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Alta rotação: Meus discos de 2014, blá blá blá…

Credito a uma certa ressaca laborial, de mais de década: 2014 foi um dos anos que menos acompanhei “o mundinho da música”. Ouvidos e mãos cansadas, preferi me isolar no silêncio ou em ilhas já vastamente conhecidas e amadas (acho que desde os 15 anos não tinha gastado tanto tempo com a discografia dos Smiths, por exemplo)

Nesse sentido, meus favoritos do ano são favoritos mesmo, aqueles que ficaram no som, no you tube, no rádio do carro, nos pendrives da vida. São escolhas absolutamente descompromissadas daquela preocupação profissional de dar conta de muita coisa.

Esses são discos que realmente amei; que não desgastaram nestes meses, porque, depois de encontrados, voltei basicamente a eles no quesito descobertas/novidades.

(Tanto que ainda não escutei discos que vou acabar escutando como Racionais, Pato Fu, Silva, Neneh Cherry e a lista é longa…)

E meu favoritíssimo do ano chega depois, em um post só pra ele


 

Shellac- “Dude Incredible”

A onda “Sonic Highways” que fez uma marola na timeline de alguns amigos me trouxe de volta o lado músico de Steve Albini. Nem escutei o disco do Foo Fighters; assisti apenas ao episódio que o produtor é destacado. O que me bastou para Googlar/You Tubar nostalgicamente seu lado  de insane guitar hero: Big Black, Rapeman e Shellac, grupos que, basicamente 1) Achava legal 2) Nem tanto 3) Foda-se. Qual não foi a surpresa com esse “Dude Incredible”. Deste ano! Um mix lindaço de referências eternas e evidentíssimas de Mr Albini ( Gang Of Four!) e um lado, hum, cancional que mui me agrada. Delícia, delícia e se alguém vier com aquele papo de math rock, não hesite: mande estudar. A faixa título é aquela do repeat, incansável. E a capa é daquelas que minha estante IMPLORA por uma edição em vinil

Eno-Hyde-”Someday World”

Pescado da timeline de alguém (acho que do Pedro Hamdam do Transmissor), um vídeo de “Daddy´s Car” foi a ótima porta de entrada pra essa belezura. É frito às vezes, é imensamente poético às vezes e é exatamente o que você esperaria do encontro entre o mago-mor Eno e um cara do Underworld, na maior parte do tempo. Música pop à serviço da inteligência; ambiência à serviço da imaginação. Paisagismo sonoro feito por um dos maiores arquitetos da música pós-moderna e um designer antenadíssimo, que se curva com reverência ao mestre, mas não abre mão de seus créditos.

Sharon Van Etten- “Are We There”

Não tem o arrebatamento do anterior: é mais classudo, mais redondo, mais careta, mais…chato. Mas tive de considerar minha obsessão com o anterior, “Tramp”, para não cobrar demais. E “Are We There” foi ficando…A moça tem uma voz que me conforta de um jeito difícil de explicar e “Every Time The Sun Comes Up” foi decididamente uma das melhores companhias do ano, principalmente naqueles fins de noite solitários e meio paranóicos. Um dos melhores versos do ano, aliás: “People say i´m a one hit wonder/ But what happens when i have two?. Os outros nos cobram demais não é garota?

Juçara Marçal-”Encarnado”

“Encarnado” é assim, um pequeno milagre nessa lista. Escutei ele e fiquei impressionadíssimo, logo quando saiu- janeiro?- tanto que corri pra entrevistar a Jussara. Mas sinceramente eu tinha certeza que sua “aridez” calorosa não ganharia a aderência necessária aos meus ouvidos durante o resto do ano.

Errei, claro. Tô chapado com o disco até hoje.

Giancarlo Rufatto-”Cancioneiro”

A sensação que eu tive ao escutar “Enseada”, ousada abertura de “Cancioneiro”, me levou de volta à sua possível inspiração (“Straight To Hell”, The Clash?) e mais adiante à aqueles adoráveis épicos indies do Death Cab For Cutie ( “Marching Bands Of Manhattan”, “Transatlanticism”) e aí liguei os pontos: ali ele estava conectando o que sempre me ligou ao som dele são (as melodias) e seu lado mais, digamos, nerd, fanfarrão dos estúdios caseiríssimos. Maravilha. Mas aí o disco entra numa MARAVILHOSA espiral pop, radiofônico, cancioneira, que me fez deixar de lado a ambiência inicial e ir buscar um café e ir pensar na vida e lembrar que são essas canções que ninguém ouviu que fazem essa nossa existência besta valer mais a pena.

Beck-”Morning Phase”

Basicamente a continuação do “Sea Change”. Precisa de mais?

