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Radiohead e a teoria do caos

ilustração: Marcos Batista

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Estado de Minas em 25/02/2011

Nada é normal no mundo do Radiohead. A ética da banda foi resumida pelo vocalista Thom Yorke, nos idos dos anos 1990: “Seja organizado na sua vida pessoal, para poder ser caótico no trabalho”. É por aí. Se pouca gente tem acesso à “vida de verdade” dos integrantes do grupo, muitos têm plena consciência de que esses cinco ingleses carregam, desde 1997, o título de melhor banda do mundo. Não se trata apenas de qualidade musical (alguns já lançaram discos superiores à obra da banda), mas sim de criatividade, de inteligência, da capacidade de ler o mundo atual da música com lentes mais sofisticadas do que o resto. E, claro, de saber confundir com maestria o público, mercadologicamente e artisticamente. Seu recém-lançado disco The king of limbs, foi anunciado via Twitter e Facebook, no dia 14. Quatro dias depois, já estava disponível para download no site da banda. Quanto será que gastaram com o chamado marketing de divulgação?

O Radiohead desfila paralelo em relação ao mainstream e ao underground, justamente por estar completamente conectado a esses dois lados (“Somos os embaixadores do underground no mainstream”, já disse Thom. E vice-versa, é justo dizer), e eles foram capazes de criar uma via única. Qual outra banda é capaz de encher grandes arenas em qualquer lugar do planeta, ao mesmo tempo em que oferece seus últimos trabalhos a preços justos para todos – seja a justiça do sujeito que ainda compra discos (King of limbs, o download oficial, saiu por US$ 9), seja a justiça daquele que não gasta mais dinheiro com música, já que no anterior, In rainbows, o consumidor escolhia o preço a pagar.

Mas nada disso seria possível se o grupo não fosse, realmente, especial. Na primeira metade de suas oito canções, The king of limbs não é para um domingo ensolarado – tentei, e não deu certo – e sim a trilha sonora para um dia de caos em São Paulo, em Tókio, em Nova York, aquele respiro que se consegue em alguma hora do dia, no meio da chuva, do trânsito, do cotidiano. Já a parte final é o esplendor melódico habitual, novas-velhas trilhas para um fim de noite bêbado na Savassi ou uma viagem de carro pelo interior da Islândia. E entre elas, sem geografia tosca nenhuma para explicar, Feral, francamente uma das coisas mais inúteis que a banda já gravou.

Mas, é claro, muitos vão considerá-la a melhor coisa do disco. E essa é a graça do Radiohead – a ponte entre o estranhamento e o conforto. Em meio aos uptempos, os baixos desordenados, as esquisitices de IDM (intelligent dance music, até onde entendi, música dançante para não dançar) existe algo ainda familiar, um ponto de encontro entre o velho Radiohead e o saudoso fã da banda: um refrão aqui, uma melodia assobiável acolá.

Eles já fizeram isso? Sim, no magistral e didático Kid A, há 10 anos. Algum problema? Não exatamente. Até porque, cá pra nós, o trabalho do Radiohead ainda permanece indecifrável em alguns momentos. Para alguns, um enigma intolerável. Para outros, uma aventura rara no mundo da música popular. E na organização de sua casa Thom Yorke pisca seu olho bichado com satisfação. Com todo o caos do mundo – de novo – a seus pés.

O mal de Gessinger

crédito: Glaucio Ayala/Divulgação
crédito: Glaucio Ayala/Divulgação

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Estado de Minas, em março de 2011.

(Rendeu bastante na época, principalmente entre o exército de fãs do homem. E o próprio Gessinger, num grande arroubo de espirituosidade ( faz falta pro resto) mandou um tweet corrigindo a menção na capa do disco “O Papa é Pop” ( “Era veludo cotelê. rs”). Curiosamente, poucas semanas depois fui escalado para entrevistá-lo para o Alto Falante. Me lembro dele, de cara, dizendo: “Tu é o cara do ‘Mal de Gessinger’! Vambora”. Grande sujeito.)

