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Música sem fronteiras

Coluna Esquema Novo publicada no jornal Estado de Minas em 29/07/2006

A banda mais promissora do Brasil vem do Acre. Uma das cenas mais movimentadas de música alternativa brasileira está fervendo junto às temperaturas locais de Fortaleza. Ainda no Nordeste, em Natal, um ótimo exemplo de como mesclar em um grande festival música nova e bandas de forte apelo popular. Já em Cuiabá, temos um festival que entrou de vez na rota dos grandes eventos de música independente do Brasil, revelando também uma pequena grande banda.

Há tempos atrás, seria difícil acreditar em premissas como essas. Nos dias de hoje, não querer enxergar isso só encontra uma justificativa possível: a desinformação. Não há preconceito que justifique os olhos fechados. A produção de música brasileira hoje é descentralizada. Finalmente. Quando falo em descentralização, falo basicamente da aceitação (não confundir com “benção”, recurso comum da mídia brasileira) do grande eixo Rio -São Paulo, quanto ao que vem de longe. O olhar estrangeiro em relação à música do próprio país não é mais uma constante entre mídia e público em geral.

Culpe-se a internet, ao programas de produção musicais caseiros, as tarifas mais baratas de transporte aéreo…A tão criticada globalização foi, de alguma forma, reinventada pelos chamados independentes, a terceira margem da indústria fonográfica. É justamente essas possibilidades todas abertas pela comunicação global que cada taba das aldeias têm ateado som com um alcance absurdo. Nada de pejorativo na expressão aldeia: neste caso, trata-se da vitória das regionalizações, sem necessidade de carregar o infame gosto dos “regionalismos”, aquela obrigação quase maniqueísta em se promover através das raízes. Uma leitura que esbarra perigosamente no exótico, a de estrangeiros dentro do próprio país.

Dois exemplos ilustram, na prática essa quebra de fronteiras provando o uso de alternativas diferentes para o mesmo fim. Los Porongas, apesar do nome esquisito, é uma banda de rock pronta para consumo em massa, tamanha precisão de seus refrães e o cuidado com que embalam seu pop influenciado em doses iguais por Radiohead e Nação Zumbi. O único sinal de que nasceram no Acre está no batismo da banda. Poronga é o chapéu típico dos seringueiros locais. Mas têm uma evidente preocupação em se localizarem como vindos de lá, e mais importante, batalham por isso, dão exemplos. Além da divulgação natural que a banda promove, excursionando pelo país,eles mesmos produzem um festival, o Varadouro, buscando incentivar a produção local a mostrar a cara e conseguirem resultados como eles mesmos conseguiram.

O Mada é o tipo de festival que cumpre exatamente o que propõe sua sigla: música alimento da alma. Sim, é bancado com o patrocínio de gigantescas corporações comerciais e com ajuda do dinheiro público, mas- ei- não é esta também a função de estruturas como eles? O grande diferencial do MADA para nosso tradicional Pop Rock Brasil, por exemplo, é simples: sua fórmula e sua localização, Natal, Rio Grande do Norte. Nele se apresentam os grandes nomes do pop brasileiro (que nem sempre tem a capital potiguar como rota obrigatória), mas o grosso de sua programação é formado por bandas locais e uma bela catada no que de melhor tem sido produzido nos porões do país. A edição deste ano apresentou durante três noites, nomes tão díspares quanto Biquíni Cavadão e Cansei de Ser Sexy. Assim como uma banda acreana, o festival é um caso que sintetiza com precisão essa expansão do mapa musical brasileiro. Outros exemplos não faltam: arrume sua melhor bússola e corra atrás.

É estranho! É divertido! É dançante! É o Mordeorabo!

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Estado de Minas em 06/07/2006

Quem avisou pela primeira vez foram dois amigos, Guto e Vítor, falando de uma novíssima banda que apareceu no campus da UFMG, dando ênfase aos adjetivos dançante e instrumental. Depois foi o Claudão, proprietário do Bar A Obra, uma das maiores incubadoras de boas novidades musicais da cidade, que aprovou a qualidade de um bando de moleques que “tocam muito”, formando um dos grupos mais promissores da cidade.

Quando Fred 04, do Mundo Livre S/A, confidenciou ao Terence (que também escreve neste espaço) no último festival Bananada, em Goiânia, que só faria o próximo show da sua banda em Belo Horizonte se estes mesmos guris fizessem a abertura, eu mesmo já tinha assistido ao Mordeorabo o suficiente para formar uma própria opinião. E acrescentando mais um no bolo de elogios: eles têm um senso de humor adorável!

A começar pelo batismo. O pop nacional é pródigo em nomes cretinos, mas até alguns amigos mais liberais acharam estranho quando convidei os para ir conferir o Mordeorabo. Mas o quarteto formado por Bruno Corrêa e Raphael Righi nas guitarras, Max Duarte no baixo e Pedro Hamdan na bateria, não é tão assanhado assim. Há cinco anos eles começaram a tocar no estúdio do Murillo Corrêa( pai de Bruno ) registrando algumas vinhetas instrumentais. ”Num desses CDs, desenhamos um BICHO, clara a intenção, dentes procurando abocanhar o rabo”, explica Pedro. No espaço que sobrou no objeto, profeticamente foi escrito “Todas as versões mordeorabo”.

