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Black Crowes – “Amorica”





Resenha publicada no jornal Hoje Em Dia, em 26/11/2004

“Não foi isso o combinado, eu seria o guitarrista e você seria o vocalista, carregado de mística?” 

O trecho do diálogo acima foi tirado do filme “Quase Famosos”, o monumento cinematográfico do ex- jornalista musical Cameron Crowe ao rock n´roll. Em torno de uma banda fictícia, o Stillwater, ele recriou o espírito dos anos 70 refazendo a mitologia estradeira e arquitetada na tríade sexo, drogas e rock das bandas mais emblemáticas da época, como o Led Zeppelin, o Who, Faces…No frase citada, o guitarrista cobra do vocalista a clássica dinâmica das bandas referidas acima. 

E se a história narrada por Cameron Crowe em 2000 fosse realmente contemporânea aos anos 90? Bem, seriam grandes as chances da banda retratada ser os Black Crowes. São eles que preenchem perfeitamente todos os clichês que enfeitiçam e ajudam a renovar o público para esse tal de rock n´roll: longos cabelos, solos e shows, um apreço assumido por drogas alucinógenas como o ácido e a maconha, e uma explosiva mistura do binômio paz e amor cunhado pelos hippies com o temperamento instável entre o front man Chris Robinson ( carregado de “mistique”, como ensinou o guitarrista fictício Jeff Bebe) e o guitarrista solo, Rich -ainda por cima irmãos, seguindo a tradição encrenqueira dos Davies nos Kinks, dos Reid no Jesus and Mary Chain, e – porque não? -dos Gallagher no Oasis. 

Todos estes detalhes se tornariam confrontos que foram capazes de enterrar a banda. Assim como as bandas setentistas, praticamente todas que ousaram repetir em outras décadas o espírito vintage da chamada época “áurea” sucumbiram ao dialogar com seu próprio tempo. Basta lembrar do “falecido” Axl Rose, descansando inquieto com cinzas das glórias passadas do Guns N´Roses, banda que representou de certa forma (e mais intensamente) nos anos 80 o papel “conceitual” exercido pelos Crowes no decênio seguinte. 

Se a história dos corvos negros não reprisou o final feliz sugerido em “Quase Famosos”, deixou para a posteridade belos capítulos reais, estórias essas que colocam outras bandas retrô como meros coadjuvantes – do fraco Blind Melon ao irregular Pearl Jam – na saga trilhada em busca do rock n´roll puro, sem gelos , sem misturas mais aparentado com as tradições do r&b and blues do que com o rap, o heavy metal ou adjacências. 

Em 94 eles escreveram o capítulo mais perfeito de sua obra. “Amorica” não tem a crueza hard da estréia (“Shake Your Money Maker”, de 90) , nem a elaboração do segundo(“The Southern Harmony ..” de 92). Mas a lisergia presente no disco supera qualquer outro trecho da viagem sonora percorrida por eles. O sublime wah-wah presente em “A Conspiracy” embala a letra que parece ser uma resposta direta aos críticos da banda sobre a originalidade da banda (“I never stolen nothing, not a thing”) e ainda fazia piada sobre as bandas escolhidas pela imprensa para ser a sensação da temporada (“Did you ever hear the one about last year/It was all a lie/Ain´t it funny how time flies?”). “High Head Blues” tenta um embalo latino, um clima meio Santana, cujo swing acaba desaguando em um refrão memorável. Banda boa que se que preza têm de saber escrever baladas memoráveis, e se os Crowes tiveram sua carreira bastante impulsionada pelo sucesso da linda “She Talks To Angels”, do primeiro disco, “Amorica” atesta essa qualidade dos irmão Robinson com duas pérolas: a fossenta “Cursed Diamond” , que fala em “odiar a si mesmo” e o contra ponto em “Nonfiction”, letra alto astral que recorre aos amores deixados pela estrada. Estrada brilhantemente enaltecida na chapada “Wiser Time”, que fala em percorrer “ mais 3000 milhas em três dias”, em um balanço que poderia ter a assinatura de qualquer instituição clássica setentista, como o Lynard Skynyrd ou Allmann Brothers. 

