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Queens of the Stone Age- “Era Vulgaris”

Publicado no Alto Falante, em 18/06/2007

De repente, o Queens Of The Stone Age foi se tornando a referência mais bacana de rock pesado da paróquia. Na teoria e na prática, isso desce muito bem: guitarras pesadas, bateria metrancada, cara de mau. Mas soando inteligente, sexy, moderno e ainda sim com aquele surrado selo de coisa “autêntica”, de quem entende do babado desde o início dos anos 90, quando prensavam Black Sabbath e Deep Purple no sol escaldante no deserto californiano via Kyuss (confira o imperdível “Blues For The Red Sun”).

Aliás, nem dá para chamar de tendência, mas esta década consagrou bandas do gênero que soam infinitamente mais bacanas que as da década passada-e isso é muito bom, um mundo sem rock pesado é um mundo bem menos interessante e divertido. Ilustremos: sem pontos de interseção muito óbvios, QOTSA, System Of A Down, Mastodon e Mars Volta, grupos com alguma popularidade além do gueto e que, noves fora acabam caindo nessa imensa redoma chamada “metal”, soam bem mais arrojadas que o pessoal do nu-metal. O segredo é a diversidade de influências, creio. Para essa turma, num mesmo balaio, Motorhead e Slayer soam tão cool quanto Hawkwind, Bjork; King Crimson e Grand Funk Railroad podem ser colocados ao lado de Ween, Faith No More, Slint… Um alargador mental eficiente que acabou gerando álbuns como “Toxicity” e “Songs For The Deaf”.

O Queens provavelmente é o grupo quem faz melhor uso desse desprendimento em relação às tradições do gênero e muito por isso acaba colecionando mais capas e citações na NME (a “bíblia” dos modernetes) no que na Kerrang (a bíblia do rock pesado), por exemplo. “Era Vulgaris” chega para confirmar ainda mais esse trânsito.

 A excelente abertura com “Turning On The Screw” abre alas para o que parece ser na média, o disco mais acessível do grupo, sem os rompantes de podreira que apareceram os três primeiros e com a névoa psicodélica tão apreciada pelo Queens meio compactada em faixas boas, mas pouco surpreendentes como “Into The Hollow” e “I´m A Designer”. As desordenadas “Battery Acid” e “Misfit Love” soam simplesmente dispensáveis da seleção final.

Para quem acha que a melhor forma da qual os discos da banda podem ser interpretados é pelas suas participações especiais, tipo “diga-me com quem andas e que te direi quem és”, e como estes convidados são aproveitados nas músicas. “Sick Sick Sick”, com Julian Casablancas dos Strokes nos vocais, guitarra e teclados se mostra então uma ótima companhia. A faixa carrega alguns dos maiores méritos da banda: é estranha, com efeitos meio fantasmagóricos, de refrão repetitivo e emoldurado por um riff sujo, mais tem aquele efeito adesivo que te faz cantar e até mexer os quadris. Mark Lannegan, praticamente um membro honorário, continua provando que é uma das vozes mais subestimadas do rock, carregando no gogó a mediana “River In The Road”. Na faixa título, que não aparece na edição norte americana do álbum, foi lançada anteriormente para donwload, quem deu as caras e a voz foi Trent Reznor, do Nine Inch Nails.

Mas o creme de “Era Vulgaris” é quando Josh consegue algum ineditismo para o tradicional formato “guitarra-pesada-paranóica-com-vocais-travados de rivotril”. A saborosa e velha conhecida do projeto Desert Sessions, “I Wanna Make It Wit Chu” naturalmente é um dos pontos altos. Desde “The Lost Art Of Keeping A Secret” o QOTSA não cheirava tanto a hit, embalado por um blues rock sedoso, macio, música para strip-teases. Emendada na ótima “3´s & 7´s”, compõe a dobradinha que classifica “Era Vulgaris” como um dos trabalhos menos inspirados do Queens, mas que ainda soa acima da concorrência. Não é nenhuma obra-prima, mas confirma a idéia de que é sempre bom ter um novo álbum de Josh Homme por perto. Ele é um dos poucos sujeitos que tentam passar longe da caretice do nosso mundo moderno.