(“Blue Moon” me causa arrepios depois de quase 12 meses)

Bones- “Garbage”

Nunca tinha nem ouvido falar, e de tanto ver a devoção (SESH aka Leo Pyrata e Renato Rios Neto) de alguns nas redes, fui buscar. Beleza: é música de branco ianque tentando ocupar o vazio monumental dos subúrbios norte-americanos com um IMENSO saudosismo dos anos 90- repare nos lindos clipes, aliás. Sei lá porque, me remeteu, ao mesmo tempo, aquela poesia travestida de barulho dos Deftones e ao poder de jovem cronista de Mike Skinner. Acho que isso pode estar mais espantando que atraindo possíveis ouvintes, rs. Mas foda-se, dá o play aí em cima e vai com o cara.

Transmissor- “De Lá Não Ando Só”

Outro que achei que tinha grandes chances de não chegar no final cut, por vários motivos. Um deles é simples: escuto ele desde o final de 2013, o que achei que poderia gerar uma espécie de desgaste, sei lá. Outro é mais complexo: sou absolutamente alucinado com o “Nacional”, disco anterior e achava muito difícil deixar a viuvez de lado em relação a ele. Mas aí vi que não conseguiria fechar 2014 sem “Retiro”, “O que você quer ouvir”, “Casa Branca”, “Todos Vocês”…

O patamar do Transmissor é outro. Alto, bem alto.

Spoon- “They Want My Soul”

Pensaê num álbum que beira a perfeição, jogando no misturador aquele indie de verniz, que na verdade é pop sem vergonha. Pensou no “Ga Ga Ga Ga” do Spoon? “They Want My Soul”, se bobear, é até melhor. Não tão brilhante, mas com uma concisão que chega a ser EMOCIONANTE. Joga no carro pra ir trabalhar de manhã, na sexta à noite, naquela quartinha tensa pré-jogo à tarde. Funciona, funciona, funciona. Adoro particularmente “Outlier” e sua jogadinha “Let´s Dance”, mas destacar uma só é até sacanagem.

D´Angelo- “Black Messiah”

(Frank Ocean curtiu isso)

Esse é da linhagem de artistas que só abrem a boca quando tem mesmo o que falar e quando falam sai de baixo, tipo Blue Nile. É tão bom quanto os dois anteriores, hoje, verdadeiros clássicos de gerações (o primeiro dos anos 90, o segundo dos anos 00). Não sei se “Black Messiah”, a despeito do nome, tem potencial para segurar essa mesma herança- e o que importa isso? A qualidade segue lá em cima e se o galã não atua mais como farol, e sim navegando no mar da fodãozice completa, é isso aí. Chegou meio do nada, fim de jogo, e colocou a bola lá em cima, categoria Éverton Ribeiro.

Câmera- “Mountain Tops”

Extrair caos da beleza (e não os contrário, reparem) parece ter sido a missão dos meninos nesse disco. Porque “Mountain Tops” é bonito, bonito pra burro; canções de inflexões radioheadianas muito bem resolvidas na voz do Parma sendo embaladas por uma espécie de bagunça sonora, de grandeza, que nos leva à territórios sonhadores de Grizzly Bear e até Fleet Foxes, para ficar em companheiros de geração dos mineiros. A guitarra  floydiana, do Matheus ganha destaque absoluto, carregando as lindas melodias para o sideral- e por lá ficamos, satisfeitíssimos.

É um segundo disco com cara e vocação de segundo disco: diferente, mais ousado, mais pretensioso.

Sun Kil Moon- “Benji”

“Benji” é trabalho de ourives musico-literato. Faz muito, muito mais sentido se ouvido como se escuta um velho contador de histórias moldado em certa afetividade cínica, em delírios reais, em contos que talvez Carver pudesse escrever e Altman filmar.  As reminiscências infanto juvenis de “Dogs” e “I Watched The Film The Song Remains The Same” são as que bateram mais forte por aqui, mas “Benji” está dividido em longos e belos capítulos.

 

The War On Drugs- “Lost In The Dream”

Meu disco gringo favorito do ano. O mais ouvido, o mais “aplicado nos amigos, aquele que a filha comenta no carro: “Tá ouvindo isso de novo?” quando percebe os versos de “Under The Pressure”. É uma espécie de redenção para tanta porcaria que é lançada usando o santo nome de Dylan, aos fãs enrustidos de Rod Stewart, guitarras empapuçadas de flanger e delays e um “tributo” a uma das grandes bandas e discos dos anos 1980: Waterboys e seu “This Is The Sea”.

Big music!

