Los Hermanos – “4″

 Resenha publicada no Alto Falante em 16/08/2005
O espaço que o Los Hermanos ocupa hoje na cultura brasileira- notadamente entre o público jovem, mas não só- pode ser medido através do Orkut. São muitas as comunidades na febre virtual relacionadas ao grupo – desde as oficiosas “Los Hermanos” , “Eu adoro Los Hermanos”até outras mais bizarras como “Olimpíadas Los Hermanos” (comunidade para jogos relacionados à banda Los Hermanos), e minha favorita “Adoro Los Hermanos Com Cachaça”, e sua suprema auto definição, “se vc adora ficar embreagado(sic!) e cantar as musicas dos Los Hermanos rodando a mesa da sala esse é o seu lugar!!!!”.
Mais: boa parte das regiões do país tem suas comunidades próprias ( exemplos: Los Hermanos Pernambuco , Los Hermanos Aracaju, etc). E mais ainda: os membros de apoio da banda, relegados ao segundo plano no palco, também merecem “centros de discussão para eles”, e é possível achar comunidades para cada um deles. “Minha mãe adora Los Hermanos” é outra destas comunidades pouco usuais. Ah, e cada disco gravado pelo grupo merece uma comunidade para si. E se amor e ódio são dois lados da mesma moeda, são muitas as comunidades que odeiam os Los Hermanos. Aliás, para estes ,o nome da banda soa melhor através da impagável corruptela “loser manos”. Existe espaço também para as comunidades mais “pé no chão”, que não gostam da idéia de chamar o vocalista Marcelo Camelo de novo poeta do rock e da MPB e mesmo aqueles que proclamam “o fim da tristeza” ao escutar a banda (caso de “Los Hermanos Me Deixa Feliz”).
Enfim, é quase um fenômeno sociológico. Um culto mesmo- e não só tomando o Orkut como parâmetro para isso. Talvez porque a “atitude” da banda a coloca como oposição a banda mais influente- mesmo que esta influência beire o nefasto- no pop nacional nos últimos anos, o Charlie Brown Jr. Talvez porque há tempos não aparecia uma banda com um perfil tão “ deixa eu chorar sozinho no quarto”, com um papel semelhante ao que representaram Legião Urbana ou Engenheiros do Hawaii nos anos 80. Talvez porque os barbudos configurem uma banda do “bem”, representando valores que soam altamente transgressores nos dias de hoje, como a gentileza, a boa educação, o romantismo… Certas nostalgias permitidas pela modernidade, que fazem dos Hermanos uma banda estranhamente velha. Não é a toa que papais e mamães identifiquem facilmente nas letras do grupo um apuro quase “chicobuarqueano” e criam simpatia pelos músicos ás primeiras audições. Os Hermanos hoje já estão em processo de estabelecimento- para não dizer conforto total- como uma espécie de banda cult, uma iguaria fina dentro do programático universo das grandes gravadoras.
Entre apostas rasteiras e sucessos pré garantidos, os cariocas hoje parecem assumir um papel peculiar dentro da política de funcionamento da BMG- setorizados como a banda “inteligente”, de qualidade, em que o nome forte entre público e crítica pensantes ainda supera a falta das grandes vendagens/ jabá radiofônico/ divulgação esculachada que impera no negócio. Sintomático então que os cariocas, (assim como o neo tropicalista de Pernambuco, Lenine) consegue atrair para suas apresentações e discos parte representativa da suposta “inteligenzia” nacional, aquela parcela da classe média que se convence da qualidade de um artista depois de alguns testes ( trilha de filme, aprovação do Caetano, simpatia reluzente) onde esse mesmo público consegue se identificar. Com isso, o público inicial da banda ( no período pós –”Anna Júlia”) , os que vestiram perfeitamente a carapuça do cara estranho, hoje dividem a platéia com patricinhas, camilinhas, neo- hippies, black powers entre outras tribos que, mas ou menos, acompanham a caracterização de “descolados”. Portanto, como legítimos representantes da turma, espera-se sempre que o substrato que os alçou a esta condição- a música- garanta a felicidade dos demais. Afinal um dos charmes maiores de Camelo e cia é justamente o fato de fazerem música para si mesmos- mas quantos outros “mesmos” , outros iguais eles encontrarem, melhor. Se não, estariam penando no mesmo underground que eles freqüentaram- por justiça- por muito pouco tempo.