Legião Urbana- Os quatro primeiros

 

Texto publicado no site do Alto Falante, em 11/10/2006

(Por ocasião dos 10 anos da morte de Renato Russo, me sentei na cadeira e fiz esse tributo pessoal. Espécie de desafio: escrever, na base da memória, o que eu tinha de referências musicais nos discos da banda. Me lembro dessa “missão” com carinho, principalmente porque um bocado de gente comentou e agradeceu ao “tratamento” dado à banda que, falem o que quiserem, mudou a vida de muita gente- este escriba incluso. Dois anos antes publiquei uma coluna no Hoje Em Dia falando dos 8 anos da morte dele)

Muitos reclamam, mas o moribundo Orkut tem sim sua utilidade. Os fãs de Legião Urbana que o digam. Suas “n” comunidades dedicadas a banda serviram como um espaço para trocas de material raro, forúns mil sobre qual o melhor disco, a melhor música, o melhor penteado de cabelo do Dado Villa-Lobos…e claro, acaloradas discussões que muitas vezes pairam sobre o teimoso e inútil argumento: “Eu sou mais fã que você”. Uma das coisas mais legais são as comunidades dedicadas a “analisar” a obra da banda. É a clássica pergunta “O que você acha que ele quis dizer com isso?” estendida para várias pessoas, virtualmente. Caetano Veloso, Los Hermanos e O Rappa são alguns dos artista agracidados com comunidades como essas. E claro, taí uma coisa que é um prato cheio para os fãs da Legião, que vivem quebrando a cabeça tentando decifrar algumas das indecifráveis letras de Renato Russo. São 907 pessoas inscritas na “Analisando: Legião Urbana”. Não faço parte, mas sempre achei a idéia divertida. E inspiradora. O resultado disso está aí embaixo, e é um misto de egotrip com diário sentimental. Resolvi tirar uma onda com alguns cumparsas e me prometi “analisar”, música por música os quatro primeiro (e clássicos) discos da banda- o “V”, meu favorito, assim como de Marcelo Bonfá e do próprio Renato Russo, serviu de inspiração para o texto acima. Sem ajuda do google, dos fãs, da enorme pasta que tenho guardada em casa ou das várias biografias e entrevistas que tenho guardadas sobre a Legião Urbana. A ferramenta única usada foi a memória. Portanto, não me responsabilizo por prováveis erros de informação, como datas ou citações. Isto não é uma matéria, não é uma reportagem. É uma viagem pela memória de um camarada que ainda têm nítido no HD cerebral aquela inútil sexta-feira, 11 de Outubro de 1996.

