Sobreviventes do Inferno

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Estado de Minas, em 27/11/2007

Os veteranos insistam – e com razão- em afirmar que o período de ouro do rap corresponde ao seu início, no final dos anos 70, até meados da década de 90, onde o gênero deu grandes suspiros de criatividade no mainstream muito além da baboseira ouro, armas e mulheres tratadas como lixo. Mas no Brasil, a história foi um pouco diferente. Dez anos passados, o que poderia parecer exagerado não soa tanto assim: o auge do rap nacional foi em 1997 e quase tudo que é produzido no gênero (antes e depois) tem dívida com um lançamento deste ano, “Sobrevivendo No Inferno”, dos Racionais MC´s.

Coalizão absurda de várias variáveis pertencentes a muito na música brasileira-o ritmo negro, a poesia urbana, a produção periférica, uma juventude sem ídolos-o álbum é um trabalho tão importante para uma imaginária linha evolutiva da cultura musical nativa quanto à redescoberta de Cartola nos anos 70, “A Tábua De Esmeraldas” de Jorge Ben, “Refazenda” de Gilberto Gil, os afro-sambas de Baden Powell ou a “Pérola Negra” de Luiz Melodia. Em comum, são trabalhos que mais ou menos reavaliam estética (a busca por uma música negra) e espiritualmente (a presença constante da religião) a relação do negro com suas próprias músicas e seu próprio espaço e tempo.

No caso dos Racionais, a São Paulo do fim do século passado, uma terra de “arranha céu onde a garoa rasga a carne, a torra de babel”, como definiu com propriedade única a figura-chave do grupo. Mano Brown faz o gênero narrador em carne viva, cuja acidez fora percebida e tornada artigo de primeira necessidade em 97, quando soltou um autêntico manual da selva marginalizada pelo neoliberalismo global, cortesia da política vigente. A partir dali encurtaram-se as distâncias entre o grande público e uma outra realidade-baseada em fatos reais. “Sobrevivendo No Inferno” era a fotografia mais nítida que o país poderia se permitir na época, a trilha sonora ideal para a falta de perspectivas, a intolerância racial, e a globalização perversa embaladas pelo consumo e tráfico de drogas vividas na pele por milhões de jovens na maior cidade da América do Sul. E refletindo, logicamente, em todo o país. Periferia é periferia (em qualquer lugar), já diriam alguns.

Começando com uma versão definitiva de “Jorge Da Capadócia”, de Jorge Ben (e aí o circulo começa a se fechar) e sonoramente poderoso, encorpando batidas de Isaac Hayes à Sade Adu, o trabalho inclui narrativas longas que transitam entre o comovente (“Fórmula Mágica Da Paz”, “Mágico De Oz”) e o aterrorizante (“Capítulo 4, Versículo 3” e “To Ouvindo Alguém Me Chamar”) e, na maioria dos casos, nas duas coisas, como na canção que acabou sintetizando o álbum, “Diário De Um Detento”. Essa última foi a porta de entrada para a banda na grande mídia, e mais importante, a porta de entrada para um público ainda maior no universo do grupo.Foi a partir de “Diário De Um Detento”, especialmente em sua versão videoclipe, que o trabalho dos paulistas se transformou em grife para “mauricinhos” abastados, onde possuir um exemplar do CD garantia um brevê para circular nas ruas, em fetiche acadêmico para aqueles em busca de uma bela tese sobre os “excluídos” da sociedade. Mas principalmente se transformou em atestado imediato de que o rap brasileiro poderia até ter cara de bandido, mas estava prestando favores mais profundos e causando maiores impactos do que a maioria dos roqueiros ou mpbístas da época.

Nem parece que foi ontem, mas há dez anos atrás a trilha sonora definitiva de um país que constantemente rodopia a beira do precipício estava gravada.”Sobrevivendo No Inferno” impulsionou a produção do rap brasileiro focalizado na crítica social, abrindo alas para que novos nomes como o saudoso Sabotage e Xis não fossem recebidos como corpos estranhos dentro da grande mídia, além de chamar a atenção para pioneiros com Thaíde e DJ Hum. Se em 2007 uma malfadada entrevista com Mano Brown se transforma em um dos eventos midiáticos do ano, culpe esse magnífico álbum, que discretamente comemora uma década de (sobre) vida.

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