“O Leandro e Leonardo fizeram mais por mim que o Radiohead”- Entrevista com Giancarlo Rufatto

giancarlo rufatto

 

Tem algumas entrevistas que você gostaria de fazer ao vivo, dividindo um bom copo de café. Giancarlo Rufatto é um desses, que quase implora por uma situação mais adequada para um papo. Mas a geografia (ele teclou de São Paulo, eu de Belo Horizonte), nem sempre nos ajuda.  Justifico essa vontade/sensação pela imagem que a música dele me dá: um compositor, um sujeito muito ligado à canções e ao que podemos supor um cânone delas- desde a estrutura (o apreço por ganchos, refrões, grandes melodias) e a quem as faz muito bem.

Além disso, sua trajetória diz muito de um arco histórico interessante da música brasileira, de uma geração que sonhou muito em chegar ao rádio e que hoje se vê embalada (de forma torta, esquisita e ainda assim, brilhante) junto aos produtos midiáticos mais massivos. Ele é um pouco do que chamo de pequeno grande artista (uma linhagem que existe em alguma fartura no Brasil), de visibilidade limitada, mas de imenso e visível talento. O papo, via Facebook, atrapalha um pouco a percepção de certas nuances. Mas era uma questão de honra para mim, admirador de longa data, que ansiava por tentar arrancar algumas confidências do cara e, sobretudo, tentar sacar se aquela mesma figura “virtual” que escuto desde, sei lá, 2006?, ou que me serve de boas dicas musicais através de seus perfis on line, que me enterneceu com o belo site “50 Discos Para Cecília” e que tem algumas de suas canções cravadas para sempre no meu HD mental era tão…interessante, quanto eu supunha.

Bem, ele é.  E está lançando “Cancioneiro” ( “o melhor trabalho dele até então“, confidencia meu lado fã), um dos grandes discos nacionais do ano, o que já justifica o esforço jornalístico.


 

“A gente passou os anos 90 sonhando com música pop no rádio e quando chegou a nossa hora, não existia mais essa coisa, só existia o tesão por fazer música”

A primeira coisa sobre o último disco, além-música, é o título. Na minha cabeça, você é basicamente um cancioneiro mesmo, aquela ideia do cantautor, do singer songwritter…É assim que você sempre se viu? Quando digo sempre, fico pensando lá atrás, em seus primeiros contatos com música…

Não sei se foi sempre, eu gostava de cantar porque era mais fácil do que tocar, eu tenho um problema na mão esquerda que me impede de fazer certas notas e então me deixavam cantar. Escrever músicas veio disso também, de ser mais fácil escrever do que tirar canções dos outros. mas banda na adolescência é tocar o disco dos Ramones. Pegar o “Acid Eaters” e tocar aquilo

Mas essa motivação de fazer as próprias canções, de compôr, é anterior ao lance de banda, de querer ter banda? Rufatto já nasceu “solo” por assim dizer, ou teve uma primeira fase de querer- ou achar que só ia conseguir- tocar em grupo?

Eu tentei “ter uma banda”, mas sempre deu trabalho manter. Eu tive uma que durou 2 anos entre os 18 e os 20 anos, ai cansei, foi mais ou menos na época que eu comecei gravar em casa, experimentar. Quando morava em Coronel Vivida, no (interior do) Paraná, tinha muito tempo livre e pouca gente que gostava das mesmas coisas, então me trancava em casa e gravava no quarto, aquele clássico dos anos 2000. Eu brinco que antes de ser “artista” sou um cara com acesso internet (risos)

(Risos)

Acho que foi nessa coisa de gravar sozinho que eu virei cantor, o primeiro disco com meu nome só tive coragem em 2008, e eu já gravava desde 2004, não haviam muitos cantores indies. Que eu lembro, o Beto Só foi o primeiro cantor indie que lembro de ouvir nos anos 2000 que falava com o mesmo som que eu queria fazer

Você nasceu no interior? É engraçado você falar disso, da internet, porque muitas de suas versões- que é um lado muito interessante do seu trabalho- me parecem típicas de quem escutou muito rádio, música popular mesmo…

Eu sempre ouvi muito rádio, aquele clichê de gravar fitinhas do rádio, quando era adolescente me sentia atrasado porque vários amigos tinham MTV e eles gravavam pra mim. Quando me mudei pra Curitiba, a primeira coisa que fiz foi negar o pé na roça, mas acho que as pessoas só passaram a gostar das músicas que eu faço quando assumi o caipira em mim. O Leandro e Leonardo fizeram mais por mim que o Radiohead (risos)

Interessante isso…Curioso porque Curitiba, até o início dos anos 2000, muitas vezes passa uma impressão de ter sido uma espécie de polo do rock sessentista (sem denotação negativa nisso) e parece que, com o passar da década, ter se desdobrou em uma produção bem mais variada…Pode ser meu olhar estrangeiro, não sei. Qual foi sua relação inicial com a cidade?

Curitiba ainda tem um pé no Rio Grande do Sul que tem aquele verve roqueira dos anos 60, mas hoje acho que o pessoal da cidade se identifica mais com São Paulo. O interior do Paraná ainda é bem rock gaúcho. Quando morava em Coronel, sonhava com Curitiba, com os festivais que rolavam lá e com as bandas. Tinha o FUN, um caderno de cultura da Gazeta (do Povo, jornal local) que vendia as bandas como grandes. A internet aproximou muito todo muito e separou os nichos musicais, não existia muito de cena

E esse sonho fez sentido quando você chegou lá? No sentido de encontrar ou se relacionar com a cidade dessa forma. Acho o clipe de “Venha Comigo” bonito à beça nesse sentido, uma espécie de flâneur ali, na cidade, observando e tal. Mas meio de fora, sabe?

Eu passei 10 anos na cidade, pra mim foi muito legal, meu sonho era viver lá, mas nunca fui “de Curitiba”, embora me vissem como de lá. “Venha Comigo” foi o momento em que eu saquei qual era o meu lugar, eu não era de Curitiba, eu era de Coronel Vivida.

rufatto

E agora você está em São Paulo, certo? O “Cancioneiro” diz desta mudança ou você já vinha compilando as canções há tempos?