 

Média rotação: Mac de Marco (“Salad Days”), Afghan Whigs (“Do The Beast”) Chet Faker (“Built On Glass”), Damon Albarn (“Everyday Robots”), Biffy Clyro (“Simillarities”), Real State (“Atlas”), Morrissey ( “World Peace Is None Of Your Business”), Jenny Lewis (“The Voyager”), Kate Perry ( uma coletânea que saiu) Bruce Springsteen (“High Hopes”) Jack White ( “Lazzaretto”) Banda do Mar (“Banda do Mar”), Criolo (“Convoque seu Buda”)


Dez músicas

Luan Nobat- “LSD”

Bruno Mars e Mark Ronson- “Uptown Funk”

David Dines- “I´ve Seen Too Much”

Iggy Azalea- “Fancy”

Max Henrique- “Todo Dia”

Skank- “Esquecimento”

Kendrik Lamar- “I”

Beyoncé-”Drunk In Love”

Neil Young- “Needle of Death”

Michael Jackson e Justin Timberlake- “Love Never Felt So Good”

 

 

 

“O Leandro e Leonardo fizeram mais por mim que o Radiohead”- Entrevista com Giancarlo Rufatto

giancarlo rufatto

 

Tem algumas entrevistas que você gostaria de fazer ao vivo, dividindo um bom copo de café. Giancarlo Rufatto é um desses, que quase implora por uma situação mais adequada para um papo. Mas a geografia (ele teclou de São Paulo, eu de Belo Horizonte), nem sempre nos ajuda.  Justifico essa vontade/sensação pela imagem que a música dele me dá: um compositor, um sujeito muito ligado à canções e ao que podemos supor um cânone delas- desde a estrutura (o apreço por ganchos, refrões, grandes melodias) e a quem as faz muito bem.

Além disso, sua trajetória diz muito de um arco histórico interessante da música brasileira, de uma geração que sonhou muito em chegar ao rádio e que hoje se vê embalada (de forma torta, esquisita e ainda assim, brilhante) junto aos produtos midiáticos mais massivos. Ele é um pouco do que chamo de pequeno grande artista (uma linhagem que existe em alguma fartura no Brasil), de visibilidade limitada, mas de imenso e visível talento. O papo, via Facebook, atrapalha um pouco a percepção de certas nuances. Mas era uma questão de honra para mim, admirador de longa data, que ansiava por tentar arrancar algumas confidências do cara e, sobretudo, tentar sacar se aquela mesma figura “virtual” que escuto desde, sei lá, 2006?, ou que me serve de boas dicas musicais através de seus perfis on line, que me enterneceu com o belo site “50 Discos Para Cecília” e que tem algumas de suas canções cravadas para sempre no meu HD mental era tão…interessante, quanto eu supunha.

Bem, ele é.  E está lançando “Cancioneiro” ( “o melhor trabalho dele até então“, confidencia meu lado fã), um dos grandes discos nacionais do ano, o que já justifica o esforço jornalístico.


 

“A gente passou os anos 90 sonhando com música pop no rádio e quando chegou a nossa hora, não existia mais essa coisa, só existia o tesão por fazer música”

A primeira coisa sobre o último disco, além-música, é o título. Na minha cabeça, você é basicamente um cancioneiro mesmo, aquela ideia do cantautor, do singer songwritter…É assim que você sempre se viu? Quando digo sempre, fico pensando lá atrás, em seus primeiros contatos com música…

Não sei se foi sempre, eu gostava de cantar porque era mais fácil do que tocar, eu tenho um problema na mão esquerda que me impede de fazer certas notas e então me deixavam cantar. Escrever músicas veio disso também, de ser mais fácil escrever do que tirar canções dos outros. mas banda na adolescência é tocar o disco dos Ramones. Pegar o “Acid Eaters” e tocar aquilo

Mas essa motivação de fazer as próprias canções, de compôr, é anterior ao lance de banda, de querer ter banda? Rufatto já nasceu “solo” por assim dizer, ou teve uma primeira fase de querer- ou achar que só ia conseguir- tocar em grupo?

Eu tentei “ter uma banda”, mas sempre deu trabalho manter. Eu tive uma que durou 2 anos entre os 18 e os 20 anos, ai cansei, foi mais ou menos na época que eu comecei gravar em casa, experimentar. Quando morava em Coronel Vivida, no (interior do) Paraná, tinha muito tempo livre e pouca gente que gostava das mesmas coisas, então me trancava em casa e gravava no quarto, aquele clássico dos anos 2000. Eu brinco que antes de ser “artista” sou um cara com acesso internet (risos)

(Risos)

Acho que foi nessa coisa de gravar sozinho que eu virei cantor, o primeiro disco com meu nome só tive coragem em 2008, e eu já gravava desde 2004, não haviam muitos cantores indies. Que eu lembro, o Beto Só foi o primeiro cantor indie que lembro de ouvir nos anos 2000 que falava com o mesmo som que eu queria fazer

