Debutante Pop

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Estado de Minas em 16/11/2008

Um bom parâmetro para medir a popularidade-termo pra lá de esquisito nos dias de hoje, até por não representar exatamente sucesso – de determinado artista, é quando, pessoas que estão fora de determinado círculo passam a comentar assuntos relevantes antes justamente apenas a este círculo. E não tem prova viva melhor que Mallu Magalhães atualmente.

Não conhece ainda a “menina de quinze anos- que -é-o – novo –fenômeno -da- música- hoje em-dia”? Bem, se você não está exatamente conectado com a cena independente da música brasileira atual, não acompanha regularmente este e outros espaços que dedicam tempo ao assunto, ou ainda acha que música é somente aquilo que toca nas rádios ou se vende nas lojas de Cd´s, é possível que ainda não saiba quem seja ela.

Normalíssimo, aliás: o grande problema da boa produção musical hoje é que as pessoas precisam chegam até ela, serem consumidores ativos, gastarem tempo pesquisando e correndo atrás das boas novidades. Até pouco tempo atrás, passivamente, você recebia toda carga de informação musical que, boa ou ruim (vai do gosto do freguês), chegava para você filtrar sentado em frente à TV, escutando o rádio, freqüentando sua loja favorita. Hoje se criou um perfil de pesquisador para o apreciador de boa música, que não existia antes. Ou melhor, até existia, mas sob a forma de obscurantistas, completistas, especialistas…

Então, quando alguns conhecidos “fora do meio” me perguntaram se eu conhecia Mallu Magalhães, a sensação inicial foi de susto- “Onde vocês conheceram?”. Onde, afinal, se deu esse turning point, dos blogs que pouca gente lê para o status de assunto recorrente na mesa de boteco, acompanhado de gente que comprou Ivetão ao vivo no Maracanã porque “segue as últimas novidades musicais”? Deu-se numa propaganda de telefonia celular, que tem como trilha a fofíssima canção “J1” da menina prodígio. Pô, sensacional. Se nos anos 80, comerciais de cigarros ajudaram a popularizar o hard rock farofa no país, agora chegou a vez do rock independente brasileiro ganhar esse canal de comunicação diretíssima com o grande público. A propaganda às vezes é mesmo a alma (e a arma) do negócio.

E devo admitir, não vejo a hora de a minha mãe vir me perguntar de quem é “aquela música da propaganda de celular?”. Ou de escutar, em horário nobre numa Jovem Pan qualquer, a voz doce da menina cantando o refrão “pá pá,pá,pá””. Afinal estamos diante de uma situação pra lá de interessante: uma menina de quinze anos, paulista, que compõe e canta muito bem em inglês fluente e até poético.

Quantas discussões isso ainda não rende? Isso é música brasileira? É saudável para uma adolescente toda essa exposição na mídia? Você queria que sua filha fosse assim? E o futuro dessa menina, da música brasileira?

Tive a chance de vislumbrar todas essas questões na semana passada, quando entrevistei e assisti a um show da Mallu durante o festival Bananada em Goiânia. Coisa mais linda: um teatro absolutamente lotado, com requintes de histeria, para ouvir silenciosamente uma menina munida apenas de um violão, voz , composições precocemente maduras e um carisma encantador. Uma artista pop de qualidade, “fresh”, diriam os gringos, artigo que há muito tempo está em falta em nosso mainstream. Quem sabe Mallu, que também compõe em português, não vença essas atuais barreiras e chegue lá? Afinal, tempo ela tem de sobra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>