LEGIÃO URBANA Lançado em Janeiro de 1985

Será: A única música do repertório legionário que esteve presente em todas as apresentações do grupo; uma das favoritas de Russo. Segundo ele, os versos “Tire suas mãos de mim/Eu não pertenço a você“ depois de algum tempo passaram a se referir, mesmo que veladamente, à relação dele com os fãs. Com jeito de hino, recebeu regravações de Simone e Raça Negra – um ótimo exemplo do alcance e da popularidade das canções da Legião. A Dança: Uma das canções mais fortes da banda, versa a respeito do sexismo ( “tratando as meninas como se fossem lixo”) e dá um cutucão na juventude “ no brains”, refletida nos mauricinhos de Brasília. Crescia muito em shows, soando meio apocalíptica. Petróleo do Futuro: Um retrato tragicômico do Brasil da abertura e seus filósofos suicidas. Ainda É Cedo: Inaugurou a série de canções-historinhas.Segundo Renato Russo, era uma das campeãs no quesito “Ei! Essa história é minha vida, você roubou ela!”. Não foram poucos os fãs que apareceram com essa frase na frente do cantor, alguns até com alguma agressividade. Nos tempos de adolescência em Brasília, Russo já fora flagrado gravando conversas íntimas com amigos, expediente que foi abandonado depois de reclamações e ameaças dos mesmos. Recebeu uma regravação clássica de Marina Lima (antes da musa adotar o sobrenome). Perdidos no Espaço: Ficção Científica. O tema já tinha batizado uma música dos tempos de Aborto Elétrico (a primeira banda de Russo), e aparecia aqui entre astrologia – outro fetiche do cantor-no verso “Calculei seu ascendente no recibo do aluguel” e uma cantada bonitinha (“Esqueci seu sobrenome, mas me lembro de você”) Geração Coca-Cola: Primeiro hino do grupo, a canção que definiu uma, ahn, geração (dah!) e que, pasmem, poderia ter sido gravada numa versão “ meio country, tipo Bob Seger”, segundo Dado Villa Lobos. Além de outra tentativa, meio climática, na cola do The Cure. Sugestões da gravadora EMI que, graças a Deus, não passaram de sugestões. O Reggae: É exatamente o que o título propõe, mas numa versão mais próxima do Police do que de Bob Marley. Uma das linhas de baixo mais marcantes do grupo, com Renato Rocha, o Negrete, mostrando porque era considerado o melhor instrumentista do grupo.Segundo entrevistas, ele teria regravado todos os baixos desse primeiro álbum –que por sua vez teriam sido gravados originalmente por Russo. Baader-Meinhof Blues: Da longa série de títulos enigmáticos, que perfaziam boa parte das canções da Legião. Nesse caso, faz referência a um dos mais notórios campos de concentração nazista. A letra é agressivamente linda e trata de um tema constante: a solidão, tendo como cenário a paisagem urbana e comentário político (“Pro seu governo o meu estado é independente”) Soldados: Música bastante influenciada pelas referências secundárias de Russo, o pós-punk de U2 e Joy Division. A linha de baixo, duas notas ré e dó têm grande semelhança com “Transmission” da Joy Division. Aliás, nos primórdios, ela chegou a ser tocada em shows com Russo no baixo e Bonfá na bateria apenas, sem guitarra. E devidamente sacaneada pela Turma da Colina, que cantava o clássico da Joy enquanto os dois executavam “Soldados”. Brincadeiras à parte, é um das melhores letras do disco e, tempos depois, Russo assumiria uma pala gay no verso “nossas meninas estão longe daqui”. Teorema: Sexo oral – “ninguém sabe fazer, o que você me faz”, manja? Por Enquanto: De cara, a surpresa: cadê o clima punk que delineou o disco inteiro? Não têm guitarras, só Russo e uma linha de teclado que ele criou aos 45 do segundo tempo, durante o processo de gravação do álbum. É uma das obras–primas do disco, que foi eternizada por Cássia Eller muitos anos depois, em versão voz e violão. Esta, aliás, era uma das pouquíssimas versões da Legião que recebeu aprovação de seu líder.

