O rei está nu- “Intocável”, a biografia de Michael Jackson

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crédito: Divulgação

Reportagem publicada no jornal O Tempo em 09/01/2014

Durante a autópsia de Michael Jackson, na manhã de 26 de junho de 2009, o rei ficou, finalmente, nu. Acima da pele pálida, repleta de marcas de injeções, estava o couro cabeludo, alguns poucos fios brancos, crespos, escondidos por uma eterna peruca de fios negros alongados. A imagem, narrada com frieza e objetividade por Randall Sullivan na recém-lançada biografia “Intocável – A Estranha Vida e a Trágica Morte de Michael Jackson” (Companhia das Letras), não obscurece a nitidez de um retrato possível do artista. Ali, sob a mesa comum de um necrotério, os fios grisalhos de Jackson iluminavam a verdade cruel: o Peter Pan que ele sempre quisera ser fenecera velho, crescera, perdera sua magia. Na obsessão de Jackson por este e outros personagens históricos mirins está, de certa forma, o cerne central da extensa obra de Sullivan, que em suas quase 900 páginas parecem retirar, do cetro à coroa, o vestuário real (no sentido de realidade e no sentido de realeza) de uma trajetória que mais entristece que encanta.

É, antes de qualquer coisa, um grande esforço de reportagem, onde Sullivan, editor e colaborador da revista “Rolling Stone” por mais de duas décadas, mostra um fôlego imenso na corrida por algum tipo de verdade em torno de Jackson. E impressiona saber, no final das contas, que ela, a verdade, não vem; ou pelo menos se fragmenta em zilhões de depoimentos coletados pelo autor, que de alguma forma montam um caleidoscópio precioso para fãs e preciosistas de Jackson, mas que submerge literariamente como um romance realista trágico e diz muito dos tempos em que vivemos.

Tempos que foram pautados pela ótica pop de Jackson, credite-se. A construção do personagem se confunde com a mitologia (e com a mitomania) midiática que nos cerca. Tudo é superlativo: da sua história infeliz na infância em Gary, Indiana, marcada por pobreza e violência física e psicológica, até a desesperadora narração da sua última noite de sono, em Los Angeles, implorando por doses extras de remédios letais como se fossem “leite”.

Do menino de talento ímpar, nunca antes visto, à figura solitária amparada apenas pela ideia da paternidade – e Sullivan faz questão de fechar bem esse círculo, cujas pontas são o filho violentado de Joseph Jackson e o pai carinhoso de Paris, Prince e Blanket. Se o cadáver se apresentou gasto e pronto para a partida, a psique do artista que não queria crescer se foi sem saber como lidar com a vida trivial de um adulto, o sexo, os dilemas familiares e a convivência social.

Essa dualidade interna entre o cascudo adulto e a criança eterna se amplia quando Sullivan desfila a grande matéria-prima que formata a obra: a construção de Jackson não como ser humano, mas sim como um amontoado de cifras e processos legais. Quem se aventurar pela obra em busca de música até vai encontrar casos deliciosos como sua relação com Jackson Five, Diana Ross e Paul McCartney. Mas estes consagrados nomes aparecem numa porcentagem cruel se comparada à extensa lista de advogados, médicos, produtores, puxa-sacos e aproveitadores anônimos do grande público que, traduzidos em processos judiciais e valores financeiros exorbitantes, poderiam transformar o livro em leitura obrigatória de advogados e estudantes de administração.

Era ali, entre milhões de dólares que desfilavam por sua vida em meio a cotidianos processos por abuso infantil, que percebemos claramente que Peter Pan não sobrevivia solitário no corpo e na alma do Rei do Pop. Morava ali também um sujeito que teve parte (s) de seu corpo modificadas por intervenções mecânicas e cirúrgicas; que se referia a si mesmo na terceira pessoa; que se deprimia pelo fato das crianças não “gostarem” dele – e acabava não gostando de si mesmo por essa mesma razão; alguém cujos cabelos negros cacheados volta e meia eram representados por uma peruca. Morava também em Jackson um Capitão Gancho.

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