Você nasceu no interior? É engraçado você falar disso, da internet, porque muitas de suas versões- que é um lado muito interessante do seu trabalho- me parecem típicas de quem escutou muito rádio, música popular mesmo…

Eu sempre ouvi muito rádio, aquele clichê de gravar fitinhas do rádio, quando era adolescente me sentia atrasado porque vários amigos tinham MTV e eles gravavam pra mim. Quando me mudei pra Curitiba, a primeira coisa que fiz foi negar o pé na roça, mas acho que as pessoas só passaram a gostar das músicas que eu faço quando assumi o caipira em mim. O Leandro e Leonardo fizeram mais por mim que o Radiohead (risos)

Interessante isso…Curioso porque Curitiba, até o início dos anos 2000, muitas vezes passa uma impressão de ter sido uma espécie de polo do rock sessentista (sem denotação negativa nisso) e parece que, com o passar da década, ter se desdobrou em uma produção bem mais variada…Pode ser meu olhar estrangeiro, não sei. Qual foi sua relação inicial com a cidade?

Curitiba ainda tem um pé no Rio Grande do Sul que tem aquele verve roqueira dos anos 60, mas hoje acho que o pessoal da cidade se identifica mais com São Paulo. O interior do Paraná ainda é bem rock gaúcho. Quando morava em Coronel, sonhava com Curitiba, com os festivais que rolavam lá e com as bandas. Tinha o FUN, um caderno de cultura da Gazeta (do Povo, jornal local) que vendia as bandas como grandes. A internet aproximou muito todo muito e separou os nichos musicais, não existia muito de cena

E esse sonho fez sentido quando você chegou lá? No sentido de encontrar ou se relacionar com a cidade dessa forma. Acho o clipe de “Venha Comigo” bonito à beça nesse sentido, uma espécie de flâneur ali, na cidade, observando e tal. Mas meio de fora, sabe?

Eu passei 10 anos na cidade, pra mim foi muito legal, meu sonho era viver lá, mas nunca fui “de Curitiba”, embora me vissem como de lá. “Venha Comigo” foi o momento em que eu saquei qual era o meu lugar, eu não era de Curitiba, eu era de Coronel Vivida.

rufatto

E agora você está em São Paulo, certo? O “Cancioneiro” diz desta mudança ou você já vinha compilando as canções há tempos?

Então, a ideia de “Cancioneiro” existe desde 2007, eu até fiz 3 volumes de demos e canções que saíram em Eps e no “14 Canções” (1° disco de Rufatto). Mas nunca tinha achava o timing da ideia até mudar, ter minha filha e parar pra refletir sobre o que fazer agora. Eu sempre quis fazer um disco que tivesse um espirito, tipo o “Darkness on The Edge Of Town” do Bruce Springsteen ou o “Alucinação” do Belchior. Discos sobre pessoas a margem, pessoas invisiveis e tal. “Cancioneiro” surgiu da ideia do refrão da música “Canções que Ninguém Ouviu” porque era basicamente como eu sentia minha geração. A gente passou os anos 90 sonhando com música pop no rádio e quando chegou a nossa hora, não existia mais essa coisa, só existia o tesão por fazer música

“Girando o botão no rádio até encontrar um verso no rádio sobre eu e você…””As canções que ninguém ouviu”…Quando escutei essa (a canção título do disco) senti um caráter meio “declaração de intenções”, sabe? E curti a citação ao “espírito do rádio”

Retromania total. Sempre fiz tudo grudado na retromania, nessa coisa de saudar os tempos dourados. Quando minha filha nasceu eu entrei numas de rever tudo, pra agir certinho e tal. Queria que o disco tivesse uma esperança

No caso, os tempos dourados no qual sua música não fez parte? Digo, no sentido do alcance? 

É

Digo isso porque sempre tive aquele sofrimento, como ouvinte/jornalista/produtor de pensar ainda “Ah, esse artista tinha que estar no rádio, etc, etc, etc”. Você é um desses, na minha opinião

Mas não há uma necessidade de “dar certo” não tem um rancor por ter chegado tarde, é só uma constatação de que estamos em outra época

Sim, concordo. Mas fica essa nostalgia esquisita mesmo

Mas estamos em outra época, eu estou num playlist junto da Nicki Minaj e da ariana grande no Deezer

E para além dos simbolismos fortíssimos de uma situação dessa, você colhe mais, audiência, por exemplo? Tem um retorno direto no seu trabalho?

