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“Ele era naturalmente chapado e abençoado”- Entrevista com Leon Hendrix

Publicada no site do Alto Falante em 10/11/2006

crédito das fotos: Divulgação

É uma das histórias mais malucas da temporada. Fim de tarde na redação, todo mundo já pensando no jantar e de repente aparece uma novidade na nossa caixa de e-mail.

IRMÃO DE JIMMY HENDRIX DIVULGA OBRAS INÉDITAS DO GUITARRISTA EM BELO HORIZONTE: LEON HENDRIX, 56 anos, irmão caçula do legendário guitarrista Jimmy Hendrix,. está hoje (24/10/06) em Belo Horizonte Leon chegou à capital mineira na manhã desta terça-feira. Veio dos Estados Unidos acompanhado dos produtores responsáveis pelo filme que será lançado sobre a vida do músico. As gravações começam no meio do ano que vem. Como tem amigos em Minas, LEON HENDRIX está fazendo uma viagem de turismo e também resolveu divulgar aqui os DESENHOS INÉDITOS FEITOS PELO CANTOR. São 47 obras de Jimmy Hendrix, produzidas durante tournês ou em dias cansativos dentro de quartos de hotéis. As pinturas estavam com a família de um amigo do músico, que vendeu apenas 4 obras. Guardou o restante e só em 2005, as pinturas foram parar nas mãos de um colecionador. Agora, elas estão sendo mostradas PELA PRIMEIRA VEZ, em Belo Horizonte. São pinturas coloridas, que mais parecem mosaicos, feitas com caneta hidrocor. As obras originais estão num cofre particular na Flórida. LEON HENDRIX trouxe as fotos com selo de autenticidade e dois “giclés”, que são as cópias fiéis, digitalizadas.(fonte pcspi comunicação)

Talvez pela grafia errada do nome do guitarrista (“Jimmy Hendrix”), talvez pelo caráter de emergência da notícia (“está hoje (24/10/06) em Belo Horizonte”), mas fundamentalmente pelo conjunto da obra (Irmão do Hendrix? Desenhos? Aqui em BH?), estranhamos muito o conteúdo do e-mail. Primeiro passo: apurar quem é afinal Leon Hendrix. Como resultado, encontramos um site oficial do cara que, hehe, é guitarrista também, com direito a página no myspace e tudo. Leon Hendrix “Mysterience” gerou risos imediatos e aumentou o gosto de loucura da coisa toda. Mas somente a “ilustre”visita do tiozinho não valeria a apuração in loco. No máximo, convidaríamos para uma cerveja e tentaríamos arrancar algumas boas histórias sobre o irmão. Mas, existia uma notícia ali, Leon “resolveu divulgar aqui os DESENHOS INÉDITOS FEITOS PELO CANTOR.”Que desenhos são esses? Por que eles vieram parar aqui na capital mineira? A “experiência” estava só começando.

A história data do final dos anos 60, como nos garantiu o norte-americano Thomas Ford, na locação escolhida para nossa conversa, a filial mineira do Hard Rock Café e suas zilhões de referências ao legado de Hendrix. É ele mesmo que conta como entrou nessa história. No final dos anos 60, Jimi foi fazer um show na Flórida. Antes do concerto, estava reunido em um bar “aumentando conta” com alguns amigos até que o promotor do show chega e avisa que a apresentação estava cancelada”. Resultado final: ninguém tinha grana para pagar a conta.“ Então Jimi ofereceu alguns de seus desenhos como forma de pagamento. Por sorte, o dono do bar era um admirador de arte e aceitou.”Anos depois, esses mesmos desenhos foram parar em um leilão beneficente de uma igreja freqüentada pelo tio de Thomas.“ Ninguém na igreja tinha idéia de quem era Jimi Hendrix”, garante ele. Ford conhecia e entrou em contato com a família do músico. Bastou um único encontro de Leon com os desenhos do irmão para garantir a autenticidade das obras. Não era novidade para ele. “Eu sempre soube da existência disso, devido à habilidade artística dele na infância. Ele pintava esse mesmo tipo de rascunho na guitarra. Quando não gostava, pintava de branco o corpo do instrumento e fazia outro desenho. Eu dizia: ” Oh, você pintou uma obra-prima!”. Ele retrucava: ”Não! São só rascunhos! Estou em uma fase Picasso…”, atesta Leon, já sentado confortavelmente no balcão da lanchonete, de costas para algumas fotos do irmão.

Ele veio parar em BH porque Thomas, que foi casado com uma mineira de Governador Valad(ól)ares, tem familiares por aqui. E chegou carregando também toda a mística que envolve o irmão mais famoso… “… Jimi queria trazer a música para a Terra. E a única forma dele fazer isso era pintando todas as cores e tamanhos de todas as músicas que ele ouvia.”

