Nossa Linda Juventude Sônica (ou a glória e a emoção do Foda-se)

 

Meu primeiro encontro off-line com a Lupe de Lupe, depois de me encasquetar com os bons clipes que eles faziam, de certa forma me apresentou à primeira caraterística marcante (e, de um certo ponto de vista, absolutamente adorável) deles.

A marra, a petulância, a vontade de ser meio desagradável, incômodo, elefante cagando no meio da sala. Smells like teen spirit: de vez em quando  a missão ressurge no peito dos trintões.

(Mas nunca confie em alguém que tiver mais de trinta anos, sacumé…)

Foi no extinto Bordello, noite com mais uma ou duas bandas. Guiado pela curiosidade, fui conferir. Uma cerveja, duas cervejas, dez cervejas depois e nada da banda subir no palco. A regra era clara: a molecada faficheira, apenas começando a acelerar o pique de uma quarta-feira absolutamente sem lei, instituiu que não existia problema algum em esperar uma banda, jovem como eles, começar o show depois de uma, uma e meia da manhã. A famosa síndrome indie-não-dorme, que eu, já reabilitado, tinha dificuldade em compreender- na prática- naquele instante.

A banda deixar o volume do som ABSURDAMENTE alto, logo nas duas primeiras músicas, impedindo qualquer nuance, qualquer sinal de letra audível, qualquer coisa, enfim, além de uma jovial vontade de soar MAUZONA não melhorou em absolutamente nada meu humor.

Fui embora embora meio puto, por um motivo muito simples: queria muito ter sacado aqueles caras do clipes simpáticos, abusadinhos e donos de um hit fácil- se houvessem hits rocks naquela fase pós-Obra/Garimpo/Studio Bar/E o escambau que a ceninha alternativa da cidade vivia. Tempos duros, aliás, quase exigindo nostalgia precoce, um dos piores males deste século de saudades instantâneas e em rede. Envelhecemos muito rápido e envelhecemos muito mal tentando acompanhar as maravilhas musicais postadas a cada micro-segundo nas nossas linhas do tempo virtuais.

A Lupe de Lupe, antes de aparecerem uma série de outros bons artistas (de The Us à Nobat; de Max Henrique à Fase Rosa), parecia ser a única coisa nova saída daqui que me interessava no período (2010, 2011?). No quesito rock- ou algo próximo-reafirmo.


 

Particularmente, tenho um “defeito”: prefiro Toddy ao tédio,  Sócrates e Casão à Leão; Romário à imensa maioria dos seres pensantes. Tenho uma pequena obsessão  pela marra, desde que munida de alguma suspeita de talento, postura, paudurecência, fome de bola e lances geniais. Assim sendo, segui espreitando a molecada, que seguia num combustível meio insano: quando me dei conta, acordei daquela noite do Bordello e tinha um bocado de novidades para curar a ressaca.

Seja o amigo que falava de uma banda que fazia guitar rock noventista bacaninha; do músico que desancava uma cover banhada em My Bloody Valentine de Legião Urbana; de uma conexão Ludovic/Jair Naves que pintava na rede ou da colega de trabalho que era amiga/produtora (era isso Damy?) da banda e dizia de algo chamado Geração Perdida; o tal Lupe de Lupe seguia aí, firmão, empinando ainda mais o nariz. Se equilibrando com muita produção (no sentido de não ficar parado), com muita tentativa, com muita novidade, o que é, no fim das contas, tipo soro de cobra,  a melhor vacina para este mal que é justamente o excesso de novidades: desde que sejam novidades mesmo.

E a grande nova da banda, durante esse período, parecia ser uma espécie de cartografia do desafeto, a cidade de Belo Horizonte como espécie de anti-musa. Um discurso, enfim. Desarticulado? Exagerado? Polemista? Umbiguista? Cada um que tire suas próprias conclusões…

Por mim, tinha/tem um pouco de tudo isso aí, sim. Mas carburado por raiva, por paixão, por vontade e por canções e ideias que pareciam, hum, amadurecer a cada novo clipe postado, a cada nova música, projeto, loucurinhas com molho de expressionismo alemão (disco de spoken word?), cover inusitado no calor do momento, etc.

