Qual é o peixe que tu vende?

Reportagem publicada no jornal O Tempo em 23/12/2013

O melhor disco lançado por um artista brasileiro em 2013 talvez mereça este título porque capturou um dos sentimentos mais necessários e urgentes de um ano tão conturbado: a desconfiança. De quase tudo, de quase todos. “Existiram algumas motivações por um lado, mas nada endereçado para alguém”, diz o guitarrista Felipe. “É um conjunto de coisas, uma certa postura, tudo que se enquadra como objeto dessa crítica. Talvez algumas faixas falem muito sobre como a publicidade se comporta, a ideia por traz do peixe que estão te vendendo. Nos incomoda esse dis curso bacana, um estilo de vida interessante, mas que na real está te sacaneando”, completa, com a mesma sutileza de alguém que começa uma das melhores canções do ano no país com o verso “Pau no cu de quem não quer dividir esse refri com a minha mulher”.

Bacana, mas ouvinte atento que acredito ser, sigo desconfiado. Porque é difícil não imaginar que “Líquido Preto”, “Mordido” ou “Reinação” não tragam em si destinatários com nome, sobrenome, pátria. E como é bom escutar um disco que te faça imaginar.

“Antes que Tu Conte Outra” hipnotiza sua atenção em forma e função: da mesma forma que o ouvinte fica se perguntando de onde vêm aqueles zilhões de barulhinhos que preenchem o disco, muito além da já conhecida competência baixo-bateria-guitarra, ficamos com a certeza de que, liricamente, nenhum álbum funciona melhor do que este para um país tensionado pelas manifestações, pelo cansaço de tudo, pelo desgaste dos discursos e narrativas “reinventadas” a cada respiro. “Amadurecemos como pessoas”, diz o músico. “Assumimos uma postura de observar o mundo de maneira diferente, e isso reflete no disco, em conceitos de ruído, de textura, de estragar timbres. Soar problemático, isso nos interessou. As composições trazem essa postura, esse peso contundente comparado com antes. Talvez esse disco seja um pouco resultado de como a gente se sente em relação ao mundo que nos rodeia. Transbordamos o convívio com a cidade, conversando com as pessoas, o que não nos agrada. Resolvemos que não dá para não falar algumas coisas”, justifica.

O negócio está em o que e como eles falaram. Pode-se dizer que o único momento mais pop do disco é a ótima “Torcicolo” (e ainda assim desconfio que eles estão tratando de sexo casual de forma… esquisita) e “Não se Precipite”. O resto é belamente torto, “estragado” como eles parecem preferir, seja em verso ou em som.

Mas aí está um dos méritos maiores do Apanhador Só: é sempre um alívio quando alguém te lembra que na densidade mora também o prazer. Não é fácil escutar “Lá em Casa Tá Pegando Fogo” ou “Despirocar” sem se assustar um pouco. E antes que tu cante outras, tente acompanhar a banda na brilhante e esquisitíssima cadência de “Vitta, Ian e Cassales”. Trabalho árduo para banda e ouvinte, no melhor dos sentidos. Mas quem te disse que é para ser fácil? Não sei. Mas, desconfie, de qualquer forma.

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