Justo porque a banda é diferenciada . Desde seu início existia um conceito ( coisa rara hoje em dia) e , principalmente, qualidade artística que justificasse esse conceito, que foi sendo muito bem burilado ao passar do tempo. Até que chegamos a Los Hermanos “4”. E chegamos mal: o disco não é ruim. Mas é chato, chato pacas. E não precisa ser dono de nenhuma comunidade pró- Hermanos no Orkut para sentir a frustração de escutar um disco chato da banda hoje em dia. As comparações com “Kid A” do Radiohead, procedem até certo ponto- e não estamos falando de polêmica. Enquanto o disco da banda inglesa propunha uma reviravolta olhando para o futuro – ou o que supúnhamos ser ele – o volume 4 dos cariocas soa retrô, passadista , esbarrando no conservador foco MPB já ensaiado em algumas músicas anteriores. Fica a impressão que boa parte do repertório – sintomaticamente, as músicas que tem a assinatura de Marcelo Camelo – poderia ser regravado por Maria Rita, de tão presente é o ranço mpbístico nas canções .Não é de todo ruim, afinal, dispensando o marketing “ diva que já nasceu diva” propagado em cima de uma cantora talentosa mas que ainda têm estrada pra correr, vale ressaltar de que é mais do que saudável o hábito da filha de Elis em gravar compositores novos, aos moldes da progenitora, que lançou , entre tantos, João Bosco e Ivan Lins. Artistas que, assim como Milton Nascimento, Chico Buarque, João Gilberto e Roberto Carlos perfazem influência nítida para esse novo trabalho. Mas “4” é um disco do Los Hermanos. O que suporia a presença de um frescor que vinha oxigenar o pop rock e a própria “mpb” como os discos anteriores vinham fazendo.
No trabalho a banda enterra de vez o pueril hardcore “melodioso” proposto no primeiro trabalho, mas abandona de vez também o esfuziante carnaval sonoro de “Bloco Do Eu Sozinho” – o tempo prova que é este disco, cada vez mais a obra maior dos Hermanos- valorizando os pontos mais dispensáveis do anterior “Ventura”. A cadência lenta, quase solene de canções como “Ultimo Romance “são os ingredientes principais agora. São pouquíssimas as concessões feitas a algo mais, digamos, animador. A latinidade de “Paquetá” é uma delas, um fruto próximo da Orquestra Imperial ( big band carioca da qual faz parte Rodrigo Amarante) e lembrança pálida de “Retrato Para Iáia”( do segundo disco), mas o resultado é frouxo. As melodias, um dos pontos de honra da banda, se perdem em um muro de lamentações que , no caso de Amarante, apenas reforçam suas limitações como cantor e deixam em segundo plano seu timbre de voz curioso, que dava charme extra a banda. A modorrenta “Os Pássaros” é auto explicativa nesse sentido.
Existem coisas boas, claro. “Horizonte Distante”, a despeito do ( inédito) messianismo deslocado da letra, empolga até. A faixa de abertura “Dois Barcos” , depois da vigésima audição do disco, ainda se estabelece como a melhor, um bem resolvido encontro com o Clube Da Esquina. A bossinha “Fez-se O Mar” é linda , e “É De Lágrima”, apesar de repetir a saideira do disco anterior(“De Onde Vem A Calma”), quase convence. O problema maior é que a proporção de faixas boas para as fracas se inverteu. A banda parece forçar a mão o tempo todo em busca de canções bonitas, “emocionantes”, como se fazer “pura mpb” ( se é que isso existe) significasse amadurecer, virar gente grande. Não seria possível cobrar um “disco de transição” (que marca a mudança nos rumos artísticos de determinado grupo) a cada novo trabalho. Mas acho que poucos esperavam tamanho conforto em se estabelecer como um grupo que faz belas canções para fãs fiéis (gente que criou comunidades enaltecendo o novo disco antes do lançamento deste) e só. Um mal pelo qual vários artistas geniais da música popular padeceram, em determinado ponto de suas –longas carreiras. O que faz pensar se ainda não era cedo para os meninos dos Hermanos caírem nessa.

 

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