“Sou um metido a besta, um amador profissional que acreditou que nessa diversidade podemos nos expressar de várias maneiras sem ser o melhor de nenhuma delas”- Entrevista com Moska

Entrevista publicada no jornal O Tempo, em 22/09/13

Paulinho Moska

crédito da foto: Moska/Divulgação

 

Seu novo disco mantém uma tradição sua de títulos enigmáticos: “Muito Pouco para Todos”. Qual foi a inspiração deste?

A primeira coisa é o jogo das palavras, o quebra-cabeças. Minha escrita procura sempre um certo humor, o trocadilho, o que me faz sorrir de alegria. Me acho engraçado, rio de mim. Quando veio a ideia do “muito” e do “pouco”, nunca pensei que um é positivo e outro é negativo. Me interessa a potência de cada um: as palavras podem ser opostas, mas no mundo se misturam. O “muito” está nos excessos no mundo de hoje, na violência, na competição, na urgência. É como se eu insistisse que essa ideia do “pouco” não pertencesse apenas aos intelectuais, aos sensíveis da poesia. É como vamos lidar com isso dentro de nós mesmos. A vida seria essa corda bamba entre esses dois mundos que, na verdade, são um mundo só. E quando vi a imagem das pessoas no palco, na foto que acabou sendo a capa do trabalho, me veio a ideia do “todos”. Porque me lembrei imediatamente da gravação onde autorizei todos os presentes ao show a subirem no palco, para participarem do momento. Tem um lado filosófico, imagético, daquele momento.

Você sempre expôs nos seus trabalhos um interesse muito forte com a filosofia, me lembro especificamente de você falar do (pensador francês) Gilles Deleuze…

Na verdade não posso dizer nem que sou filósofo nem que propriamente estudei filosofia. Frequentei a casa de um amigo, onde conheci um filósofo, um mestre, um pai para mim. E ele também se apaixonou pela maneira como eu estava compreendendo seu pensamento. Passei a escrever canções para determinadas aulas. E ele me dedicou um tempo extra, me apresentou à música clássica, à pintura, ao cinema através da filosofia, de um agenciamento de Deleuze com seu próprio pensamento. Fiquei grudado nele durante oito anos, isso foi o mais perto que cheguei de filosofia, não tenho essa categoria. Sou filósofo a partir do ponto que sou fotógrafo, ator e até músico. Sou um metido a besta, um amador profissional que acreditou que nessa diversidade podemos nos expressar de várias maneiras sem ser o melhor de nenhuma delas. O que é a cara deste mundo multidisciplinar, muito subjetivo.

Que pode ser uma leitura bem deleuziana, os devires… 

É. Você tem que ser seu próprio filtro, inventar seu próprio olhar. Ainda na adolescência, entendi que eu tinha que ser um artista circense, estar no picadeiro, domando o leão, tudo junto. O “Zoombido” mostra um pouco isso: minha atuação fotográfica no programa é o meu olhar, meu apoderamento, justificando até o apelido Moska, a multiplicidade do olhar. E essas coisas diferentes criam uma espécie de assinatura, você vai juntando minhas letras, minhas entrevistas, minhas fotos, e começa a entender, através de uma sensação, o que quero te comunicar. É assim que faço com meus ídolos, procuro tudo do Neil Gaiman (escritor e desenhista) porque acredito em obra.

Obra é uma noção meio difícil de se ter em um mundo tão fragmentado hoje em dia, não? Você sempre buscou isso? 

Acho que sim, e só consigo te responder isso hoje. Tinha essa coisa de constituir uma obra, mas dentro do mercado, com o interesse das gravadoras, é viver um pouco numa corda bamba. E claro, é difícil constituir uma obra em um mundo imediatista, urgente, poucos têm essa tranquilidade. Tive o privilégio de escutar compositores maravilhosos, Caetano, Milton, Fagner, Zé Ramalho, que tocavam em rádio, poetas mandando mensagens maravilhosas sobre a vida, a história, textos políticos. Inventar uma nova língua, como Djavan, ser camaleônico como Caetano, a coisa “África-Nordeste” do Gil. Com tudo isso, pude acreditar em obras; e pensar em obra como sinônimo de vida. Então, eu não posso querer que uma obra esteja pronta na metade da vida. Tem uma nova geração, uma molecada que pergunta: “Como é que faz uma obra, como faz pra ficar?”. Respondo que é só não fazer muito sucesso. O sucesso grande te obriga a repetir aquilo e virar escravo, sempre trabalhei evitando o sucesso. Queria visibilidade, mas não ia modificar minha obra em detrimento do sucesso, porque com ele você acaba cobrado demais pelo público, pela gravadora, até pelo crítico. Entram muitas coisas de fora, que não pertencem à criação. Quando você não faz sucesso, se dedica mais a criação, você permanece por 20 anos, você constrói uma obra.

O “Zoombido” é uma grande chance de entender o processo de criação dos músicos. E é interessante porque é um papo entre compositores, o que parece garantir uma abertura maior. A própria estética do programa, como ele é filmado, me coloca em outro lugar. Eu falo muito pouco e, com isso, a gente consegue fazer com que o espectador se sinta mais próximo. A discussão é quebrar um pouco a ideia de mediação, é um ‘anti-programa’ nesse sentido. Às vezes pode até parecer jornalismo, mas as câmeras não são jornalísticas, tem os espelhos, não tem efeitos. Um cara tocando três músicas, eu fotografo ele… Me gera imagens de sonhos. Me lembro de falar com o diretor do programa que eu queria que parecesse um sonho, que tivesse um efeito de sonho para mim, para o entrevistado e para quem está vendo. É um programa de sensações, na medida do possível.

Teremos o seu? Moska como convidado? 

Todos os “Zoombido” são o meu. É através da boca dos compositores que vão lá que me represento na diversidade dos artistas. O meu “Zoombido” são os mais de 200 que já foram feitos, é onde me sinto múltiplo.

Para você, tão conectado com músicos latino-americanos, faz sentido o termo cantautor?

A grosso modo, se você canta as canções que escreve ou escreve as que canta, sim. Caetano, Djavan, Melodia. Aliás, o programa é sobre isso, que aqui chamamos de compositor. Então eu sou cantautor. Lá fora é uma coisa mais tradicional, de temas políticos, mas nada como o tempo, e as gerações novas que vão modificando sentidos. O Kevin Johanssen (músico argentino) fala que somos degenerados, não podemos ser chamados de nada. Talvez isso tenha sido uma das maiores conquistas da minha geração. Nos anos 1980, o pessoal do rock se unia pela afinidade. A minha se uniu pela diferença: Lenine, Zélia Duncan, Chico César, pontes diferentes construídas. Hoje temos esse convívio gritante de todos os estilos, que vem da Tropicália até explodir nos anos 1980. A minha geração botou o rock na salada: o que era só rock n’ roll aqui é o pedacinho de alguma coisa. A MPB come geral, o jazz, o regional, o blues. Tudo vira MPB que atua como um canibal transformador.

Sua ligação com os compositores latinos é forte.

Começou com Jorge Drexler, de quem gravei “A Idade do Céu”, depois conheci Kevin, outro espelho. Talvez eu tenha um bom faro para encontrar os meus pares. Mais do que a música, são pessoas maravilhosas.

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