Graveola e o Lixo Polifônico- “Dois e Meio”

Resenha publicada no jornal O Tempo em 03/02/2014

Alvo de diversos burburinhos pela cidade – o que é sempre interessante e prova da presença e força do grupo por aí –, o Graveola e o Lixo Polifônico soltou na última semana seu mais novo disco, “Dois e Meio” (independente, download aqui). Se o título dialoga abertamente com o de outro trabalho do grupo (“Um e Meio”, de 2010), a sua função é semelhante também: capturar um período de interlúdio do grupo, onde não se lança um disco “oficial”, mas ao mesmo tempo não se deixa a bola da produtividade baixar. “A ideia do meio-disco é na verdade criar espaço pra uma experimentação mais livre e incoerente, com um caráter menos de álbum fechado e mais de coletânea de rascunhos e estudos mesmo, sem tanta unidade”, reconhece o vocalista e guitarrista Luiz Gabriel Lopes.

 No disco, a tática não é apenas inteligente, ela é funcional também. Primeiro, porque tem cara de disco “cheio”, com suas 13 faixas. Segundo, porque periga ser o trabalho mais inspirado que o grupo já lançou. Para os ouvidos, “Dois e Meio” parece apontar para outro caminho na saga polifônica, talvez um caminho menos festivo e fechado, apesar de seguir a (saudável) diversidade sonora apresentada nos trabalhos anteriores. “Uma das coisas que eu acho que definem a nossa música é que a gente nunca teve barreiras auto-impostas, de estilo, de gênero, de ter que fazer de um jeito assim ou assado. Nosso método é muito aberto, por natureza e por gosto”, justifica Lopes.

Mas ótimas canções, como “Maquinário”, “Canina Intuição” e a linda “Até Breve”, soam como composições que a banda parecia estar ensaiando há algum tempo, têm seus genes sonoros espalhados anteriormente, mas agora aparecem plenas e sedutoras, maduras, para usar um termo ruim. “Engraçado isso, porque a nossa sensação é de que ele é exatamente um disco abertão, nada fechado, com cara de coletânea mesmo. Não sinto que é um disco mais maduro que outros, mas talvez alguma maturidade esteja lentamente chegando nas canções, nos arranjos, afinal já são quase dez anos de projeto, então de alguma maneira já existem alguns mapas funcionando, a gente vai mergulhando, se conhecendo”, discorda o músico.

Outro destaque é a quebrada “Cafeína”, narrativa lírica fragmentada que evoca cenas recentes e recorrentes da cidade. “Sempre tentamos dizer as coisas com naturalidade e procuramos não ter nenhum tipo de cobrança quanto ao que dizer, como dizer. Tudo é uma questão de sinceridade, da energia que a gente movimenta na música. É claro que a realidade midiática, as narrativas urbanas, os porões da política, tudo isso sempre fez parte da nossa nuvem de tags e pode vir à tona de muitas formas. A cidade está aí pra ser lida e relida, a nossa maior responsabilidade é deixar transparecer nossos sentimentos sobre o mundo com autenticidade e sem forçar nenhuma barra”, diz Lopes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>