Narrativas possíveis: o “LSD” de Nobat

Para variar, foi num boteco, templo onde concatena-se grandes verdades com poucas palavras. Em busca de um tema central para nos debruçarmos sobre um projeto de extensão/pós-graduação/ curso de desenvolvimento acadêmico, Pedrão chegou logo na batida perfeita.

“Narrativas possíveis”

Taí um guarda-chuva capaz de abrigar muita coisa, mas, mais do que isso, capaz de proteger dos alucinantes “torós de idéias” nosso foco de interesse mais imediato: menos o “que” e mais “como”.  De certa forma uma (per)versão de certas lógicas mundanas, um redirecionamento de hierarquias e expectativas que acreditamos ser, mais do que possível, essencial.

Não é ter a bola nos pés, é saber brincar com ela

É tentar desvendar o aparelho flusseriano

Acreditar nos fluxos, nos acoplamentos, menos no projeto e mais na experiência, mesmo que tentando remar, direcionar sentidos.

Nasceu, tá aqui. Bora navegar essa bagaça.


Coincidentemente ou não (porque, né? olhar e ouvir é um exercício),  junto a essa imersão na ideia de narrativas, caminhos possíveis,  ando debruçado já, há algumas semanas, em um canção chamada “LSD”, de um músico daqui, Belo Horizonte, chamado Nobat. A culpa inicial  foi dele mesmo, que gentilmente me  “cutucou” online e apresentou seu trabalho; a culpa final é dele também, que compôs uma das músicas mais belas que ouvi nos últimos tempos.

Gosto de tudo em “LSD”: desde o jogo de vozes e idiomas masculino-feminino que pode remeter à outra canção bonita ( “Janta“, de Marcelo Camelo) até às possíveis conexões com as paisagens sonoras tecidas por adoráveis bandas contemporâneas como o The National. Isso apenas para mapear, sob o impacto da primeira audição, o prazer imediato aos meus ouvidos. Concatenam-se referências à um ideia da canção pop clássica, mas insistindo em soar torta, como se a linda base formada pela programação de baixo e bateria e o samples de calimba e xilofone de madeira, e a guitarra dreamy do especialista Lucas Nascimento fossem ruídos travando uma luta com a melodia classuda, quase reconhecível,  selada por Nobat (que se apresenta como um bom cantor, de interessante registro), e a confortante presença da voz forte e delicada de Júlia Branco. 

Deste duelo nasce um rock elegante, climático, bonito de doer.

Mas o que mais me atraí na canção é uma certa névoa que lírica e música contêm, e nos pedem insistentemente para desvendar. O título poderia sugerir uma viagem mais pesada- não necessariamente uma bad trip- mas o que se revela para mim é uma placidez etérea, menos voar e mais flutuar. Menos a eletricidade Beatles de “Lucy In The Sky…” e sua visada caleidoscópica;  mais  a estática emocionante do Eno de “By This River” e suas reminiscências infantis, de pureza, tão presentes na guinada psicodélica dos anos 1960, vide o Floyd da fase Barrett- sendo assim fica possível perceber um calor materno até, quando entra a voz feminina.

De certa forma, “LSD” é o tipo de canção que espero ouvir sendo produzida por aqui.  Canções inspiradoras vindas de um lugar que parecem narrar espaço e tempo desta cidade de uma outra forma. Profissa, cosmopolita, espaçosa: plano aberto pra voar.

Bem, de ontem 
Não lembro de quase nada 
Pareço não ter razão 

E agora pra onde 
Iremos com tudo isso? 
E agora pra onde 
Iremos? 

A falta de razão; o excesso de dúvidas- de alguma forma isso me intriga e me interessa demais nos dias que correm. Ou como responde a voz da Júlia: Now I’m coming /From the truth that I’ve never looked for /And I’m not afraid of that .