DOIS Lançado em Julho de 1986

Daniel na Cova dos Leões: O segundo disco da Legião- que seria duplo se dependesse apenas da vontade da banda-começa com ruídos de rádio (com direito a um trechinho de “Será” no meio da barulheira), parece uma citação a abertura de “Seaching For The Young Souls Rebels”, segundo álbum da banda inglesa Dexys Midnight Runners. A faixa traz uma sonoridade mais sofisticada e letra bandeirosa-belissimamente bandeirola, aliás: “Aquele gosto amargo do teu corpo, ficou na minha boca por mais tempo”; “Teu corpo é meu espelho e em ti navego”. Sobre o título, enigmático, “trata de uma situação onde o cara se vê encurralado”, segundo Russo. Quase Sem Querer: Uma das favoritas do público, pop e perfeitinha. A letra é fácil, extremamente fácil, de um tempo onde isso não significava romantismo barato. Tem aqueles “conselhos fraternais” que os fãs adoram “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”, “mas quais são as palavras que nunca são ditas?”. Zélia Duncan regravou e fez algum sucesso com essa. Acrilic On Canvas: É o oposto da faixa anterior: entrevada, difícil, nebulosa.Agrada em cheio os fãs mais “radicais” da banda, por trazer uma sonoridade pouco pop e uma letra inteira fazendo metaforizando o um relacionamento ideal com a produção de um quadro. E lá vai Russo, construindo uma letra longa e bela, completando com diálogos tão comuns a vida a dois, e finalizando com duas flores pintadas no quadro: “amor perfeito” e “não-se–esqueças-de-mim”. Eduardo e Mônica: Também conhecida como “ clássico”. Canção-historinha que puxou as vendagens de “Dois” para mais de 800 mil cópias na época. Um detalhe musical pouco comentado: a linha de baixo é das mais bacanas da história do grupo, reparem! No mais, é Russo tirando onda com algumas preferências intelectuais (Manuel Bandeira, Arthur Rimbaud, Caetano Veloso, a banda gótica Bauhaus) e construindo uma história fofinha, baseada em um casal conhecido de Brasília. Se bem que ele mesmo já declarou ser o “Eduardo, só que menos tapado”. Central do Brasil: Interlúdio instrumental, momento “quero ser virtuose no violão” (herança dos tempos de tarado pelo progressivismo de Yes e Emerson, Lake & Palmer?). O título homenageia tanto a Central do Brasil, no Rio de Janeiro, quanto o centro do país, literalmente, onde fica uma cidade chamada Brasília, tema recorrente na obra legionária. Tempo Perdido:”Ela não era parecida com Smiths, acabou soando parecida com Smiths”.Nunca consegui entender a diferença entre uma coisa e outra, na boa. Sim, a letra-ou a idéia crucial dela-já existia há muito tempo, mas toda a carga melancólica dela e dos vocais, mais a guitarra “econômica” pagando tributo a Johnny Marr não conseguem desvencilhar “Tempo Perdido” da arquitetura musical do grupo de Morrissey. Principalmente se levarmos em conta que Russo era um grande entusiasta dos ingleses.”Minha dança é do Jim Morrisson, do Doors. Mas como sou desajeitado, acaba parecido com o Morrissey”, explicou Russo uma vez. Metrópole: A letra original era menos polida: “Faça um favor a si mesmo:cometa suicídio. Se jogue de um dos seus mais altos edifícios”. Mas ainda assim a versão gravada é dos momentos mais punks do grupo (“É sangue mesmo, não é merthiolate”). Costura frases prontas típicas da burocracia das grandes cidades de forma direta, além de um recado, do jornalista Renato Russo (que não entendia como a família conseguia assistir ao Jornal Nacional): “Vai passar na televisão”. Plantas Debaixo Do Aquário: assumidamente inspirada pela idéia beatle de incluir fitas rodando ao contrário na composição da música. Linha de guitarra pós-punk, feia, á lá Gang Of Four-um dos favoritos de Russo pra sempre-e um pedido meio The Clash: “Não Deixe A Guerra Começar”. Música Urbana 2: Um retrato de Russo enquanto jovem em Brasília, um blues tocado no violão por ele mesmo. É a “número dois”, já que a primeira música urbana integraria o repertório do Capital Inicial. Andrea Doria: Um dos melhores momentos de Russo como letrista, dói de tão bonito. “Andréa Doria” era o nome de um navio que naufragou, assim como a relação descrita na letra. “Mas percebo agora que o teu sorriso vem diferente, quase parecendo te ferir”. Foi inspirada em um bate-papo com uma amiga, que estava desiludida com tudo. “Quero ter alguém com quem conversar, alguém que não use o que eu disse contra mim” é uma das linhas mais significativas para se entender o porque de Russo se o favorito dos jovens no quesito “música para se ouvir sozinho no quarto”. E retoma temas preciosos na sua obra: honestidade, solidão, confiança. Fábrica: Funciona melhor ao vivo, como na versão registrada em “Música Para Acampamentos”, onde exerce toda a sua vocação para hino, entoada pela multidão. A linha melódica é arrebatadora, daquelas que emocionam de primeira. O riff de guitarra no começo também ajuda. Música urbana: “o céu, já foi azul, mas agora é cinza, o que era verde aqui já não existe mais”. “Índios”: Dificílima obra-prima , por isso nem sempre executada nos shows. Virou até motivo de piada, como foi registrado no “ao vivo” “Como é que se diz eu te amo”, lançado no início desta década. As aspas no título são politicamente corretas: não se trata de índios mesmo, e sim de “índios”, bárbaros urbanos, manés. Segundo Russo, era o hino de um tal “Clube Da Criança Junkie”, cujo presidente seria ninguém menos que Dado Villa Lobos, que barbarizava geral nos tempos de Colina, em Brasília. Uma das propostas originais era ser gravada por um coro de crianças (!), como uma resposta a Xuxa. Os versos são maravilhosos do início ao fim, ajudados pela interpretação antológica do cantor. “Eu quis o perigo e até sangrei sozinho entenda… assim pude trazer você de volta pra mim” é o tipo de coisa que faz o Marcelo Camelo e a torcida do Flamengo inteira caírem em prantos.

