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Sempre uma má influência

BUK

Reportagem publicada no jornal O Tempo em 09/03/2014

Não tem jeito: todas as vezes que alguém usa o santo nome de Charles Bukowski em vão– principalmente blogueiros e jovens escritores que depois de duas cervejas se veem espelho do mestre –, o próprio, lá do inferno (porque tem open bar) vomita mais uma doses. Exatos 20 anos após sua morte (9 de março de 1994), a sombra do homem permanece.

“Tem uma questão no Brasil que é comum: a confusão entre admiração e influência”, diz o poeta Ricardo Aleixo. “Isso acontece também com Leminski por aqui. Uma coisa é você gostar e se apropriar de algum procedimento, tema. A influência tem mais a ver com a organicidade dos processos, com o entendimento dos motivos que levaram o escritor a adotar aquele caminho. E aí você vai daquele trecho para frente, quando o sensato é verificar as rotas daquele autor e fazer as suas”, diz.

Talvez se possa afirmar que o grande apelo da obra do Velho Safado seja seu caráter realista e extremamente biográfico. Ele mesmo afirmava que 93% de sua obra eram escritos autobiográficos; os 7% restantes também eram sobre sua vida, mas “melhorada”. A suposta falta de edição, o tecido literário construído a partir do próprio ego e de um universo cotidiano, singular: tudo isso é farto material para cópias e tentativas desajeitadas.

“É perigoso ler Bukowski e mais perigoso ainda interpretá-lo de forma errada. Parece fácil, mas não é: trata-se de um grande poeta, crítico, ácido”, diz o poeta Wilmar Silva. “Ele não apenas colhia a fala cotidiana, ele transformava-a. Criou uma série de discípulos de gesso, poetas medíocres. No caso dele, era muito importante uma experiência de vida associada à linguagem. Ele realmente esteve lá, com a pobreza, no cotidiano amargo da América. Ao contrário de muito da poesia marginal, por exemplo no Brasil, que eram playboys da zona sul fazendo poesia panfletária. Bukowski não era panfletário: ele viveu tudo aquilo que narrou de forma objetiva, mas antes de ser objetivo, ele buscou a totalidade do ser, a experiência de vida. É isso que vai determinar sua obra, sua forma de viver, e não os exercícios de linguagem”. Charles Bukowski, com o perdão do clichê, não narrou a sarjeta: ele viveu nela, ele era ela.

Como definiu brilhantemente o pensador pós-moderno norte-americano David James, a obra de Bukowski trata de “uma enunciação resolutamente vulgar, a recusa em construir o verso como uma unidade métrica ou conceitual, e um repertório restrito de atividades banais (beber, vomitar, apostar, mijar) praticadas num terreno similarmente limitado de apartamentos de estuque e ruas que vão da pista de corrida às lojas de bebidas, produziram um modelo plenamente articulado de poiesis disponível para uso geral. Podemos pensar nela como uma produção pública, uma inevitabilidade social que ele captou e esclareceu”.

Único. A procissão de poucos e bons que seguiram ou tiveram alguma intimidade com ele mostra que ele era mesmo para poucos. Bukowski era sócio único de um clube que deixa muitos seguidores, mas poucos, pouquíssimos passariam pela portaria, aprovados pelo escritor, fiel leão de chácara de suas convicções. Como nos informa a ótima biografia escrita por Howard Sounes (“Vida e Loucuras de um Velho Safado”, Conrad Livros), Buk não gostava de quase ninguém: dos acadêmicos, dos políticos, dos editores de livros, dos hippies. Geralmente eram párias sociais, críticos e loucos, famosos ou não, que dividiram a mesa com ele, de Robert Crumb a Harry Dean Stanton aos então iniciantes (e problemáticos) Sean Penn e Mickey Rourke.

Porque sua exclusividade não foi maquiada: a figura do escritor era feia, pele oleosa e marcada pela acne, nariz inchado de bebida, barba e cabelos em eterno desalinho. Um desastre social que fez da América (para onde foi depois da guerra na Alemanha onde nasceu) seu puteiro e boteco particular.

Entre uma dose e outra, processou uma das literaturas (seja em prosa ou poesia) mais instigantes e singulares do século passado. Herdeiro pobre e sem o glamour de Henry Miller, fruto legítimo das misérias ianques narradas por John Fante, um Hemingway com humor.

