O vídeo matou as estrelas do rádio?

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Hoje Em Dia, em 30/09/2004

Se desde o início dos anos 80 o Buggles saudava a chegada da MTV com o hit “Vídeo Kills The Radio Stars”, era possível prever a mudança de foco que a era do vídeo causaria na música pop. “Nossa, mas que papo mais velho!” diria outro. E é mesmo, afinal pelo menos duas gerações já consomem música pop pautadas em som e imagem.Com a extinção do mercado de singles no Brasil, o videoclipe passou a se tornar o referencial máximo para o lançamento das famigeradas músicas de trabalho. Isso, claro fazendo um recorte de público (cada vez maior) consumidor que tem acesso ás mídias que oferecem o produto videoclipe – não a linguagem, esta cada vez mais presente em outras produções.
Talvez o problema esteja na concepção desde o início, ou talvez seja puro romantismo de minha parte, mas não consigo deixar de pensar em uma coisa: o que poderia servir como espaço para novas tendências, correndo paralelamente (ou melhor, complementarmente) ao meio tradicional, já estabelecido -o rádio- se tornou mera repetidora de um sistema competitivo voraz. Hoje não precisa ligar o rádio, basta ligar a tv e o play list das mais tocadas vai estar presente sob a forma de imagem, efeitos cinematográficos, poses, enfim o pacote completo. Já está pronto, formatado inofensivamente, um fast food que oferece diversas opções para diversas necessidades: da explosão hormonal masculina (a libidinosa Britney Spears, o rock machinho do Charlie Brown Jr e seus respectivos genéricos) ao romantismo popularesco disfarçado de super produção do KLB e do Alexandre Pires.

De certa forma, em formato videoclipe, a música perde um pouco o fator fantasia, a capacidade que ela têm de ativar o imaginário do ouvinte. “Nossa, que papo mais careta!”. E é mesmo. Mas Renato Russo – que além de gênio entendia muito de música pop – tem uma declaração lapidar: “Música pop é isso: você está lá, sentado a beira do caminho, completamente desolado e de repente toca aquela música do Gilliard, dizendo exatamente o que você está sentindo!”. Quer dizer, no rádio ainda é possível roteirizar a música de acordo com cada situação – ela é móvel, não estática, não está padronizada.

“Ah, mas eu não me preocupo mais com rádio, eu tenho meu I-Pod, meu computador banda larga, meus contatos onde posso conseguir quase instantaneamente o single novo daquela banda alternativa da Zâmbia…”. Parabéns para você, que tem uma boa grana e sede de informação. Engraçado: a relação é quase sempre através da negação, da substituição. Será que as mídias não podem mesmo se complementar? O mesmo serve para a relação videoclipe/rádio. A questão não é negar todas as maravilhas oferecidas por este formato, imagina, basta assistir a um clipe como “Just” do Radiohead para notar o potencial artístico do clipe. Até porque não foi o vídeo que matou o rádio não. Minhas principais suspeitas recaem sobre o próprio rádio, que seguiu fielmente as regras mercadológicas e não soube dar seu salto, sua sobrevida. Se o videoclipe consegue ousar, na programação de rádio atual que há variação do cardápio, uma “previsibilidade” tediosa. “Mas qual seria a salvação para o rádio então?”. Uma dieta mais apimentada? Mais dinheiro? Um milagre? Sinceramente eu não sei. Mas de uma coisa eu tenho certeza: sempre vai ter alguém na sarjeta, esperando aquela música que, hoje em dia, do rádio não vêm

Queimar ou não queimar: é essa a questão

crédito: Fabio Heizenreder / Divulgação
crédito: Fabio Heizenreder / Divulgação

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Hoje em Dia, em  25/09/2004

Uma das grandes lições apresentadas por Arnaldo Baptista e Brian Wilson em seus novos trabalhos é que não existe uma chave para desvendar o mistério acerca da condição humana. Principalmente quando esta se confunde com a arte, onde o envolvimento do artista com suas criações representa o esfacelamento da própria vida.

Arnaldo é o autor de um dos maiores tratados sobre a desilusão da música popular. Seu “Loki” (1974) expõe o músico encarnando fielmente em versos cortantes o anjo exterminador da mitologia greco/romana que inspirou o título do trabalho. Era o fim dos Mutantes, era o fim do sonho derretido em ácidos e amor livre, era o fim do romance com Rita Lee. E principalmente era o fim de uma era onde ser todos “uma pessoa só” não era lamber a utopia, era realiza-la nitidamente em forma de arte. Quando canta “você me disse adeus/Mas como, se somos todos de Deus” (“Desculpe”), deixa clara sua inadequação aos novos tempos. Inadequação esta que iria o acompanhar até a noite de 31 de Dezembro de 1981, quando pulou do terceiro andar do hospital onde estava internado.

Brian Wilson é o autor de um dos maiores tratados sobre a desilusão na música popular. Seu “Pet Sounds” (1966) é fruto direto da sua paranóia e frustração.Impulsionado por uma obsessão doentia com a riqueza musical apresentada em “Rubber Soul” dos Beatles, e guiado por traumas de infância não resolvidos, Wilson tomou como meta realizar um trabalho ainda mais ousado, passando adotar níveis de exigência sobre humanos. Isso significava dias solitários ao piano movido a drogas, absolutamente centrado em si mesmo e em seus fantasmas. Apenas a faixa de encerramento “Caroline No” se faz necessária para reduzir a pó toda a Califórnia dourada e banhada em esperança juvenil que guiava a obra de sua banda, os Beach Boys, desde então: “Para onde foi os seus longos cabelos/ Onde está a garota que eu conhecia?”. Outra faixa, “I Just Wasn´t Made For This Times”resumia bem a inadequação de Wilson aquele tempo. Inadequação esta que iria o acompanhar por mais de vinte anos em diversas internações, tentativas de suicídio, brigas judiciais e tragédias constantes.

