“Good as fuck”, mas só poderia ser assim- Afghan Whigs ao vivo em São Paulo

Ninguém sabe usar a palavra “baby” como Greg Dulli. Sua obsessão adorável pelo termo parece o diapasão razoável para medir um pouco de sua importância. O cara conseguiu um léxico próprio para um termo que periga ser o mais usado na história do rock. Vamos combinar que isso já é coisa pra cacete.

E não foi de graça: teve prisão, cocaína e balcões de botecos a dar com o pau para o cara aprender o chaveco correto. Afghan Whigs, de certa forma, é o supra sumo do white trash norte-americano, mas com um irresistível molde sofisticado que deixa a coisa toda menos “cerveja” e mais “vinho tinto”, digamos assim. O equilíbrio é a chave da cantada.

Pense: o grande herói de infância/adolescência do cara é Steven Tyler, do Aerosmith. Me lembra um pouco a historinha da irmã de Sheakspeare: se Tyler foi a versão “putaria” do escritor inglês, Dulli foi seu irmão, talentosíssimo mas obscurecido-o que de certa forma justifica o pequeno público presente no show em São Paulo.  Se Mark Sandman, outro gigante dos anos 1990, talvez tenha escrito a letra definitiva sobre o sexo casual, de uma noite só, Dulli fez disso suas obras (quase) completas. Chegou ao cúmulo de se dizer um sujeito com “um pau ao invés do cérebro”, tamanha sua obsessão com o tema. Um missionário fervoroso- e, sim, estamos falando basicamente da clássica posição.

Afghan Whigs é o território onde as mulheres são “coelhinhas” ou “anjos”; onde Marvin Gaye é o papa supremo; onde carros, gasolina e fogo dispensam maiores metáforas; onde o sexo é, em suma, tudo. E, claro, é onde a palavra baby é a súplica, é o embalo, e é o agradecimento final.

Poderia ser uma merda, uma coleção tosca de cantadas de fim de noite, de humor de vestiário. Mas é absolutamente genial, é rock n´roll no seu sentido gloriosamente original, it´s good as fuck.

Vejamos: de Tyler, Dulli herdou um pouco do timbre e da garra incomparável no gogó; herdou também a necessidade de equacionar o barulho do rock hard roqueiro com a pulsão sexual imbatível da soul music. Talvez possamos dizer que sua conta puxou mais para o segundo lado: ninguém entendeu os valores (e eles são grandes, imensos) da Motown, do Philadelphia Sound e até mesmo da Disco Music que ele, nos anos 1990.

“Éramos do mundo da cocaína, enquanto resto era da heroína”, declarou certa feita, separando com precisão sua banda do extenso corredor grunge do qual passaram, de raspão (o negócio dos caras sempre foi terno e blusa social, e não camiseta de lenhador). Sabe a capa do “Congregation”? Pois então, é isso. O cara é um menino branco que encontra sua redenção no colo da musa negra. Taí uma boa metáfora para os Afghan Whigs.

No Brasil, os Whigs foram mais uma daquele gigantesco rol de grupos que foram apresentados pelo público via MTV, possívelmente no didático Lado B, ou em um daqueles programas vespertinos. Portanto, natural que fossem embalados embaixo daquele enorme (e meio desconexo) guarda-chuva chamado “rock alternativo”.

O que pega é que eles são muito melhores que isso. É uma das porras das bandas mais COOL do planeta, desde sempre.

“Congregation”? COOL

“Gentlemen”? COOL

“Black Love”? COOL

“1965″ ? COOL.

As letras de Dulli? Sua performance vocal? As linhas de guitarra maravilhosamente bem trabalhadas? A chuva de wah-wahs que (des) penteia boa parte do repertório dos caras? O baixão sinuoso, como que despindo alguém? Os violinos ocasionais? A melhor cover de todos os tempos?  As capas dos discos? COOL COOL COOL COOL COOL COOL COOL COOL COOL !!!!!

O novo disco é ok, com alguns momentos muito COOL (“Parked Outside” e “The Lottery”, apresentadas no show, entre eles), mas já cumpriu sua missão ao servir de desculpa para trazer os caras a estes trópicos.


Alguns amigos vieram me perguntar, dias depois, como era o lugar onde a banda se apresentou, o Audio. Se era legal, espaçoso, o som, etc. E não tive a menor idéia do que responder. Como avisei ao parceiro Bruno Capelas, quando entramos no lugar (duas músicas atrasados, sacrilégio, mas culpa do papo bom), “tô indo lá na frente tietar um pouquinho”.

Depois de alcançar um bom lugar, não consegui despregar os olhos do palco. Portanto, só sei do que aconteceu no palco. E o que aconteceu foi um PUTA de um show de rock, daqueles que guardo na retina, no HD mental e no suor que colava à camisa no final.

E, sinceramente, não me lembro de um show que me fizesse “dançar” tanto. É música libidinosa, e é barulho para os quadris. Emendadas “Fountain and Fairfax”, “The Lottery” e “Debonair” (“Hear me now and don’t forget/I’m not the man my actions would suggest/A little boy, I’m tied to you/I fell apart, that’s what I always do”, ARREPIANTE) mantiveram o pique lá em cima, guitarras apitando, alto, alto, como que nos lembrando que um dos maiores méritos do rock ( e das gravações de rock) dos anos 1990 é justamente saber conciliar barulho bom e sacadas melódico/harmônicas absolutamente viciantes. De bônus, os Whigs tem suingue, como se por trás de toda aquela muralha de três guitarras (tanto que mal se ouvia  as intervenções do violino) o baixo (deliciosamente alto) travasse uma grande luta para garantir o coeficiente “pista” do show.