Tudo meio condensado numa uma espécie de hino, inteligentíssimo, da mesma fonte daquele inesquecível “odeio você” do Caetano, um morde (forte e dolorido) e assopra (lindo, “meu coração é minas gerais“). Em suma:

Angry white boys portando guitarras, com um tiquinho assim de pretensão intelectual? Sempre vou estar afim.

Angry white boys portando guitarras, com um tiquinho assim de indocilidade e vontade humana? Sempre vou estar afim.

Aí eles soltaram essa canção

Assim como alguns outros me revelaram, não vou me esquecer nunca da sensação que tive ao ver/escutar isso pela primeira vez. Poucas obras (usar “música” aqui diminuiria o impacto) carregam tantos sabores inestimáveis hoje em dia. “Homem” (música e clipe) tem o gosto da coragem, do lirismo, da vontade; é um dos atos políticos mais bonitos que já presenciei. Que ele tenha saído desta cidade tão agitada ( e tão tediosa… suponho o ponto de vista lupedelupeano) nos últimos anos apenas acrescenta beleza   Que esse ato tenha saído de um bando de moleques, que conseguiram colocar a questão de forma tão exata/mas densa; tão nítida/mas poética é apenas a confirmação de que, porra, o mundo tem jeito demais.

Tentei traduzir jornalisticamente, no calor do momento. Ainda acho que não dei/dou conta.

E essas boas novas que o Lupe de Lupe traziam, e seguem trazendo, me interessam por vários motivos; entre eles uma espécie de senso histórico. Até onde entendi, percepção que se justifica numa decepção do caras, tipo promissed land: vieram do interior mineiro, pararam na capital e encontraram uma Belo Horizonte parada, pós-tudo, no que se refere à ceninha roque. Injustamente, só para preenchermos a fabulazinha, poderíamos dizer que o pós-rock aqui desaguou no carnaval.

Tudo no pique do olhar estrangeiro, de corpo(s) estranho(s)valadarense(s) e alma(s) de quem enxerga mesmo muito bem

E fantasia por fantasia, eles preferem nenhuma, pelo jeito.

(E pode parecer coisa de menino folgado, mas é JEITO PRA COISA mesmo)


Muito do que tentei escrever aí em cima me parece transbordar no novo disco deles, “Quarup”. Num exercício de paráfrase de uma resenha (acho que na extinta Zero, alô Luiz Cesar Pimentel) que li há muito tempo sobre um disco dos Racionais (seguramente uma das eminências pardas desse “Quarup” da Lupe): é um dos discos mais cheios de vida que temos nos últimos tempos. Do lado bom e ruim dela. É sintomático (além de uma bela sacada) dividir em seu título com a obra clássica de Antônio Callado, o sentido original do rito indígena que quer trazer os mortos de novo à vida.

É meio que a sensação que tive ao ir me aprofundando nas 21 faixas do disco. É… disco duplo, sem lei de incentivo, sem gravadora, sem crowdfunding, sem release assinado por alguém, sem show de lançamento. Um glorioso e bonito foda-se pra muita coisa que tá por aí.

É a cara (e a coragem) do que esses meninos tem falado por aí.

Seria fácil emendar umas supostas definições pega-otário; ou aquelas coisas que apenas a turminha da música iriam entender. “É a porra do “Zen Arcade” do Husker Du, das alterosas”, ‘É a a antípoda dessa turma do carnaval de BH”, etc, etc, etc, etc. Nada disso estaria (muito) longe da verdade. Mas simplificar a coisa assim seria um desfavor danado ao um dos discos que mais produzem, comunicam, induzem PRAZER que ouvi nos últimos tempos.

Vamos (tentar) ir ao disco.

É muita coisa, e , clichê número 1, isso é louvável. Porque é “muita coisa” com, digamos, discurso, fala, proposta, vontade de gritar e vontade de falar baixo; vontade de testar (mais) e vontade de ir na certa (menos). É um recorte simpático (e simplório), na primeira orelhada, de tantas vontades dos meninos; vontades internas e externas, separemos assim.

As internas, desconfio, dizem de um(s) lado (s) melódicos, doces, baladeiros mesmo, o(s) pau(s) calçando as chuteiras do(s) corações. Uma série de canções que, antes de traduzir aquela vontade de SER (que justificam, pelo menos pra mim, aquele show inaudível e, hum, adolescente) querem codificar uma vontade de ESTAR.

E eles parecem estar querendo tudo que lhes der nas telhas.