Então, a ideia de “Cancioneiro” existe desde 2007, eu até fiz 3 volumes de demos e canções que saíram em Eps e no “14 Canções” (1° disco de Rufatto). Mas nunca tinha achava o timing da ideia até mudar, ter minha filha e parar pra refletir sobre o que fazer agora. Eu sempre quis fazer um disco que tivesse um espirito, tipo o “Darkness on The Edge Of Town” do Bruce Springsteen ou o “Alucinação” do Belchior. Discos sobre pessoas a margem, pessoas invisiveis e tal. “Cancioneiro” surgiu da ideia do refrão da música “Canções que Ninguém Ouviu” porque era basicamente como eu sentia minha geração. A gente passou os anos 90 sonhando com música pop no rádio e quando chegou a nossa hora, não existia mais essa coisa, só existia o tesão por fazer música

“Girando o botão no rádio até encontrar um verso no rádio sobre eu e você…””As canções que ninguém ouviu”…Quando escutei essa (a canção título do disco) senti um caráter meio “declaração de intenções”, sabe? E curti a citação ao “espírito do rádio”

Retromania total. Sempre fiz tudo grudado na retromania, nessa coisa de saudar os tempos dourados. Quando minha filha nasceu eu entrei numas de rever tudo, pra agir certinho e tal. Queria que o disco tivesse uma esperança

No caso, os tempos dourados no qual sua música não fez parte? Digo, no sentido do alcance? 

É

Digo isso porque sempre tive aquele sofrimento, como ouvinte/jornalista/produtor de pensar ainda “Ah, esse artista tinha que estar no rádio, etc, etc, etc”. Você é um desses, na minha opinião

Mas não há uma necessidade de “dar certo” não tem um rancor por ter chegado tarde, é só uma constatação de que estamos em outra época

Sim, concordo. Mas fica essa nostalgia esquisita mesmo

Mas estamos em outra época, eu estou num playlist junto da Nicki Minaj e da ariana grande no Deezer

E para além dos simbolismos fortíssimos de uma situação dessa, você colhe mais, audiência, por exemplo? Tem um retorno direto no seu trabalho?

Eu tive bastante retorno nos últimos anos, de minha música tocar na rádio da cidade da minha mãe, o hype do tributo ao Raça Negra também ajudou a ampliar o alcance e agora começou entrar uns centavos, dinheiro de streaming, o tipo de coisa que eu nunca imaginei (risos). Se eu me esforçasse, dedicasse um pouco mais, talvez tivesse retorno, mas não quero ficar sofrendo com isso, é melhor achar emprego e seguir gravando

 Voltando ao “Cancioneiro”, dá pra dizer que é um disco mais ousado, mais “torto”, mais denso ( “Enseada”, “Gospel Song”, “Dance, Dance Dance”) ao mesmo tempo que traz algumas de suas melhores pop songs, como “Cancioneiro” ou “Alfredo”?Digo no sentido musical, no tratamento dos arranjos…

Foi o mais demorado, levei quase 2 anos entre um e outro trabalho porque queria que fosse “novo” e não apenas mais um. As letras foram mais trabalhadas, tinha uma temática de ser um disco denso e que não fosse tão lo-fi. Deu trabalho pra gravá-lo porque gravar em casa com criança por perto não é fácil, por isso tem tanto teclado.

Uma coisa notável no nosso papo até aqui é a presença da tua filha…Como a paternidade entra na sua questão, digamos, artística? Teu blog para discos futuros para ela, inclusive, parece uma extensão de sua figura “músico” também…Digo isso porque, incrivelmente, você parece ser um músico que realmente GOSTA de falar de música…

Minha filha deu um norte, eu já estava nessa de ser cantorzinho há meia década. Eu nem sabia mais sobre o que cantar (risos) e ela nasceu e eu entrei numa nostalgia de não ser mais o filho e sim o pai e ter de dar exemplo. Acho que esse disco é sobre isso, sobre a esperança que a minha filha deu. Só existe uma música pra ela, que é “Poucas e Pequenas Coisas”, as outras são sobre pessoas que tem esperança, apesar de tudo que tá rolando no Brasil

Exato, eu ia falar um pouco isso…É um disco de personagens também né? Tem um laço “Springsteen” em algumas canções, deste ponto de vista narrativo?

Sim, totalmente. eu queria que não fosse sobre mim. Quando você canta em primeira pessoa tende a ser tudo sobre você,  e na verdade é mais sobre ser invisível em Curitiba, Alfredo, por exemplo, é o cara que morreu atropelado enquanto eu ia para o trabalho. É um exercício legal de criar uma narrativa com começo meio e fim porque te liberta de ter refrão, mas nesse disco tem muito refrão. Tem “Dance, Dance, Dance” que brinca com o clichê de ter um milhão de músicas com esse titulo e cita Forrest Gump no fim

É, mas isso é uma coisa sua também né? De “respeitar” o sagrado formato do pop e tals…

Eu respeito demais até (risos), deveria repeitar menos e arriscar mais, mas como minha guia é sempre a letra fica difícil exagerar em arranjos, em fugir da guitarra. Mas existe uma vantagem da carreira solo de não precisar se repetir, não precisar ter um estilo

Um pop lo-fi, né? O que aliás me soa como uma boa descrição para tua obra…

É como eu vejo também. Pop no sentido da canção e lo-fi no sentido da pretensão.Ter gravado usando o Ipad deu uma abertura de timbres que eu não tinha, quase enfiei o baixo com fuzz em tudo (risos)

Ao mesmo tempo, soa como um disco mais bem “produzido” que o “14 Canções” ou o “Machismo” por exemplo. Deve ser a coisa timbrística mesmo. Mas sinto uma certa unidade, uma cara de disco, sei lá…Pode ser só impressão minha

Eu fiquei muito tempo ouvindo, pensando nos arranjos, em que cada musica merecia. os sopros que entraram só porque aprendi duas notas de trompete. Eu acho ele mais bem produzido e eu consigo ouvir minha voz sem me irritar

Isso é uma questão que te incomoda? Não te acha um bom cantor?