Trata-se de fenômeno recente e, mesmo ciente de que este espaço não é divã terapêutico, resolvi dividir com você, leitor. Estou com um problema, que, depois de anos alimentados à base de música supostamente inventiva e louca, pensei que estaria livre: o chamado Mal de Gessinger. Trata-se de um impulso incontrolável de escutar a obra desse sujeito peculiar, que durante anos espalhou seus sintomas (overdose de aliterações, autoreferências, estéticas de gosto duvidoso etc.) mais fortes por meio de um vírus chamado Engenheiros do Hawaii.

Por Cristo, pensei que a minha simpatia recém-nutrida pelo Rush era apenas um caso isolado nessa onda de reavaliar meu gosto musical. Se alastrou e alcançou sua espécie de filial brasileira, liderada por Humberto Gessinger. Depois de alguns sonhos me enxergando feliz em karaokê na Bulgária, ao som de O Papa é pop, de me pegar filosofando em cima de coisas como Todo mundo é uma ilha, até pensar com certo carinho no músico antes de assistir a um jogo do Grêmio, e pior, me divertir com a biografia lançada por ele tempos atrás, é melhor deixar para falar sobre o novo disco dos Strokes em outra ocasião.

Aliás, melhor nem falar nada dos nova-iorquinos. Porque com seu novo disco, eles tiveram a proeza de soarem extremamente datados, com tão pouco tempo de existência, e não parecem conseguir sair dessa situação. Uma pena. Pra eles. Porque Gessinger nunca pensaria dessa forma. Seu sonho, assumidamente, sempre foi soar datado, velho, confortável, mudar para não mudar. E quer saber? No carrossel pop não ganha mais quem sobe mais alto, e sim quem fica mais tempo girando. A obra do gaúcho soa sábia na sua estática, nas suas poucas manobras arriscadas, na clareza absurda de se enxergar em seu próprio recorte e dimensão. Todo mundo é uma ilha, certo, mas no caso dos Engenheiros, muita gente é esta ilha, formando uma espécie de arquipélago velho, sisudo, vilipendiado, mas extremamente apaixonado e convicto. Perto de tantas marolinhas e ondas da estação, esta sim é a ilha que não se curva.

Mas meus sintomas são mais graves, a ponto de considerar que o melhor da obra gessingeriana (A revolta dos dândis, Ouça o que eu digo não ouça ninguém, Filmes de guerra… e mais um bocado de coisas avulsas) não faz tão feio assim perto de seus melhores contemporâneos. E pior, muito pior: deixa pra trás uma enorme percentagem do chamado novo rock brasileiro independente. Porque comparar as proezas pop de Além dos outdoors, os arranjos espertos e esquisitos de Filmes de guerra, Canções de amor e Cidade em chamas, o baixo de Sob o tapete, os versos imortais de Crônica com nosso mainstream atual é mais sacana ainda que o tumbler, que fizeram em homenagem ao músico (dê um google e divirta-se).

Sim, a estética do gaúcho alcançaria pontos inacreditáveis de mau gosto. Com a mesma convicção em que vestiu uma calça de moletom vermelha na capa de um disco, ele escreveu versos como os de Canibal vegetariano devora planta carnívora, uma espécie de auge do Mal de Gessinger. Mas quando a gente olha pro lado hoje e enxerga tão poucos com os méritos inegáveis da obra do cara, dá pouca vontade de ficar são. Aos doentes mais antigos, parabéns pela dose de razão. Aos recém-infectados, saiam do armário. Atualmente, faltam vacinas mais eficientes.

