O líder do Mondo Massari- Entrevista com Fábio Massari

A-K

crédito da foto: Marcelo Ribeiro/ Divulgação

Entrevista publicada no jornal O Tempo, em 01/12/2013

Quando veio a ideia de editar “Mondo Massari”? Não deixa de ser curioso o fato da obra chegar alguns meses depois da mudança da MTV Brasil, já que o livro também compila algumas de suas últimas atuações por lá, certo?


O livro na verdade é uma coletânea das minhas atividades com a “marca” “Mondo Massari” ao longo dos anos. Tudo começou como projeto de televisão, na MTV Brasil, em 1999. Alguns anos depois, assinei como “Mondo Massari” uma coluna mensal na revista “Rolling Stone” e, logo na sequência, uma coluna semanal no portal Yahoo! Brasil. A primeira parte do livro reúne esse material. Na segunda parte (daí o tipo de papel diferente), estão reunidas as entrevistas para o programa de rádio “ETC”, que apresentei na Oi FM até o começo de 2012. Trata-se da transcrição completa das conversas. Como o “ETC” quase se chamou “Mondo Massari”, fecha-se uma espécie de ciclo: televisão, revista, internet e rádio. Pode ser considerado um almanaque, um diário de bordo bem completo das minhas atividades com a marca “Mondo Massari”.

Não dá para deixar de perguntar: mesmo com extenso currículo de entrevistados, conhecer alguns artistas, in loco, ainda abalam o universo “massariano”?

Falo por mim, mas tenho certeza de que acabo representando parte de quem trabalha com isso: quem trabalha com isso é fã, ou pelo menos foi um fã, em maior ou menor escala, em algum momento. E não existe problema algum nisso. A ética do profissional, a postura do elemento e coisas assim é que vão definir, determinar a qualidade – ou validade! – do seu trabalho. Basicamente a noção de quando e onde e como você pode se comportar como tal. Mas um nervosismo aqui, um autógrafo ali: não vejo problema algum.

O outro lado da moeda é a dedicação e o interesse que você demonstra pelos jovens e desconhecidos artistas, caso de bandas como The River Phoenix, Parlotones… Como você descobre esses nomes? Os caras ficam espantados ao perceber o interesse de um brasileiro em relação a eles?

É divertido ver que, mesmo nos tempos em que vivemos, muitas vezes os artistas se surpreendem com o fato de alguém do Brasil estar interessado no que eles produzem. E eles respondem a isso com muito interesse, fica todo mundo bem disponível e curiosamente à vontade. A pesquisa, o garimpo é algo “orgânico” para mim, no sentido de que acho que estou sempre fazendo isso: construindo meu mundo com os discos e livros e filmes e inúmeras manifestações macro/microculturais. No caso das bandas, é só se largar na “teia” que você foi, ou que foi construindo com o tempo, e se divertir.

Outro lado delicioso do livro talvez seja seu campo de atuação menos conhecido: a escrita. É perceptível inclusive um certo tom “radiofônico” na sua linguagem. Confere?

No caso desse “Mondo Massari”, o corte mais, digamos, literário, está na primeira parte: “Rolling Stone” e Yahoo!. Uma tentativa de emular meu discurso radiofônico, existe sim, porque acho que essa é minha voz essencial. A tentativa é a de articular um texto que espelhe de alguma maneira minha “falação” de rádio. Dado meu fascínio – veleidades literárias? – pelas boas letras, acho que é uma maneira de forjar um discurso literário pessoal, com toda humildade do mundo. E reforçando um detalhe técnico: não sou jornalista. Não tenho habilidade com algumas das suas ferramentas básicas; mas também não me sinto obrigado a usá-las. Para o bem ou para o mal, escrevo como um radialista – procuro minha voz, pelo menos por enquanto, nessas experiências.

Momento pós-MTV: ela vai fazer falta? O fato de ela estar restrita à TV fechada hoje é sintoma dos tempos pouco animadores para a música na mídia?

Incríveis 20 e tantos anos que não voltam. Fim de business, fim de uma era. Nem adianta reclamar! A questão mais importante é, que fim vai levar o acervo? Quem leva e o que se faz com essa “história” toda?

Planeja fazer alguma coisa na internet, aos moldes do que tem feito por exemplo seu antigo colega de MTV Gastão Moreira, um programa exclusivo para o You Tube?

Ainda tenho outros projetos editoriais que me fascinam – inclusive um de HQ (histórias em quadrinhos) em estado adiantado de realização. E mais alguma coisa de livro.

Pode se dizer que rádio é sua grande paixão? Você tem atuação marcante na televisão, claro, mas o rádio é o suporte ideal para o universo massariano?

Sou radialista de formação – e predileção! Acho o universo fantástico e sim, num certo sentido, acho que é a plataforma ideal para algumas das minhas atividades com os bons sons. Como eu disse, o “ETC” quase se chamou “Mondo Massari”. Na televisão fui parar por acaso, vindo do rádio. E não era uma televisão qualquer; ainda mais naquela época era uma televisão que tinha música como assunto principal. Escrever é o mais legal. E o mais difícil – por isso que estou tentando aprender de qualquer jeito!

Gostaria de saber quais foram suas referências no jornalismo musical e quando você percebeu e decidiu que era isso que gostaria de fazer da vida.

Acho que desde muito cedo vislumbrei um caminho nesse sentido mais jornalístico – tudo meio abstrato, claro, mas tinha certo fascínio por quem “falava” sobre assuntos que me interessavam. Sempre gostei muito da ideia de arquivos e documentos. Listas. Nomes. E desde sempre me vejo cruzando essa “interzona” feita de discos, livros, histórias em quadrinhos, filmes. Diria que na televisão meus primeiros registros (meio desbotados, mas vivos) são com Big Boy e Nelson Motta – via programas da Globo. No rádio, Kid Vinil, Leopoldo Rey e Zé Roberto Mahr. No texto, muita gente: meu primeiro herói acho que foi o Ezequiel Neves – pirava com a coluna dele na revista “Somtrês”, totalmente “gonzo”. Até achávamos que metade das coisas que ele dizia não correspondia à realidade, mas quem se importava? Tinha seu estilo e reportava do front das bandas, backstages, divagações. Uma figura. No comecinho dos 90 tive o prazer de conhecê-lo e falei um monte, fiz reverência e tudo mais. Ele deu muita risada, me abraçou e ficou falando “querido, querido”. Demais. E tem toda a escola da (revista) “Bizz”, né? Muitos craques: Alex Antunes, Arthur Geraldo Couto Duarte, Celso Pucci… e (André) Forastieri e (André) Barcinski…Os gringos são outro capítulo, mas destaco a imprensa especializada italiana (rádio e impressa) na minha formação. O programa de rádio “Rockin’ Time” (da Radio Popolare de Milão) e as revistas “Rockerilla” e “Rumore” fizeram demais minha cabeça.

O campo da ficção, te interessa? Já pensou em se aventurar em narrativas não biográficas/jornalísticas? Existe um Zappa no campo da literatura para você?

E como! Tenho cá meus rabiscos e anotações. E muitos projetos. Mas muita serenidade nessa hora! Acho que o J.G.Ballard pode entrar nessa categoria de meu Zappa literário – mas já tô pensando nuns três ou quatro outros nomes. O Ballard eu queria muito ter entrevistado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>