 Hoje eu encontrei minha voz, o registro certo, mas ainda acho que não sou cantor, sou tipo o cara que canta e grava tudo (risos), e os microfones novos ajudaram a captar melhor

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Tem uma coisa que você falou antes, que é a questão da letra. É uma prioridade, um início? Sente falta de boas letras em português atualmente?

Pelo contrário, acho que existem grandes letristas na turma nova, principalmente na galera que surgiu de 2008 pra cá. Cada um encontrou seu estilo, dos mais pop (Marcelo Jeneci) aos mais indies (Lupe de Lupe). Eu tenho uma preocupação enorme com as minhas porque tem de ter um contexto, uma historia. Não quero que seja só sobre homem-mulher. As ultimas três músicas do disco são temas religiosos zoados. Eu sempre gosto de fazer isso , desde meu primeiro disco, ou com a Hotel (Avenida, banda curitibana que Rufatto integrou)

É, tem uma coisa meio gospel, mas via Black Rebel Motorcycle Club e Spiritualized né?

BRMC e Spiritualized cantam sobre religião à beira do precipício, e esse tema é muito legal e pouco usado. No Brasil que tem todas essas religiões o pessoal tem medo em tocar  nisso. “Luzes da Páscoa” entrou neste disco só pra afirmar esse tema. Era uma música que eu tocava ao vivo com a Hotel Avenida e é uma conversa entre Jesus e Judas (risos)

É curioso mesmo, mas tem uma coisa que é um template musical, do gospel, que tem estruturas musicais mesmo lá de fora que são diferentes das nossas…Digo isso como um gancho pra te localizar, de certa forma, como um cara que gosta muito da chamada Americana, essa fusão de gêneros típicos dos EUA, tô certo? E isso entra na tua música de forma que me soa bem natural, não é tradução…

É o cancioneiro deles, né? Eu já fui muito influenciado, na época que eu estava descobrindo a música folk, o blues. Ai tu vertia aqueles temas pro brasil e acaba soando como Legião Urbana do disco “V”

Boa

Mas do Bruce Springsteen não fujo não, tem uma referência óbvia. que quando fui arranjar pensei numa versão lo-fi do “Darkness On The Edge Of Town” e do “Alucinação” do Belchior.

Aproveitando isso então, de supetão, pode listar 5 cancioneiros que você gosta muito? 

Pensando em discos com historinhas, tem o “Alucinação” do Belchior, o “Darkness…” do Bruce, tem o primeiro do Tim Hardin, “Nuvem Que Passa” do Gilliard (juro que é bom!). Dos anos 2000 tem o “Virginia Creeper” do Grant Lee Philips e o “Jacksonville City Nights” do Ryan Adams.

Leandro e Leonardo, Gilliard, você tem uma versão sensacional de Roxette…Podemos chamar isso de uma sensibilidade pop? O que te atrai, fundamentalmente, nesses artistas/canções? Tem uma provocação aí, ou é uma lance de, pra usar um termo ruim, dignificar esse pop?

Leandro e Leonardo foram vítimas da qualidade sonora da época, tem grandes canções em todos os discos deles. Gilliard tem umas músicas que não devem nada ao Cidadão Instigado ou ao Jeneci, só que o estigma do brega esconde isso. o que há em comum em todas as musicas que você citou? Tocavam no rádio. No interior não havia divisão de turma, a mesma galera ouvia Leandro e Leonardo, Roxette e Guns N´Roses e Ramones. Até hoje é assim, mesmo com a internet

É curioso pensar num ciclo assim

Todas canções que eu regravei fizeram mais “sucesso” que qualquer coisa minha porque liga direto as lembranças de quem ouve. Eu brinco dizendo que no sudoeste do paraná todo dia é 1991

(muitos risos) Um interior, mas muito cosmopolita

Mas tu acha que ai é diferente só porque vocês tinham a Rede Minas e o Alto Falante?

Não, não. Acho essa análise bem boa. A melhor canção é aquela que carrega toda uma memória afetiva…

Sim, é o que eu tento fazer com as minhas, liga-las à um espirito de época mesmo sabendo que elas vão desaparecer. Faz parte. tem toda uma geração de artistas entre 2000 e 2003 que é impossível encontrar informações. 

Acredita que esse “desapego”, de certa forma, se sintoniza com a forma como você registra as canções? Digo isso porque tua obra é bem fragmentada, em EP´s, singles…

Sim, totalmente. Ninguém consegue ouvir um disco do inicio ao fim nos tempos de hoje. Até artistas grandes sacaram isso que quase ninguém passa da sexta música. Eu mesmo tenho dificuldade de ouvir

É, engraçado isso. Mudamos nosso jeito de acumular informações

Que discos você lembra de antes da Copa? Alem do Silva? Ao mesmo tempo que essas informações vão sumir quando mudar a mídia atuante

De cara assim? Juçara Marçal, War on Drugs, Sharon Van Etten, Sun Kil Moon. É pouco

