O calvário de Britney

Temos de gostar de Britney pelas razões certas

Coluna Esquema Novo, publicada pelo jornal Estado de Minas em 15/10/2007

Esse humilde espaço não é nenhum observatório da imprensa e nem pretende fazer o papel de ombudsman, fiscalizando o trabalho alheio e publicando (supostas) falhas em caixa alta. Mas sugiro para o leitor o seguinte exercício: uma visita diária ao portal da Globo na Internet, em uma seção específica a de personalidades. Antes de qualquer acusação, me rendo assumindo que sou um leitor dedicado dessas notícias tipo “fofoca”, um voyeur culpado da vida alheia. Se você seguiu o exercício sugerido, mande um e-mail para esta coluna contabilizando o número de vezes que você não encontrou nenhuma notícia a respeito de Britney Spears. Já adianto que será uma missão hercúlea despertar diariamente em busca de notícias e não encontrar a ex-queridinha da América sob as luzes de algum flash.

Uma breve seleção para dimensionarmos o tamanho do drama: “Britney Spears encontra os filhos pela primeira vez após perder a custódia”; “Britney Spears exibe decote generoso em Los Angeles”; “Britney Spears passa três noites em três hotéis diferentes”, “Britney Spears tem a calcinha flagrada mais uma vez pelos paparazzi”; “Após audiência, Britney Spears saí para jantar com os amigos”. Essa pequena edição de manchetes- não tive fôlego para contar quantas são no total- se refere apenas a três dias do mês de Outubro. Quando surgiu a primeira enxurrada, pensei que essa menina precisava de um psicólogo, com urgência. Na segunda leva de baixarias (e, em maior ou menor grau, todas as notícias referentes a ela são baixarias) concluí que cinco psicólogos talvez não fossem o bastante para Britney. Continuei acompanhando o seu calvário com atenção quase obsessiva, e descobri horrorizado, que quem precisava de um psicólogo era eu.

Como fui cair nessa história toda? O “Britneygate” (o termo ruim é meu e não autorizo republicações) é apenas mais um truque velho e eficiente. Começa com uma menina inocente e sensual, para Nabukov nenhum achar defeito. A lolita aparece primeiro em formato videoclipe, caras e bocas, pirulitos subliminares, trajes colegiais. Pornografia light, em suma. A forma mais esconde do que mostra, prática certeira quando o produto tem idade inferior à permitida para dirigir. Já as canções, o conteúdo, é irresistivelmente fútil, uma repaginada moderna, sem pigmento e bem menos inspirada daqueles grupos de garotas fabricados pela divina Motown, nos anos 60. Não tem erro-é um das fórmulas imbatíveis do pop testado em paradas de sucesso e em pesquisas criteriosas de mercado. A segunda etapa é simples. Britney já dirige. Já tem namorado. Já aparece alterada em algumas entrevistas. E, fundamentalmente, já encurtou bastante o comprimento das roupas. Encarna sucessos sem parar e quase consegue ser levada a sério pela crítica e pelo público maior de 18 anos, é a glória.
E depois chega a decadência, simbolizada pela perseguição implacável da imprensa e patacoadas incríveis na vida pessoal e no pouco que sobrou da vida, hum, “artística”.
Juro que tentei sentir pena dela. Esforcei-me para ser mais um chato, um humanista radical defendendo a surrada tese de “a mídia constrói um artista, para depois envia-lo para o inferno” ou então que “a sociedade atual exige uma espectacularização exagerada dos momentos mais banais de uma pessoa pública”. E ainda, para radicalizar: “Trata-se de uma peça de todo o sistema. Ela é tão vítima quanto nós”. Antes que o leitor comece a desejar para este escriba uma punição tão radical quanto balançar os singelos pneuzinhos da barriga em hiperclose para uma das maiores audiências televisivas mundiais, ou mesmo me obrigar a dançar freneticamente seu novo single, a péssima “Gimme More”, já me adianto: de todo coração, eu quero que Britney Spears vá pro inferno. De mãos dadas com algumas agências de notícias, é claro. A conta do analista eu mando depois, com juros e correção.

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