Sandy ainda não saiu de casa

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Estado de Minas em 10/04/2007

No começo desta década, em ótimo texto publicado pela Trip, o escritor André Santanna sugeria um futuro para Sandy, aos moldes da canção “She´s Leaving Home” dos Beatles – aliás, era esse o título do artigo. Era uma carta de despedida, em que ela dizia estar deixando tudo para trás: família, fofocas, Faustões e Gugus, para viver uma vida prosaica, junto com um namorado bacana. Só não largaria a música. Mas se dedicaria agora ao jazz.

Pois bem, ela estreou em BH, na semana passada, sua primeira turnê solo, com um repertório jazzístico.O texto de Santanna não chega a ser profético, e nem era essa a intenção. A idéia era mostrar uma revolta imaginária que Sandy, de fato e de direito, poderia assumir. Afinal, não é para qualquer um ser ela. Sandy é a namoradinha do Brasil. Sandy (ainda) é o modelo de perfeição sonhado por púberes de todo Brasil – um espelho para as meninas, uma fantasia para os meninos. Uma comunidade no Orkut pergunta se ela faz cocô. Sandy é virgem? Sandy fala palavrão? Sandy não se despenteia nunca? Procurando bem, todo mundo tem problema, só a Sandy que não tem? (Imagino que Sandy deve se cansar de ser Sandy às vezes).

Estive frente a frente com a menina na semana passada. Uma conversa breve, em que cada resposta era finalizada com um sorriso meio calculado, estampando o sacana fardo de ter de ser simpática o tempo todo. Sorriu tímida quando falei que era uma boa cantora, foi honesta ao falar que o jazz era uma descoberta recente, negou qualquer cobrança de possa a aparecer de público ou crítica em relação a esse novo projeto. No fim de tudo, uma imensa sensação de desconforto – da minha parte, claro. Sandy já estava acostumadíssima com as respostas que me deu.

Mais tarde, no palco, parecia desajeitada. Parecia presa a entidade que a constitui, o “SandyJr”, assim mesmo, sem maiores separações de sexo ou importância. A primeira fileira, repleta de macacas de auditório, aplaudiria qualquer coisa dela (“Gente, vocês estão impossíveis!”, reprimia não reprimindo). Curioso era notar que o Grande Teatro do Palácio das Artes estava cheio também de curiosos, gente que possivelmente nem tem algum disco a dupla em casa. E mais do que isso, uma sensação de que muitos destes curiosos pareciam mesmo torcer para Sandy, esperançosas de que naquele “embate” a namoradinha do Brasil saísse perdedora de um certo amadurecimento artístico.

Fantasiamos todos, um chute no balde geral, um descer dos saltos. Ao som de Cole Porter e Tom Jobim, of course. Salvo engano, a última música de trabalho da dupla cumpria um pouco esse papel, esse desabafo de Sandy quanto à imagem que foi cristalizada por todos-inclusive por ela. Mas era cantada de um jeito tão “sandyjr”, que pouca gente levou a sério à mensagem.Coisa parecida ocorre com ela agora, de forma mais nítida. Se for esta mesma a proposta de Sandy, se desprender não do irmão, mas do “sandyjr”como ela vêm sinalizando, falta empenho. Difícil cantar “Summertime”, “Night & Day”, com autenticidade, sem passear um pouco pela sarjeta, sem dispensar o pódio já estabelecido, sem correr e não olhar para trás.

Será que Sandy conhece Lilly Allen, a ninfeta desbocada que vêm conquistando o mundo rogando pragas para um ex-namorado? Será que já ouviu falar de Amy Winehouse, tatuada, bagaceira, que atingiu o topo das paradas inglesas brincando de jazz e soul music, mas que não pôde participar de um show recente porque passara a tarde em um boteco, enchendo a cara e num tombo quebrou os dentes da frente? E que é justamente esse tipo de postura não calculada que dá mais encanto a musicalidade das duas? Será que alguém deixaria isso acontecer com Sandy? Independente da divisão de culpas, a menina continua confortavelmente dentro de casa.

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