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Esses Gauleses irredutíveis

(crédito da foto: Luiza Vaz)

Dia desses, em São Paulo, conversávamos sobre as melhores coisas saídas do Rio Grande do Sul, assim, de supetão e sem muita cientificidade (falávamos sobre as piores também, mas não é o caso). Em formato lista, é claro. A motivação, se bem me lembro, foi a presença de uma gaúcha na mesa, além de recém-conquistada e iluminada vitória do meu time em um jogo contra o Inter em Caxias do Sul.

Acho que foram citados na meses os nomes de Renato Portaluppi, Elis Regina, Caio Fernando Abreu, Nei Lisboa, os Veríssimos, Vitor Ramil… E dois nomes quase unânimes: Apanhador Só e Engenheiros do Hawaii (ou Humberto Gessinger. Com todo respeito, é uma unidade mesmo)- “os primeiros discos”, me lembro de alguém (eu?) frisar.

De volta à Belo Horizonte, estes dois últimos nomes da lista se colocaram à prova na mesma semana, em um intervalo de dois dias,  o que seria uma grande chance de comparar/estabelecer/provar, algora com parâmetros mais, científicos, o status gauchíssimus maximum que eles receberam na nossa confraria nick hornbyiana. Achei que era muita sorte e parti para o estudo de campo. Afinal, quem sabe faz ao vivo, e estávamos diante de dois exemplares comprovadamente bons de palco, a partir de experiências anteriores.

Mais do que isso, era a oportunidade de estabelecer mentalmente uma espécie de arco histórico do rock gaúcho, aproximando aquele que pode ser o seu maior símbolo- Humberto Gessinger- e o seu mais notável novo valor, os meninos do Apanhador Só. Chance boa para elaborar teses, anti(teses) e possibilidades geracionais, conexões RS-MG, etc. E também se divertir um pouquinho, como não?

Porque Apanhador Só é, antes de tudo, divertido. Sim, é brilhantemente pretensioso, “difícil”, abrangente, multidisciplinar; não se furtam de riscos, mudanças de andamento, letras intrincadas, e muito daquilo que os programadores de rádio, com seus ouvidos engessados, chamariam de “anti-comercial”. Mas por cima de tudo isso, acopla-se uma bela banda de  rock, com bons músicos, cientes do coeficiente “fun” fundamental para a chancela pop.  Não é porque tem, aham, conceito, que deixa de falar ao entretenimento (uma lógica vice-versa em zilhões de coisas espalhadas por aí).

Mas é claro que chama a atenção, e é muitíssimo bem vindo, os exercícios de expansão mental e musical dos guris. É como se pegassem o bastão de algumas propostas expostas no “Bloco do Eu Sozinho” (especialmente em faixas como “Cher Antoine“) e expandissem ainda mais, tensionassem a canção- e eles tem um caminhão de boas canções- no sentido de desconstrução, da possibilidade de estragá-la, até nascer, luminosa, uma outra coisa.

“Melhor despirocar de vez”, resumem em uma de suas canções. E é essa um pouco a ética que pode reinar para os músicos ou para quem trabalha com criação hoje em dia: o que nos sobrou foi a liberdade, portanto que façamos disso uma missão. Não tem nada de exatamente heroico nisso, parece simplesmente lógico, o caminho são todos os caminhos. E pau no cu de quem não quer.

Mas, curiosamente, Apanhador Só é rock com vocação para arenas, espaçoso, com nuances, detalhes. Ótimas ambiências para grandes ambientes. O último show da banda por aqui tinha sido em um espaço muito adequado, um grande teatro- e foi sensacional, com o difícil reposicionamento de sua última leva de canções sendo levadas com maestria no palco.

Como eles- melhor, as canções- se comportariam no pequeno palco do CCCP?

(E vale um pequeno parêntesis para a louvável, espetacular iniciativa da casa de, em tempos de vacas magras, bancar um festival trazendo bons nomes de fora do estado, fora daquele esquemão que conhecemos bem. É sempre delicioso e saudável ver e ouvir música “independente” em pequenos espaços, com condições OK de som e, principalmente, um público interessado)

Tendo tudo isso em vista, dá para cravar que tudo transcorreu bem. Casa lotada, um certo clima de importância (é a dona do melhor disco nacional de 2013) e oportunidade (tocando numa proximidade vaporosa) solto no ar e, a despeito de possíveis ( não fiquei anotando…) “emagrecimentos” nos elaborados arranjos, tudo soou bem. E , de novo, divertido: por mais que a etiqueta da inteligência esteja pregada em cada acorde tocado pelos caras, Apanhador Só, meio nu ali naquele palquinho, reafirma que eles ainda são a banda que apareceu com a cirsense/non-sense “Maria Augusta”, com a poética “Prédio”; que no meio das trovoadas presentes em “Antes Que Tu Conte Outra” arrumam espaço para a deliciosamente desimportante (e hit potencial) “Torcicolo”.