As cenas dos próximos capítulos mostrariam que o vocalista Chris Robinson se casaria com a mocinha -a atriz Kate Hudson, não por acaso a protagonista do filme de Crowe. Ainda lançariam os peso- médios “Three Snakes and One Charm”(96), e “By Your Side”(99) e –glória máxima- dividiram um álbum ao vivo com Jimmy Page, resgatando o repertório do Led Zeppelin.Em 2001 lançaram o belo canto do cisne “Lions”, quando pouca gente notou que o vôo dos Crowes agora já tinha destino certo- o chão. Agora é esperar quem vai assumir a lacuna deixada por eles neste início de novo século: fazer rock com prazo de validade vencido a mais de trinta anos, mas ainda capaz de criar histórias boas como essas.  

Festa histórica com gente esquisita: Curitiba Rock Festival 2005

Coluna Esquema Novo publicada no jornal Hoje em Dia, em 29/09/2005

Apesar de problemas sérios envolvendo a organização do evento – como o cancelamento em cima da hora dos shows de Lobão e Hurtmold-, o Curitiba Rock Festival , realizado no último final de semana na capital paranaense, foi um belo pontapé inicial para a inacreditável maratona sonora que invade o Brasil neste segundo semestre. Nos próximos meses ainda desembarcam nomes como Pearl Jam, Iggy Pop And The Stooges, Wilco, Flaming Lips, Television, Rolling Stones…e mais muitos nomes de peso a acrescentar nesta inacreditável lista.

Mas o Curitiba Rock Festival tem grandes chances de virar o xodó do público que acompanhar tudo isso. Não foi apenas um festival, foi uma autêntica celebração indie, uma turma que, no fim das contas, celebra a si mesma e a seus óculos, seus casaquinhos, seus penteados, seus discos do Pavement, seus All-Star…E Curitiba preenche perfeitamente o imaginário indie de “terra prometida”: eternamente banhada em tons cinzentos do céu ameaçador de tempestades( e não fica só na ameaça: choveu o domingo inteiro) ; lindos parques urbanos e uma melancolia natural que paira sob suas ruas calmas, onde andando poucos quarteirões do Centro Cívico já se encontram ruas de paralelepípedos e cassa moldadas pela colonização européia do sul do país. Para qualquer um que tenha em seu HD cerebral a inglesa Manchester e Morrissey cantando “everyday is like sunday, everyday is silent and grey”, é uma filial e tanto.

E como qualquer grande festa, os problemas iniciais acabam se tornando motivos a serem celebrados. A primeira baixa foi a mudança do evento: da majestosa Pedreira Paulo Leminski- um espaço a céu aberto circundado por uma mata e um lago, com capacidade para mais de 10 mil pessoas- fomos transportados para o modestíssimo Master Hall, que como outras casas no país, de pomposo só carrega o ”hall” que o batiza. Numa comparação, era o Lapa Multishow local, com capacidade para no máximo 4 mil pessoas e olhe lá. O motivo maior para a mudança seria a baixa venda de ingressos a poucas semanas do festival. Não que Weezer , Mercury Rev e Raveonettes, as estrelas maiores desta edição fossem incapazes de carregar um grande público para a Pedreira. Mas uma desastrosa conjunção de fatores, como o anúncio de outros dois grandes festivais de grande porte para o segundo semestre, como o Tim e o Claro Q É Rock ( sem contar o eletrônico Nokia Trends, que aconteceu no mesmo fim de semana do CRF), acabou por esvaziar os bolsos e o ânimo do povo.