Eu tive bastante retorno nos últimos anos, de minha música tocar na rádio da cidade da minha mãe, o hype do tributo ao Raça Negra também ajudou a ampliar o alcance e agora começou entrar uns centavos, dinheiro de streaming, o tipo de coisa que eu nunca imaginei (risos). Se eu me esforçasse, dedicasse um pouco mais, talvez tivesse retorno, mas não quero ficar sofrendo com isso, é melhor achar emprego e seguir gravando

 Voltando ao “Cancioneiro”, dá pra dizer que é um disco mais ousado, mais “torto”, mais denso ( “Enseada”, “Gospel Song”, “Dance, Dance Dance”) ao mesmo tempo que traz algumas de suas melhores pop songs, como “Cancioneiro” ou “Alfredo”?Digo no sentido musical, no tratamento dos arranjos…

Foi o mais demorado, levei quase 2 anos entre um e outro trabalho porque queria que fosse “novo” e não apenas mais um. As letras foram mais trabalhadas, tinha uma temática de ser um disco denso e que não fosse tão lo-fi. Deu trabalho pra gravá-lo porque gravar em casa com criança por perto não é fácil, por isso tem tanto teclado.

Uma coisa notável no nosso papo até aqui é a presença da tua filha…Como a paternidade entra na sua questão, digamos, artística? Teu blog para discos futuros para ela, inclusive, parece uma extensão de sua figura “músico” também…Digo isso porque, incrivelmente, você parece ser um músico que realmente GOSTA de falar de música…

Minha filha deu um norte, eu já estava nessa de ser cantorzinho há meia década. Eu nem sabia mais sobre o que cantar (risos) e ela nasceu e eu entrei numa nostalgia de não ser mais o filho e sim o pai e ter de dar exemplo. Acho que esse disco é sobre isso, sobre a esperança que a minha filha deu. Só existe uma música pra ela, que é “Poucas e Pequenas Coisas”, as outras são sobre pessoas que tem esperança, apesar de tudo que tá rolando no Brasil

Exato, eu ia falar um pouco isso…É um disco de personagens também né? Tem um laço “Springsteen” em algumas canções, deste ponto de vista narrativo?

Sim, totalmente. eu queria que não fosse sobre mim. Quando você canta em primeira pessoa tende a ser tudo sobre você,  e na verdade é mais sobre ser invisível em Curitiba, Alfredo, por exemplo, é o cara que morreu atropelado enquanto eu ia para o trabalho. É um exercício legal de criar uma narrativa com começo meio e fim porque te liberta de ter refrão, mas nesse disco tem muito refrão. Tem “Dance, Dance, Dance” que brinca com o clichê de ter um milhão de músicas com esse titulo e cita Forrest Gump no fim

É, mas isso é uma coisa sua também né? De “respeitar” o sagrado formato do pop e tals…

Eu respeito demais até (risos), deveria repeitar menos e arriscar mais, mas como minha guia é sempre a letra fica difícil exagerar em arranjos, em fugir da guitarra. Mas existe uma vantagem da carreira solo de não precisar se repetir, não precisar ter um estilo

Um pop lo-fi, né? O que aliás me soa como uma boa descrição para tua obra…

É como eu vejo também. Pop no sentido da canção e lo-fi no sentido da pretensão.Ter gravado usando o Ipad deu uma abertura de timbres que eu não tinha, quase enfiei o baixo com fuzz em tudo (risos)

Ao mesmo tempo, soa como um disco mais bem “produzido” que o “14 Canções” ou o “Machismo” por exemplo. Deve ser a coisa timbrística mesmo. Mas sinto uma certa unidade, uma cara de disco, sei lá…Pode ser só impressão minha

Eu fiquei muito tempo ouvindo, pensando nos arranjos, em que cada musica merecia. os sopros que entraram só porque aprendi duas notas de trompete. Eu acho ele mais bem produzido e eu consigo ouvir minha voz sem me irritar

Isso é uma questão que te incomoda? Não te acha um bom cantor?

 Hoje eu encontrei minha voz, o registro certo, mas ainda acho que não sou cantor, sou tipo o cara que canta e grava tudo (risos), e os microfones novos ajudaram a captar melhor

ruffato2

Tem uma coisa que você falou antes, que é a questão da letra. É uma prioridade, um início? Sente falta de boas letras em português atualmente?

Pelo contrário, acho que existem grandes letristas na turma nova, principalmente na galera que surgiu de 2008 pra cá. Cada um encontrou seu estilo, dos mais pop (Marcelo Jeneci) aos mais indies (Lupe de Lupe). Eu tenho uma preocupação enorme com as minhas porque tem de ter um contexto, uma historia. Não quero que seja só sobre homem-mulher. As ultimas três músicas do disco são temas religiosos zoados. Eu sempre gosto de fazer isso , desde meu primeiro disco, ou com a Hotel (Avenida, banda curitibana que Rufatto integrou)

É, tem uma coisa meio gospel, mas via Black Rebel Motorcycle Club e Spiritualized né?