Se quero compor ( e fazer “caber”) uma canção romântica, no osso, no disco, tem de entrar. Se quero dizer num, sei lá, indie-pop-rockabilly-bêbaço uma história sobre  pôr do sol, tédio e remédios e foda-se: tenho que poder. Se quero quase reler  Smiths via Legião Urbana “Dois” depois de uma barulheira meio Defheaven, vai rolar. Um início chapado Kurt Vile para depois acordar, aumentar a rotação e cair numa declaração de amor à São Paulo onde samplearei liricamente Caetano Veloso? Tá dentro. Indie rock puro sangue? Tiros melancólicos? Coices hardcore? Vamos nessa.

Como disse antes, um  emocionante e glorioso foda-se. A grande questão desse (e de qualquer outro?) patchwork é: funciona? A questão não é pra onde vai, mas se a caminhada, a tessitura da bagaça, encanta, emociona, seduz, nos faz seguir.

E, pêlamor, como esse “Quarup” consegue resolver tudo isso e mais: quando percebemos que este ser amorfo, desfocado, difuso é , na lupa, algo estudado, no melhor sentido do termo, no sentido de ter um aboutness, um PROPÓSITO (alô Arthur Danto e povo da pop arte) aí fudeu, #partiuemoção.

E pensando em tudo isso, talvez seja até sacanagem indicar uma porta de entrada que não seja a que eles mesmos sugeriram para o disco. Uma pequena arte isso, a ordem das canções, especialmente nesse “Quarup” duplo, com direito a duas (lindas) capas- absolutamente “suedianas“, uma pra cada “lado”.

“O Futuro É Feminino” talvez seja o mais próximo que a banda já chegou de um…samba. E chega abrindo o disco, nos lembrando que a presidente deles (e nossa) é uma mulher, que o coração deles (e o nosso?) é brasileiro e manda, tipo roda de bar, um “salve salve” para os amigos deles. É muito, muito esquisito, na real. Porque não soa…natural? Instintivo? É hínico demais, orgulhoso demais, deslocado demais.

É arriscado demais.

É demais!

E ponto exclamativo

Na sequência entra uma das melhores pop songs disfarçadas de indie rock desde os tempos áureos da Superguidis. “O Arrependimento” explana de cara que “Quarup” tem um(s) lado (s) solar, fácil, chiclete- tudo isso entre aspas, claro. Porque a letra é torta, a harmonia é torta (e meio desafinada?) e gruda na gente de um jeito…

“RJ(Moreninha)”, na sequência, atesta isso, com um riff funky de guitarra  tão, mas tão safado no refrão, com um baixo tão, mas tão libidinoso que aparece até proposital o título carioca. A batera seca, cheirinho de anos 80 delícia…

Aí entra “Gaúcha”. Sei lá se esses meninos conhecem Black Rebel Motorcycle Club, mas fizeram uma canção tão gêmea, tão partilhada das melhores coisas desses caras…É aquela vibe de canção pop clássica que IMPLORA  por um arranjo do Phil Spector- mas que, na real, fica bem melhor sem isso, sacumé? Tentativa= erro=acerto.  Letra e músicas lindas, lindas, lindas. Tenho vontade de terminar com minha namorada só pra ela fazer mais sentido ( ou sentir ela melhor, enfim).

Pra fechar a geografia afetiva, afetivíssima do disco, “SP (Pais Solteiros)” que começa folk rock chapado ( Kurt Vile…) e vai cair na praia de Replacements e demais ondas maneiras. Das letras mais bonitas ( já acostumou com os adjetivos “bonito”, “lindo”, “belo” no decorrer do texto?) do disco, tiros certeiros trocados entre quem melhor narrou São Paulo (Caetano, Racionais).  “Todos esses prédios, crescem bem mais alto“; “Tensa, deselegante e disforme“, “Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando sai do metrô da Consolação“. Você já teve vinte e poucos anos e desembarcou pela primeira vez em São Paulo? “O futuro pode estar aqui“.