E você só citou um brasileiro

Sim! Impressiona isso
É rarefeito, só importa pra quem faz a musica. Eu penso muito nisso, em “porque lançar um disco que ninguém vai ouvir”
Sim. E pensando nessa questão, ela se resolve- mais ou menos- no palco, com show. Você faz muitos shows? Como é essa questão do ao vivo para você?
Não, faço pouquíssimos, fazia mais no tempo da Hotel Avenida. Eu nunca fui muito bom de shows ao vivo, meu negócio sempre foi gravar, me divertia com isso, mas depende de como os discos vão. Quando lancei o disco anterior fiz uns shows acústicos que eram rápidos e fáceis. No primeiro disco eu quis só toca-lo na rua, fiz 8 shows em Curitiba. Estou pensando em fazer o mesmo com esse por São Paulo (risos)
É um bom final/início de ciclo, já que falamos tanto disso
Sim, claro. E existe todo um mercado autoral que poderia ir pra rua e ocupar o espaço que hoje é ocupado pelo circo
O circo? Que louco pensar nisso! Fico lembrando de coisas tipo Teatro Mágico, uma lógica meio assim
Digo circo no sentido de utilizar a rua como espaço formal e não marginal, como artista de rua, mas tem um preconceito com isso
Ah, sim, perfeito. Aqui em Belo horizonte esta está se tornando uma questão meio central, aliás
É? Estão regulando?
É uma batalha, a ocupação de espaços públicos para usos artísticos, culturais
Imagino. Quando fiz em Curitiba, fiz em lugares que contavam uma historia, nada de lugares pra turista.
É uma saída. Para fechar, já que fizemos uma conexão rápida BH-Curitiba: você se relaciona com outros artistas no Brasil? A cena independente nacional, de festivais, selos, turmas, etc, faz sentido para o artista Giancarlo Rufatto? Sei que você está ligado em todas essas questões, mas não me parece ser um habituê de festivais, ou tem dobradinhas estabelecidas com outros artistas…
Eu trabalhava num centro cultural em Curitiba e organizava um palco da Virada Cultural de lá, então acabava indo ver todo mundo. Mas com meu som, nunca levei a sério, sempre me vi a parte do circuito, mesmo no período que tocava com a Hotel. Ano passado eu toquei num festival do movimento Hotspot em Porto Alegre, foi engraçado que era uma parada com financiamento do Ministério da Cultura, e o tratamento era de primeira. Como não vivo de música, sempre aceito uns convites malucos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Fausto que fez um pacto com o escracho

Um pequeno sol de bolso

que não propriamente ilumina

mas durante seu percurso

dissipa a neblina

que impede o outro sol, importátil,

de revelar sem distorção

dura, doída, suportável,

a humana condição.”

(Paulo Henriques Britto.  “Para um monumento ao antidepressivo”. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.63)

 

Quando brindamos ontem, eu, Terence e James, a passagem do Fausto, falamos rapidamente sobre a importância e o brilhantismo dele e da trupe que, evidentemente, comandava (“Ele era o Lennon e o McCartney do Hermes e Renato”, alguém soltou). Traçamos um panorama meio sombrio da geração que, de certa forma é a dele, já que num campo semântico de época, seu nome não soa estranho entre os de Chorão, Peu, Champignon. Não estendemos muito o assunto, talvez pelo impacto da notícia que ainda circulava duvidosa nas redes ou pela sumarização meio completa/complexa e simples do Terence: “No fundo, no fundo, a gente nunca sabe como é a vida das pessoas”, ou algo (sabiamente) do tipo.

A gente nunca sabe mesmo. Num período especialmente escuro da minha vida, Hermes e Renato foi meu pequeno sol de bolso que nascia da tela ainda relevante da MTV, já no final do dia, antes de dormir. Era muita coisa acontecendo na vida (filha-trabalho-faculdade) que eu tentava entender através dos meus dezenove anos e muitas sessões de terapia. Fugia das prescrições tarja-preta que minha simpática doutora me recomendava, porque sabia ter onde me esconder no final de  cada difícil, por vezes dificílimo, dia.

Aqueles caras dissipavam a neblina para mim. Era a Teoria do Alívio (“Como o humor questiona as exigências sociais convencionais, ele pode ser encarado como um fornecedor de alívio da restrição que impõem as exigências”), um dos eixos formatadores e conceituais do humor, na sua prática, mais profilática do que nunca.


 

Pouco foi falado ontem, mas eu quase garanto que eles, meus comparsas,  assim como eu, passaram parte da manhã buscando algumas pérolas do grupo no You Tube.  Até aposto em qual foi o primeiro… E foi simplesmente espetacular abrir as redes sociais hoje e coletar um festival de melhores momentos do Hermes e Renato. A morte do Fausto foi “celebrada” com o que ele ofereceu de melhor, ou seja, o melhor humor brasileiro pós-sei-lá-o-que que tivemos (“Trapalhões”? “Casseta e Planeta”?), do fim dos anos 1990 pra cá. É até curioso pensar que o Fausto pediu a conta no mesmo dia que outro gigante do gênero e seguramente um de seus mestres, Mussum (para seguir concatenando, um pré-Away, o representante do humor meio non-sense), pediu a dele, há 20 anos atrás.

Curioso pensar também que talvez a grande marca do H & R fosse o verniz “do-it-yourself” que eles tentavam manter a todo custo- não é à toa que para muitos a melhor fase dos caras era a inicial; ou pelo menos a fase dourada terminou a partir do momento que eles “sofisticaram” demais. Exageros, claro, uma boa produção não faz mal para ninguém- e os caras eram bons nisso desde as primeiras tentativas em Petrópolis. Mas a grande sacada desses punks era a capacidade que eles tinham de colocar em prática e funcionando-alive and kicking- os desejos de boa parte da classe média brasileira amamentada pela idiotia da mídia em cuspir de volta o lixo todo, processar aquelas propagandas, filmes, CULTURA POP enfim, que tomávamos junto com o toddy da tarde, em produtos maravilhosamente bem resolvidos na sua tosquidão.

Não se tratava de uma fórmula nova, claro. Mas era uma fórmula que funcionava muito bem para uma geração que teve a TV como babá e totem de subjetivação importantíssimo, a ponto de sonhar muitas vezes em fazer parte dela, como uns guris cariocas imbecilóides pareciam sonhar.

É aí que me lembro quando,  junto com os mesmos Terence e James de ontem, fomos receber um prêmio em São Paulo, pelos idos de 2005 (cacete, quase uma década!). A cerimônia, apesar de voltada à música independente, conseguia reunir no espaço bacanudo gente de grande importância na cultura brasileira, tipo, sei lá, Tom Zé.

Mas ninguém foi mais aplaudido, saudado, ovacionado, de forma quase histérica até que alguns dos Hermes e Renato que subiram ao palco para entregar um dos prêmios.

