Eu disse: “Take me Out”: há dez anos o rock tomavas as pistas

Reportagem publicada no jornal O Tempo em 12/01/2014

“Alguém disse: ‘Deus, esta música funciona, mesmo fazendo tudo que não deveria fazer – ela muda o tempo todo e também desacelera’. Mas era exatamente isto o que queríamos: criar aquele frio na barriga que você sente numa montanha-russa”, afirmou Alex Kapranos, líder do Franz Ferdinand, a respeito da já clássica “Take Me Out”, para a revista britânica “New Musical Express”.

 A analogia do criador faz muito sentido: do acorde estrondoso que abre a canção até sua primeira parte sombria, passando por várias mudanças de andamento até cair num glorioso riff de guitarra (meio emprestado de “Trampled Underfoot”, do Led Zeppelin), a sensação de escutar “Take Me Out” pela primeira vez se assemelhava a estar diante de algo meio assustador, mas divertidíssimo. Não foram poucos que, guiados pelo grito de guerra de Kapranos, na canção que dá título a essa matéria, resolveram atender ao apelo e voltaram a concatenar rock e pistas de dança, sem pudores.

Aliás, deve residir nessa falta de vergonha o maior mérito de uma geração inteira de grupos, muitos deles lançando seus primeiros álbuns em 2004. Se John Lydon, mito punk, rosnava furiosamente que “não ligava para nada”, mas mantinha sua artilharia apontada para gêneros musicais como o rock progressivo e a disco music, a geração de Franz Ferdinand, Killers, Arcade Fire, Kaiser Chiefs e muitos outros, todos com discos de estreia lançados em 2004, pareciam abertos a qualquer referência que garantisse ao ouvinte-dançarino a satisfação de maltratar pés e quadris na pista.

“Foi um fenômeno que começou a unir o rock com a eletrônica, com bandas como Radio 4 e !!!. Eram duas coisas diferentes que acabaram se ligando”, lembra o DJ Túlio Borges, dono da casa noturna DDuck e um dos principais divulgadores da “turma de 2004” na noite belo-horizontina, quando pilotava inesquecíveis festas em boates como Up e A Obra.

O indie rock estava meio sumido até 2001, quando os Strokes, The Hives, Libertines o levaram para as baladas de novo – bandas de rock, bastante influenciadas pelo som dos anos 1970, especialmente o punk de Clash e dos Stooges. Em seguida, o poder influente da música de eras passadas subiu mais um degrau na cronologia pop, e o pós-punk virou a água a ser tomada pelas novas bandas.

“A partir de 2004 houve o surgimento de um monte de bandas influenciadas pelo pós-punk mais dançante de nomes como Gang Of Four, Wire, Pop Group. Vindas da Inglaterra, essas bandas tem essa pegada mais groove, mas angulosa. Isso reforçou a ideia de rock de pista, mesmo que nem todas bandas remetessem a ela – caso do Arcade Fire. Mas uma série de grupos da época se voltam para um outro modelo de rock, feito para dançar, como The Rakes, Futureheads, Bloc Party”, diz Borges.

E, para esse objetivo, valia tudo: desde mixar rock com a discoteca mais deslavada (caso do Scissor Sisters, talvez o lado mais pop do chamado electro), com o lado mais mainstream dos anos 1980 (com o Killers e posteriormente o Bravery decalcando na cara dura Duran Duran), ou o lado mais anguloso e “difícil” do mesmo período (Arcade Fire com Talking Heads; Bloc Party com Cure; quase todo mundo com Gang of Four).

A questão é que, de repente, a equação rock + pista de dança encontrou um resultado imediato, como se tivessem nascido um para o outro. É evidente que sempre existiram hits roqueiros embalando baladas. O que impressionava na época era a quantidade de singles indie que tinha orientação muito nítida para a dança, balanços e grooves pautados por guitarras angulares, linhas de baixo tortas e baterias que pareciam surrupiadas da febre disco dos anos 1970.

O músico Raul Costa, ou Retrigger, que atua em ambos os campos (rock e eletrônica), avalia o período sob a ótica da abertura de nichos. “Não sei se o rock e o indie buscaram as pistas, se as pistas buscaram o rock ou se as pessoas meio que se ‘dessegmentizaram’. Vejo que mercado, gravadoras e bandas foram em direção ao que o público de certa forma já consumia”, observa.
“Desde muito tempo é comum sair numa balada e ouvir rock e eletrônico na mesma pista. E acho que, historicamente, todas essas bandas inglesas foram público de Primal Scream, Stone Roses, pioneiros nessa fusão. Houve a onda do electro em 2001 e 2002, trazendo nomes como a Peaches, e em 2004 tudo atingiu o mainstream”, diz.

Por mainstream entenda-se hits como “Take Me Out”, do Franz Ferdinand, “Mr. Brightside”, do Killers, e até mesmo “Helicopter”, do Bloc Party, circulando em lugares definitivamente não indies, como as rádios comerciais. “Acho que o público brasileiro e norte-americano, que são parecidos, perdeu um pouco do preconceito, mas eu vejo que na Europa a coisa já estava embaralhada”, nota Costa.

Um aspecto fundamental para essa “invasão britânica” do rock de pista foi, claro, a internet. Ela aproximou com rapidez o hit de uma festa bombada em Londres com o ouvinte ou o DJ brasileiro. “Já fazia parte do processo da época o esquema de baixar músicas”, lembra Borges. “E isso gerava uma sensação de cosmopolitismo muito interessante”.


Clássicos de 2004 alcançando a nova geração

Naturalmente, o veículo oficial de divulgação da geração de 2004 foram as festas em boates. Em Belo Horizonte, tanto A Obra quanto a Up – e, alguns meses adiante, a Mary In Hell – apresentavam noites muito pautadas pelo rock de pista. “O auge foi entre 2004 e 2006”, diz Túlio Borges, que destaca uma festa-símbolo para o período.

“A ‘Safadezas’, que rolava na Up foi muito importante. Sua pauta era mesclar rock e eletrônico, e eu costumo falar que, sem exageros, ela marcou uma virada na noite da cidade. Até 2004, o público do eletrônico só frequentava festas específicas. A ‘Safadezas’ trouxe essa mistura, abriu um campo favorável que percebíamos acontecendo também em São Paulo, Londres e outros lugares”.

Depois desse ciclo, pode-se dizer que a geração 2004 foi substituída nas pistas pelo pop deslavado de Beyoncé, Rihanna e quetais. “Rolou uma grande hegemonia do dance pop nos últimos três ou quatro anos, mas agora vejo uma volta do indie. Uma demanda nostálgica, mas também de uma nova geração de ouvintes de 20 e pouco anos, que em 2004 tinham 13 anos, e agora se dão o direito de curtir nas pistas. Além disso, vemos herdeiros musicais como Foster the People e Two Door Cinema Club”, diz Borges.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>