No começo desta semana ele soltou o clipe produzido para a música, e , para minha surpresa, novamente entortando expectativas. De algum jeito, quando pensamos na relação semântica entre LSD e um campo de imagens, parece que já nos vem tudo pronto…

Mas não: fizeram do vídeo uma narrativa toda particular, belíssima. Desde as circularidades em torno da cor vermelho, as simbologias fortes a respeito da memória- ou da perda dela- seja no baú ou nas fotos reconstruídas que permeiam o vídeo; o sujeito amarrado, o grito silencioso (em acordo com o timbre de guitarra) da Julia, e, por fim, o foco na palavra tatuada em seu braço: poema.

Aliás, taí uma bela definição para música e clipe. Um poema sonoro e visual, que provoca certa confusão dos sentidos, um desregramento dos sensos, um sair dos trilhos que muito me apetece.

Uma narrativa possível, enfim.

 


“Ela é cíclica, com uma dinâmica que parece reta quando, de súbito, sobrepõem-se elementos que engordam a dinâmica e fazem dela uma música sem início ou fim, sem lugar, mas existe o tempo e é o passado”
NOBAT
Entrevista com Nobat
De onde nasceu “LSD”, quais são os rastros inspiracionais da canção?
A música foi composta em São Paulo, em 2011. Estava lá para o festival Planeta Terra que na edição daquele ano reuniu Bombay Bicycle Club, White Lies, Interpol, Broken Social Scene, Strokes e outras bandas contemporâneas das quais eu era super fã na época – algumas permaneceram. São Paulo é uma cidade que me inspira caoticamente: basta que eu chegue à cidade pra pulsarem descontroladas ideias de letras, melodias e arranjos. Acho que isso combinado ao clima do festival e às histórias que experimentei naquela viagem específica mexeram bastante comigo e foi assim que surgiu “LSD”. Tem algo nela do que sempre ouvi e sempre quis fazer que é a música brasileira contemporânea com algumas coisas que ouço aí fora. Tem alguma coisa daquela turma da vanguarda canadense, algo de Lali Puna, de Audrey, alguma coisa do BSS mesmo, algo de Caetano. Já me disseram perceber Jair Naves nessa música, acredita? Mas aí já acho meio forçado.
Desde sua concepção inicial, ela foi pensada para ser um dueto homem-mulher?
Sim, a música tem uma coisa de cena, de episódio muito forte e que não se conclui. A coisa do duo pintou assim que fiz a música e sabia que precisaria de uma voz feminina para a parte em inglês desde o início. Pensei numa música que não tivesse lugar ou tempo e “LSD” por pouco não foi isso. Ela é cíclica, com uma dinâmica que parece reta quando, de súbito, sobrepõem-se elementos que engordam a dinâmica e fazem dela uma música sem início ou fim, sem lugar, mas existe o tempo e é o passado.
Queria sabe um pouco sobre o arranjo, a opção por sampler e uma guitarra mais climática…Quando você se decidiu por este arranjo mais plácido?
A gravação surgiu de uma oportunidade. O Eduardo Curi, produtor do estúdio Pato Multimídia, tava interessado em produzir alguns samplers e disponibilizá-los pra venda ou donwload, não me lembro, no seu site de produção, o Clube dos Produtores. Ele sampleou um xilofone de madeira e calimba e me convidou pra que pudéssemos arranjar alguma música nova minha juntos. Eu propus a ele que fosse “LSD”. Ele adorou a ideia e então eu passei minhas referências e o esboço do que tinha pensado, tudo até então bem cru, sobre o arranjo, que se desenvolveu mesmo dentro do estúdio. Quando estávamos com um esqueleto já vivo, convidei o Lucas Nascimento, guitarrista do The Us, que desfila com elegância nessa praia do Shoegaze, do noize contemporâneo aplicado em outras órbitas estéticas, e ele promoveu um espetáculo.
Ela é, de certa forma, uma baliza estética possível para o disco que vem por aí? Pensando em seu trabalho anterior como algo mais “direto”, mais cru mesmo, ouviremos coisas diferentes?