Depois vem “Colgate”, “Ao Meu Verdadeiro Amor” e “Esse Topper Foi Feito Pra Andar”, exercícios cancioneiros de diferentes diapasões que talvez funcionam menos aos ouvidos mas que fazem muito, muito sentido dentro do disco. A primeira foi eleita o, hum, single, modorrenta, arrastada, preguiçosa; a segunda mais cadenciada, arranjo destaque, boa, boa, boa. Pérola meio escondida, um dos acenos à Legião Urbana (outra eminência pardíssima no disco). A terceira é um dos emblemas desse “Quarup”: parece gravada em amplificação mínima ou nenhuma, recado para algum amigo, GIRL POWER. Risos e diversão: dá pra se conciliar isso também.

Não sei se minha leitura é certa (e acho que não, já que as capas dos discos só trocam mais pra frente), mas creio que “Ágape” e “Fogo Fátuo” fecham o disco 1, lado A, seja lá o que for.

“Ágape” é minha música favorita de 2014, junto com “Under The Pressure” do War On Drugs e “Blue Moon”, do Beck. São músicas, para o meu HD mental,  capacitadas do melhor da música: te transportar, te sublimar, te subjetivar. Posso escutar essa em qualquer contexto- sob o volante opressor do carro, sob os lençois sozinho e acompanhado, bêbado solitário e introspetivo numa roda de farra, etc, etc, etc- que vou entrar numas, me emocionar de leve, embarcar no navegar da lírica e da música dela. Fico CHAPADO com essa porra dessa música; daquelas que você quer muito ver/ouvir ao vivo, mas sabe que o que vai ficar é apenas mais um registro- necessário- mas apenas mais um, dentre tantos outros. E isso tem um tamanho…

Quase nubla a sequência, “Fogo Fátuo”. Mas qualquer deprêsong que começa com “Você tem muito as caras” e termina sendo uma grande, grande, GRANDE, canção não consegue desaparecer tão fácil assim.

O lado mais nervoso- musicalmente- desse “Quarup” parece iniciar com os exercícios de feedback expostos em “PKA Prefácio” e “Jurupari”, como se dissessem, reafirmassem,  “somos noise” no meio de um cardápio já impressionantemente variável. Com todo respeito aos fãs do estilo (são muitos) ainda é algo que, pra mim, funciona melhor na teoria- além de garantir certa completude pra uma obra como essa- do que na prática.

A barra pesa mais, funcionalmente, na nervosa sequência “Orquestra Para Três” (com um riff deliciosamente sujo, meio QOTSA) e na pancadíssima “Minha Cidade Está Em Ruínas”, relato lírico de cadência e fluência rap mixado com punk/hardcore old school (num verso,”Todos nós somos jovens; programados pra morrer nóis é“, a ponte está estabelecida) que soa como retrato cruel de muitas das cidades grandes do interior, onde bucolismo, idilismo e outros ismos nostálgicos foram secamente substituídos pela violência tipicamente urbana.

Pra aliviar um pouco- apenas na parte musical, porque a letra segue firme no desencanto- “Querubim” chega mais climática, guitar rock mezzo shoegaze cujo arranjo pára- sobe- volta mostra certa complexidade numa canção falsamente simples. É aquela música de banda ensaiada, de banda que se conhece.

“Eu Já Venci” segue essa linha, num certo sentido (“Quebra essa porra caralho!“), mas de outra forma: apesar do clima musical de jam session barulhenta, soa minuciosamente estudada, especialmente na sua letra. É o momento mais cru, mais forte do disco, num sentido conceitual- e ao mesmo tempo que ela soa forte e audaciosa se mostra também um perigo. Perigo porque seria muito fácil, “vendável” resumir “Quarup” ou a própria Lupe de Lupe às palavras que são cuspidas, cheias de convicção, nesta música.

Uma nação que se ergue pra me odiar; eu continuo vencendo vocês todo dia; a esquerda festiva muda suas lutas todo dia; não sou um privilégiado que vai beber na fonte da pobreza; por onde eu passo eu deixo um estrago

A primeira parte coleciona ameaças, aquela petulância descrita no início desse texto (muito melhor elaborada, destaque-se)- é como se aquela banda do volume no 11 do Bordello estivesse sempre aqui ainda nesse “Quarup”, travestida de outras possibilidades. Mas aí “Eu Já Venci” ( e a Lupe de Lupe?), de certa forma, começa a duvidar de si mesma, como que confirmando a trajetória feita até agora no disco. Uma espécie de mea culpa sem culpa demais; auto análise madura e essencial.

