“Porque bebi ou porque fui vítima de truculências ditatoriais, isso nada tem a ver com minha arte”- Entrevista com Ângela Rô Rô

Entrevista publicada no jornal O Tempo em 20/10/13

(Mais da magistral Rô Rô aqui, registro de um show em 2009)

A lendária artista carioca acaba de lançar o álbum e DVD “Feliz da Vida!”, aonde mostra nova safra de composições, boa parte delas em parceria com nomes da música nacional como Jorge Vercilo, Paulinho Moska e Ana Carolina. Além disso, o projeto traz, pela primeira vez, o registro de “Malandragem”, composta por Frejat e Cazuza para ela, mas que ainda não tinha sido gravada por Rô Rô.

 “Feliz Da Vida!”, nome de seu novo CD e DVD, tomado emprestado de uma canção presente no repertório, parece bem sintomático da atual fase de sua carreira profissional e mesmo em sua vida pessoal.

Nunca fui tão agraciada com tantas existências, com tantas coisas tão fundamentais dentro de uma palavra, de um título, como este, feito pelo Paulinho Moska (parceiro de Ângela na canção). Estou feliz da vida sim, e não estou querendo esfregar a felicidade na cara de ninguém. Porque isso é uma coisa muito rara, as pessoas não estão acostumadas em serem felizes, e eu tenho esse vício desde que nasci e tenho o dom dado pela vida de escrever música.

E quando você percebeu esse dom?

Desde ‘pequetita’, quando tinha 4 ou 5 anos. Minha família toda tinha esse lado artístico, aquela cantoria toda. Minha mãe, Conceição, mineira aliás, era cantora amadora, só cantava pra gente, não era profissional. Então estava embutido no meu recheio genético as artes. Desenhar, pintar e bordar, principalmente. Esse lado de brincar, palhaço, sempre tive. Tenho duas coisas magníficas, meu humor e meu fígado, e os dois são irmãos (muitos risos). Tenho essa felicidade desde pequena.

Roberto Frejat diz uma coisa importante nos depoimentos do DVD. Ele fala que uma das importâncias do projeto é capturar essa fase sua, menos negativa, menos cercada de coisas ruins…

Acho engraçado isso. Frejat se situa como uma homem de negócios, não é apenas um cantor. Inclusive foi no estúdio dele que a gente mixou o projeto. Ele como homem e meu amigo vislumbrou ali a possibilidade de dizer isso, uma forma de colocar que felizmente ninguém mais tem essa mentalidade mesquinha e pequena de ficar lembrando só coisas ruins.

Ter de responder pelo passado, o tempo todo?

Sim, porque se teve algum problema, fumar demais, beber demais, isso ficou para trás há muito tempo. Não como mariola, não lambo a parede, faço alguns exercícios sem exageros, dieta. Realmente houve uma mudança radical, que é nítida, mas acontece que a semente é a mesma. Meu último cigarro, meu último vício – que aliás é o pior de todos; tem gente que larga tudo mas não o cigarro – eu fumei no final de 1998. Foi uma virada mesmo, minha mãe morreu nessa época. Desde então levo outra vida.

No sentido de que você sempre foi a mesma?

Sim. E tem muita gente maledicente, fofocando, resgatando coisas que aconteceram há 20 anos, não é recente, e estou de saco cheio dessas histórias. Mas sou celebridade, nasci para ser celebridade, não passo invisível na vida.

De qualquer forma, os depoimentos presentes no DVD são muito bacanas e importantes.

Gostou? São apresentações, parece coisa de novata, ou que estou sendo procurada pela Interpol (risos). Ninguém fala mal, o Ricardo (Mac Cord, diretor musical do show, pianista e parceiro de Ângela) é o único, mas tem intimidade de 23 anos; tem direito. Foi uma coisa muito emocionante. Depoimento de (Maria) Bethânia… Fico emocionadíssima. Espero que as pessoas vejam em mim o que eles viram. Estou superfeliz mesmo. Tem músicas minhas que falam disso, como “Salve Jorge!”. Minha mãe teve várias gravidezes que não vingaram; ela quase morreu antes de eu nascer. Eu consegui e ela me ofereceu para São Jorge. (A bonita letra da canção tem versos como “Minha mãe mandou fechar o meu corpinho quando ainda era nenê”).

