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Black Sabbath se despede do Brasil com missa metal em Belo Horizonte

Crédito da foto: Marcus Desimoni/Uol

Reportagem publicada pelo UOL, em 16/10/2013

De uns anos para cá, Belo Horizonte entrou no mapa das grandes atrações gringas de heavy metal, recebendo nomes como Iron Maiden e Slayer para apresentações antológicas. E quando o Black Sabbath confirmou que sua turnê brasileira passaria pela capital mineira o ciclo se fechou. “Sabbath em BH” não foi apenas uma rima boba e útil. “Vim tomar benção”, resumiu Bozó, ex-vocalista do Overdose, uma das bandas pioneiras do gênero em Minas Gerais. “É inexplicável, de tão importante que esta noite é”.

O Sabbath entrou no palco às 21h05 (dez minutos antes do previsto) desta terça-feira (15) com uma espécie de sirene procedida por acordes arrastados que iniciam “War Pigs”. A presença do trio original do Sabbath impressionou: desde aqueles, como Bozó, que provavelmente passaram a adolescência “traficando” vinis raros da banda para moldar sua própria música, como aqueles muito jovens que não desgrudavam dos celulares mais modernos, enquadrando cada movimento que os britânicos faziam lá em cima.

Em muitos momentos, a atenção ficou fragmentada: capturou-se o baixo potente e sólido de Geezer Buttler, empapuçado de efeitos nos segundos finais de “Behind The Wall Of Sleep”, iniciando uma inesquecível “N.I.B.” (um dos momentos mais histéricos do show). Impressionou a sobriedade de Tony Iommi, desfilando uma quantidade de riffs absurdos. E, claro, magnetizou a presença de Ozzy, que parecia uma Linda Blair sênior, com maquiagem borrada nos olhos, saltado direto dos pôsteres de “O Exorcista”, com o olhar meio débil, meio insano, comandando palavras de ordem ao público.

O Sabbath nasceu justamente da capacidade de causar espanto, assim como a atração do público por filmes de terror inspiraram Geezer Buttler a moldar o som do grupo. Funciona, até hoje. “Black Sabbath”, a canção que com três notas inventou todo um gênero e conseguiu quase silenciar as 20.000 pessoas presentes na Esplanada do Mineirão.

Escutar o Sabbath ao vivo foi uma experiência para tímpanos preparados, já que o som estava impressionantemente alto e nítido. Porradas como “Rat Salad” e a recente “God Is Dead?” ( junto com “Age of Reason” e “End of the Beginning”, as únicas do ótimo ultimo disco, “13″, lançado este ano) impressionavam pela potência que saía dos músicos. Buttler e Iommi pareciam em ótima forma, visualmente, mesmo o último tendo superado um câncer recentemente. Ozzy não passou incólume pelo tempo –mas talvez seja justamente esse um de seus charmes. Como um avô (até o jeito dele arrumar a calça parecia de um senhor) movido a espírito adolescente, o vocalista não parou: pulava, batia palmas, pedia barulho do público.

Em muitos momentos, o público obedeceu, e enlouqueceu com a banda, especialmente na primeira metade do show, nas execuções de “Into The Void”, “Under The Sun” e “Snowblind”. Esta última, cheia de referências à cocaína, mereceu até ser ilustrada no telão por cenas do clássico “Scarface”. Na segunda metade, o público visivelmente deu uma arrefecida, mostrando alguns sinais de cansaço. Talvez possa se culpar também a enorme pista premium que ocupava um espaço precioso –poderia ser diminuída a favor da imensa e animada multidão que se aglomerava atrás das grades. Essa baixada de bola até gerou alguns olhares meio tortos e despistados do vocalista no palco, perceptíveis durante “Fairies Wear Boots”.

Nada que não pudesse ser corrigido com dois clássicos imortais do grupo, as obrigatórias “Iron Man” e “Paranoid”. A primeira gerou um coro altíssimo, com a audiência cantando o riff de guitarra. Antes de puxar a segunda, Iommi perversamente tocou o início de “Sabbath Bloody Sabbath”, lembrando que um caminhão de grandes canções da banda ficou de fora do set list. Foi “Paranoid” mesmo que encerrou a apresentação, depois de duas horas, em pique acelerado e frenético, mesmo sendo notável o fato de que algumas canções diminuíram os andamentos originais. Natural: as canções não envelheceram nada; os músicos, sim.


Abertura
A noite começou com o Megadeth que, ciente do tempo reduzido que teria, não jogou conversa fora. Dave Mustaine mandou um “olá” para a plateia quase no final da apresentação. Antes disso, cravaram 55 minutos de show com doses barulhentas de seu tradicional thrash metal, competente, mas musicalmente com pouco brilho.