E a voz de Dulli que merece um pequeno parágrafo só pra ela: aos 49 anos, seu timbre adquiriu aquela sabedoria típica dos bluesmen, como se exalasse um sentimento muito genuíno, sem, no entanto, perder uma potência jovial, menos angustiada e mais lasciva, que sempre foi a emissão correta para suas canções. E isso fica claríssimo quando ele canta “When Two Parted” ao vivo: uma das músicas mais climáticas e sexys da banda, sua garganta ainda é capaz de nos transportar para aqueles versos (e aquele “Baby…“) tão concretos quanto um relacionamento fadado ao fracasso…

Baby, I see you’ve made yourself all sick again
Didn’t I do a good job of pretending
You’re saying that the victim doesn’t want it to end
Good, I get to dress up and play the assassin again
It’s my favorite
It’s got personality

I should have seen this shit coming down the hall
Every night I spent in that bed with you facing the wall
If I could have only once heard you scream
To feel you were alive
Instead of watching you abandoning yourself

É uma canção estratégica dentro do show, o cigarro entre a primeira e a segunda. E a volta foi ainda mais “fogo na gasolina”, não apenas por “Going To Town” (I’ll get the car/You get the match/And gasoline “) mas por algumas das melhores explosões que os caras colecionaram em disco:  “Turn On The Water”, inesquecível, com direito ao diálogo edipiano de “The End” dos Doors; “Uptown Again”; as melhores cantadas em forma de música, que são “John The Baptist”( “Hey, welcome home, I got a little wine/Some marvin gayeCome on and taste me/Come on and take me, I’m yours/ Let´s Get it on!!“, com os presentes indo ao delírio na última frase) e “Something Hot” (“I got your phone number, baby I’ll call you sometime/I think I might, be out tonight/Maybe give you a ride“); uma “Gentleman” absolutamente inesquecível, ensurdecedora, e “My Enemy”, para finalizar com o pique lá em cima. 

Apesar de belos, os passeios pelo repertório alheio, como “Tusk” do Fleetwood Mac e uma climática “Modern Love” de Bowie poderiam ser facilmente substituídos por canções próprias (“Crazy”, “66″, “Miles iz Ded”…). Mas trata-se de uma tradição do grupo: se apossar de material alheio, como parte de um quebra cabeça (de peças que vão de pilhagens maravilhosas ao R & B contemporâneo  até o rock clássico) cujo desenho completo são eles mesmos, o Afghan Whigs. Sendo assim, até queria escutar por exemplo a linda versão de “Lovecrimes“, de Frank Ocean.

Mas, na boa? Até ali a apresentação já tava entrando com folga naquela listinha “shows da vida”.


 

Mas teve o final do show, ah, o final do show. O final do show foi um bloquinho todo especial, onde a banda emendou as três canções finais de seu disco mais bonito, mais noir, digamos assim. O encerramento de “Black Love”, com a tríade “Bulletproof”, “Summer´s Kiss” e “Faded” foi reprisada no bis e, sinceramente, foi um dos momentos mais intensos que já vi num palco.

Porque essas são canções que parecem saídas de um sonho, suado, intenso, que Dulli psicografou no papel.  São canções de redenção,  como se depois de se assumir como um tarado, um maníaco, depois de tanta dor disfarçada de álcool, de tanto sexo maquiado de amor, Dulli, assume que, no final das contas, é só um menino malvado, que só queria um colo (ou um eterno verão) pra chamar de seu.

Quem nunca?

Did you feel the breeze?
My love
Summer’s kiss is over, baby
Over
Do you know the words?
Sing along with me
And put on your rose fur coat, baby
It’s 1973

My love, this dream I have each night
I stare into a blinding light
Alone, I stare

Demons, be gone
Away from me
And come on down to the corner
I got something i want you to see
The burning sun
Too hot for shade
Come lay down in the cool grass
With me, baby let’s watch that 
Summer fade

My love, this dream I have each night
I stare into a blinding light
Alone, I stare
So sweet
This dream is not a dream
I wake with it
Inside of me
Alone, I swear

Apesar de uma espetacular versão de “Bulletproof” (um dos melhores refrões dos Whigs), e de um encerramento épico, arrepiante, de lavar a alma, com “Faded” (com direito à citação de “People Get Ready”, do gênio Curtis Mayfield), foi durante “Summer´s Kiss”,  que perdi a linha.

Porque não estava esperando ela.

Porque é uma das canções da minha vida.

Porque nunca acreditei que pudesse escutar ela ali, na minha frente.

Depois de uma tapas meio incrédulos ( e talvez um pouco fortes demais) no Capelas (desculpa, garoto!), berrei, gritei, chorei e tive por um momento a certeza de que Dulli tava ali, olhando pra mim, ORANDO por mim, completando o círculo: o cara é meu pastor, pervertido que só, e o que me faltava, não falta mais. Assisti Afghan Whigs ao vivo: amém, amém.

(E missa igual a essa, podia ter todo dia)

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