Porque muita gente se sentia “vingada” por aqueles caras. Eram a representação mais nítida, do momento, de uma possibilidade de vitória jovem, “alternativa” e “independente” dentro do mercadão. Uns malucos que enviavam fitas de VHS tosquíssimas para um canal de televisão e hoje eram a fina (?) flor(?) do humor nacional. E era  humor cosmopolita, insano, e ao mesmo tempo muito próximo da gente. Como se Beavis and Butthead finalmente entrassem naquele templo que era a televisãozinha deles, e passassem a comandar geral a programação.

Era bom demais, mesmo.

E se alguns pensadores (alô Jameson!) falam de uma certa era do pastiche que vivemos, eles têm em H & R um farto material de estudo: tudo ali era retrô, do próprio nome e do quadro que os batizou, até os zilhões de programas dentro de programas que eles criaram. Só que ao invés de sofrerem por causa dessa falta de, digamos, identidade, desse falar através do outro, eles preferiram o escracho, simples e absoluto. E inteligentíssimo.

Engraçado também é pensar que o bando reinou sozinho durante um bom tempo. E que foram, seguramente, pioneiros nessa onda stand-up ( já passou?) que modelou muito do mainstream midiático nacional nos últimos anos. A última turma de adictos televisivos ,que não segurou a peteca na época da internet, onde tantos estão aí, vencendo.

Talvez porque esse suporte, a televisão, fosse mesmo no final das contas a grande musa dos caras. E, benza o deus dos sátiros, a internet tá aí, um arquivão maravilhoso dos tesouros deles. (Enquanto escrevo “ouço” episódios como se fosse rádio. Que texto, que “redação” eles tinham!).


 

O que não diminui em nada o impacto dos caras, óbvio. Não sei se já escrevi, mas H & R, além de imensamente criativo, era INTELIGENTE demais da conta. Leram uma época como pouquíssimos leram, com uma precisão absurda.

E escreveram, claro, hiláriamente, uma época.

É difícil até lembrar o imenso glossário que eles deixaram: quem não tem um amigo que te chama de Proxeneta?  Ou o já clássico Joselito? Quem não conhece um capeta em forma de guri na vida real? Quem não quis pagar de fodão (ou de fodinha), tipo Mr Chocolate? “Um” Boça sempre esteve entre nós?

Alguém definiu melhor os deslumbrismos electro rock de alguns anos atrás que o Cansei de Ser Hype? Ou daquele clichê clássico do teatro intelectual? Ou as cretinices quase inerentes ao jornalismo? E quando o fôlego começou a encurtar, os caras foram direto ao ponto, sacaneando/homenageando a matriz superior, o cinema, com aquela maravilha chamada Tela Class.

São muitos, muitos, muitos, muitos exemplos. A galeria de personagens- e de, mais ainda, situações- é infindável. Os caras produziram muito, e erraram muito pouco, no saldo final.


 

Com a morte do Fausto, avivam-se essas lembranças para mim, e com elas uma vontade imensa de, sei lá, agradecer, celebrar, passar um dia todo em torno do que eles fizeram,como faço agora. Porque deixei de acompanhar há muito. Mas eles foram de uma importância muito grande para mim, tornando suportável a humana condição, e fazendo dela divina comédia.

E no fundo, sem querer parecer leviano, queria que o Fausto tivesse lido, com a destreza que tinha para me fazer rir, esse poema do Britto.

Fica de sugestão aos que ficam e homenagem a ele e aos que partem nesses, mineiramente, trens meio irônicos da vida.

Saudades, futuro!- Entrevista com David Dines

Crédito: Suellen Pessoa
Crédito: Suellen Pessoa

David Dines. Salvo engano, já tinha gravado com ele uma Sessão Alto Falante, no Ultra, com sua banda de então, a Spooler (que já vinha namorando timidamente por causa de faixas como esta). Me lembro de ficar surpreso no estúdio ao ver e ouvir toda aquela flexibilidade dançável e assumida do grupo, muito bem resolvida, com o baixo do Salomão, a batera do Gustavo e os backing vocals da Suca. Bacana.

(Mas sentia falta das coisas em português, o grande desafio e a maior atração que eles me causavam era isso. E até hoje fico enchendo o David nessa onda…)

Desde que o conheci melhor pessoalmente, em um show na Praça da Liberdade, aprendi a ficar atento ao David. A justificativa para isso já devia estar nos papos que tivemos lá (se bem me lembro, junto com o Fred HC, do Paralaxe, que posso ter apresentado a ele com algo tipo “Esse é você ontem”). Não me lembro exatamente da pauta, mas devia ser algo relativo à glam rock, já que foi nesse papo inicial que nasceu um dos projetos mais legais que já tive a honra de participar, o #Ziggy40.   Período ótimo de ensaios, shows e papos, tudo em torno de um de meus (nossos) assuntos favoritos: David Bowie.

A partir daí, estivemos em contato constante- principalmente eu com a obra dele, projeto solo, várias audições por aqui de “Sdds Futuro”, sua primeira e interessantíssima investida solitária.  Da capa ao conteúdo, disponibilizado aqui, o trabalho é muito a cara do David ( e de sua cara metade, a talentosíssima Suellen Pessoa).  Variado, com muita vontade cosmopolita, alguma ousadia, pitadas pop imperdíveis  e francamente orientado para os quadris. Ainda tenho vontade de voltar a discotecar só pra colocar “Não Me Venha Com Essa de Amor” nas pistas.

Mas o que sempre me chamou à atenção no David é sua capacidade de “ler” muito do mundo contemporâneo ( e depois escrevê-lo a sua maneira), aquele que é formatado, basicamente pela sua geração de vinte e poucos. Concatena com precisão alguns dos vértices formadores que estão por aí, em rede, em arquivo, na rua, nas galerias. Menino atento. De certa forma, David Dines é um “produto” típico no novo século que funciona.