QUE PAÍS É ESTE ? lançado em novembro de 1987

Que País É Este: três acordes totalmente influenciados por “I Don´t Care”, dos Ramones, é uma das músicas-símbolo do repertório do grupo. Dos tempos de Aborto Elétrico, é crua, direta e considerada por Russo uma das prováveis causas para a violência que tomava conta de suas platéias. Abre o disco mais punk e político da Legião Urbana, que na verdade é composto em sua maioria por material antigo, serviu como um “presente de Natal” para os fãs da banda, em 1987. Lançado sem maiores pretensões-em se tratando de Russo, um gêniozinho do marketing também-acabou por estabelecer o culto urbano em torno dele e da Legião. Um clássico do protesto político da música brasileira, “atual para sempre, infelizmente”, dizia o cantor. A versão registrada no ao vivo “Como é que se diz eu te amo” tem “cacos” de “Cajuína” de Caetano Veloso e é considerada por Marcelo Bonfá como de “assustar criancinha”. É mesmo. Conexão Amazônica: “A cocaína não vai chegar…”. Política, crua, irônica em relação aos bate papos dos tempos de UnB: “Estou cansado de ouvi falar em Engels, Marx, intrigas intelectuais em mesa de bar”. O tema tédio seria abordado mais diretamente em… Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você): Ou “Césio (com um C Bem Grande Pra Você)”, depois dos incidentes nucleares em Goiânia. Outra homenagem a Brasília e sua falta do que fazer na virada dos 70 para os 80. Depois do Começo: “Tem uma música minha que não gosto muito, chamada “Depois do começo”. Não que ela seja ruim, mas é pretensiosa, babaca.”. Faz sentido. Taí um estranho no ninho no repertório da Legião Urbana: letra completamente non-sense e ritmo feliz, ska. “Amarrar um fio de cobre no pescoço”, “Acender um intervalo com um filtro”…E por aí vai.Até momento “solo de guitarra feito com a boca” está presente nessa canção desprezada até pelo seu autor. Química: É a responsável pelo fim do Aborto Elétrico, já que o baterista original do grupo, Fê Lemos, achava a música “ infantil. Você está perdendo seu tino de compositor, Renato!”.”Essa música é l-e-g-a-l!”, retrucou o letrista. Não adiantou muita coisa. Renato, que era bom aluno em química, aliás, ajudou bastante seu amigo Herbert Vianna, já que “Química” foi acoplada ao repertório inicial dos Paralamas, principalmente para os cariocas ganharem uma moral com a turma punk, nos shows em que dividiam com eles. Eu Sei: O nome original era “18:55”, provável referência ao horário em que Russo compôs essa maravilha, tirada também do baú que rendeu boa parte do repertório desse disco. A música do “sexo verbal” era um must nos shows da banda, onde Russo se arriscava no violão. Quando remasterizaram todo o material da banda nos anos 90, em Londres, Abbey Road, os técnicos de som do estúdio encontraram semelhanças com Beatles. Renato Russo amou a idéia, obvio. Faroeste Caboclo: A “Hurricane” brasileira. Russo já era um grande fã de Dylan quando compôs “Faroeste Caboclo”, autêntico monumento do repertório legionário. Nasceu em sua fase “Trovador Solitário” e era motivo de chacota pela turma punk de Brasília, assim como “Eduardo e Mônica”, também dessa época. Ele garantiu que ela saiu inteira, em poucos dias, sem muita edição. Ele nunca revelou quem seria afinal, a inspiração para a construção dos personagens da letra. Fê Lemos garante que o Jeremias era alter ego de um tal Jeremy, amigo inglês que se correspondia com ele, provocando ciúme letal em Russo. Maria Lúcia é o nome da mãe dos irmãos Lemos. Já seu irmão Flávio garante que a história de amor sangrenta tem a ver com um caso que ele teve com uma pretendente de Russo. Tanta mitologia pode ajudar a explicar o fato de que, pela primeira vez no Brasil uma música com quase 10 minutos conquistava os playlists, alcançando o primeiro lugar. A letra, longuíssima, era cantada de cabo a rabo até pelos menos fanáticos pela banda. Possivelmente um dos três maiores clássicos do grupo. “Sem Faroeste Caboclo, não existiria Raimundos e essas bandas que misturam regional e rock. E sem “Domingo No Parque” de Gil, não existiria “Faroeste Caboclo”, costumava explicar ele. Angra dos Reis: Uma das músicas mais bonitas do grupo, com performance vocal impecável de Russo, um cara que passava suas tardes em Brasília acompanhando nota por nota seus artistas favoritos na vitrola. Destoa completamente do repertório do disco, justamente por ser uma das poucas canções inéditas, novidade mesmo. Mereceu um (dos poucos que a banda produziu, aliás) clipe que fica entre o belo e o cômico. Gravado em (dãh) Angra dos Reis mostra Russo e a rapaziada em momento ecologia e saúde desfrutando a beleza do lugar. O guitarrista Dado não participou da viagem: estava “grávido” na época e suas imagens foram gravadas depois. Mais do Mesmo: “Ei menino branco, o que é que você faz aqui?” pergunta Russo, no início da canção. “Citando Lou Reed, como você” poderia responder o menino. O cantor era uma verdadeira enciclopédia ambulante do rock e não perdia a chance de tirar uma onda com isso, enriquecendo suas canções com citações chiquetê. “Hey White boy, what are you doing uptown?”, perguntava Lou Reed em “Waiting For The Man”, clássico presente no primeiro disco do Velvet Underground.Lembrando que, na época, Velvet era ainda uma lenda urbana, pouquíssima conhecida no Brasil e sinal de bom gosto e conhecimento de causa para quem já conhecia a banda.