Não que a maior parte do público tenha reclamado: hits como “Holy Wars” e “Symphony of Destruction” foram saudados com calor pelo público. Uma apresentação barulhenta que ajudou a lembrar para onde o som originalmente criado pelo Sabbath foi parar, ganhando em velocidade e técnica (o duelo entre guitarras correu solto), mas sem a mesma inspiração dos mestres.


Setlist do Black Sabbath em Belo Horizonte

“War Pigs”
“Into the Void”
“Under the Sun”
“Snowblind”
“Age of Reason”
“Black Sabbath”
“Behind the Wall of Sleep”
“N.I.B.”
“End of the Beginning”
“Fairies Wear Boots”
“Rat Salad”
“Iron Man”
“God Is Dead?”
“Dirty Women”
“Children of the Grave”
“Paranoid”

Paul McCartney transforma Belo Horizonte em “Beatlelândia”

publicado pelo UOL, em 05/05/2013

Para milhões de admiradores de música pop espalhados pelo mundo, Belo Horizonte era o lugar para se estar hoje. Afinal foi no estádio Mineirão que Paul McCartney deu o pontapé inicial em sua nova turnê, “Out There!” o que deu a oportunidade para milhares de fãs conhecerem, ao vivo e em primeira mão, a estrutura e o repertório do novo giro mundial daquele que é.o maior músico popular vivo. Paul deu de presente à cidade a possibilidade de se transformar, por um dia, na “Beatlelândia”, espécie de terra fantástica e itinerante, cuja população se dedica a celebrar um acervo musical impecável, os Beatles. Ela tem como governante Sir Paul McCartney; seu assessor para assuntos especiais é Ringo Starr, e seus santos padroeiros são, naturalmente, São Lennon e São Harrisson. Seu idioma oficial são as canções espalhadas na discografia do grupo e nos discos-solo de seus membros. Mas, por ocasião mais do que especial, o líder hoje falou “uai”, expressão típica da terra visitada.

É preciso frisar que Belo Horizonte merecia se transformar nesta Beatlelândia há tempos, assim como foram São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife e Florianópolis nos últimos anos. Talvez não seja exagero dizer que este foi o show mais esperado pela cidade desde sempre, e as visitas anteriores de Paul ao país causaram uma frustração imensa por não pararem por aqui; frustração somente comparável à comoção que a confirmação deste show causou. Campanhas nas redes virtuais, manifestações em praças públicas da cidade, fãs acampados no estádio dias antes do show, cobertura incessante da mídia: há meses o público mineiro vem transfigurando a cidade para se transformar nessa terra imaginária. A capital mineira reúne uma concentração impressionante de “beatlemaníacos”, traduzidas em premiadas bandas covers, tradicionais programas de rádio dedicado somente a eles, e a música do quarteto de Liverpool é essencial para a formatação do movimento musical-símbolo de Minas Gerais – o Clube Da Esquina ( e não custa lembrar que o possível hino da música pop mineira se chama “Para Lennon e McCartney”). Hoje, finalmente, um dos homenageados da canção devolveu a carta escrita por Fernando Brant, Lô e Márcio Borges e eternizada na voz de Milton Nascimento, tocando seus hinos especialmente endereçados às cerca de 53 mil pessoas presentes no Mineirão.

Às 21h25, cinco minutos britanicamente adiantados em relação à hora oficial do show, Paul McCartney subiu no imenso palco segurando seu instrumento símbolo: o baixo Hoffner, que seria “homenageado” pelo músico outras vezes durante a apresentação, apontando-o seguidamente aos céus. Ainda com a voz fria, abriu o show com “Eight Days A Week”, dos Beatles, emendada com a ótima “Junior´s Farm”, do Wings e levantando de vez a multidão com “All My Loving”. Depois da seqüência, avisou que iria “tentar falar um pouco de português”, já que “finalmente Paul veio falar uai”, um afago simpático ao público presente. Uma das novidades de seu repertório- em relação aos set lists mais recentes- foi logo executada: “Listen To What The Man Said”, do disco “Vênus And Mars” dos Wings, foi recebida com, certa frieza, inaugurando o bloco mais morno do show, do qual fizeram parte canções como “1985″ (com ele fazendo um “W” com as mãos no final, como que simbolizando o orgulho que tem de seus trabalhos com o Wings), “Hope Of Deliverance” e outra novidade, “Another Day”, uma raridade da época do disco “Ram”, nos anos setenta.