E esse estado de espírito acaba se refletindo no repertório, em canções com maior leveza?

Acho que não. Por exemplo, o “Compasso”, feito em 2006, tem um repertório muito bom. O “Acertei no Milênio” (2000) expressa a minha obra da mesma forma. A música é uma coisa constante, segura, firme e sadia dentro de mim. Durante toda a vida, não conseguiram, nem eu consegui, atingir, macular ou estragar a minha música. Ela é inatingível e é impressionante como ela tem esse dom. Eu pertenço a ela, não o contrário.

Bonito isso, Ângela. Porque te preserva de alguma forma, não é?

Minha alma, meu ser, meu caráter. Porque bebi ou porque fui vítima de truculências ditatoriais, isso nada tem a ver com minha arte. É impressionante, ninguém conseguiu jogar pedra nessa Geni (risos).

Como nasceu a ideia de registrar esse show, cheio de parcerias e convidados?

Fui apresentadora do Canal Brasil, fazia um programa, o “Escândalo”. Por que esse título? (risos)

(Risos) Por causa da linda música do Caetano, para você…

Isso! Adorei ser apresentadora. Fizemos muitos programas, entrei em contato com muita gente. Depois montei um programa de webrádio, “Nas Ondas da Rô Rô”, onde conversei com Preta Gil, Dudu Nobre, Francis Hime, Jards Macalé, Jorge Vercilo, o saudoso Emílio Santiago, com vários fomos prometendo futuras parcerias, uns jurando aos outros que iríamos fazer coisas juntos. No ano passado, juntamos a fome toda de registrar isso. Eu não paro de compor e queria fazer uma coisa que abrisse o leque para outros parceiros, gente que nunca havia registrado nada comigo. Além de grandes parceiros, como o Ricardo. Virou o “Feliz da Vida!”, que foi um show muito legal, divertido, mas que no registro tá tudo limpinho, né? Senão vira piadinha demais.

Uma questão marcante desse trabalho é a gravação de “Malandragem” (de Frejat e Cazuza). Como foi voltar para essa canção?

É engraçado, o Cazuza me mandou essa música no final dos anos 1980. Eu ouvi, mas já estava com o repertório fechado para a o disco da época, “Prova de Amor” (1988). Já achava a melodia fantástica, uma maravilha. Mas liguei para o Caju (apelido de Cazuza), ralhando: “Cê tá doido, insano, estou quase indo pros 40 – me achando velhíssima – como vou cantar essas coisas de ‘meia três quartos’, ‘sou uma garotinha’, não faz sentido. E aí ele soltou impropérios, me xingando, “Pois então vou dar para outras”. Ameaçou dar para pessoas estranhas. E eu: “Vai seu galinha, não me provoque que não adianta”. Acabou que eles mandaram para a Cássia (Eller), uma gravação linda. Infelizmente ela viveu muito pouco. E é um prazer cantar agora com o Frejat, um músico maravilhoso.

Você citou a Cássia, e assim como ela, imagino que várias cantoras têm você como inspiração. Você tem esse retorno, de artistas atuais que se dizem influenciados por você?

Não. Não sei o que acontece. A gente que trabalha com arte, seja cinema, teatro, música, literatura, não tem, pelos menos grande parte não costuma ter, esse parâmetro de idade, de credo, de etnia, de raça, de cor, de dinheiro. Porque arte nos une sem fronteiras de espécie alguma. Um cantor de 18 anos vai trabalhar ou conversar comigo de igual para igual; trocamos informações. Ele pode até reverenciar meu trabalho, mas não porque sou de outra geração. É uma mágica, um milagre, a arte não tem essa diferença, essa fronteira.

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