de ser exemplar.

Autoridade tem de ser vigiada, assim como nós, abaixo de todas as autoridades, somos vigiados. É assim que pode funcionar, via inversão de radares.

Difícil é traçar a linha que separa  e permite o exemplo paterno, do exemplo, digamos social, da responsabilidade midiática, do alcance macro. Principalmente se acreditarmos que, é no micro que as grandes revoluções se fermentam, nas políticas do dia a dia, do cotidiano. E não, não é este blog que vai dar conta de tudo isso.

Quem vai dar conta de tudo isso somos nós, relativizando, moldando, dividindo responsabilidades e cuidados e contextos. A distância entre o “macaco” e a “cadela”, às vezes, parece muito pequena, mas não é. A distância entre o negro demitido e a loira que só serve para a Playboy, às vezes parece muito longa, mas não é.

O que sugere-se aqui é pensar o esporte com essa carga de responsabilidade, algo muito além do escaninho do entretenimento ao qual ele parece, convenientemente relegado por aqui. Moramos em um país onde sua maior figura política, o homem que mereceu um “ismo” para si, usa como mote francamente popularesco, em tons algumas vezes tosquíssimos, sua paixão pelo esporte, por um clube; ao mesmo tempo em que vivemos em um país que sediará uma copa do mundo, pilotado por uma mulher.

Está tudo junto e misturado. Não fica muito difícil ligar os pontos. A dureza está em formar um desenho interpretável para todos; uma linha reta que trace uma narrativa certinha, sem percalços ou erros de leitura.

Mas será que isso existe?

Calamidade pública na República Independente e Autônoma Seleção Brasileira: não temos camisa 9

Olha só, por mim #nãovaitercopa, e a que realmente me importa enquanto digito essas é a Libertadores. Acho todo o contexto tão escabroso que o que me resta é criar para os 23 que vestem a camisa-pátria uma república autônoma, uma forma de conseguir falar de futebol/copa/Brasil sem se sentir minimamente enojado.

Mas se tiver, bora fazer o trem direito, pelo menos nas quatro linhas. E estamos com uma treta séria, seríssima, calamidade pública e de urgência na República Independente e Autônoma Seleção Brasileira: nobis IX shirt, sopram, com razão, as fumaças sagradas saindo das cornetas das mesas redondas- esta instituição impressionante do lazer/intelectual televisivo brasileiro (sem ironia, friso).

É isso, ex-geraldinos e pós-arquibaldos: não temos camisa 9, aquele centroavante “faz mais um pra gente ver“, aquele herói da pequena área, aquela figura mítica construída por empurrões, coiçadas, bundadas, bicos, barrigadas; enfim mau tratos à bola que no fim das contas realizam o que importa: fazê-la dormir nas redes, mesmo com os gritos insanos da galera.

Os esquemas táticos existem também para substituir essas saudades inúteis, claro: bota o Neymar mais na frente e tudo se resolve. Mas, o que fazemos com nossas necessidades além-prancheta? Não dá para dispensar nosso imaginário assim, assim como também não dá para jogar todo o peso político/social/econômico de nossa República no corpo meio bichado do excelente Fred, o atacante único, o sujeito que além do imenso talento, é daqueles que nasceu com o rabicó (como diriam na sua Teófilo Otoni natal) virado para a lua.

E quem é o reserva de Fred?

E com todo respeito ao vida loka Jô: não me convence, não me deixa seguro, independente de paixão clubística. É um craque? Não. Segurou a bronca quando chamado? Segurou. Está jogando bem este ano? Não. Saldo final da matemática: negativo. Mas escravos de Jô estamos.

Não estamos querendo Coutinho. Reinaldo. Careca. Ronaldo. Leivinha. Nunes. Baltazar.  O filé do filé.  Não, nesse momento osso duro, sonhamos hoje com um DVD directors´cut dos melhores momentos do Jardel; comemos torresmo saudosos daquele clássico do Viola; lembramos dos cabelos espetados do Luizão em 2002; do simpático Evair, do gigante Marcelo Ramos, do Guilherme Três Lobos, e claro, óbvio, ululante, de Ronaldo Nazário. Dos eternizados na voz de Januário de Oliveira como Túlio Maravilha, Super Ézio,  Charles Guerreiro e Valdir Bigode. Isso pra ficar na turma dos anos 90.

Essa nostálgica lista- seleção, se pensarmos que escalei 11- faz pensar: porque não temos mais esse NÓVÃO, sangrento, matador, impiedoso? Por que, nos últimos anos, nossos olhos brilham mais para volantes ou até goleiros, e não pela mítica figura do centroavante? Vamos estabelecer um arco histórico, do tipo “Como era bom meu goleador”, a partir dos últimos 10 anos de campeonato brasileiro.