BRMC e Spiritualized cantam sobre religião à beira do precipício, e esse tema é muito legal e pouco usado. No Brasil que tem todas essas religiões o pessoal tem medo em tocar  nisso. “Luzes da Páscoa” entrou neste disco só pra afirmar esse tema. Era uma música que eu tocava ao vivo com a Hotel Avenida e é uma conversa entre Jesus e Judas (risos)

É curioso mesmo, mas tem uma coisa que é um template musical, do gospel, que tem estruturas musicais mesmo lá de fora que são diferentes das nossas…Digo isso como um gancho pra te localizar, de certa forma, como um cara que gosta muito da chamada Americana, essa fusão de gêneros típicos dos EUA, tô certo? E isso entra na tua música de forma que me soa bem natural, não é tradução…

É o cancioneiro deles, né? Eu já fui muito influenciado, na época que eu estava descobrindo a música folk, o blues. Ai tu vertia aqueles temas pro brasil e acaba soando como Legião Urbana do disco “V”

Boa

Mas do Bruce Springsteen não fujo não, tem uma referência óbvia. que quando fui arranjar pensei numa versão lo-fi do “Darkness On The Edge Of Town” e do “Alucinação” do Belchior.

Aproveitando isso então, de supetão, pode listar 5 cancioneiros que você gosta muito? 

Pensando em discos com historinhas, tem o “Alucinação” do Belchior, o “Darkness…” do Bruce, tem o primeiro do Tim Hardin, “Nuvem Que Passa” do Gilliard (juro que é bom!). Dos anos 2000 tem o “Virginia Creeper” do Grant Lee Philips e o “Jacksonville City Nights” do Ryan Adams.

Leandro e Leonardo, Gilliard, você tem uma versão sensacional de Roxette…Podemos chamar isso de uma sensibilidade pop? O que te atrai, fundamentalmente, nesses artistas/canções? Tem uma provocação aí, ou é uma lance de, pra usar um termo ruim, dignificar esse pop?

Leandro e Leonardo foram vítimas da qualidade sonora da época, tem grandes canções em todos os discos deles. Gilliard tem umas músicas que não devem nada ao Cidadão Instigado ou ao Jeneci, só que o estigma do brega esconde isso. o que há em comum em todas as musicas que você citou? Tocavam no rádio. No interior não havia divisão de turma, a mesma galera ouvia Leandro e Leonardo, Roxette e Guns N´Roses e Ramones. Até hoje é assim, mesmo com a internet

É curioso pensar num ciclo assim

Todas canções que eu regravei fizeram mais “sucesso” que qualquer coisa minha porque liga direto as lembranças de quem ouve. Eu brinco dizendo que no sudoeste do paraná todo dia é 1991

(muitos risos) Um interior, mas muito cosmopolita

Mas tu acha que ai é diferente só porque vocês tinham a Rede Minas e o Alto Falante?

Não, não. Acho essa análise bem boa. A melhor canção é aquela que carrega toda uma memória afetiva…

Sim, é o que eu tento fazer com as minhas, liga-las à um espirito de época mesmo sabendo que elas vão desaparecer. Faz parte. tem toda uma geração de artistas entre 2000 e 2003 que é impossível encontrar informações. 

Acredita que esse “desapego”, de certa forma, se sintoniza com a forma como você registra as canções? Digo isso porque tua obra é bem fragmentada, em EP´s, singles…

Sim, totalmente. Ninguém consegue ouvir um disco do inicio ao fim nos tempos de hoje. Até artistas grandes sacaram isso que quase ninguém passa da sexta música. Eu mesmo tenho dificuldade de ouvir

É, engraçado isso. Mudamos nosso jeito de acumular informações

Que discos você lembra de antes da Copa? Alem do Silva? Ao mesmo tempo que essas informações vão sumir quando mudar a mídia atuante

De cara assim? Juçara Marçal, War on Drugs, Sharon Van Etten, Sun Kil Moon. É pouco