Loser manos ( os originais) a vontade no Brasil

Mas não precisava ser muito esperto para fazer o raciocínio: a possibilidade de assistir a essas bandas (nenhuma delas com grande vocação para arenas, verdade seja dita), em um palco bem menor e público idem, valorizava muito a viagem. E Rivers Cuomo, líder do Weezer, a banda amada por 11 entre 10 indies e mentor fashion /intelectual dos mesmos pareceu sacar isso no momento em que entrou no palco. O DJ responsável por animar o público entre a maratona dos shows entendeu direitinho a histórica conjunção destes fatores .Logo após o ótimo show dos cariocas Acabou La Tequila ,que driblaram a ansiedade do público pela banda principal com boas novas como “Rádio Jabá” e a one hit wonder “Biscoito”, o toca discos preparou a moçada com “KKK Took My Baby Away” dos Ramones e “Teenage Kicks” dos Undertones, na seqüência. Duas bandas que passaram para o Weezer, décadas depois, o bastão do “pop-romântico-loser barulhento”. Pouco depois, “Here Comes Your Man” dos Pixies refrescando na memória de todos o monumental show assistido na edição do ano passado do Curitiba Rock Festival, e criando instantaneamente paralelos naturalmente existentes.

Feita a cama, era só se espremer entre os mais de três mil presentes na platéia, que depois de quase quarenta minutos de espera já não agüentava mais assistir aquele entra-entra de roadies no palco. As pernas já estavam cedendo quando, finalmente a banda deu as caras- por falar em caras, onde foi parar o óculos do Rivers Cuomo, aquele quadradinho de aro preto , imitado por quase 60% da população presente no Master Hall? Provavelmente no mesmo lugar em que a sanidade e a habitual timidez dos indies foram quando o Weezer abriu os trabalhos com “My Name Is Jonas”, canção que também abre os primeiro disco da banda, carinhosamente conhecido como “Blue Álbum”. Aliás , todas as faixas de abertura de seus discos posteriores ( com exceção do “Maladroit”, cujo repertório inteiro foi ignorado, maldade com pepitas como “Keep Fishin”) foram executadas. Mas elas foram apenas alguns dos pontos altos de um show que teve apenas pontos altos. Fica a critério do fã escolher qual imagem vai levar para casa e não esquecer jamais: o momento solo de Cuomo empunhando um violão no mezanino do Master Hall, rodeado de fãs e esperando o corinho da platéia, lá em embaixo, em “Island In The Sun”; a troca de posições em “Photograph”, onde o baterista Pat Wilson assumiu os vocais, o cover de “Big me” dos Foo Fighters. Pelo menos um eu tenho certeza do que vai guardar na memória: o guri que foi convidado pela banda e executou (razoavelmente bem!) a clássica “Undone (The Sweeter Song)” ao violão, tipo membro convidado. Eu fico com o coro ensurdecedor durante as favoritas “Say Isn´t So” e “The Good Life” e a certeza de ter assistido pouquíssimos shows tão intensos e perfeitos na vida. A banda também, como assumiu depois em seu website oficial e nos sorrisos distribuídos durante todo o show. Entretenimento em estado bruto, quem falou em loser mesmo?

Só se foram os integrantes do Charme Chulo que fizeram horas antes uma apresentação toda calcada naqueles clichês do rock brasileiro anos 80- vocalista metido a poeta, sonoridade pós punk, muita pose e pouco conteúdo… Charme chulo e chato ( viva Leminski, um dos grandes poetas da terra!). Melhor sorte teve o cearense Cidadão Instigado, que entre o brega e o experimental levantou os ( muitos, claro) fãs de Sonic Youth presentes, principalmente nos momentos em que a guitarra soava como um ganso sendo violentado- tipo experimental, manja? Melhor mesmo quando as composições da banda apareciam, de leve acento regional e despreocupadas em agradar o público a qualquer custo. Mal que sofre os paulistanos do Biônica- assim como muitas bandas da cena indie- que pretende conseguir alguma moral entre a moçada com quilos de barulho e histerismo feminino e com isso também esconder suas composições fracas. Mas ou menos o que deu fama ao (quem?) Cansei De Ser Sexy.

A migração secreta(da música para arte-ui!)