Muitos não sobreviveram a aventura: de Nick Drake a Eliott Smith, Kurt Cobain e Renato Russo, Caio Fernando Abreu, Sylvia Plath…A lista é grande e representativa, poeticamente traduzida por Neil Young nos imortais versos de “Hey Hey, My My(Out Of The Blue)-é melhor queimar do que desaparecer. Venhamos e convenhamos: fazer da própria trajetória um espelho para sua criações ( e vice e versa) demanda uma certa capacidade de transitar pelos sempre perigosos caminhos entre a sanidade e a loucura, o racional e o passional, o amor e ódio. Que estes representam elementos vitais, imprescindíveis ao ser humano, ninguém, duvida. Mas o custo de se enfrentar o perigo frente a frente pode sair caro demais.

São poucos, como Arnaldo Baptista/Brian Wilson que tiveram a graça concedida de conseguir retirar do veneno o próprio antídoto. “Let It Bed”(de Arnaldo) e “Gettin´In Over My Head”( de Wilson), ambos lançados este ano, trazem, além dos seus sintomáticos títulos, a inadequação de seus autores transformadas em força vital. Nenhum dos dois trabalhos carrega a explosão criativa dos citados anteriormente, mas recolhem os cacos de duas trajetórias que, se quase perderam a vida pela arte, também por ela ressuscitaram. Se fizeram obras paridas da dor, deram a luz também a trabalhos que comprovam a beleza que é nascer de novo. Trazendo para si e subvertendo o célebre mote shakespeariano, Arnaldo sumariza: “To burn or not to burn/What´s the question?”. Brian provavelmente concordaria.Sorte nossa, como espectadores, poder acompanhar o dilema. “Louvado Seja Deus, que nos deu o rock n´roll”, canta Arnaldo. Louvado seja.

Jorge Ben-“A Tábua de Esmeraldas” 


Resenha publicada no jornal Hoje em Dia em 16/09/2004 

Jorge Ben é uma espécie de eminência parda da MPB: festejado por todos os outros grandes nomes como Caetano Veloso e Milton Nascimento, mas dono de discreta trajetória junto ao grande público. Não é muito difícil de entender: ele sempre se situou como um corpo estranho – mas nem por isso mal recebido – na cronologia da música popular brasileira. Uma terceira margem cuja mistura de “samba com maracatu” não era bossa, não era uma brasa, não era proibido proibir.Falamos aqui do Ben, não confundir com o Benjor: apesar de algumas fagulhas, este último está longe de alcançar o fogo do primeiro. A obra de Jorge anterior a formação de sua Banda Do Zé Pretinho (eficiente nosbailoes a que se propõe, mas notadamente pouco ousada)é brasa que ainda queima, onde encontramos os desenhos mágicos do seu violão, a simplicidade poética de seu texto, o lirismo doce de suas musas. 

O pulo do gato de Babulina era a ponte radical entre o violao gilbertiano e as batidas suingadas oriundas do rock, contruída por um dos maiores mistérios da mpb: a mágica mão direita de Jorge, mão em que ele palhetava suas batidas no violao. E o violão de Ben desenha jazz, maracatu, samba e outras bossas mais. É fonte que não seca: a classificação de sua música é tão absurda quanto o espectro de músicos que influenciou – das baladas folk arcadistas de Nando Reis ao rap emcarne viva dos Racionais MC’S.

Em “A Tábua De Esmeraldas”, o salto foi mais alto: o disco é seguramente uma das obras mais desconcertantes da música popular brasileira, e assim como o disco de estréia de Ben (o didático “Samba Esquema Novo”), estabelece alguns parâmetros até então inéditos nesta. O cotidiano banal vinha em cores bonitas sob a ótica de Ben: o “Namorado Da Viúva”, “O Homem Da Gravata Florida”, narrativas que resvalam no absurdo em sua simplicidade. O habitual romantismo brota da pureza (“Minha Teimosia”, de harmonia semelhante a “Lay LadyLay”, de Bob Dylan), do desejo carnal (“Menina Mulher Da Pele Preta”), da urgência ( na sublime “Cinco Minutos”).

O misticismo. Faz também política, seja no pacifismo popular de “Vou Torcer”, seja na épica eengajada “Zumbi”. O misticismo que (des)norteia o disco bate bonito em “Os Alquimistas Estão Chegando” e na louvação “Brother”.Mas alcança seu ápice mesmo no dubbismo de “Errare Humanum Est” (“E de pensar que não somos os primeiros seres terrestres/ Pois nós herdamos uma herança cósmica/Errare humanum est”), que é onde está a chave para se perder nesta tábua repleta de esmeraldas. Assim com o alquimista francês Flamel que ilustra a capa do disco, Jorge Ben fez da tábua de esmeraldas sua pedra filosofal: tudo aqui é ouro.

Flanando pelo jornalismo cultural