AS QUATRO ESTAÇÕES lançado em Outubro de 1989

Há Tempos: “Parece cocaína, mas é só tristeza…”. Renato Russo brincou uma vez, dizendo que “era fácil escrever uma canção como “Há Tempos”. Difícil é fazer uma “In My Life”, uma “Every Breath You Take”. Hehe. Uma das canções mais rebuscadas do repertório da banda, abre “Quatro Estações”, o disco mais tranqüilo, suave, da Legião Urbana. O favorito de Dado Villa Lobos, “até pela via-crúcis que foi concebê-lo”. O disco marca a saída do baixista Negrete, por motivos controversos até hoje. É o disco seguinte a um dos acontecimentos mais marcantes na carreira da banda, o fatídico show no estádio Mane Garrincha, em Brasília. Por isso mesmo, Renato Russo fez opções: “Mais Byrds, menos Pistols”. O termo “religião urbana” entrou em uso mais constante depois deste álbum. Pais e Filhos: Cláaaaaasico. Legião Urbana, literalmente em formato família: uma balada simples, bonita, que ajudou a espantar de vez todos os rumores de que se tratava de um grupo desordeiro, “emissário do capeta”, criados muito em função dos conturbados shows do grupo. Universalmente autobiográfica, como era de praxe na obra de Russo: “Meu filho vai ter nome de santo”, “Quero colo, vou fugir de casa…”, é mais uma das “listing songs” que ele tanto adorava, capturando com singeleza momentos típicos familiares. Mas ele já chegou a declarar que “Pais E Filhos” era uma canção sobre suicídio. (“Ela se jogou da janela do quinto andar…”)·. Feedback Song For A Dying Friend: Carta retorno para um amigo que está morrendo. Cazuza, no caso, que em 1989 revelou publicamente que estava com AIDS. “Toca o talo nu escondido pelo ninho sombrio da semente…”, fazia a tradução Millôr Fernandes, incluída no encarte. Explicitamente gay, é a “saída de armário” mais óbvia que os fãs da banda puderam ouvir até então. Dado em momento guitar band inglesa, saturação máxima nas guitarras. No mais, belíssima poesia em um idoma que Russo dominava como poucos. Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto: Linda! Canção pop clássica como Russo sabia fazer: violão na cara, letra meiga, positiva, singela. Corresponde ao clima meio sixties que a Legião buscou nesse trabalho. O verso “Toda dor vem do desejo de não sentirmos dor” apresentou o budismo para muita gente. Disco também é cultura. Eu Era Um Lobisomem Juvenil: O título na verdade seria originalmente usado para um projeto de um longa metragem que ninguém fez. É uma daquelas favoritas dos fãs mais radicais, com razão: ótima melodia e bons achados na letra (“Palavra é o que o coração não pensa”) Foi uma das poucas músicas que não se tornaram hit nesse disco. A inspiração para a métrica, aliás, foi uma musiquinha de sacanagem! 1965 (Duas Tribos): Essa registrava um momento de grande emissão vocal de Russo nos shows da banda, na hora do “Estou do laaaado do bem!”. O público ia junto, claro! A Legião Urbana têm uma coisa de ser uma banda família, do bem não é, que não é muito o parâmetro adotado pelo pop atual não é Renato? “Sim, mas é a idéia de todas as bandas dos anos 60. Beatles, Beach Boys…”. O tema aqui é a infância vivida naquele Brasil da ditadura, o país do futuro (Autorama, Hanna Barbera, Guanabara, modelos Revell, pêra, usa, maçã…) Monte Castelo: Camões , Renato Russo e um arranjo que faria Rufus Wainright se derreter hoje em dia. Quase todos os casamentos brasileiros se dividem entre antes e depois de “Monte Castelo”. Maurício: sobre um caso que ficou nas estradas da vida. O “Maurício” do título faz referência a um fã enrustido da banda. Lindíssima, como é o padrão do disco: “Me sinto tão só, e dizem que a solidão até que me cai bem”. Qualquer adolescente já se identificou nesses versos. Meninos e Meninas: A “I Am What I Am” do cantor. A comparação é terrível, engraçadinha, que não faz jus nenhum a elegantérrima ( como sempre) saída definitiva de armário de Renato Russo. Como ele mesmo já falou, a música é uma confusão só, uma radiografia exata da cabeça dele (e de todos nós não?), misturando Santo Francisco e São Sebastião, meninos e meninas, a necessidade de ter amigos, dinheiro…Renato Russo dando rumos poéticos às coisas banais do cotidiano. Foi trilha de novela e a trilha da vida de muita gente, homossexual ou não. Afinal, versos como “ acho que o imperfeito não participa do passado” vestem bem qualquer cidadão. Sete Cidades: Pérola escondida de um disco que teve pouco a esconder. Meio solene, com um registro vocal mais grave e letra ultra-romântica ( “Quando não estás aqui, sinto falta de mim mesmo, e sinto falta do teu corpo junto ao meu”). Curiosamente, conjuga o tempo todo a segunda pessoa do singular ( “tu”), escancarando ainda mais o lado “trovador gentil” que Russo tinha em si, influenciado pela literatura de nomes como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade. Foi regravada pelos Titãs e cantada por seu titã favorito, Sérgio Britto. Se Fiquei Esperando O Meu Amor Passar: “Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, dai-nos a paz.” É o último verso de um disco explicitamente pautado pela busca da paz, seja pela família, pelo sexo, pela religião. Parecia cocaína, mas era só tristeza mesmo. E, “All Things Must Pass”, já diria George Harrisson, influência capital para “As Quatro Estações”. E força, sempre!