Depois que compus e gravei “LSD”, tudo que fiz a seguir transitou por outros universos, bem distantes. Considero essa música um ponto de manobra do meu imaginário artístico mesmo. E posso dizer com tranquilidade que talvez seja a curva mais tímida do que está por vir em termos de reconfiguração estética. Passei por um processo pessoal parecido e uma coisa participa muito da outra, como que se pautando mutuamente. A partir de então venho compondo compulsivamente, fiz músicas pra três álbuns, mas enfim consegui reunir algumas que representam melhor esse momento e fechei um disco no qual já tenho trabalhado em pré-produção. Quando fiz meu primeiro disco estava dando meu primeiro passo, um passo bem desconfortável, mas inevitavelmente corajoso. A falta de intimidade com os processos da música e do fazer artístico em si me deixaram mais afundado em uma certa zona de conforto da qual tive a oportunidade de me afastar profundamente fazendo shows, conversando com as pessoas, fazendo amizades intensas com artistas de toda sorte de área, tocando em várias cidades, enfim. Nesse álbum novo vem muita coisa diferente, flutuando nessa outra órbita, um caminho talvez mais meu.
O clipe ficou belíssimo. É difícil para você, como compositor, de certa forma “fechar” a interpretação de uma canção num clipe? Como foi o processo? Você sugeriu questões ou ficou nas mãos/ olhar do diretor?
Confesso que tenho um certo desconforto em ilustrações canalhas, em relações narrativas bobas que costumam ser a pauta em alguns videoclipes desde muito tempo. É claro que existem os incríveis também. Sempre cativou mais meu olhar um vídeo que informava paralelamente à música, que funciona dentro de sua linguagem, o que não vejo com tanta frequência assim. A coisa direta, no vídeo, na música, no texto, exige um talento muito específico, é uma seara que desconheço a ponto de perder o chão, sou bem mais subjetivo e abstrato – apesar de amar insanamente quem consegue fazer isso bem, como faz o Vitor Brauer, por exemplo. O roteiro foi totalmente escrito por Frederico Amoz. Na verdade, quando ele ouviu a música, enlouqueceu excitado, pulava e dava gritos como quem havia tomado um choque. Era, de fato, algo da ordem de um choque criativo. A música propôs – e impôs – a ele diversas imagens e sensações. Dias depois da primeira audição, o Amoz surgiu com um roteiro que aproveitava um curta que ele pretendia fazer, mas nunca havia feito, e diversas imagens referenciadas nas artes plásticas, na dança, em intervenções urbanas, tudo muito contemporâneo. Participei do processo inteiro como quem acompanhava e contribua na revelação que experimentava um grande artista, confiei totalmente na potência que surgia no olhar dele espontaneamente, provocada por aquela música minha. No clipe, assinei a montagem ao lado do Jonathan Tadeu e a direção de arte. O Erick Leite filmou e fez a direção de fotografia em total sintonia com o Amoz e a Luísa Gontijo produziu sem aquela coisa chata e inócua dos “nãos”, ela procurava o “sim” e encontrava. Acho que foi um dos trabalhos que mais gostei de fazer, foram seis meses que mudaram a minha vida, certamente.
Fale um pouco da Júlia, que além de estar na canção, protagoniza o clipe também
A Julia foi uma delícia do acaso pra minha vida. Não a conhecia, mas tínhamos alguns amigos em comum. Quando terminei a música, já havia até mesmo gravado o meu vocal, procurei por alguém que pudesse ocupá-la com a voz que eu ouvia na minha cabeça, coisa de participação mesmo, né? Você procura uma pessoa que vai viabilizar uma ideia que você teve com as características que tem. Pensei que a Julia tivesse essa voz, mas me enganei. A voz dela era uma outra coisa que fez a música se tornar dela também, a presença dela na música é de pertencimento, nunca diria que de participação. Ela criou, modificou algumas frases musicais e na letra mesmo e fez disso tudo algo maior, mais bonito e marco de um encontro cheio de vida. A Julia é atriz, uma atriz muito expressiva e que se entrega mesmo ao que faz, no clipe a força de sua presença é de uma intensidade agressiva até, apesar de sua energia ser totalmente branda e leve. Nos tornamos grandes amigos e estamos conversando pra outros projetos juntos, talvez no segundo semestre. Deu muito certo nosso encontro, na vida e na arte.

 

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