Homem

Coluna publicada no jornal O Tempo em 20/01/2014

Tenho quase certeza que foi o Luiz, pai da minha namorada, que do alto da sua sabedoria e gentileza soltou um dia desses, num bar: “A geração de vocês é muito melhor que a minha”. Reclamão que sou, claro que discordei em vários aspectos do que ele falou. Mas, otimista que também sou, concordei também, e atesto isso em pequenas e preciosas coisas.

Penso nisso ao lembrar da história escabrosa da última semana, um argumento triste e deprimente que derrubaria de pronto a tese de meu sogro. Kaique Augusto Batista dos Santos, de 16 anos, morreu na capital paulista na semana passada. Kaique foi encontrado sob o viaduto Nove de Julho, no centro de São Paulo. Desfigurado. Sem os dentes. Com uma barra de ferro atravessada na perna, segundo depoimentos dos familiares. O que indica que ele não morreu; ele foi morto, ele foi violentado, ele foi roubado do direito (e do dever!) maior que ele e todos nós temos: viver.

Sua morte foi registrada como suicídio pela polícia. Para contestação da família e de todos aqueles que consideram justa toda forma de amor. Para aqueles que – sem meias palavras – deveríamos ser todos, não outros. Porque o outro sou eu, o outro somos nós.

Nós, que sabemos que esse menino foi morto por ser gay. Esse menino, que não virou homem, que foi morto por, simplesmente, ser.

É o lado cruel de uma espécie de anacronismo que vivemos na contemporaneidade: ao mesmo tempo que buscamos valores que faziam das gerações anteriores as nossas, melhores, como a maior ocupação do espaço público e a busca por uma desacelaração cordial do tempo, assistimos antigos valores saindo da terra, como sementes maléficas, como o despertar de uma brutalidade, de uma ignorância que sempre esteve aqui. É claro que certas coisas nunca foram devidamente enterradas.

O que me leva a reclamar, a me indignar, a despertar em mim mesmo sentimentos gêmeos de brutalidade e revanche. Mas o que, otimista que sou, me leva desesperadamente a buscar rastros de uma humanidade que, tenho certeza, estão por aí.

Um deles caiu nos meus ouvidos no fim do ano passado. Trata-se de uma canção de uma banda mineira, independente, chamada Lupe de Lupe. Um grupo de meninos jovens, em seus vinte e poucos anos e que parecem ter como lição ler o seu tempo, musicalmente. O que de cara me interessa.

“Houve um tempo em que nós dois éramos feito unha e carne / Houve um tempo em que nós dois éramos inseparáveis / E por isso imbatíveis”, começa cantando o vocalista Vitor Brauer, imagino, fazendo referência a um amigo que morava com ele no interior (“Nascidos numa cidade construída na boca do inferno”). Naquela relação, surge a descoberta: “Quando você assumiu que era gay, eu nem liguei, eu nem liguei / E na hora eu nem pensei, mas pior /Eu nunca me importei”. A informação é encarada com o que parece ser uma naturalidade (“Os pássaros voam alto no céu, os peixes mergulham profundamente no mar / E o que nos resta a fazer é empurrar / Todos os limites da extensão do nosso próprio olhar”) , mas meio incômoda (“Sem nenhuma malícia pra ver, nós fomos nos separando / Achando que era tudo natural, tudo natural”). Esse incômodo parece virar algum tipo de certeza (“Feito homens cegos e um elefante, nós te julgamos e te analisamos / Mas hoje eu sei, hoje eu sei, que eu errei. Nascidos num lugar em que se quebra regras pra sobreviver / Eu não quebrei a pior das regras, eu não quebrei”)

Arrependido, os versos finais da canção são de tirar o fôlego – e vale muito a pena conferir a interpretação hipnotizante da banda: “25 anos sem beijar um homem / 25 anos pra chegar e te dizer / Que se eu tivesse beijado um homem, esse homem seria você”).

O nome da canção é “Homem”. Aquele que Kaique desgraçadamente não chegou a ser, aquele que me vejo com alguma nitidez, aquele que, se tudo der certo, será a busca e a base das próximas gerações. Homem em seu sentido mais amplo, que deveria, afinal ser um único.

É a coisa mais bonita que li/escutei em muito tempo. É obra de artista. É também um presente que ganho desta geração posterior a minha, e é também a constatação de que a voz da geração anterior se prova sábia: os versos, a força, a coragem, a raiva, a indignação dos meninos me asseguram que, sim, eles são melhores. Que a geração de Kaique, homens do porvir, pavimentem um futuro ainda melhor. E que dias trágicos como esses fiquem onde já deveriam estar: no passado.

 

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