E você só citou um brasileiro

Sim! Impressiona isso
É rarefeito, só importa pra quem faz a musica. Eu penso muito nisso, em “porque lançar um disco que ninguém vai ouvir”
Sim. E pensando nessa questão, ela se resolve- mais ou menos- no palco, com show. Você faz muitos shows? Como é essa questão do ao vivo para você?
Não, faço pouquíssimos, fazia mais no tempo da Hotel Avenida. Eu nunca fui muito bom de shows ao vivo, meu negócio sempre foi gravar, me divertia com isso, mas depende de como os discos vão. Quando lancei o disco anterior fiz uns shows acústicos que eram rápidos e fáceis. No primeiro disco eu quis só toca-lo na rua, fiz 8 shows em Curitiba. Estou pensando em fazer o mesmo com esse por São Paulo (risos)
É um bom final/início de ciclo, já que falamos tanto disso
Sim, claro. E existe todo um mercado autoral que poderia ir pra rua e ocupar o espaço que hoje é ocupado pelo circo
O circo? Que louco pensar nisso! Fico lembrando de coisas tipo Teatro Mágico, uma lógica meio assim
Digo circo no sentido de utilizar a rua como espaço formal e não marginal, como artista de rua, mas tem um preconceito com isso
Ah, sim, perfeito. Aqui em Belo horizonte esta está se tornando uma questão meio central, aliás
É? Estão regulando?
É uma batalha, a ocupação de espaços públicos para usos artísticos, culturais
Imagino. Quando fiz em Curitiba, fiz em lugares que contavam uma historia, nada de lugares pra turista.
É uma saída. Para fechar, já que fizemos uma conexão rápida BH-Curitiba: você se relaciona com outros artistas no Brasil? A cena independente nacional, de festivais, selos, turmas, etc, faz sentido para o artista Giancarlo Rufatto? Sei que você está ligado em todas essas questões, mas não me parece ser um habituê de festivais, ou tem dobradinhas estabelecidas com outros artistas…
Eu trabalhava num centro cultural em Curitiba e organizava um palco da Virada Cultural de lá, então acabava indo ver todo mundo. Mas com meu som, nunca levei a sério, sempre me vi a parte do circuito, mesmo no período que tocava com a Hotel. Ano passado eu toquei num festival do movimento Hotspot em Porto Alegre, foi engraçado que era uma parada com financiamento do Ministério da Cultura, e o tratamento era de primeira. Como não vivo de música, sempre aceito uns convites malucos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Fausto que fez um pacto com o escracho

Um pequeno sol de bolso

que não propriamente ilumina

mas durante seu percurso

dissipa a neblina

que impede o outro sol, importátil,

de revelar sem distorção

dura, doída, suportável,

a humana condição.”

(Paulo Henriques Britto.  “Para um monumento ao antidepressivo”. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.63)

 

Quando brindamos ontem, eu, Terence e James, a passagem do Fausto, falamos rapidamente sobre a importância e o brilhantismo dele e da trupe que, evidentemente, comandava (“Ele era o Lennon e o McCartney do Hermes e Renato”, alguém soltou). Traçamos um panorama meio sombrio da geração que, de certa forma é a dele, já que num campo semântico de época, seu nome não soa estranho entre os de Chorão, Peu, Champignon. Não estendemos muito o assunto, talvez pelo impacto da notícia que ainda circulava duvidosa nas redes ou pela sumarização meio completa/complexa e simples do Terence: “No fundo, no fundo, a gente nunca sabe como é a vida das pessoas”, ou algo (sabiamente) do tipo.

A gente nunca sabe mesmo. Num período especialmente escuro da minha vida, Hermes e Renato foi meu pequeno sol de bolso que nascia da tela ainda relevante da MTV, já no final do dia, antes de dormir. Era muita coisa acontecendo na vida (filha-trabalho-faculdade) que eu tentava entender através dos meus dezenove anos e muitas sessões de terapia. Fugia das prescrições tarja-preta que minha simpática doutora me recomendava, porque sabia ter onde me esconder no final de  cada difícil, por vezes dificílimo, dia.

Aqueles caras dissipavam a neblina para mim. Era a Teoria do Alívio (“Como o humor questiona as exigências sociais convencionais, ele pode ser encarado como um fornecedor de alívio da restrição que impõem as exigências”), um dos eixos formatadores e conceituais do humor, na sua prática, mais profilática do que nunca.


 

Pouco foi falado ontem, mas eu quase garanto que eles, meus comparsas,  assim como eu, passaram parte da manhã buscando algumas pérolas do grupo no You Tube.  Até aposto em qual foi o primeiro… E foi simplesmente espetacular abrir as redes sociais hoje e coletar um festival de melhores momentos do Hermes e Renato. A morte do Fausto foi “celebrada” com o que ele ofereceu de melhor, ou seja, o melhor humor brasileiro pós-sei-lá-o-que que tivemos (“Trapalhões”? “Casseta e Planeta”?), do fim dos anos 1990 pra cá. É até curioso pensar que o Fausto pediu a conta no mesmo dia que outro gigante do gênero e seguramente um de seus mestres, Mussum (para seguir concatenando, um pré-Away, o representante do humor meio non-sense), pediu a dele, há 20 anos atrás.