 Ele tinha influências conhecidas de pintores, artistas plásticos? 

Lembre-se, somos Cherokee e negros. Da África e da América. Nosso sangue é Cherokee. E era isso que ele fazia, tentando mostrar a música em cores. Isso (aponta para os desenhos) é quase Asteca. Porque você sabe, o rock n´roll é vermelho e laranja, áspero. Já o blues é azul, verde, o mais suave que você conseguir. São as cores que você tem, e ele sabia disso na sua mente… Vinha de Deus, saca? 

Isso soa coerente com a idéia de “psicodelia” que ele colocava em sua música. 

Deixa eu te contar um segredo: ele fez isso antes de ser psicodélico. Sabe, quando dizem que ele colocou ácido na bandana, é mentira. (N. E: Uma das lendas mais conhecidas a respeito de Hendrix é a de que ele “derretia” LSD em sua bandana, para que a droga escorresse até sua boca.) Ele não fazia isso. Ele era naturalmente “chapado” e abençoado. 

…(surpreso!) 

Eles perguntam: “Leon, Jimi colocava ácido na bandana?”. (irritado) Não! Ele fazia isso para evitar que o suor caísse nos olhos! Eu sou um músico também, e quando o suor caí nos seus olhos, no palco, você fica cego!”

Parecia melhor mudar o rumo da conversa. Queríamos saber de Jimi Hendrix, a lenda. Alguns que conviveram com o guitarrista desde os tempos remotos se espantaram ao perceber a evolução dele no instrumento. Como, em um espaço de tempo tão curto, o cara se tornou o maior de todos os tempos? Inspiração. É o espírito que ele recebeu de Deus. É tudo que posso dizer. O espírito se conectou a ele e deu a Jimi esse dom. Porque escolheram-no. Eles falavam: ”Hey filho, toque essa música“. Ele não sabia o que estava fazendo, tentando capturar essa arte no seu instrumento, com uma corda”

 Mas foi assim desde sempre? Quais foram os primeiros contatos dele com uma guitarra? 

Quando crianças, eu e Jimi dormíamos juntos em uma cama. E às vezes meu pai dormia na cama também. Éramos muito pobres! E ele arranhava pedaços de borracha que estavam entre as barras da cama. E as tocava! Póim! Quanto mais suave ia…” Puéim. “Há algo aqui! O que é isso?”. Nós trabalhávamos com o nosso pai, ele era um mecânico. Uma velha deu a ele um ukelele com uma corda, e aí ele tocou com essa única corda “Peter Gunn” ( canta o riff duas vezes, empolgado). Em uma corda! Esticou a corda e conseguiu um registro de nota maior e disse: “Pai, preciso de mais que uma corda!”. Então meu pai se convenceu e comprou para ele uma guitarra barata.

Leon e o irmão mais velho

Quais foram as primeiras coisas que ele tocou? 

A primeira coisa que ele tocou nessa guitarra foi Elvis Presley, ”Hound Dog”. Depois Chuck Berry.”

Mas ele se sentia como o grande guitarrista que, realmente, era? 

Quando você chegava para ele e falava, “Hey Jimi, grande show, blá, blá, blá” ele falava “Vamos lá cara, não me louve, é apenas música. É simples, para mim. Para um matemático que sabe fazer cálculos algébricos, se você o louvar, ele falará: é muito simples para mim “. Era muito simples para o Jimi.

Leon e um dos amigos que fez excursionando com Jimi: Eric Burdon. 

Aos dezesseis anos, Leon recebeu o melhor presente que poderia ganhar do irmão mais velho: um convite para cair na estrada com ele. Com isso, Leon passou a conviver com alguns dos amigos de Jimi, uns tais de Beatles e Rolling Stones. “Nós farreávamos juntos o tempo todo.”, garante ele, saudoso. Na hora de falar sobre a tríade “sexo, drogas e rock n´roll” que envolve o período, ele evita ir fundo. Como na história da bandana, Leon parece estar claramente interessado em “preservar” a imagem do irmão. Família é família não é? Minha ( canção do Jimi Hendrix) favorita é “Castles Made of Sand” porque é sobre nossa família. Se você prestar atenção na letra, você verá que é sobre meu pai discutindo com minha mãe, ela indo embora porque meu pai está bêbado… todos nós vivemos esse tipo de coisa. Eu sou o “pequeno índio, quando tinha dez anos, brincando na vizinhança com outros amigos”, como Jimi canta na letra. Esse era eu. E minha mãe então estava numa cadeira de rodas, sem falar… foi a última vez que nós a vimos, antes dela morrer. Ela estava numa cadeira de rodas em um hospital público, parecia fraca, então Jimi escreveu uma canção sobre ela. Nós a amávamos. Falando em família… Um dos assuntos mais polêmicos em relação à legacia Hendrix é Jennie, uma “irmã torta” de Leon, que hoje em dia comanda o Electric Ladyland, complexo de estúdios em Nova York, um projeto original de Jimi Hendrix. 