Vale destacar outras mudanças no repertório, sensivelmente diferente em relação ao do seu último show da turnê anterior, em novembro do ano passado no Canadá: a inclusão de “Your Mother Should Know”, “All Together Now” e especialmente “Being For The Benefit of Mr Kite” e “Lovely Rita” (que ele anunciou como um “premiére mundial”), todas do repertório dos Beatles, são grandes chamarizes para a nova turnê, músicas pouco presentes em seus shows habituais e que fazem a alegria de qualquer aficionado. Se não são hinos consagrados como “The Long And Winding Road” ou “Paperback Writter” (onde Paul usou a mesma guitarra da gravação original), também executadas na primeira parte do show, são ótimas surpresas. E não custa lembrar que foi o primeiro show da turnê, o que de certa forma autoriza certo nervosismo e falta de traquejo com algumas novidades. Houve até uma inacreditável falha técnica: o som para o público sumiu duas vezes durante a execução de “Band On The Run”. Mas foi o único problema, diga-se: o público espalhado nos diversos setores do estádio foi bastante elogioso em relação ao som. O mesmo não pôde ser dito a respeito das filas-longas, desorganizadas e demoradas- para entrar no estádio, da falta de lixeiras no entorno, do trânsito problemático. Mas aí já não é problema de McCartney e sua turma, certo?

Homenagens e clássicos que nunca morrem

Paul habitualmente separa um bloco de canções de seu show para prestar homenagens. A primeira foi “Valentine”, canção que ele compôs para sua atual esposa, Nancy Shevell. Para a musa eterna, Linda, ele guardou “Maybe I´m Amazed”, seguramente uma das coisas mais belas que ele já compôs, e que nos ajuda a lembrar do cantor espetacular que é: mesmo aos 71 anos, sua voz ainda brinca com segurança nas difíceis variações que esta música apresenta. Sua boa forma indica o que muitos se perguntam, como ele nunca para tomar sequer um copo d´água? Como passa boa parte do show dançando, fazendo pose, feliz e brincalhão feito um garoto? É difícil acreditar que, depois de duas horas de show, ele comece o primeiro bis no pique total de “Day Tripper”. Segredos do mestre… O mundo feminino ainda foi lembrado nas projeções do telão durante a execução de “Lady Madona”, com imagens de figuras como Tina Turner, Aretha Franklin, Frida Kahlo e Audrey Hepburn. Para os ex-companheiros falecidos, as esperadas (e inspiradas) “Here Today”, para Lennon, e “Something”, que gerou um coro tão forte e arrepiante no estádio que deve ter acordado lá em cima, seu autor, George Harrisson. “All Things Must Pass”, da carreira solo de George, foi ensaiada na passagem de som, mas acabou não entrando. Deve pintar nos próximos shows.

Sem dúvida a homenagem mais bonita foi a mais inesperada: durante o primeiro bis (foram dois), ele agradece à simpática petição que se espalhou nas redes sociais, feita por um “grupo de garotas”, como ele anunciou, chamado de “Paul Vem Falar Uai!” que mobilizou público e produtores culturais em torno da idéia de trazê-lo para Belo Horizonte. Ele chamou ao palco as quatro incrédulas garotas, apresentou-as ao público e ainda autografou a pele de duas delas, para posteriores tatuagens. Absolutamente louvável o reconhecimento dele perante este tipo de iniciativa, surpreendente a generosidade de agradecer desta forma e, catártico, quando depois de um sonoro “uai!” ele emenda no clássico “Get Back”.

Aliás, a pegada mais roqueira de Paul vai bem, obrigado: suas versões barulhentas para “Helter Skelter”, “Back In The USSR” e a magnífica “Let Me Roll It” ajudam a explicar para as novas gerações porque, por exemplo, ele rouba a cena no recém-lançado documentário e disco “Sound City” na parceria com os integrantes vivos do Nirvana, com a porrada “Cut Me Some Slack” – que, aliás, poderia ser incluída nessa turnê. O homem entende de peso e pressão: junto à explosão de fogos de artifícios no palco e fora dele- e que infelizmente acabam remetendo a tragédia da boate Kiss do início deste ano- a versão de “Live And Let Die” é absolutamente ensurdecedora, um dos pontos altos do show.