2012 Fred (Fluminense) 20
2011 Borges (Santos) 23
2010 Jonas (Grêmio) 23
2009 Diego Tardelli (Atlético-MG) e Adriano “Imperador” (Flamengo) 19
2008 Kléber Pereira (Santos), Keirrison (Coritiba) e Washington (Fluminense) 21
2007 Josiel (Paraná Clube) 20
2006 Souza (Goiás) 17
2005 Romário (Vasco) 22
2004 Washington (Atlético PR) 34
2003 Dimba (Goias)

fonte: Campeões do futebol.com.br

Claro que esta é uma lista que trata de uma temporada, o que inclui brilharecos nunca mais reprisados. Dimba, Josiel, Kléber Pereira, Souza e Keirrison, por exemplo, fizeram água. Os outros nomes ( Romário não conta; Romário é Deus), longe de seus melhores momentos (ou seja, além dessa lista), não são exatamente memoráveis- e lembremos que alguns estão aí, na ativa: Tardelli ( seria meu candidato para a vaga se não estivesse em péssima fase), Borges (não dá), Jonas (bom jogador, precisava voltar para o país e , digamos, renascer midiaticamente). Sobraram Washington e Imperador.

Olhemos para nossas opções atuais: algum deles é mais ferino, mais confiável, que o Coração Valente, por exemplo? Que, aliás, nunca foi um habituê da camisa canarinho (nem dez jogos, pelos idos de 2001/2002)…

As opções disponíveis e atuantes são, francamente, de chorar. Falo do  Pato (quá), Éderson, Alecssandro Lek Lek,  do Hernane Brocador, do Kardec, do Rafael Moura do Waltinho (by Renato Gaúcho), Damião, do Caça-Rato (piadinha galera)… dessa turma toda aí que, no desespero do desespero, tem sido cotada nos butecos midiáticos ou não. Loucura, loucura, já que na real, são jogadores que não são unanimidades nem em seus próprios elencos.

Grandes talentos na posição, como Kléber e Nilmar, parecem perdidos na névoa do tempo, das escolhas, e da sorte, mesmo estando os dois em atividade.

Não é surpresa notar que o melhor time, do melhor ataque do último brasileirão, teve como ponto fatal para os adversários o chamado “artilheirismo intercambiável”: diversos jogadores (Borges e Goulart com 10, Ribeiro, Nilton, Vinícius Araújo e Wiliam com 7) se revezaram como goleadores.

Não é apenas interna a questão: lá fora, nosso melhor atacante ( e nem é um matador de origem) é Diego Costa. Que fez muito bem ao esnobar a CBF. O resto joga longe, muito longe para serem sequer cotados, como (o bom) Wagner Love ou (o fraco) Aloísio. Cito Robinho aqui apenas pela obrigação de citá-lo (apesar de existir sim a possibilidade de ser convocado amanhã, o que apenas amplifica o tamanho da tragédia).

Sinceramente vejo duas possibilidades, as duas no campo dos milagres, em tons diferentes de transfigurações.

Vejo, pragmaticamente falando, Luis Fabiano. Não consigo deixar de pensar nele por duas razões: falta concorrência, sobra experiência. E detesto pensar nele por, também, duas razões: não está exatamente na sua melhor fase, e, vida loka por vida loka, prefiro um que concentre esse lado fora das quatro linhas, lá pelos lados de Lagoa Santa, como o que já temos.

E vejo, alucinando, febril, num lindo sonho delirante, Adriano. Desintoxicado dos Danones, suando todo o pão líquido que o desconcentrou, que o transformou no próprio barril,  liberto de seus fantasmas psicológicos, ele volta com as roupas de Jorge, pronto para a batalha mais importante de sua vida profissional. Diz aí: de Roma à Vila Cruzeiro, todo mundo ia achar bonito.

Mas isso é só uma ficção que invento para mim mesmo. Em um outro capítulo, me vejo como aquele moleque de 12 anos de idade que chorou por Romário em 1994, e que não volta mais, nem numa Copa realizada no quintal de casa.

E fingindo ainda mais interesse, escalo meu escrete, tipo Felipão:

GOLEIROS

Fábio, Victor, Diego Alves

ZAGUEIROS

Thiago Silva, David Luiz, Dante, Miranda

LATERAIS

Marcelo, Daniel Alves, Filipe Luiz, Maicon

VOLANTES

Paulinho, Ramirez, Fernandinho, Hernanes

MEIAS

Oscar, Bernard, Wiliam

ATACANTES

Fred, Luis Fabiano, Neymar, Hulk