Um dos legados mais importantes de Hendrix é o Electric Ladyland Studios, em Nova York, não é?

 (interrompe) Ela não é da família! Ela foi capaz de manipular meu pai de uma forma que agride muito os que têm realmente sangue Hendrix,todo um legado… Ela rejeitou toda uma família. E meu empresário diz: “Corta esse papo agora!”. Mas, ei Jennie, eu te amo. Ei docinho, tome essa agora. Eu sou um Hendrix real, você não. 

 ( tenso) Ok, fale então sobre a Jimi Hendrix Foundation. A Jimi Hendrix Foundation, o que fazemos é providenciar programas de músicas para crianças que não tem acesso a instrumentos musicais. A música está na cabeça delas o dia todo, mas eles não conseguem trazer isso para a terra. Então o que fazemos é dar a elas uma guitarra pra que a música não fique apenas em suas cabeças. Hoje em dia é tão computadorizado… Nós damos computadores e instrumentos pra quem queira mesmo tocar. Se você é mesmo sério, vá até site da Fundação, no meu site oficial ou no meu myspace e te daremos instrumentos para os seus sonhos se realizarem. (NE: Não custa tentar!) 

Feliz por estar saindo pela primeira vez dos EUA, Leon garantia que voltaria com sua banda para o Carnaval. Mas se sentia confortável desde já, olhando novamente os pôsteres do irmão na parede:“Se você for em qualquer lugar do mundo agora, como eu faço, vou para um bar escuto “Purple Haze” ou “Hey Joe”, eu comemoro. Sei que estou no lugar certo!” Ok, meu chapa. A gente também.

O eterno ciclo do pop

Ilustração: Marcos Batista

Coluna Esquema Novo publicada no jornal Estado de Minas em 04/02/2011

Acredito em ciclos. A música pop, assim como a vida, move-se em ciclos: ela se transforma a partir dos elementos que anteriormente eram novidade. Curiosamente, essas “cópias”, quando muito bem feitas, podem se configurar perigosamente em plágios. Quando malfeitas, podem até ser acusadas pelos apressados como algo “novo”. E esse “novo” (entre aspas, porque nada se cria tudo se copia etc.), a gente sabe, é a honraria máxima do criador em geral. No final das contas, o “novo” é a cobra mordendo o próprio rabo. Humberto Gessinger, que volta e meia apresenta mais talento como pensador da música popular que como artista, já ilustrou isso muito bem com aquelas capas bizarras dos discos de sua banda Engenheiros do Hawaii.

Toda essa filosofia de boteco serve para tentar imaginar o que virá no mundo da música pop na próxima década – que, a bem da verdade, começa agora em 2011. Os esperados anos 2000, a epítome do futuro, como já previam os Jetsons, reciclaram boa parte das transformações da década de 1980, que por sua vez revisitou com fartura os anos 1960 – a década “molde” e insuperável da música pop. O primeiro revival da psicodelia sessentista chegou entre a new wave e o hard rock farofa oitentista, nas mãos de gente como The Cult, Echo And The Bunnymen, The Cure, XTC e até Prince – para ficar em exemplos que alcançaram o radar de público e crítica e até as paradas de sucesso.

Pois bem: de certa perspectiva, os anos 00 começaram justamente quando bandas chegaram xerocando o som da virada dos 70 para os 80 com os Strokes, até avançarem nos 80 meio caricaturais (Interpol e que tais), no punk funk de Franz Ferdinand e Rapture (cria de Gang Of Four e de Joseph K) até os arroubos de psicodelia de nomes como MGMT. Foram tempos de expansão, de coletividades, de cenários interagindo. Um resgate meio torto dos 60 passados por um filtro oitentista.

Os anos 1970 – a “me generation” definida pelo escritor Tom Wolf – foram tempos egoístas de dispersão de conceitos e conquistas da geração 60. A sonoridade da época retrata um pouco isso, tendo David Bowie e suas facetas múltiplas como nome-sumário, mas também com a morte do sonho hippie com o Black Sabbath, os impulsos inorgânicos do Kratfwerk, a escapista disco music e tantos outros algozes. Qualquer semelhança como os anos 1990 não é mera coincidência: o grunge (sem dúvida, o maior “movimento” da década) foi perito em resgatar tanto parte da sonoridade como o espírito dos 70 mesclando guitarras distorcidas e a postura meio preguiçosa, indecisa e cínica da chamada Geração X, cunhada pelo escritor Douglas Coppeland.