Essa semana soltou uma nova e ótima música, gancho suficiente para batermos um papo aqui no Material. Escute “I´ve Seen Too Much” aí embaixo e se anime para a entrevista logo abaixo…

 

 


 

 “Não vejo mais muito sentido em abraçar apenas uma estética musical hoje. Quero é pegar diversos estilos e fazê-los conversar, mas dentro de uma linguagem simples, ainda que contenha um discurso não exatamente fácil ou agradável”

Entrevista com David Dines

Antes de qualquer coisa: tua escola é o rock? É o pop? Vê fronteiras, assim nítidas? Digo de você menino ainda, começando a se interessar por música…

Minha influência primordial é o pop. Foi a primeira linguagem musical que me cativou, lá pela primeira infância. Lembro de pedir pros meus pais comprarem discos do Michael Jackson, da Madonna, de todo aquele pop fim dos anos 1980, início dos 1990. Carrego aquilo ali no meu DNA musical até hoje. Descobri o rock já na pré-adolescência, via Beatles e o povo da psicodelia 1960s, seguido depois pelo punk rock e os indies todos a partir de uns 13. Mas não que eu enxergue como fronteira. Vou sempre na interseção, no diálogo. Pelo menos, esse é meu interesse. Uma interseção que seja acessível. As zonas cinzas é que me interessam.

Mas seu primeiro projeto, vinha embalado em rock certo? Sua primeira banda, “As Horas”, tô certo?

Era, totalmente rock. O que mais me interessava naquela época, na verdade, era uma linguagem do desconforto. Eu tinha 17 anos, tava me refestelando nos dramas daquele período estranho da vida, então eu queria era falar do mal estar. O rock, a distorção, os tempos inusitados, a estrutura esquisita me pareceu a linguagem apropriada. Hoje rock é meio coisa de velho, né? Engraçado como fossilizou enquanto gênero musical. Tá virando o jazz pras futuras gerações: sinal de bom gosto, mas já sem nenhuma rebeldia.

Percebo um pouco isso também, mas seguramente temos diferentes percepções quanto a isso, mesmo por uma diferença geracional…Essa tua percepção a respeito de um certo esvaziamento do “estilo” é uma espécie de guia para o teu trabalho hoje?

É um pensamento que tento desenvolver. Não vejo mais muito sentido em abraçar apenas uma estética musical hoje. Quero é pegar diversos estilos e fazê-los conversar, mas dentro de uma linguagem simples, ainda que contenha um discurso não exatamente fácil ou agradável.

Encarar o estranho, já diria Bowie…

Exatamente! Bowie é sempre uma grande inspiração, porque ele nunca seguiu o caminho mais fácil. Ele sempre quis desvendar o desconhecido e se aventurou diversas vezes, mas tentando sintetizar a mensagem ao máximo. Sou geminiano, gosto da fluidez e da multiplicidade. Não quero escolher apenas uma coisa. E eu quero é comunicar, é tocar as pessoas. Se não, nada faz sentido. A relevância da música só existe na interação.

Esse lance de “não quero escolher apenas uma coisa” me parece quase um dever firmado pela geração de vinte e poucos. E é muito legal. Mas concatenar isso na prática, pode dar uma dor de cabeça…Foi muito difícil pra você, depois de bandas, formatar esse projeto solo?

Foi estranho, mas a própria forma como as coisas foram se desenvolvendo levaram ao calejamento que um trabalho solo precisa. Minha última banda se dissolveu de uma forma muito estranha, então sentei no meu quarto durante três meses e tentei desenvolver algo que me representasse, mas que ainda assim houvesse algo de antítese ao que eu fazia antes. Esse trabalho virou o SDDS FUTURO, meu primeiro EP. Estar sozinho, criativamente, abre um mundo de possibilidades, porque você pode realizar tudo o que você sonhar, desde que esteja no seu alcance técnico, sem cerceio criativo de ninguém. Mas também há o risco de virar uma viagem hermética que nunca se realiza. E também o de acabar entrando em caminhos não muito bons por não ter parâmetro. É o grande desafio do caminho do meio. É algo de muita responsabilidade. Não é fácil estar sozinho em cima de um palco e coordenar um espetáculo inteiro. Foi um desafio que me propus e acho que ainda estou encontrando a melhor forma de fazer isso. Ainda me sinto mais confortável tocando com outras pessoas, mas também não quero que isso seja uma amarra criativa. Não sei se eu tô sendo muito contraditório ou incoerente… Hehehe

E quais foram as balizas estéticas principais para formatar o SDDS Futuro?

Eu estava num momento de redescoberta quando criei o SDDS FUTURO. Eu tinha me esforçado muito desenhando a personalidade musical da minha banda até aquele ponto, então quando tudo desmoronou, rolou uma crise de identidade artística. Então comecei a tatear no escuro, catando os pedaços e tentando fazer sentido. Nisso também acho que as músicas dos outros artistas que estão no EP me ajudaram, como um espelho. “Saudade”, que foi composta pelo Leonardo Onerio, do Umrio e do Pontes, é algo que sempre achei que eu poderia ter escrito, desde a primeira vez que escutei, em ritmo de escola de samba. Pela própria cadência, pela melodia. E a mesma coisa com “Old Ways Are Dead”, que foi um presente do Sergio Manto. Dali encontrei força pra me achar criativamente de novo. E acho que as próximas coisas, a partir de “I’ve Seen Too Much”, têm mais força, mais energia yang.

O que você chama de energia Yang?

Um fogo diferente dentro de si. Um ímpeto mais forte. É mais celebração do que dúvida.

Uma coisa que acho notável é seu direcionamento/gosto pela pista de dança, pelo ritmo, desde o Spooler…

A coisa da dança passou a estar presente nas minhas coisas a partir do momento em que eu não quis mais escrever sobre meu mal estar, e sim atacá-lo. Na mesma época em que o Spooler começou, eu virei garçom em um casa noturna e passei a observar atentamente os DJs. Como constroem as dinâmicas de uma noite, como conseguem cativar as pessoas a largar suas inseguranças e dançar… há uma força muito especial nisso.

Não seria sua revolução se você não pudesse bailar…

EXATAMENTE!  Esse é meu mote, basicamente (risos)

E você é um cara essencialmente noturno? Digo criativamente falando?