“Você me disse tudo
E nós nem nos vimos de novo
E sempre que eu sou cruel
Eu lembro da sua bondade
Você disse que eu podia ser um gênio
Mas pode o filho de uma enfermeira ser um gênio?
E de onde vem todo esse rancor?
“O que cala sua boca conserva sua alma”?
E que diferença faz dizer todas essas palavras?

A gente pode até não vencer esses insetos
Mas a gente não precisa de se juntar a eles
Minhas mãos, rudes demais
Minha mente, bruta demais
O meu corpo, tosco demais
Chegar aqui já diz que eu já venci”

E é curioso perceber que, depois dessa declaração, desse repensar a brutalidade,  apareça, o momento mais plácido desse “Quarup”. “Noma”, que parece (re)mixar Augusto dos Anjos (“Tu és perfídia e sublime/ És fel e ardor de uma só vez/ Meu peito afaga e aflige/ Na solidão não há porquês”) numa encantadora marchinha melódica e abafada. Em mãos mais toscas poderia soar como brincadeira de estudante de letras- mas o disco em hora nenhuma se permite isso.

Se alguém lhe disser que “Reino dos Mortos” é cópia descarada de Smiths via Legião Urbana “Dois” ( tem até aquele fade in/out de Some Girls Are Bigger Than Others” ou “Tempo Perdido”), aceite. Se alguém te disser que isso é um problema, perceba que o problema é seu de estar trocando ideia com esse prego. Música pop é samplear, roubar e muitas vezes esse é o melhor jeito de dizer “eu te amo”. E se alguém não amar nenhuma das duas bandas “homenageadas”, isso não é problema desse bando de moleques. Terminada essa alegoria toda, “Reino dos Mortos” é um musicaço, daquelas que várias bandinhas pós-punk dariam trocariam várias noites de diversão nas festas góticas do Matriz para fazer.

Falando em Renatão Russão e cia, o ritmo acelerado de “Você é Fraco” bem que poderia estar no “Quatro Estações”- isso se eles não tivessem dispensado o Negrete antes (ele assinaria com tesão o baixo distorcido maravilhoso dessa) e não tivessem trocado o amargor nas letras pelo hippismo apostólico. Nesse sentido, “Você é Fraco” é punk puro- “Você anda feito um rato/ Você rói feito um rato/Você caga feito um rato/ Mas você não é um rato/ Você é um artista”- meros uma declaração e mais uma passada de recibo em deus sabe quem. Um chupador de bolas qualquer.

A mântrica “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus” é esperta sacada histórica, juntando o agora e o antes dos abusos cometidos em nome do poder e afirma, antes do disco fechar, o excelente melodista que é o Renan Benini.

“Quarup” é um disco longo, longuíssimo, quase duas horas. Poderia ter algumas faixas em ordem diferente, mas seu encerramento só poderia ser “Carnaval”. É ali que se alinha com precisão o discurso amo-odeio com o espírito experimental (lembrança dos spoken words gravados pelo Brauer solo); um pequeno recorte de polaroids reais ( como se “Street Hassle“, do mestre Lou, fosse desdobrada em mais histórias) onde, da constatação de que “todos seguem uma agenda, todos são os mesmos afinal” vão empilhando, sem refresco, os cacos existenciais/sexuais/afetivos de uma singela noite de carnaval.

Ora, podemos ver o círculo desse “Quarup” fechando: começa num samba esquizo e fecha numa marcha fúnebre; o avesso do avesso do avesso da folia de fevereiro. Se o carnaval- como acontecimento e ideia- é espécie de ponto de transformação de Belo Horizonte, essa anti-musa para a banda, nada mais natural do que voltar ao tema, flanar entre confetes e serpentinas com olhar atento e registrar isso da forma mais crua possível.

É muito, muito, muito bonito.


Se parido apenas pela coragem e marra, “Quarup” já seria louvável. Só que, no alvorecer dessas 21 canções, o ouvinte encontra mais, muito mais. Encontra porções generosas de vida, sob a ótica de um bando de moleques que não parecem apenas estar sentados, vendo ela passar. A Lupe de Lupe está se mexendo, se movendo, porque, porra, não há nada mais a se fazer, há? O caso aqui é de “quem muito fala, muito faz”.

E contrariando os prognósticos anunciados, ficamos no aguardo do obrigatório e possivelmente histórico show de lançamento por aqui.