Mas é impossível negar que os momentos mais inesquecíveis seguem sendo aquelas canções que… bem, basicamente todos sabem que serão o ponto alto do show, momentos quase tradicionais das apresentações de McCartney, músicas sempre executadas, mas que não parecem nunca perder seu prazo de validade e sua potência em emocionar. Quando o palco recebe uma espécie de elevador (mais uma novidade), e Paul canta acompanhado apenas de um violão, “Blackbird”; quando leva mais de cinqüenta mil pessoas a se arrepiar com “Yesterday” ou quando transforma o estádio inteiro em um céu estrelado, iluminado pelos isqueiros e celulares durante “Let It Be” se percebe com nitidez que esse é o maior compositor pop de todos os tempos. E que essas canções, estes momentos não perdem nunca a graça, não parecem nunca ensaiados, técnicos, frios, artificiais: é o poder da música em estado bruto, onde não cabe ironia ou cinismo; como se uma porção de sentimentos guardados em cada voz de cada espectador se materializasse em um conjunto de notas reunidas e regidas por McCartney. Depois de “Hey Jude”, pouco sobra para o público além de levantar milhares de plaquinhas simplesmente agradecendo ao músico: “Thank You!”.

Quem esteve na Beatlelândia hoje pôde perceber que ela é composta por cidadãos de todos os tipos: gente que não era nascida nem quando Paul tocou no Brasil pela primeira vez em 1990; gente que se lembra do impacto que as canções dos Beatles causaram quando tocadas na Belo Horizonte nos anos 60. Crianças, senhores e senhoras, jovens, adultos: todos parecem entender -pelo menos por alguns segundos- aquele instante final do medley “Golden Slumbers/Carry That Weight/The End”, sintomaticamente a última música do show, onde Paul ensina que” no final, o amor que levas é igual ao amor que deixas”. Algum outro artista consegue, mesmo que momentaneamente, causar essa sensação de uma utopia realizável? Somente o líder desta terra mágica e imaginária, Sir Paul McCartney. Fica a sugestão: que todos os próximos dias 04 de maio para sempre transformem Belo Horizonte nessa república Beatle. E que nosso líder venha nos visitar com um novo show, sempre.

Veja o set list do show
Eight days a week
Junior Farm
All my loving
Listen to what the man said
Let me roll it
Paperback writer
My valentine
1985
Long and winding road
Maybe I´m amazed
Hope of deliverance
We can work it out
Another day
And I love her
Blackbird
Here today
Mother should know
Lady Madonna
All together now
Mrs Vanderbilt
Eleanor Rigby
Mr. Kite
Something
Obla di obla da
Band on the run
Hi hi hi
Back in the USSR
Let it be
Live and let die
Hey Jude
Day tripper
Lovely Rita
Get back
Yesterday
Helter Skelter
Golden Slumbers

De volta ao Brasil 12 anos depois, Morrissey faz show irregular em Belo Horizonte e ganha público com hits dos Smiths

Show de Morrissey em Belo Horizonte, publicado pelo UOL em 08/03/2012

Morrissey está de volta ao Brasil, 12 anos depois da última visita, para ver de perto toda uma nova geração de fãs. Gente que nem era nascida quando, com “Strangeways Here We Come”, ele e o guitarrista Johnny Marr deram ponto final à parceria mais significativa do rock britânico desde os Stones de Mick Jagger e Keith Richards, capitaneando os Smiths.

Fãs que escutaram “Suedehead” em alguma rádio flashback e se encantaram. Jovens que não tinham idade para ver a primeira passagem do cantor por aqui. E, claro, os antigos devotos de sempre com camisetas e velhos LPs da época, como se fossem a própria carteira de identidade –esses eram a maioria. Pessoas que passaram o show inteiro gritando por Smiths, mas que se renderam aos acordes de “Everyday Is Like Sunday”.
É difícil mensurar a importância de Stephen Patrick Morrissey no mundo pop, já que ela atravessa as fronteiras musicais e alcança campos da literatura, da moda e, mais importante, de um determinado estilo de vida. Foi esse jovem senhor que na noite desta quarta-feira (7) subiu ao palco do Chevrolet Hall, em Belo Horizonte, e autorizou meninos a se assumirem como “sensíveis”.
Morrissey, cuja figura parece permanecer marcada no inconsciente pop, parece firme o suficiente para justificar uma turnê mundial que passa agora pelo Brasil e que não serve de divulgação para nenhum álbum novo. Seu último trabalho foi lançado há três anos e hoje ele se encontra, sintomaticamente, sem gravadora.
Apesar dos ingressos não terem esgotado, a casa já estava cheia durante o show de abertura da cantora Kristeen Young. Munida de apenas um teclado e amparada por programações eletrônicas, ela não convenceu o público com suas canções etéreas, que remetem ao trabalho de cantoras-compositoras como Regina Spektor e Tori Amos, sem o diferencial criativo das duas.