E isso de alguma forma atraí muita gente. “Por mais que critiquemos a aura romântica atribuída a um determinado escritor, acho válido. Porque isso significa possibilidade de resistência, diante do mercado, do consumo. A imagem que Bukowski passa é de alguém ligado aos prazeres da vida, o sexo, a bebida, o cigarro. Isso, em um mundo que caminha para o conservadorismo mais extremo, ganha o peso da dissidência”, acredita Ricardo Aleixo.

Janelas de Hopper

Coluna publicada no jornal O Tempo em 03/03/2014

Escreveu o filósofo, urbanista e arquiteto francês Paul Virillo em seu magnífico “O Espaço Crítico”, de um profético 1993: “A primeira janela é a porta, a janela-porta, necessária ao acesso e a realidade da residência, já que seria impossível conceber casas sem meios de acesso”. Janelas e portas. Eu sei, são tempos de “espiadinhas” nos reality shows, acesso midiático à carne humana, carnavalizada, superexposta, precificada. Mas temos, ainda bem, referências mais belas em relação ao assunto, como nos lembra o canal televisivo Arte 1, que está exibindo este mês o belo documentário “Edward Hopper e a Tela em Branco” sobre arte e vida do brilhante artista norte-americano.

Minha memória quase imediata em relação a janelas me remete a Hopper, também conhecido como o pintor que melhor representa nossa interioridade, voyeur delicado e genial de nossas intimidades. Acredito que sua “teimosia” em pintar janelas, frestas, destacando a luz do sol editada por molduras que invadem com suavidade e melancolia os quartos pintados por ele são, na verdade, meio de acesso ao que somos.

O corpo, afinal, é a casa da alma, certo Virillo?

Entendo o pânico das pessoas – eu incluído – diante de uma obra ligada a, aham, cof, artes visuais. Aquela porra daquele retângulo emoldurado olhando tiranicamente pra gente e cobrando: “Tenha algo a dizer, fale das minhas cores, dos meus traços, das minhas formas, da minha assinatura”. E a gente ali, tentando decifrar (o quadro e nós mesmos) se perguntando onde foi que erramos. Ah, a alta cultura, os símbolos artísticos elevados, esse fardo pesado que carregamos, que nem os boêmios ingleses do século XVIII, com seus cafés e sua vontade de “espaço público”. Afinal, eles também sonhavam uma espécie de democracia contemplativa.

Pense bem, as canções tem versos, o cinema tem movimento, a vida tem ação. Se prender, surpreso, reconhecido, diante de um quadro, é vida em câmera lenta. É cobrar silêncio no mundo ruidoso em que estamos afundados. É querer concentração em um universo hipersaturado de imagens velozes e estonteantes. Secretamente, gosto de acreditar que a solução de tal “problema” não esteja no coletivo, no que está “fora”: é algo pessoal, intransferível, uma mediação entre o propósito do artista e a vontade do espectador. Bateu ou não bateu, simples assim.

Bem… não é tão simples assim, a gente sabe, e quem somos nós para ignorar as inúmeras, geniais e necessárias contribuições que tantos nos sinalizaram, no sentido de buscar uma apreciação estética abalizada. Mas é bom quando alguém– algum artista, alguma obra, algum instante de apreciação qualquer– consegue elevar e sobressair, sobre nossos sentimentos, qualquer discussão sobre estética, técnica, contexto histórico. Aquela coisa: a melhor arte muitas vezes não se explica, se sente.

Hopper me faz sentir. Com suas janelas que são o campo para a luz, descortina o que somos, profundamente. As mesmas janelas que filtram o brilho do que está fora, encerram uma luz interna, que permite iluminar nossos espaços subjetivos mais sombrios, ocultados por tudo que está lá fora. Como farol menos interessado em sinalizar uma rota de navegação e mais disponível em iluminar aquelas camadas mais profundas, o oceano de significados que guardamos, distantes do mergulhos superficiais: “sunken treasures”, tesouros naufragados, como cantou Jeff Tweedy, do Wilco.

Hopper é, graças, muito reconhecido. Penso se não concordo com o grande escritor e crítico britânico Tony Parsons, que “Nighthawks” (talvez sua obra mais conhecida) é o “maior” quadro feito. Não dá para negar o apelo e a beleza intrínsecas à obra. O olhar macro sobre uma quarteirão, um bar/café/restaurante que nos leva à percepção do quão micro podemos ser, diante do mundo lá fora, além das portas e janelas. Qualquer bêbado e/ou solitário; qualquer ser humano, enfim, pode se sentir autorretratado, na obra-prima citada pelo britânico.