Curioso pensar também que talvez a grande marca do H & R fosse o verniz “do-it-yourself” que eles tentavam manter a todo custo- não é à toa que para muitos a melhor fase dos caras era a inicial; ou pelo menos a fase dourada terminou a partir do momento que eles “sofisticaram” demais. Exageros, claro, uma boa produção não faz mal para ninguém- e os caras eram bons nisso desde as primeiras tentativas em Petrópolis. Mas a grande sacada desses punks era a capacidade que eles tinham de colocar em prática e funcionando-alive and kicking- os desejos de boa parte da classe média brasileira amamentada pela idiotia da mídia em cuspir de volta o lixo todo, processar aquelas propagandas, filmes, CULTURA POP enfim, que tomávamos junto com o toddy da tarde, em produtos maravilhosamente bem resolvidos na sua tosquidão.

Não se tratava de uma fórmula nova, claro. Mas era uma fórmula que funcionava muito bem para uma geração que teve a TV como babá e totem de subjetivação importantíssimo, a ponto de sonhar muitas vezes em fazer parte dela, como uns guris cariocas imbecilóides pareciam sonhar.

É aí que me lembro quando,  junto com os mesmos Terence e James de ontem, fomos receber um prêmio em São Paulo, pelos idos de 2005 (cacete, quase uma década!). A cerimônia, apesar de voltada à música independente, conseguia reunir no espaço bacanudo gente de grande importância na cultura brasileira, tipo, sei lá, Tom Zé.

Mas ninguém foi mais aplaudido, saudado, ovacionado, de forma quase histérica até que alguns dos Hermes e Renato que subiram ao palco para entregar um dos prêmios.

Porque muita gente se sentia “vingada” por aqueles caras. Eram a representação mais nítida, do momento, de uma possibilidade de vitória jovem, “alternativa” e “independente” dentro do mercadão. Uns malucos que enviavam fitas de VHS tosquíssimas para um canal de televisão e hoje eram a fina (?) flor(?) do humor nacional. E era  humor cosmopolita, insano, e ao mesmo tempo muito próximo da gente. Como se Beavis and Butthead finalmente entrassem naquele templo que era a televisãozinha deles, e passassem a comandar geral a programação.

Era bom demais, mesmo.

E se alguns pensadores (alô Jameson!) falam de uma certa era do pastiche que vivemos, eles têm em H & R um farto material de estudo: tudo ali era retrô, do próprio nome e do quadro que os batizou, até os zilhões de programas dentro de programas que eles criaram. Só que ao invés de sofrerem por causa dessa falta de, digamos, identidade, desse falar através do outro, eles preferiram o escracho, simples e absoluto. E inteligentíssimo.

Engraçado também é pensar que o bando reinou sozinho durante um bom tempo. E que foram, seguramente, pioneiros nessa onda stand-up ( já passou?) que modelou muito do mainstream midiático nacional nos últimos anos. A última turma de adictos televisivos ,que não segurou a peteca na época da internet, onde tantos estão aí, vencendo.

Talvez porque esse suporte, a televisão, fosse mesmo no final das contas a grande musa dos caras. E, benza o deus dos sátiros, a internet tá aí, um arquivão maravilhoso dos tesouros deles. (Enquanto escrevo “ouço” episódios como se fosse rádio. Que texto, que “redação” eles tinham!).


 

O que não diminui em nada o impacto dos caras, óbvio. Não sei se já escrevi, mas H & R, além de imensamente criativo, era INTELIGENTE demais da conta. Leram uma época como pouquíssimos leram, com uma precisão absurda.

E escreveram, claro, hiláriamente, uma época.

É difícil até lembrar o imenso glossário que eles deixaram: quem não tem um amigo que te chama de Proxeneta?  Ou o já clássico Joselito? Quem não conhece um capeta em forma de guri na vida real? Quem não quis pagar de fodão (ou de fodinha), tipo Mr Chocolate? “Um” Boça sempre esteve entre nós?

Alguém definiu melhor os deslumbrismos electro rock de alguns anos atrás que o Cansei de Ser Hype? Ou daquele clichê clássico do teatro intelectual? Ou as cretinices quase inerentes ao jornalismo? E quando o fôlego começou a encurtar, os caras foram direto ao ponto, sacaneando/homenageando a matriz superior, o cinema, com aquela maravilha chamada Tela Class.

São muitos, muitos, muitos, muitos exemplos. A galeria de personagens- e de, mais ainda, situações- é infindável. Os caras produziram muito, e erraram muito pouco, no saldo final.


 

Com a morte do Fausto, avivam-se essas lembranças para mim, e com elas uma vontade imensa de, sei lá, agradecer, celebrar, passar um dia todo em torno do que eles fizeram,como faço agora. Porque deixei de acompanhar há muito. Mas eles foram de uma importância muito grande para mim, tornando suportável a humana condição, e fazendo dela divina comédia.

E no fundo, sem querer parecer leviano, queria que o Fausto tivesse lido, com a destreza que tinha para me fazer rir, esse poema do Britto.

Fica de sugestão aos que ficam e homenagem a ele e aos que partem nesses, mineiramente, trens meio irônicos da vida.