E ela, assim como “Vitta, Ian e Cassales”, “Cartão Postal”, “Por Trás”, foram executadas com pilha grande, recebendo aprovação do público, do mesmo jeito. Como se, satisfeitos, eles também atestassem: todos os caminhos são possíveis.


Nós falamos em hit potencial? Bem isso não existe no universo de Humberto Gessinger e seu público. TUDO que o cara canta soa como hit, sem virtualidades. A simbiose entre o músico e sua platéia é quase um clichê, mas, bem, Humbertão adora, liricamente e até musicalmente, brincar com os clichês certo? Não parece tomar isso como ofensa, pelo contrário,  parece se deliciar com isso, com as repetições, formatos, questões já cristalizadas no universo pop, cometendo suas pequenas perversões e piscando de lado para o imenso público que o acompanha.

E o público adora que ele faça isso. Essa cumplicidade, suspeitos de um crime perfeito, é um dos segredos de uma relação que dura décadas, e que não dá nenhum sinal de esmorecer. Aliás, que esmorecer o que? O Chevrolett Hall, com seus ingressos esgotados há semanas, recebeu um público que colocaria “blockbusters” midiáticos no bolso (vide Demi Lovato, semanas atrás). A histeria era comparável também, nos gritos, palmas, no VOLUME de afeição que aquele lugar emanava. Toda canção é cantada pelo público em ritmo de torcida, de Gre-Nal em final de Libertadores imaginária, com as torcidas em comunhão.

Daria pra falar em espetáculo à parte, só que não: é tudo uma massa só, tiozões que ainda hoje acariciam os vinis de “Longe Demais das Capitais” ou “Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém” com a molecada que carregava bandeiras do “Insular”, seu último disco. Bonito notar que um deles dividia generosamente o palco com Gessinger. Tavares, ex-Fresno e agora solo como Esteban, não só assumia porções vocais, mas como também segurava, surpreendentemente bem, as guitarras do show, dentro do formato trio que parece ser a escalação ideal de Gessinger. Claro, ele não tem o élan tétrico pós-punk/ hardrockeiro dos anteriores (principalmente o “mítico” Augusto Licks), pendendo muito mais para o segundo lado. Mas, pô, se o próprio chefe não se furtou de encavalar seu baixo de pernas abertas- à lá Steve Harris- e sacodir a cabeleira loura, porque o moleque iria se conter?

Juntando essas pecinhas, se estabelecem algumas diferenças entre, não só Humberto e Apanhador Só, mas entre as gerações do rock nacional dos anos 1980 e dos anos 00, onde são, respectivamente artistas exemplares. Humberto cultivou alguns dos insumos maiores no universo da produção artística: a inquietação e a independência, aliados a um interesse do público em acompanhar esses seus ganhos. O Apanhador Só parece já ter nascido com essa coceira criativa, no sentido de não ter obrigação nenhuma com algumas das lógicas do mercadão. Humberto fez parte e ajudou a construir um universo que não existe mais, e soube sabiamente sobreviver a tudo isso; o Apanhador não parece viúvo dos destroços: está na verdade, construindo um novo de acordo com outros parâmetros, que eles mesmo estão criando.

Se ambos estão sendo, na medida do possível, e em réguas diferentes, bem sucedidos, deve ter a ver com aquela história do gaúcho ser o povo mais inteligente do Brasil, sei lá.

É engraçado: seria muito fácil estabelecer muitas outras diferenças entre as duas gerações. Mas saí dos dois shows gaúchos traçando mais paralelos do que fronteiras. De alguma forma são ilhas- uma independente, recém-nascida, outra como um território estabelecido, mas ainda sim autônomo- que não se curvam às lógicas comuns da produção musical. Que perceberam (talvez no caso de Humberto, desde sempre) que o negócio é fazer o que tiver afins, porque, ele sabe muito bem, é um baita negócio acompanhar o artista, ganhar em troca a fidelidade, uma moeda forte no mercado.

Não nos esqueçamos: disco e alguns shows do Apanhador Só foram feitos via crowdfunding. E, em “Insular”, disco que Humberto lançou ano passado, o CD vem autografado pelo músico, personalizado com o nome do comprador.

E no campo artístico, de criação, me pergunto: será que Gessinger também já não fez seu(s) “Antes Que Tu Conte Outra”?  Lá em “Várias Variáveis”,  no distante 1991? Ou no belo e estranho “Gessinger, Licks e Maltz”? Se bem que a sensação que tenho é que, para todo fã “de fé” de Humberto, todos os seus discos são seu melhor, todos são transgressores, todos fazem parte de um território dissidente do modus operandi padrão do circo pop.

E será que Alexandre Kumpinski e sua turma não fizeram suas canções gessengerianas, como “Por Trás” ou  “Cartão Postal“?

Pra usar um simbolismo: a cobra às vezes, sem nem perceber, sai mordendo o próprio rabo.