Mas o segundo dia redimiu a ala independente do festival, turma que, diga-se de passagem, é também a razão de existir eventos como o Curitiba Rock Festival ( alô produtores mineiros!). A abertura, com os locais Black Maria não seria a responsável por isso, com sua desgastada mistura de rock com latinidades. O suingue só foi correr solto mesmo com o Móveis Coloniais de Acaju. Se os políticos soubessem da existência de uma banda como essa na cidade, a festa em Brasília seria ainda maior. O show foi absolutamente brilhante, adjetivo que não cabe em seu disco de estréia, produzido por Rafael Ramos, o padrinho de Pitty e Dead Fish. Mas o ex-Baba Cósmico mostrou que sabe das coisas ao perceber nos nove (!) integrantes do grupo um profissionalismo e senso de diversão raros na oportunamente carrancuda cena indie nacional. A banda fez tudo certo para mostrar seu ska/big band em um cenário tão deslocado quanto a cinzenta e chuvosa noite de Curitiba. Figurino exótico, com todos no grupo exibindo elegantes smokings, que depois os identificavam facilmente no meio da fauna uniformizada em jeans e camisetas descoladas. Um cover que todo mundo sabia cantar, fazendo o povo pipocar ao som de “…se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar”. Um dinamismo infernal no palco, com os integrantes revezando espaços o tempo inteiro, prendendo a atenção de qualquer mortal mais desatento. Se existisse alguém já morto, sem problemas: os caras puxaram uma roda no meio da platéia, botando muito indie para brincar de ciranda. De quebra, bons músicos executando boas canções, como o proto-hit “Seria O Rolex?”. Fortíssimo candidato a melhor show da noite, principalmente se levarmos em conta que a apresentação de Karine Alexandrino, na seqüência, foi um desastre. Dispensando uma banda tradicional, a cearense confiou apenas em um DJ , que soltava bases pré-gravadas , e em seu “charme”, sua voz infantil meio forçada , cinta-liga e pernas de fora. O resultado ficou entre o curioso e o constrangedor, com o público esvaziando lentamente o local no decorrer da apresentação, provavelmente assustados com aquela bizarra mistura de Xuxa com Peaches . Sem os berros e o teatro todo, Karine funciona melhor.Seus discos são a prova disso.

Ao Los Diaños, só bastou lamentar o fato de encararem o público depois dos incendiários Movéis Coloniais de Acaju. Sua mistura saltitante de jazz com hardcore não animou muita gente, não. Aliás ânimo era o que mais faltava naquele começo de noite de domingo: a Patife Band, saída direta dos porões dos anos 80, também não conseguiu entusiasmar os presentes, apesar do bom show. Respondendo pela parte “experimental” do CRF, o grupo levou estranheza e atonalidade onde antes existia sopros e metais. Paulo Barnabé honrou o sobrenome, capitaneando um grupo de difícil digestão: letras mezzo poéticas, cacetadas hardcore lidas numa partitura, andamentos completamente esquisitos…o público tentava entender e assistia tudo respeitosamente. A conhecida “Corredor Polonês” colocou um ponto final na apresentação. Por falar em ponto final, o show do Ultramen ganhou um cedo demais. Depois de cinco músicas executadas sem o pique os caracteriza, o combo gaúcho teve de abreviar seu repertório a pedido da produção. Nenhuma explicação oficial foi dada, o que acabou explicitando ainda mais os erros cometidos pela produção do festival.

O Raveonettes veio de brinde, mas acabou fazendo uma apresentação corretíssima e barulhenta, dentro de sua limitação “hype de uns truques só”. Pois bem, os truques foram apresentados (“The Great Love Sound”, “Attack Of Ghost Riders”) e o restante foi assistido com alguma empolgação. Suficiente aliás para esquentar os ânimos dinamarqueses da vocalista Sharin Foo ( “Nico nórdica!” gritava um gaiato durante todo o show), que acabou pulando do palco para a platéia e distribuindo calorosos beijinhos e abraços na moçada. Decepcionante para quem estava no meio da pista e perdeu a chance de tirar uma casquinha da deusa – a melhor coisa a sair de terras dinamarquesas desde os biscoitos amanteigados e o futebol de Michael Laudrup.