Algumas doses de Morphine

 

 Coluna Esquema Novo publicada no jornal Estado de Minas em 24/08/2009

(Obsessão particular, o Morphine de Mark Sandman está sempre em meu radar. Em um dos grandes shows que vi na vida- a Orquestra Morphine, no Festival de Jazz em Ouro Preto- tive o prazer de conhecer e dividir uma cerveja com Billy Conway, antigo baterista do grupo. Quando saquei da mochila esse disco e pedi para ele assinar- procedimento que, assumo, não costumo adotar- ele quase caiu de susto. “Onde você conseguiu esse merda, cara?”. Grande noite.)

Pouco se falou. Pouco se lembrou. No último mês, completaram-se 10 anos da morte de um sujeito chamado Mark Sandman. Morte com requintes quase épicos, aliás, em pleno show na Itália, no palco, devido a uma parada cardíaca. Morte um pouco coerente com a vida do cara: manteve bandas regularmente desde o início dos anos 80 (a melhor delas foi o Treat Her Right), adorava o palco e a idéia de improvisos musicais noite a fora. Chegou a tocar com o brasileiro Leo Gandelman em jam sessions nos bares de Boston. E adorava também tudo aquilo que a noite – e principalmente o fim dela – proporcionava. Uma de suas melhores composições, “Supersex”, é uma coleção de frases soltas em uma noitada qualquer. “Táxi, motel, whiskey, cigarros, super sexo”.

O radar pop tem dessas coisas. Principalmente se nos lembramos que a banda que ele liderava o Morphine, fazia parte da prateleira de difícil classificação no mundo musical. Não vendeu horrores, não deixou grandes sucessos (apenas alguns semi-hits como “Buena” e “Honey White”). Teve discreta rotatividade na MTV quando a emissora transmitia algumas das criativas anomalias que surgiam na América nos anos 90. Porque não era rock, não era pop, não era blues, não era jazz: era uma mistura inspirada e explosiva de cada uma dessas coisas, somada á poesia noir e de clima ás vezes terrivelmente soturnos, como na auto-explicativa “The Saddest Song”. As ambiências musicais geradas por Sandman soavam como o equivalente sonoro para um filme como “Despedida em Las Vegas”, cujo protagonista, vivido brilhantemente por Nicholas Cage, decide levar seu alcoolismo ás últimas conseqüências: o caixão. Beber até morrer, é esta a solução.

Baixo, bateria, sax e a colaboração esporádica de alguns outros instrumentos faziam do Morphine um grupo sem pares na época e até hoje. Como já disse o próprio Sandman, eles eram “pessoas barítonos”, fazendo referência ao tom intermediário do saxofone usado por Dana Carvey (um músico que mais parece um garçom de pub), a afinação estranha usado no baixo de apenas duas cordas e slide de Sandman, o registro quase cavernoso de sua voz e a sonoridade nebulosa conseguida pelo grupo a partir da combinação destes elementos. A droga que inspirou o nome da banda, um poderoso anestésico batizado em referência ao Deus do sono, Morpheu, ajuda a explicar as propriedades narcotizantes do grupo.

Sim, escutar a discografia completa do trio em seqüência, como faço agora, não é tarefa das mais solares ou recomendáveis para um dia muito animado. Mas em doses certas, é uma companhia e tanto. Porque o Morphine é a trilha do aquecimento, do porre e da ressaca. E entre cada uma dessas etapas, pedaços preciosos de vida espalhados com muito lirismo em canções como “In Spite Of Me” e uma capacidade literária de contar boas histórias, como “Thursday” e “The Night”.

O poder farmacêutico do Morphine ainda pode curar muitas dores daqueles ouvidos mais aventureiros, cansados das estabelecidas estruturas do rock.

São poucas outras bandas podem usar no currículo o adjetivo “único” sem constrangimentos. O tempo, esse sábio juiz, provavelmente vai tomar conta para que o trabalho de Mark vá ganhar importância nas próximas décadas como outros grupos cult de anos anteriores. Quando esse tempo chegar-e o tal revival dos anos 90 está começando não só para regurgitar porcarias-não deixe de tomar algumas doses de Mark Sandman.