Ah, e claro, o show, para além dos outdoors óbvios e afetivos da relação público/artista, serviu para provar…provar não, que, na boa, aposto que ele caga pra isso, mas para mostrar que Gessinger é, antes de qualquer coisa, um grande artista. Se não existem critérios exatos para definir o que isso significa, uso algumas palavras como muleta explanatória: trabalho, honestidade, tentativa, conexão, talento, beleza, propósito, transparência, opacidade, luz, mistério…Toda essa confusão subjetiva para afirmar que, do meu ponto de vista, o trabalho de Humberto preenche boa parte destes requisitos, em maior ou menor grau.

E tem uma coisa que ainda torna a coisa mais instigante, aquela lógica “Zico” e ” Copa do Mundo”: se o Galinho não levantou essa taça, problema da Copa. Em termos gessengerianos: e a crítica não gosta, problema da crítica. Não é nem discutir qualidade, é levantar a bola de uma postura assumida por ele que creio ser deveras interessante, cada dia mais, principalmente em tempos onde o aparecimento midiático, cada vez mais, parece ser o estatuto principal da humanidade. No lotado teatro da visibilidade sem vínculo ou lastro, o cara escolhe e consegue um ginásio lotado de fiéis, que se lixam se o rádio não toca, se o jornal não dá, se não é o queridinho da vez.

Algo me diz que eles todos fizeram uma boa escolha.

Guardadas as devidas proporções, é  como Mikal Gilmore escreveu sobre o Greateful Dead, em seu espetacular “Ponto Final” (Cia das Letras): “Uma ampla associação de fãs, organizadores e divulgadores informais que cercavam a banda e a promoviam como o centro de uma comunidade mundial de idealistas. Mais do que isso, essa comunidade prosperou sem o envolvimento ou o apoio da indústria ou da imprensa especializada“. Gessinger também tem seus deadheads, e esse culto segue impressionando os que chegam estrangeiros ao seu show.

É, não consegui fugir do “fenômeno”, não falei ainda sobre a coisa em si: o cancioneiro desfilado em noite de gala (gravação de DVD e tals) mas trajadas de forma absurdamente simples.  Foi daqueles passeios, cheios de greatest hits para os fãs e canções obscuras para aqueles que encoleiraram a obra do músico nos flashbacks oitentistas. Não que algumas dessas não deram o ar de sua graça; teve “Terra de Gigantes”, “Sonhos que Podemos Ter” (numa interessante versão, meio Zé Ramalho), as fossas fim de noite de “Piano Bar” e “Refrão de Bolero”…

Mas, para ouvidos incultos, o repertório parecia repleto de “inéditas”, passeios estilísticos entre o folk, o rock linha dura e as tentações prog ( mais timbrísticas que estruturais), tesouros de seu cancioneiro que, ali, ficam desamarradas de lógicas comuns, casos de “A Ponte Para O Dia”, “Pose”, “Surfando Karmas e Dnas”, “Dançando no Campo Minado” ou  as belas “De Fé” e, especialmente “Dom Quixote”. E particularmente achei notável e sintomática a inclusão da rushiana “Exército de Um Homem Só”, já no finalzinho do show.

Aliás, essas duas últimas canções citadas, distantes mais de década de seus lançamentos, soam com perfeição como hinos da possibilidade existencial de Gessinger- a distância temporal entre elas apenas reafirma esses vínculos. “Exército…” chega a ser caricatural de tão colada, de tão auto-explicativa: “Não interessa o bom senso diz /Não interessa o que diz o rei (se no jogo não há juiz 
Não há jogada fora da lei) /Não interessa o que diz o ditado 
Não interessa o que o estado diz/ Nós falamos outra língua /Moramos em outro país”.  O tom grandioso, épico da canção, apenas ajuda no seu caráter celebratório; é de um autismo quase anarquista, é a potência do não em pleno funcionamento. 

Mas é na linda “Dom Quixote”,  que a cobra, finalmente, alcança o próprio rabo. Mais do que isso: fala ao coração de quase qualquer músico, qualquer banda independente hoje no país. Do prazer em ser otário, de estar fora do páreo; dos grandes negócios e das pequenas empresas. E acima, de tudo, de fazer as coisas por amor, mesmo que seja por amor às causas perdidas. Humbertão, não sei quantos anos de carreira, parece praticar esse lema em cada verso que canta, em cada nota que disfere em seu baixo.

Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos mas sempre no horário
Peixe fora d’água, borboletas no aquário
Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo
Puro sangue, puxando carroça

Um prazer cada vez mais raro
Aerodinâmica num tanque de guerra,
Vaidades que a terra um dia há de comer.
“ás” de espadas fora do baralho
Grandes negócios, pequeno empresário.

Muito prazer me chamam de otário
Por amor às causas perdidas.

Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas

Talvez sem saber- ou ao contrário, plenos de sabedoria- é isso que os meninos do Apanhador Só estão fazendo também. Da platéia, sigo achando um bom negócio. Deve ser aquele papo, de novo, dos gaúchos serem o povo mais inteligente desse país…

 

 

 

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