Acreditando nesses ciclos, é bem possível que a década que se inicia guarde semelhanças maiores com os anos 70 e 90. Um tempo menos colorido, menos voltado para a pista de dança, pouco pautado por fusões musicais malucas e improváveis. Um lento revival de bandas que marcaram os 90 já sinaliza isso. Quando a carência de algo que já se foi surge com força, é sinal de que existe demanda por “mais do mesmo”, mas repaginado. É a cobra mordendo de novo seu rabo, são os ciclos do pop. Esperemos para ver…

O homem, o Camelo

Texto publicado no site do Alto Falante em 02/10/2008

Marcelo Camelo tem sido o assunto da imprensa musical nas últimas semanas e eu descobri que tenho uma dificuldade extrema para falar sobre Marcelo Camelo. Possivelmente porque ainda não consegui travar com o músico carioca certo distanciamento “emocional”, na falta de termo melhor. Vou tentar escrever.

Para a minha geração, que perdeu os últimos bondes importantes da MPB – ou seja, pessoas que não conseguiram ver Cazuza, Renato Russo e até mesmo Chico Science vivo – a banda que Camelo liderava (lidera?), o Los Hermanos, era (é?) a materialização de tudo aquilo de que apenas ouvimos falar: shows histéricos, letras com as quais a se pode identificar (e por isso não incluo nas minhas revoluções pessoais Raimundos ou Racionais Mc´s, mesmo nutrindo imensa admiração por ambos), hinos íntimos, mudanças de comportamento. Se a combinação barba – camisa xadrez voltou a fazer sentido longe dos diretórios acadêmicos universitários, pode culpar essa banda. E se você já estranhou encontrar com esses mesmos barbudos cantando a plenos corações coisas como “quem é mais sentimental que eu?”, pode colocar também na conta dos Hermanos. Não foram poucas as lições deixadas pela trajetória da (finada?) banda.

Para mim, Los Hermanos começou há 10 anos, em um adorável pardieiro aqui em BH chamado Butecário, onde a banda, pré – “Anna Júlia”, se apresentou para alguns pingados. E possivelmente acabou em um show no Lapa Multishow, na segunda visita que fizeram à cidade trazendo o repertório do inspirado “Ventura”, uma apresentação arrepiante, pelos idos de 2004. Ainda me lembro com fidelidade da banda lançando o revolucionário “Bloco do Eu Sozinho” para poucos e em um lugar que nem existe mais e de assistir, entediado, a uma apresentação do grupo em Goiânia, baseado no quarto e último álbum.

Ou seja, a parada teve tempo, espaços, lugares. Então porque essa dificuldade? Talvez porque a memória – e não falo de saudosismo – seja o caminho mais interessante para ladrilhar o futuro. Ora, uma das melhores utilidades dessa relação quase doentia que os tarados com música têm com a mesma é justamente dividir suas vidinhas bestas por faixas, e não capítulos, anos, épocas. Pedaços de vida contados em alguns minutos de música pop. Portanto, lembrar de Los Hermanos hoje, mais do que voltar aos vinte e poucos anos faz pensar que chego (Chegamos? Geração? Alguém?) aos vinte e muitos anos um pouco homem-sem conotações sexuais, por favor.Um pouco Camelo em seu trabalho-solo: meio descompromissado, uma desencanação saudável de quem quase já faz o quer. E sem muita saudade das brigas para incluir “O vencedor” como música-tema para os formandos em jornalismo na faculdade, em 2005.

Claro que ainda existem os que guardam sentimentos histéricos em relação a esse novo trabalho.Está quase tudo ali, ainda: a melancolia meio descabida, os flertes perigosos com o samba buarquiano, as tentativas de dança meio desengonçadas, as declarações exageradas de amor – se é que existem declarações exageradas de amor, mais uma lição discretamente deixada pela banda. Mas de outra forma – já dá para cantar (quem sabe até compor?) tudo isso sem que o coração queira saltar pela boca, sem aquela necessidade de se reconhecer a cada “… caberá ao nosso amor o nosso eterno” não dá “” cantado pelo moço.

Ser compromissado apenas com que quer – taí um fetiche que ninguém deixa de ter O grande lance em cima de “Sou”, o álbum de Camelo, é essa redentora sensação de que, assim como ele, parecemos todos livres de certas amarras estéticas – emocionais tão presentes antigamente. É como se não precisássemos mais da obra de Camelo, é possível apenas fruí-la da forma que acharmos conveniente. Numa relax, numa tranqüila, numa boa. Fica a dica