Depois do barulho, o silêncio. Era a vez da apresentação mais esperada da noite, o Mercury Rev, responsável por um dos discos mais belos da década passada, “Deserter Songs”. Muita gente parecia não saber disso, já que a lotação do Master Hall já tinha diminuído bastante quando um telão, no meio do palco, foi ligado. No início exibiram uma seqüência rápida de imagens contemplativas intercaladas por capas de discos clássicos – a idéia era “jogar para a galera”, como que buscando uma cumplicidade imediata com o público. Deu certo: pareciam gritos de torcida quando aparecia um disco de Iggy Pop ou do Sonic Youth no telão. Bem vindo ao mundo do Mercury Ver, era essa a senha. “The Secret Song”, grande música tirada do último disco da banda, “The Secret Migration” abriu a hipnose que iria enfeitiçar o público por quase duas horas ainda. No telão, belas imagens complementares as ambiências criadas pela música do Rev- pássaros, golfinhos, a natureza humana e extra –terrena… E uma coleção de frases notórias – de Kerouac a Yoda – que iam piscando no vídeo e serviam quase como tradução instantânea para as letras cantadas pelo vocalista Johnattan Devue. Aliás, ele é um show a parte: seu balé no palco faria Freddie Mercury o mais másculo dos homens! Entornando garras de vinho, o vocalista encontrou conforto no público brasileiro para exibir suas coreografias e movimentos ora desconcertantes ora hilários mesmo, tamanha a afetação.

Deixando o cinismo e a ironia de lado, foi bonito pacas. Um show para se assistir deitado- com um ácido na boca e a cabeça traçando comparações com 1968, Pink Floyd, psicodelia…E mais: foi daqueles momentos onde a música ultrapassa conceitos como entretenimento e alcança o tão desejado status de arte, movendo sentimentos, trazendo questionamentos adormecidos ou ainda inéditos para as pessoas. O repertório apresentado não teve maiores destaques, parecia na verdade uma única peça musical dividia em movimentos. Qualquer semelhança com rock progressivo não é mera coincidência. É aquela história: se seu tiozão assistiu ao Gênesis em solo tupiniquim nos anos 70, e ficava te alugando até hoje, com esta apresentação do Mercury Ver já dá para tirar uma onda com as próximas gerações . Ah, mas a banda cover de Peter Gabriel e Phil Collins vai se apresentar aqui em Belo Horizonte neste fim de semana, né?

Não é a toa que, mesmo com todos os problemas apresentados, o Curitiba Rock Festival fez história novamente.

“Nossa casa é um empreendimento comercial, que visa lucro, mas que não visa lucro em primeiro lugar”- Entrevista com Claudão da Obra

 

crédito: Divulgação A Obra
crédito: Divulgação A Obra

Entrevista publicada na Coluna Esquema Novo, no jornal Hoje Em Dia, em 26/08/2005

Tinha tudo para dar errado. A vida noturna em Belo Horizonte, da metade da década de 90 para frente, poderia ser facilmente classificada como nômade. Ou seja, os chamados “points”, os lugares da moda, tinham vida curtíssima, duravam poucos meses . Para ficar em alguns exemplos, basta lembrar de alguns espaços que, em um pequeno espaço de tempo, abasteceram culturalmente a cidade e que logo fecharam as portas: Circuito, Bar Nacional, Galpão da Andradas, Lugar…Difícil é identificar os culpados por esse efeito “prazo curto”. Seria o público, mais interessado em apenas se divertir, se mostrar e não em sedimentar um espaço confiável? Ou seria os promotores e donos de casas, que logo se desinteressariam por manter suas casas? Também tinha muito para dar certo.

Porque sempre existiu ( e existirá) um público interessado em ter um lugar para ir todos os finais de semana. Um boteco, uma casa noturna com o qual sinta forte identificação , seja pelo fator “música”, “moda”, “comportamento”- os pilares da cultura popular urbana- ou por puro escapismo mesmo( sem tirar a importância disso), como cerveja gelada e gente bonita. Por sorte , calhou também de um grupo de amigos sentir essa mesma necessidade e resolver arregaçar as mangas, assumindo a responsabilidade de oxigenar a noite belorizontina.