Curiosamente, a obra mais famosa do pintor não é tema de destaque do documentário. Comeram bola, os franceses. Porque outro dia mesmo me emocionei ao notar que, do ponto de vista que a imagem foi focada, parece que, se dentro do quadro, nosso olhar o foca o solitário no bar como se estivéssemos o observando de uma… janela.

O Poderoso Chefão do Rock: Nasi

crédito: Kelsen Fernandes/Divulgação

Reportagem publicada no jornal O Tempo em 20/02/2014

As fotos que ilustram essa matéria não enganam: Nasi é uma espécie de “Godfather”, o poderoso chefão de Mário Puzzo, eternizado nas telas por Coppola. A seu modo, claro: a ascendência italiana que justifica o sangue quente e o jeito de durão, que no fundo parecem esconder um coração sentimental. Características que o inscrevem em uma longa galeria de personagens eternizados pelo rock’n’roll.

 Seu disco mais recente, “Perigoso”, base do show que o traz para o palco do Circus Rock Bar amanhã, testemunha isso. A faixa-título é uma espécie de carta de intenção com seus versos venenosos: “Esses canalhas que me encheram de bolor / É uma piada, pois pra mim eles são nada / Eu agradeço o maldito pé que me pisou / Pois vi que tenho duas pernas pra firmar”. “A música e o disco têm esse caráter de volta por cima, sim” diz ele. “E essa faixa tem uma coisa meio Johnny Cash, um ídolo meu, que também tem ar de ‘lamber as feridas, de não vão me derrubar’. É uma coisa de personagem, mesmo”, diz.

Quem leu “A Ira de Nasi”, explosiva biografia do cantor assinada por Mauro Betting e Alexandre Petillo, soube que ele é um especialista no assunto perigo. “Já andei muito à beira do abismo”, assume, com o currículo bastante cheio de histórias envolvendo os clássicos clichês do mundo artístico. “Agora eu tenho apenas que manter minha fama de mau”, brinca, citando outro de seus heróis casca-grossa, Erasmo Carlos.

O Tremendão, aliás, é presença firme na vida de Nasi nos últimos anos. Afinal, “Perigoso” saiu pelo selo Coqueiro Verde, pilotado por Erasmo e seu filho; foi com o ídolo como convidado que Nasi estreou seu programa de entrevistas no Canal Brasil (“Nasi Noite à Dentro”, exibido aos sábados, à 0h), e foi um dos homenageados pelo cantor em seu disco, com a regravação de “Dois Animais na Selva Suja da Rua”.

“Sempre gostei muito dele, especialmente do trabalho na década de 1970, discos mais soul, voltados para a música negra. ‘Carlos, Erasmo’ (disco de 1972, de onde ele tirou a canção regravada) é daqueles trabalhos que você ouve e gostaria de ter feito. É maravilhoso, todas as canções muito boas, cheio de experimentações”, diz Nasi. “Esse contato é uma coisa legal, ele é um ídolo. Apesar de ser um gigante, mantém a coisa de menino, roqueiro. Invejo. Quero envelhecer assim”, elogia.

O disco traz outras regravações, como “As Minas do Rei Salomão”, num arco afetivo que captura também Raul Seixas, também dos seus favoritos, outro notório outsider da música popular brasileira (apesar do imenso sucesso popular). Uma filiação que parece natural na carreira do cantor. “Agora que você está falando é que notei, nem tive essa intenção objetiva”, reconhece o cantor. “Como intérprete, vou procurar uma poesia e um discurso que casam com meu jeito de ser. Raul fez outro de meus discos de cabeceira, ‘Krig Ha Bandolo’. Tanto ‘Carlos, Erasmo’ quando este do Raul estão além de grandes discos de rock: são dos maiores discos da música brasileira”.

“Vou fazer uma proposta que ele não pode recusar”. É possível fantasiar que foi com a antológica frase proferida por Marlon Brando em “O Poderoso Chefão” que Nasi deve ter retomado a histórica parceria com o guitarrista Edgard Scandurra, à frente do Ira!, anunciada no mês passado. Uma das maiores instituições do rock brasileiro, o núcleo-base do grupovolta para a estrada este ano, já com 200 apresentações agendadas. Volta do Ira! (Nasi e Scandurra)

Mas não foi exatamente assim: a paz que estava ausente desde 2007, quando um feio imbróglio público envolvendo os integrantes do grupo e o empresário Aílton Júnior (irmão do cantor), voltou depois de muita conversa.