crédito da foto: Marcus Desimoni/Uol
Depois de seu show, a platéia foi aquecida com clipes exibidos em um telão, provavelmente selecionados por Morrissey, fã assumido de artistas que foram mostrados, como Nico, Sparks e os últimos da lista, New York Dolls –quando jovem, Morrissey fundou um fã-clube da banda pré-punk na Inglaterra.
Com apenas dez minutos de atraso (o show estava marcado para as 22h), Morrissey subiu ao palco de camisa branca, enquanto o resto da banda trajava vermelho como os dizeres “Assad Is Shit” no peito, uma referência nada elogiosa ao atual presidente da Síria Bashar Al Assad, e começaram o show com “First Of The Gang To Die”, hit do disco “You Are The Quarry” (2004), ganhando os primeiros coros da platéia mineira. A temperatura seguiu elevada na seqüência, com “You Have Killed Me”. No final, o cantor brincou com a platéia, dizendo: “Vocês me fazem me sentir muito popular”.
A ironia foi a deixa para uma seqüência que baixou os ânimos do público, com “Black Cloud”, “When I Last Spoke To Carol” e “Alma Matters” –canções pouco conhecidas da maioria dos presentes, que serviram para provar que a voz de Morrissey ainda está preservada, mas que não seguraram o começo do show. No final da última faixa, o cantor fez piada (“Estou mesmo aqui? Sim!”) e soltou a primeira do repertório dos Smiths na noite, “Still Ill”, em uma bela versão, emendada com “Everyday Is Like Sunday”, emocionando a platéia e o cantor, que puxou coro de “Brasil, Brasil!”.
A partir daí, o show mostrou sua maior falha: o roteiro. Curiosamente o próprio Morrissey parece admitir isso. “Podem escolher a próxima canção”, atiçou a platéia. “Não, não podem!”, respondendo com uma seqüência de músicas mais climáticas, como “I Will See You In Far-Off Places”, “Ouija Board, Ouija Board” e a sombria “Meat Is Murder” (1985), canção-título do segundo álbum dos Smiths.
Respeitosamente, ganharam aplausos assim como sua banda de apoio, que foi apresentada em seguida, com destaque para o guitarrista Jesse Tobias (ex-Alanis Morissette), dono dos solos e dos riffs mais impactantes. Mas o saldo até aí era de uma apresentação morna, sem maiores interações entre o cantor e seus súditos, com algumas boas canções espalhadas sem critério junto ás preferências do cantor.
O show se ajustou melhor na sua parte final, quando Morrissey se encontrou com a vontade da platéia. O que antes eram apenas ondas isoladas no meio da multidão, se transformou em muitos casais dançando (“Let Me Kiss You”, e “I Know Its Over”, dos Smiths, numa versão um pouco apressada), coros animados (“I’m Throwing My Arms Around Paris”) e, principalmente berros saudosistas e emocionados, na rendição a três clássicos grandiosos dos Smiths.
“There’s A Light That Never Goes Out” e “How Soon Is Now?” gerou até um pouco de histeria, mas foi “Please Let Me Get What I Want” o grande momento da apresentação, em uma versão simples, concentrada na voz de Morrissey e na inspirada guitarra que deu voz ao público, sublinhando que o interesse maior ainda é o repertório dos Smiths.
Sintomaticamente, no econômico bis, a apresentação teve seu ponto final com a pouco memorável “One Day Goodbye Will Be Farewell”, provando, depois de quase duas horas, que o cantor que já foi considerado “o maior inglês vivo” parece estar pouco sintonizado com aqueles que poderiam ter o elegido com esse título.
Mesmo com um repertório bastante inspirado na sua carreira-solo, a força de sua apresentação parece residir, nostalgicamente, no seu passado com os Smiths. O que garante uma emocionante viagem ao passado, mas também mostra pouca inspiração no presente  e preocupações para o futuro. O rei do rock poético e sentimental não está morto, mas não parece estar passando muito bem.

Veja as músicas que Morrissey tocou em Belo Horizonte:

 
“First Of The Gang To Die”
“You Have Killed Me”
“Black Cloud”
“When Carol Last Spoke To me”
“Alma Matters”
“Still Ill”
“Everyday Is Like Sunday”
“Speedway”
“You’re The One For Me Fatty”
“I Will See You In Far-Off Places”
“Meat Is Murder”
“Ouija Board Ouija Board”
“I Know It’s Over”
“Let Me Kiss You”
“There’s A Light That Never Goes Out”
“I’m Thowing My Arms Around Paris”
“Please, Please Let Me Get What I Want”
“How Soon Is Now?”