As estranhezas – e os diferenciais, moeda valorosa no pop hoje em dia – não param por aí. Para os mais curiosos, decifrar os títulos de músicas instrumentais, sem informações de texto, é um desafio tão interessante quanto escutar as próprias. Mas entre um baixo que lembra os bons tempos do Police, uma guitarra que pode colocar a pista para ferver com a precisão de um Franz Ferdinand e uma bateria jazz – e isso tudo em uma única música – é um verdadeiro enigma descobrir o porque de canções batizadas como “Ninguém se Despediu Do Casal Gay” e “Sunga, Sunga, Sunga”. Segundo a banda, as músicas ganham nome à medida que vão tomando corpo. “Sunga Sunga Sunga”, por exemplo, “nada mais é que a repetição (por três vezes) da COISA que o baixista usava por baixo das calças”, durante um ensaio. “Já outras têm a graça moldada pelo tempo, qual falésia arrepiada pela lambida das ondas, sussurros do vento…!”.

Falésia arrepiada? Para tentar facilitar uma descrição sonora do grupo, tentemos um rótulo, redutor como quase todos: o de música instrumental, “dançável”, cheia de quebra de ritmos e que, bingo! , mesmo assim pode ser perceptível como música pop de fácil alcance. É possível capturar entre o público fiel que comparece aos shows (“banda de muitos amigos, graças a Deus”, garantem) insuspeitas reboladinhas e até algumas tentativas de corinhos, acompanhando uma frase da guitarra. “Até hoje, não sentimos falta de um vocalista. Como as coisas foram sendo feitas, natural que o espaço duma eventual cantoria fosse preenchido por um gemidinho de guitarras, um soluço de baixo, um ricochete de bateria…! Mas, confesso: tenho ganas de cantar, quase um sonho” revela o baterista.

Normalmente a gente sempre deseja que os sonhos de alguém se realizem. Mas nesse caso, vale quase torcer contra. Afinal, pouca gente pode tirar uma onda falando que algumas das melhores músicas pop produzidas em sua cidade não tem letras nem vocais. E justamente por isso despertam a curiosidade de muita gente

Coverdose

 

Coluna Esquema Novo publicada no jornal Estado de Minas em 13/04/2006

(Uma das colunas mais polêmicas de “toda a história do Esquema Novo”. Arrisco dizer que só perde para o clássico texto do Terence Machado que incendiou as discussões a respeito de música independente, política, etc, no Brasil. Música cover: um tema espinhoso para Belo Horizonte. Até ameaça de porrada recebi. Ai como jornalista sofre. Infelizmente, segue bastante atual.)

Faltam-me dados precisos, mas, seguramente, Belo Horizonte é uma das capitais mundiais do…cover. Sim, a fama musical da capital mineira vai muito além dos clube esquinistas, do heayy metal de Sepultura e Sarcófago e do pop vitorioso de Skank, Pato Fu e Jota Quest. Alcança também a imensa horda de bandas que remontam o repertório de outras.

A questão é tão séria que BH tem também uma das melhores bandas cover do mundo. A competência da “Sgt Pepper´Band”, especializada no repertório dos Beatles, chegou até Liverpool, durante a International Beatle Week, evento dedicado a bandas covers dos Beatles.Além de terem sido a primeira banda latino-americana a participar do evento, em 1994, os mineiros foram considerados um dos três melhores covers dos Beatles, em todo o mundo. Falando em festivais de rock, um dos mais tradicionais da capital mineira, o Camping Rock, tem boa parte de sua programação dedicada a bandas covers.A partir do dia 28 de abril, grupos como o Lurex (especializado no repertório do Queen) e o Pink Floyd Reunion juntam forças no Balneário da Brisa para a edição deste ano.

Mas essa fama de ter nossa programação musical bastante pautada por grupos covers é algo do qual podemos nos orgulhar?Sinceramente, não. O caso não é nem a qualidade das bandas – até porque para “tirar” cover com alguma fidelidade, são exigidas naturalmente algumas habilidades técnicas que são mostradas por estas bandas. Claro que a banda cover pode servir de porta de entrada para a molecada se enturmar com os originais. Mas daí a fonte secundária gerar mais interesse que a fonte primária… Chega –se a estranha situação de uma banda como o Concreto, que possui um repertório próprio de muita qualidade, atrair bastante o público por suas competentíssimas versões de clássicos como “Back In Black” do AC/DC.

Supõe se que o cover seja um início para um trabalho pessoal, próprio. O que é muito mais interessante do que escutar versões de outros. Muitos músicos acusam a tal “cultura de boteco” na cidade, onde as pessoas querem mais é tomar sua cerveja escutando música conhecida. Cria –se então um perigoso círculo vicioso que acaba muitas vezes desincentivando a criação de música nova, ou autoral, se preferirem.E no fim das contas é isso que faz a produção musical da cidade dar um passo além do puro entretenimento. Também não acho bonito o enorme interesse do público em busca de músicas já gravadas, registradas e eternizadas em disco. Mas se as próprias bandas não se mostrarem dispostas a reverter o quadro, fica difícil. A acomodação é vizinha da falta de criatividade, e o conservadorismo é das características menos valorosas que a criação artística pode receber.

Tocar cover é ruim? Não. Rogério Flausino, Samuel Rosa, Marina Machado e tantos outros valores da música mineira já interpretaram canções de outros autores em início de carreira e continuam cometendo suas versões até hoje.Mas tocar exclusivamente material alheio, se transformar em um profissional do cover, é dose.