Como Nasi também assinou alguns dos maiores discos do rock brasileiro, a bordo de sua banda, oção do seu patrimônio artístico que o fez ligar para o guitarrista Edgard Scandurra, “retomando contato, estendendo a bandeira branca”. “Ele estava articulando um show beneficente, para crianças especiais, e eu me coloquei à disposição para participar, como artista”, diz. Ira!, talvez tenha sido essa no

Depois da apresentação, no dia 30 de outubro do ano passado, naturalmente eles ficaram mexidos com “a mobilização gerada em torno disso, a reação do público e no prazer retomado” em trabalharem juntos. Ambos foram para as férias de verão compromissados em pensar sobre uma volta. “Concluímos que existe um espaço muito vivo nas nossas vidas e na cabeça das pessoas para o Ira!”,diz. “Acho que surgiu um novo capítulo para banda”.


Show do Ira! podem ter canções inéditas

Nasi, que se apresenta nesta sexta no Circus Rock Bar, vive grande fase produtiva, coroada com a notícia de que ele e o guitarrista Edgard Scandurra retomam as atividades do Ira! este ano. Em um primeiro instante, a turnê é para lembrar canções clássicas, momentos marcantes da carreira. Mas, segundo Nasi, Scandurra já está compondo material novo. “Podemos apresentar novidades”, ameaça. Outra possibilidade que ele não descarta é um show de um disco na íntegra. “Vivendo e Não Aprendendo” e “Psicoacústica” são cotados. “Nós conversamos sobre isso, é uma tendência boa, as pessoas querem ver isso”.

 A fase é boa mesmo. “Estou feliz, satisfeito, trabalhando muito. Consegui me reconciliar com algumas coisas, algumas pessoas, comigo mesmo. Isso acaba refletindo em tudo. Tenho certeza que 2014 será um ano bom para mim e para o rock brasileiro. Ouvi dizer que teremos lançamento do Pato Fu, por exemplo. Trabalhos que prometem, tem tudo para mexer o cenário”, acredita.

Na verdade, Nasi já está se mexendo. Nos últimos anos, ele foi tema de uma biografia (“A Ira de Nasi”), lançou seu terceiro disco-solo e ainda assumiu seu lado repórter no programa “Nasi Noite à Dentro”, no Canal Brasil.

“Quem me procurou foi o André Barcinski, diretor de alguns programas do canal. Achei legal: passei 30 anos da minha carreira sendo entrevistado, acabei aprendendo alguma coisa, ter timing, qual a melhor maneira de tirar algumas respostas da pessoas. De tanto ser entrevistado, aprendi a entrevistar”, diz.

É um momento de diversão para o músico também: ele, que sempre iniciava os shows com a banda anunciando “Somos uma banda paulista, chamada Ira!”, está descobrindo também locais e lugares da cidade amada, “pautas em lugares que eu nem sabia que existiam”.

“É uma das maiores audiência do canal, um canal muito bacana, que dá espaço para o cinema nacional e que tem ótimos programas, como o do Gavin (o musical ‘O Som Do Vinil’), o ‘Larica Total’, tem sido uma experiência bacana”.

Sobre o último disco solo, o bom “Perigoso”, ele fez questão de respeitar uma famosa (e infelizmente perdida) sabedoria do vinil– o trabalho foi, inclusive, editado também nesse formato. “Minha intenção nesse disco foi reproduzir o tempo do vinil, cinco músicas de cada lado, 40 minutos de som no total. Acho que um dos motivos da diluição de qualidade que temos em muitos álbuns atuais tem a ver com o advento do CD, essa obrigação de ter de preencher todo o espaço dessa mídia– o que dá mais de 70 minutos de música.


Black music

Nasi é notoriamente uma apaixonado pela música negra, do blues aorap, passando pelo afro-beat. “Nunca encarei como uma coisa étnica, é um jeito que sinto a música”, diz. “Perigoso” traz muitas referências a estes gêneros. Só anda meio desanimado com o rap: “Anda meio gangsta, ostentação demais”.