Contado assim parece até um conto de fadas: no lugar de princesas e príncipes, festas estranhas com gente esquisita. E tem muita gente esquisita nessa cidade, convenhamos. Faltavam as festas. A oito anos A Obra abriga essa confraria de malucos com alguns dos melhores eventos da cidade. Parece ser impossível falar de cultura underground em Belo Horizonte sem classificar ela como um de seus sinônimos mais perfeitos. Na ativa desde 25 de Junho de 1997, a casa noturna se tornou o local referência de pelo menos duas gerações musicais de bandas surgidas na cidade; e é também o espaço onde é possível assistir, no calor da hora, algumas das melhores revelações no cenário musical brasileiro. O espaço, localizado estrategicamente na Savassi, apareceu como opção em uma época que outras casas noturnas destinadas a entreter os “alternativos” estavam fechando suas portas ( como o Butecário) ou perdendo sua importância, como o Elite e a Trash. E a Obra conseguiu o que propôs, desde seu início: é o tipo de lugar que possui uma relação bastante estreita com seu público.

Muitos deles “atuam” como verdadeiros sócios do lugar tamanha freqüência e chegaram até a mudar de posição, transformando –se em responsáveis por divertir os outros freqüentadores, seja atuando como DJ, ou simplesmente organizando eventos dos mais variados, como festas de formatura informais, inauguração de websites, aniversários…Já deu para dividir a pista de dança até com gente de veú e grinalda lá. Por tudo isso, é possível falar em uma “Família da Obra”, que cresce a cada dia e que parece garantir muitos anos de funcionamento da casa. Na cadeira da ponta, aquela onde fica o cabeça da turma, está sentado Cláudio Rocha, o popular Claudão, que, além de fundar e comandar atualmente a casa, ainda assume o posto de baterista de uma das melhores bandas da cidade ( o Estrume n´tal) e professor de línguas.É ele quem lambe e fala com orgulho da cria. 

Depois de oito anos, quais foram os momentos mais legais da Obra? 

Putz, são vários… o dia da abertura, por exemplo, pra mim é inesquecível, porque no mesmo dia a Obra abriu, teve o primeiro show da minha banda, o Estrume`n`tal, e conheci a Cacá, que hoje é minha esposa. Todas as festas de aniversário foram memoráveis, e tem também o Seminário Tráfico de Som, que a gente realizou em 2002, que foi uma semana inteira de shows, oficinas, palestras e mesas-redondas sobre produção e disseminação da cultura independente. Fora isso, os prêmios e o reconhecimento que a gente ganhou também foram bem bacanas (melhor casa de shows de BH em 2003 pela revista Veja, 3 indicações pro Prêmio Dynamite/Claro, moção de reconhecimento outorgada pela Câmara dos Vereadores de BH). 

Qual é o conceito de cultura underground que você tem na cabeça? 

Pra mim, cultura underground/alternativa/independente é aquela que não é apoiada pelos grandes meios de comunicação, não tem patrocínio, não tem jabá, justamente pelo fato de ser uma expressão artística genuína e verdadeira, que não esta preocupada com o sucesso comercial e sim com a disseminação da arte. Por causa disso, esse tipo de cultura demanda um esforço muito maior do proponente (daí a velha máxima do Rex, dos Retrofoguetes, que diz que “quem tá no rock é pra se fuder”) 

Sinceramente, dá pra falar em cultura underground em BH sem citar A Obra? Antes dava, hoje não. Principalmente porque a Obra, se não é o maior, é um dos mais importantes centros de aglutinação de quem faz e consome esse tipo de cultura na cidade. 

A que você credita o sucesso de uma casa que, a princípio, pode afastar muita gente – pequenina, “levemente” abafada,etc? 