Mundo Livre S/A- “Bit”

Resenha publicada no jornal Hoje em Dia em 25/10/2004

(Pequena obsessão nacional, se bem me lembro essa caixinha do Mundo Livre S/A foi o mimo mais bacana que peguei para resenhar para o Hoje Em Dia, ainda molecote, segundo ou terceiro período de jornalismo. Tempos depois entrevistaria Fred 04 algumas vezes para o Alto Falante. Um destes papos está aqui. )

O material recolhido em “Bit” (Deck Discs) corresponde exatamente ao termo inglês usado para batizar a caixa: informação. Umas das poucas bandas que se aventuraram neste terreno durante a década de 90, o Mundo Livre S/A construiu nos quatro discos presentes aqui uma carreira (“artigo” raro nestes tempos) pautada pelo conteúdo – seja ele político, musical, estético ou de qualquer outra (des) ordem presente desde a estréia,em 1994. Sintomático então parece ser o lançamento de “Bit”:um box set reunindo os quatro primeiros cd´s do grupo pernambucano, em tratamento de luxo e um dvd bônus, em um momento crucial, expondo o momento confuso do mercado fonográfico nacional.

Tem a chancela da iniciante( e promissora) Deck Discs- com quantas “Pittys” se paga um Mundo Livre S/A?- no momento em que a banda pertence a independente e longe demais das capitais Candeeiro Records, sediada em Pernambuco. A feliz nomeação corresponde também a oportunidade de revisar a carreira fonográfica da banda, que já existia desde meados da década de 80 em Jaboatão, região metropolitana de Recife. E, mais importante, comemora também os 10 anos do manguebit, movimento importante o suficiente para receber tamanha honraria – e por que não ? – correr um grande risco comercial em tempos de pirataria, MP3, e crise do mercado.