Não muito, na verdade. Sou meio que o contrário, aproveito e crio muito mais durante o dia. Mas o dia tem menos nuances, as pessoas são menos interessantes de serem observadas nessas horas. As pessoas se comportam de forma muito mais interessante à noite.

Esse lado voyeur se resolve nas letras?

Sim. Nas letras, nunca é uma coisa só. É o voyeur e a autoanálise sempre misturados, também.Mas, na verdade, essa leva mais recente de músicas têm sido mais primeira pessoa. Talvez eu esteja seguindo um caminho mais autobiográfico, não sei. Ainda tô no processo. Por exemplo, uma das músicas mais recentes que tenho tocado em shows chama-se “This City Is Pushing Me Away”. É um reggae sobre como estava sendo frustrante morar em BH diante de uma série de dificuldades circunstanciais. Curiosamente, o destino acabou me jogando pra longe dela e, numa correria dos diabos, me estabeleci em São Paulo de uma hora pra outra. Vai entender. É o fluxo. “I’ve Seen Too Much” é uma música bem específica também. É muito sobre estar pronto pra enfrentar as dificuldades, sobre resiliência. A ideia dela nasceu quando fui visitar amigos imigrantes em outros países, e vi quão dura é a luta diária deles por manter sua identificação, seu senso de si. São ou acabam se tornando personalidades fortes, na maior parte das vezes, porque as circunstâncias as moldam. Mas pode ser interpretada pra qualquer tipo de dificuldade que se enfrenta na vida, diante da qual não se pode esmorecer. Ela virou meu mantra particular.

Daqui a pouco chegamos em BH-SP, antes quero insistir um pouco na coisa da geração…Como você, particularmente vê definições como ” geração da muita informação e pouco conhecimento”? Digo isso porque, desde a primeira vez que nos conhecemos, já fiquei admirado com sua capacidade de interpretar as coisas de hoje, tendo uma bagagem muito legal das coisas de ontem…O Ziggy de alguma forma materializou isso muito claramente pra mim

Acho que a geração de agora não exatamente tem pouco conhecimento diante de muita informação. Bom, na verdade, se você for analisar proporcionalmente diante do que tomamos contato diariamente, certamente tem, mas não dá pra comparar. O que vejo como sendo forte nessa geração é a coisa de hackear a cultura, de se apropriar apenas daquilo que é relevante pro indivíduo. Lógico que é importante desenvolver repertório, entender e contextualizar o que já foi feito, mas o novo só surge da necessidade e da negação daquilo que não faz mais sentido. Há de se ter respeito, mas exigir reverência de um jovem diante da tradição é meio demais. O Ziggy 40, por exemplo, foi um projeto de gente jovem que respeitava a obra do Bowie, sabia da importância de um clássico. Mas de que adianta uma rebeldia cristalizada na parede? O importante é oxigenar.

É essa linha de pensamento que você de alguma forma sintetiza na ideia de “Sdds Futuro”? Saudade de um certa indolência moderna, e cuidado com nossa febre arquivista?

Sim, também. A gente tem os parâmetros antigos pra nos balizar diante da vida, e de certa forma nós queremos segui-los, mas é impossível. Romantizar o obsoleto e o inútil pode significar a morte do novo, mas a cultura pop se retroalimenta disso o tempo todo. É muito curioso, isso me intriga bastante. Não busco respostas, quero só levantar mais perguntas. Tem outra coisa que me intriga na juventude de hoje também que é a dificuldade de se enxergar um futuro, mesmo que esteticamente. Todas as gerações passadas tinham uma noção de futurismo, que podiam remeter ao minimalismo, ou a uma coisa meio Jetsons, ou outros tipos de visão do que seria a sociedade daqui a algum tempo. Otimista ou pessimista. Hoje é difícil enxergar isso. É como se vivêssemos suspensos num eterno presente, mas a própria noção de presente é ilusória. A gente não sabe o que esperar de daqui a pouco. E, ao mesmo tempo em que precisa negar o passado pra continuar criando o novo, a presença do passado se impõe quando não há futuro à vista. Então surge a coisa retrô, o fetichismo do passado. É muito curioso. E aí a gente se depara com anomalias como o retrofuturismo. Não sei, são coisas sobre as quais costumo pensar e que acabam refletindo na minha obra, de alguma forma.

Tem uma coisa que acho curiosa é que alguns de nossos grandes exemplares de pop mineiro com certas intenções eletrônicas- uma linha que pode ir do Divergência Socialista- Tetine- Paralaxe até chegar em você, carrega uma carga de “pensamento” digamos assim, muito grande. Música eletrônica inteligente, para trocadilhar toscamente. Você se filia de alguma forma com isso?

Hahaha! Não conscientemente. Só fui ter um contato maior com a obra do Paralaxe, por exemplo, quando me aproximei do Fred. Acho genial, mas não foi uma influência. Acho que é uma coisa cultural do mineiro, de ser muito denso, de tentar botar a complexidade do mundo – alegrias, tristezas e tudo no meio – dentro de uma coisa só. Você vê isso na literatura, na música, em quase todas as artes.

Sim

Eu quero sempre sintetizar. Quero sempre entregar o meme daquele pensamento. E deixar a pessoa desenvolver, se ela quiser. Acaba que tudo tem uma grande carga de pensamento, mas você não precisa acessá-la se não for do seu interesse. A superfície também pode ser agradável.
Agora preciso fazer uma confissão, pra falar de música. A primeira vez que escutei “Não Me Venha Falar de Amor”, me lembrei de pop farofa dos anos 1990. Tipo Double You. E AMEI. Como lida com isso? (risos)
Hahahaha
Faz sentido? Tá dentro do jogo também? Pode isso Arnaldo?
Eu acho que sim!
Tem uma vontade ali, um descompromisso, uma solaridade sabe?
Engraçado que foi um conflito que surgiu na gênese dela. Brincando com o teclado, de repente me aparece essa melodia. Aí crio quatro acordes pra acompanhar. E, de repente, me deparo com aquilo e penso: “o que é isso, eu tô compondo um axé? É isso mesmo, Arnaldo?”. Hahahahaha. E aí eu pensei, foda-se, vou terminá-la.
A frase “não me venha com essa de amor” foi a primeira coisa que surgiu pra acompanhar aquela melodia. E toda a música se desenhou quase sozinha a partir daquilo, eu só permiti. Tá certo que tem um pouco do que eu tava vivendo ali na época dentro da letra, mas nada de muito específico.