Principalmente à manutenção da nossa proposta inicial, que é de oferecer musica e cultura de qualidade, oferecer um espaço para que esse tipo de manifestação cultural ocorra, oferecer espaço pra quem é de BH e quer mostrar seu trabalho, oferecer espaço pra quem não é de BH vir aqui e mostrar seu trabalho, tudo com o melhor equipamento, a melhor divulgação, ou seja, tudo com a melhor condição possível pros eventos acontecerem. Também acho que a nossa filosofia conta muito: nossa casa é um empreendimento comercial, que visa lucro, mas que não visa lucro em primeiro lugar. Por isso, e possível promover eventos legais cuja prioridade um seja artística e não comercial. 

A Obra é “filha” de quem? Quais foram os projetos anteriores de casas noturnas em BH que inspiraram vocês? 

Varias coisas. Na verdade a Obra e filha mesmo dos Meldas, uma turma da qual me orgulho muito de fazer parte, que se desdobra em varas ramificações: a banda, a turma, a família, a bebedeira, o centro de estudos lingüísticos, etc. a bebedeira é um dos pontos cruciais, porque nos ensinou o que esperar e o que oferecer em um bar legal (pois já bebemos em milhares deles). Se formos falar em nomes, bares que ns influenciaram muito foram o Cannibals, o Pastel de Angu, o Paco Pigalle, o La Tuna e o TacoLand (esses dois últimos em San Antonio, Texas, EUA, onde morei por dois anos e trabalhei ou freqüentei). Mas sempre a filosofia existia: a gente sabia que um dia ia ter um bar legal, com som bom, com um bom palco pras bandas, bom equipamento, boas condições técnicas pros shows, cerveja relativamente barata e atendimento de primeira. A prova de que isso deu certo é a quantidade de gente que considera hoje em dia a Obra como a sua “segunda casa”. 

Quem vocês sonham em trazer para a tocar na Obra?

 Todo mundo que seja legal no universo alternativo.

Muitas roubadas nestes 8 anos? 

Varias. Manter um bar não é nem de longe o que as pessoas pensam. Cada dia que a gente abre tem um custo, e a gente tem que vencer esse desafio dia a dia. Daí que vc imagina todo tipo de problema que pode acontecer. Além disso tem os empreendimentos de risco como shows maiores, festas etc, que nos dão uma “pré-ocupação” danada, mas que geralmente não nos dão “pós-ocupação”. 

Quais as maiores dificuldades de se manter a casa, depois de tanto tempo , algum entrave ainda persiste bravamente? 

Claro que é a manutenção financeira do bar e dos empreendimentos que a gente produz. Tem também multas, certos órgãos públicos, etc. Mas a gente vai levando.

Como é pautada a programação musical da Obra, quais são os critérios adotados? A programação é pautada em cima da muitas propostas de eventos que a gente recebe, selecionados com critérios que têm a ver com nossa proposta e nosso publico. 

No início, vocês pensavam em algum público específico? O que vocês acham dessa mistura de públicos que freqüentam a Obra? 

No início já tínhamos um certo publico que se encaixava perfeitamente no perfil da Obra, já que tínhamos banda ( e conseqüentemente publico) mas também porque tínhamos uma boa experiência com produção de eventos (com a Radiola Sound System e o Reggae on Broaday, que depois foi feito em vários lugares de BH), e grandes festas que realizamos. Depois vimos que a nossa proposta de musica e cultura de qualidade atingiu um publico maior que a gente esperava, principalmente por causa do bom gosto e da qualidade do produto musical. 

Como é a relação com as outras casas noturnas da cidade?

 É muito boa, pois fazemos freqüentemente parcerias com as casas congêreres, como já fizemos com o Pastel de Angu, o Café com Letras, a Up!, o Matriz e o Marista Hall, entre outras. Além disso fomentamos sempre a abertura de novas casas pois acreditamos que quanto mais alternativas o publico tiver, mais ele sai de casa, o que é bom pra todos – inclusive pra nós. 

Seu top 5 pessoal de melhores shows que já rolaram… 

Sem ordem especifica: Guitar Wolf Retrofoguetes Wander Wildner Bidê ou Balde Meldas Pornoshiva, Attaque 77 É isso. Tem muito mais, mas com já fizemos mais de 3000 shows aqui, é difícil…