Ryan Adams- “Rock N´Roll”

Resenha publicada no site do Alto Falante em 10/12/2003
Alguém como Ryan Adams lançar um disco intitulado “Rock N´Roll” é extremamente perigoso. Quer dizer, batizar um trabalho com um título que abarca todo um gênero é um risco para qualquer artista, mas, no caso de alguém que faça um trabalho bastante derivativo como o de Adams, aí é um prato cheio para os críticos de plantão. Porque, desde que embarcou em carreira solo, Ryan Adams tem colecionado olhares de desconfiança por todos os lados: seria ele um picareta completamente despersonalizado, que atira para todos os lados na esperança de atingir o público-como julgaram os detratores do sucesso “New York, New York?”
Ou Adams seria o compositor de extremo bom gosto e pretensões poéticas que muitos estão esperando há bastante tempo? Não é com “Rock N´Roll” que a pergunta é respondida. No trabalho continuam implícitas as pretensões de Adams:o refinamento lírico de Bob Dylan, a sonoridade Young angry man dos Stones além de outras referências claras aos grandes nomes do rock- Iggy Pop e seus Stooges na raivosa “1974”, os títulos de “Wish You Were Here” e “She´s Lost Total Control”…E a partir dessa referência ao clássico do Joy Division, “She´s Lost Control”, que os críticos podem carregar a cartucheira de balas: o alvo da vez dos tiros musicais de Ryan Adams são os tão em voga reeditados sonoridades dos anos 80 atualmente- escolha que vai de encontros com o som de bandas bem faladas atualmente, como Strokes e Interpol-, mas especificamente os Smiths.
Se na faixa de abertura de seu primeiro disco solo “Heartbreaker”, Adams gravara um diálogo entre amigos onde o tema era qual o melhor disco de Morrissey em carreira solo, ele parece agora querer retomar essa conversa e vai fundo na sonoridade do inglês em canções como “So Alive”, “Anybody Wanna Take Me Home” e “Burning Photoghaphs”. Mas mesmo assim, despersonalizadas-assim como parece ser o padrão da boa música nestes nostálgicos anos 2000- ainda perfazem um conjunto de canções bem mais interessante que a maioria.
Tudo bem, “Rock N´Roll” não é tão certeiro quanto anteriores como “Gold” e “Heartbreaker”, mas ainda assim poucos discos hoje abrem com uma música tão angustiantemente boa quanto “This Is It” e seu explosivo refrão (outra referência: agora aos novatos Strokes), e já no finalzinho trás um trazem pop ensolarado como “Boys”. Ryan Adams pariu três frutos musicais em 2003: o primeiro foi prontamente renegado pela gravadora Lost Highway, com a absurda justificativa de que os dois volumes de “Love Is Hell” seriam por demais depressivos. Já, “Rock n´Roll” é o filho pródigo, recebido de braços abertos, embalado perfeitamente para o fácil consumo do mercado. O que não é demérito nenhum, diga-se de passagem-poucos artistas sabem escrever canções pop tão bem resolvidas quanto Mr Adams. Apesar de prontamente despersonalizadas, como parece ser a regra do mercado atualmente.

 

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