 

Junto com “Saudade” e a nova, tem uma vocação incrível de hit… Gosta dessa ideia da canção redondinha, do pop perfeito?

Eu gosto. Gosto da repetição, que vai ganhando camadas e mudando de sentido. Gosto de acrescentar elementos pouco a pouco, criar uma harmonia, uma proporção dos elementos. É quase como fazer uma mandala – tem que haver um equilíbrio. É como cozinhar. Não é tanto um desejo de perfeição, mas de harmonia entre os elementos.

Na sua cabeça, existe uma espécie de “template” definido para a música de David Dines? Tipo: “Vou buscar uma pouco do James Blake aqui, isso aqui dos 80´s, uma conexão possível com a MPB…”. No sentido de ter coisas/influências bem definidas- e digo isso no bom sentido, de ficar atento ao que, sei lá, o Silva faz, por exemplo?

Eu fico atento porque eu gosto de saber do novo. Gosto de saber de possíveis contextos e conexões. Mas é algo natural – não sei se é porque algo já naturalizou ou se sempre foi assim. Tenho minha paleta de cores favorita e vou brincando com ela. Às vezes acrescentando uma tinta nova que eu comprei e quero experimentar. Outras vezes pegando um tinta dura e velha de dentro da gaveta, que eu nem lembrava mais que tinha. Nessa linguagem que eu criei pra me representar, eu nem mais sei direito o que me constitui. Tudo o que cruzou o meu caminho, provavelmente. 

E o que BH representa no seu trabalho?

Eu diria, primeiramente, a frustração criadora. O ambiente estranho e limitante que acaba motivando as pessoas a criarem algo pra mudar o seu ambiente – especialmente quando se anseia por grandes coisas. Mas também alguns valores, como a generosidade, e também uma melancolia que permeia as alegrias todas. Mineiro é bicho intenso. Ser adolescente em Belo Horizonte foi um tanto quanto estranho. Mas, conforme o tempo foi passando, fui enxergando as coisas boas que essa cidade proporciona a quem vive. E agora, longe daí (ainda que nem tanto), eu tendo a romantizar mais esse lado. É um caldeirão cultural importantíssimo pro país. O desafio é romper as fronteiras, como sempre. E até por isso andamos em círculos, quando estamos aí. Uma autoestima meio esquisita.

É engraçado, o papo de artistas por aqui sempre recaí um pouco na coisa de “transpor as montanhas”…É quase um clichê da impossibilidade mineira…

O potencial da cultura mineira é de grandiosidade, e todo mundo sabe disso. Mas o lance é querer dar o salto no escuro, o que a zona de conforto de BH às vezes nos dissuade.

Uma coisa que acho inseparável do seu trabalho solo é sua relação com a Suca…Creio que até isso levou vocês agora para São Paulo né? É um lance meio simbiótico artísticamente, certo?

Sim, total. É uma relação que começou na arte e foi adiante. Ela é meus olhos na minha música. Tudo o que é de visual do meu projeto tem que passar pelo crivo dela. Apesar de eu ter um repertoriozinho do que gosto e não gosto, eu acredito no bom gosto e no fazer dela. E é uma relação de apoio mútuo contínuo, em todos os âmbitos. Eu vim pra SP pra estar com ela, dar apoio num momento de transição. E ela me apoia de outra forma. É um pelo outro. Tem um amigo nosso, o Scott MacLeay, um fotógrafo canadense, que diz que nós somos o Lou Reed e a Laurie Anderson um do outro

Sensacional definição! É bacana demais ter esse diálogo constante, em nível criativo e pessoal não é?

É realizador num nível inimaginável! É uma relação de igualdade, de parceria, de afeto em todos os âmbitos. Ela é meu alicerce.

Para ir fechando…Como você apresentaria sua música para um estranho?

A-ha! O famoso pitch de elevador! Hehehehe Isso foi um exercício que eu fui desenvolvendo em alguns treinamentos pelos quais passei no último ano, como com a Rafaela Cappai, da Espaçonave. Acabei pondo isso em prática lá no Midem, mas acho que não tá perfeito ainda. Eu diria que é um pop “eletropical” – um misto de pop clássico com algo intangível que é inegavelmente daqui. E, no meio, histórias de luta, de esforço, de desejo e de afeto.

Depois do “Sdds Futuro”, temos o novo single, e depois dele…?

Provavelmente mais singles, ou em EP, ainda não sei direito. Continuo produzindo novo material e quero saber mesmo é de seguir o curso deles, sem saber onde vão me levar…Ando experimentando com diversas coisas. Tenho um trap em português, um dub… altas coisas em andamento. Mas o processo me interessa mais do que o resultado. O resultado tem que ser o aprendizado, sempre.

Essa liberdade, hoje, de ver o processo e não necessariamente visar o “produto” é uma espécie de marca, mas pode ser bastante angustiante também, não?

Eu sentia uma angústia maior de entregar um produto. Porque eu sempre me fodia de cobranças internas, mais do que as externas todas. Entrava numas viagens até meio bizarras, como, por exemplo, de escolher tracklist antes de ter todas as músicas do projeto. E, a partir daí, compor novas músicas pra caberem como faixa 4 ou faixa 7 desse disco, por exemplo. Esse pensamento mais sistêmico, de fluxo, é mais natural pra mim, me ajuda no processo criativo. Eu me sinto mais livre nesse contexto, sem pensar em um produto específico. É um apanhado de canções. A única coisa que quero é que todas sejam boas. Eu tenho um desejo de tornar esse projeto multimídia também, mas ainda tá no caminho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Flanando pelo jornalismo cultural