Muito barulho por tudo e por todos

crédito: Divulgação
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Reportagem publicada no jornal O Tempo em 03/11/2013

(Daquela matérias que você-de certa forma- sempre quis fazer, apesar da pauta tristonha. Mas afinal trata-se de uma chance de se despedir e de agradecer uma de suas maiores referências. Aproveitei a chance para conseguir aspas de outros admiráveis, como Paulo Henriques Britto e Dado Vila Lobos. Imenso Lou Reed: morreu em um domingo, e sob o impacto de sua passagem, escrevi um “desabafo” no meu Facebook que acabou indo parar no site do jornal…)

Ironias da vida, etc: desde sua morte, no último domingo, as máquinas registraram um aumento de 607% nas vendas dos álbuns de Lou Reed. Pauline Kael, a maior crítica de cinema da história norte-americana, disse certa vez que produtos que atacam a sociedade de consumo se tornam produtos a serem consumidos. Lester Bangs, um dos maiores críticos de música de todos os tempos, acusou Reed (seu maior ídolo, diga-se) de vender transgressão e rebeldia reprocessada, embalada para os “doidões”. E Reed, o rei da ironia e da ambiguidade na música pop – porque, afinal, teve o melhor professor de todos nessa seara, Andy Warhol – possivelmente está se divertindo de montão onde quer que esteja, o sorriso manchado de nicotina subscrevendo o providencial “I don’t give a shit, anyway” por entre os dentes.

 Porque Lou sempre se achou fodão, independente dos ditos. Não entendia o porquê de “Walk On The Wild Side” ser um hit único, já que ele tinha outras muitas canções tão boas; já declarou que se, quisesse, poderia ter sido um guitarrista maior que Hendrix. Se comparou a Shakespeare. Sempre desprezou jornalistas, para ele, formas desprezíveis de vida. Muito barulho por tudo e por todos, em suma.

Quem emplaca um sucesso falando de transexuais e michês pode achar que consegue tudo mesmo. “Eu morava na França, tinha 12 anos de idade e me lembro de um namorado da minha irmã segurando o ‘Transformer’ (1972)”, diz o músico Dado Villa- Lobos. “Ouvíamos o disco sistematicamente. E uma vez, pedi para meu pai traduzir a letra de ‘Walk On The Wild Side’ para mim…”, lembra, malicioso e divertido. Os versos da canção, um curta-metragem sobre a fauna humana exótica de Nova York, pegaram em cheio o garoto. “Foi um relâmpago. Muitos anos mais tarde, já com minha mulher, fui apresentado ao Velvet Underground. Aí fui saber que o vocalista do grupo era o mesmo Lou Reed de antes”. Situação normal no Brasil, já que a obra do grupo aportou aqui com anos de atraso. E mesmo na época em que foi lançado, no icônico ano de 1967, a estreia fonográfica do grupo comoveu poucos compradores. E agora estão todos falando sobre Lou. E agora estão todos comprando Lou.

Legado. Mas, parafraseando o produtor Brian Eno, quem comprou a estreia do grupo, formou uma banda. Inclusive o próprio Eno, que montou uma espécie de resposta ao Velvet na Inglaterra, o Roxy Music. Lou Reed é justamente celebrado como um inventor – do punk, do rock alternativo, do noise. “Ele começou totalmente na contramão daquela coisa do ‘flower power’. E a autenticidade dele seguiu, ultrapassando gêneros”, lembra Geraldo Paim, da banda mineira Ram. Iggy Pop, Sex Pistols, David Bowie, Ramones, Sonic Youth, REM, Nirvana, para ficar em alguns poucos nomes, rezaram no altar (meio profano, vamos combinar) de Reed. “Ele não soa nada oportunista, nada efêmero. Ainda que sejam coisas tão diferentes, até em discos como ‘Metal Machine Music’ (de 1975, que contém basicamente 32 minutos de ruídos) é perceptível a identidade dele, o quanto aquilo fazia sentido para ele naqueles momentos”, argumenta Paim.

Será que todos os milhões de compradores do clássico “Que País é Este” (1987), da Legião Urbana, perceberam que o verso, “Ei, menino branco, o que é que você faz aqui?”, cantado por Renato Russo em “Mais do Mesmo” é citação literal de “I’m Waiting For The Man”? Será que as tantas gerações que até hoje entoam “Pais e Filhos” nas rodas de violão sabem que alguns dedilhados da guitarra de Dado são fruto de algumas audições da obra de Reed? “Aquele riff final da canção é ‘Pale Blue Eyes’. Simples assim”, assume, rindo, o músico.

Espécie de papa do submundo, Lou cantou a heroína, namorou a fama, casou com uma transexual e eternizou tudo isso em obra lírica que transcendeu a condição de roqueiro. “Eu diria que ele já encontrou o terreno preparado por Dylan e Leonard Cohen”, diz o poeta Paulo Henriques Britto. “A novidade dele, a meu ver, foi trabalhar com esse canto falado num contexto de rock pesado, já com toques de punk e minimalismo, com uma temática barra-pesada que ainda não tinha sido explorada por ninguém do primeiro time”. E como Britto nos lembra, “a fase ‘maldita’ dele foi só o período do Velvet Underground e a carreira solo até o final dos anos 70, no máximo”.

Depois, Reed ‘encaretou’. Apesar de parar com tudo em 1980, abusou de uma das drogas favoritas de veteranos naquele período: discos medíocres, sem brilho. Só no final da década ressurgiu com uma coleção de obras-primas, duas em especial, “New York” (1989) e “Songs For Drella” (1990), impressionante réquiem sonoro à Andy Warhol.

Seguiu redescoberto, celebrado, produzindo. Discretamente esteve doente e, poeticamente, se foi na última manhã de domingo, (“Sunday Morning”), numa casa de campo, próximo a Nova York que ele traduziu melhor do que ninguém. E da mesma forma que as prateleiras que guardam seus discos, a arte fica sensivelmente mais vazia. Mas é justo o sono final daquele que deixou tantos acordados.

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