Paul McCartney-”Memory Almost Full”

Publicado no Alto Falante, em 17/07/2007

E lá vem o velho McCartney, 65 anos de muitas glórias e poucas tristezas. Nos últimos anos, ele viveu um merecido processo de celebração, depois de muitos anos regados a discos medianos, o pesado e injusto fardo de ter colocado um ponto final no maior sonho já vivido pelos amantes da música – os Beatles – e a morte precoce daquela mulher que, como ele mesmo declarou, “não viveu um dia sequer sem estar ao seu lado”, Linda McCartney. Seu último trabalho, “Chaos And Creation In The Backyard”, concorreu a um posto impressionante, o de ser seu melhor trabalho desde o antológico “Band On The Run”, lançado nos distantes anos setenta. Um disco carregado de simbolismos, de caráter quase existencial, um Paul olhando para trás e concluindo que a essa turnê carregada de magia e mistério chamada vida, tinha valido a pena. Veneno escorrendo pela boca, alguns diriam que ele poderia descansar em paz depois de “Chaos And Creation…”, as belas canções do disco serviriam de magnífica marcha fúnebre para a carreira musical do homem.

Mas, ei, quem foi o único membro a se aventurar em um grupo após o fim dos Beatles-justamente o maior grupo de todos os tempos? Quem teve que agüentar gozações até de Mick Jagger quando incluiu a esposa no pacote palco/avião/turnês, trocando as máquinas fotográficas por um teclado que ela mal sabia operar, quando formou o Wings? Quem gravou declarações melosas de amor quando a música voltava a ser relevante com o punk rock? Paul McCartney faz o quiser, quando quiser e como quiser. É o tipo de sujeito que por trás da cara inofensiva e das comparações diretas e sempre desvantajosas com John Lennon, é mais durão e radical do que se pensa. Tanto que alcançou seus 64 anos cantados na velha canção envolvido em uma baixaria que causou frisson de proporções beatlemaníacas na mídia mundial. Sua separação da esposa Heather Mills, teve como saldo uma exposição pra lá de desagradável em manchetes sensacionalistas, pesadas batalhas judiciais e alguns milhões a menos no banco. O que poderia prever um próximo álbum antológico. Em qualidade ou ruindade.

“Memory Almost Full” não se enquadra em nenhuma destas definições. Pelo contrário, de início, é um disco mediano, irregular e pior, parece se esforçar para soar assim, desimportante. Qual seria a justificativa para uma canção tão banal – mesmo que deliciosamente banal – como “Dance Tonight”? Ou “Mister Bellamy”, quatro estranhos minutos sobre um gatinho que observa o mundo de cima de uma árvore? É… Lá vem Paul de novo, driblando as altas expectativas e fazendo o que der na telha. No caso, uma desajeitada coleção de pops sem vigor – “See Your Sunshine”, “Only Mama Knows”. Canções esquecíveis.

Mas a partir de “Gratitude”, onde ele repete a imbatível inflexão soul adotada de tempos em tempos e parece estar passando recado para a ex-esposa barraqueira, o trabalho ganha um corpo mais solene. É na segunda metade, onde começam músicas curtas, e seqüenciadas, parecendo fazer discreta referência à suíte final de “Abbey Road”, que “Memory Almost Full” se justifica. A linda “Vintage Clothes” se inicia com os versos “Don´t live in the past…”, mas o balanço de “That Was Me”, o simplismo de “Feet In The Clouds”, criam certo clima de nostalgia que é muito amplificado em “In The End Of The End” e a pesada e suja “Nod Your Head”, um anticlímax. Parece até algum tipo de piada interna, se lembrarmos que “Abbey Road” se encerrava de forma bastante semelhante – lembra da estranha seqüência de “The End” e “Her Majesty”? Memória quase cheia, Paul vive de colecionar suas melhores lembranças e encontrar espaço para os atropelos que o presente ainda lhe oferece.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>