Nesta celebração, “Bit” une-se ao também recém lançado “Propagando”, DVD que captura em palco e documentário a banda parceira Nação Zumbi e a um livro totalmente dedicado ao assunto com lançamento previsto para este mês pela autora Alê Oliveira( atual produtora do Mundo Livre). A caixa coleta material da banda gravado nas duas gravadoras por que passou, a seminal Banguela e na recém -falida Abril Music. Lar fonográfico de algumas bandas definidoras da década, mesmo que seguindo direções opostas( como Raimundos e Graforréia Xilarmônica), a Banguela, fundada por Carlos Eduardo Miranda e parte dos Titãs ( idéia surgida depois que o então repórter da extinta Bizz apresentou aos músicos sua folclórica “malinha” recheada com discos de novos artistas durante uma reportagem) foi responsável pelos dois primeiros discos da banda.

A estréia “Samba Esquema Noise”(94) decodifica radicalmente todas as particularidades que iriam se tornar marca registrada de Fred 04 e cia . Trava diálogo reverente/ruptural com Jorge Ben desde o título ( um trocadilho com a estréia de Ben, “Samba Esquema Novo”) e no “Rapaz do B…Preto”, uma quase releitura do “Homem Da Gravata Florida” de Jorge, onde a frase “qualquer recifense vira paulistano” tratava com ironia máxima o caráter centralizador do eixo sudeste na cultura brasileira. Se a palavra chave do vocabulário “mangue” é diversidade(“ O mangue injeta, abastece, alimenta…” discorre “Cidade Estuário”)o disco justifica a existência do termo na dobradinha cavaquinho/guitarra pesada do semi-hit “Livre Iniciativa” e em muitos acordes e versos entre os backing vocals da global Malu Mader (“Musa Da Ilha Grande”) , o berimbau hipnótico do conterrâneo Naná Vasconcelos (“Rios (Smart Drugs) Pontes…”) e o texto musicado de R.D Laing em “Terra Escura” .

É um dos itens mais significativos da MPB de sempre, degrau importante de uma escada evolutiva que perdeu muito em altura nos últimos anos. Em “Guentando a Oiâ” (96) a carta de apresentações da banda já dispensava notas de rodapé e a mensagem já corre hábil pelo “Free World S/A”, mundo onde os “Computadores fazem arte”, artistas fazem dinheiro e o letrista Fred vai costurando panfletarismo (“Militando Na Contra Informação”, “Desafiando Roma”, onde estão as primeiras – de muitas- referências ao Zapatismo)explícito a temas mais particulares. As drogas aparecem veladamente em “Leonor”(“cheira essa flor/ que eu roubei pra te dar”) e de forma mais explícita na obra prima “Pastilhas Coloridas”, do explosivo refrão “qualquer droga era boa”. Se a estréia se assemelhava a um agressivo conjunto de “statements”, em “Guentando A Oiâ” aparece o cronista social- com ímpetos de repórter- do jornalista Fred 04, filtrando o mundo feminino (“Tentando Entender As Mulheres”) e a infame relação norte -sul, na genial “Destruindo A Camada de Ozônio” em fartas doses de samba, noise e outros esquemas.

De casa nova, grande e bem equipada- a gravadora Abril- a banda teve estofo para ousar mais. “Carnaval Na Obra” (98), teve seu título inspirado durante um almoço na capital paulista, onde os garçons do bar perguntaram aos (nordestinos) integrantes da banda onde era a “obra” que estavam trabalhando. A carapuça serviu para os músicos que a adotaram em um disco de estrutura quase caótica, mas permanecendo uma lógica interação entre conceito e música, onde “marginais” do terceiro mundo colocavam o dedo nas feridas do primeiro. Parte disso pode ser creditado à produção do disco, assinada a 20(!!!) mãos por Bid, Apollo 9, Edu K e Miranda , mas também a uma concepção sonora mais global , o que permitiu Anónimo do mexicano Café Tacuba cantar solto no groove perfeito de “Quem Tem Bit tem Tudo” , Jorge Du Peixe somar “Dr Dre e maracatu” na provocativa “O Africano e o Ariano” e “Compromisso De Morte” , que selava Fred 04 como o grande letrista de sua geração. No saldo final, uma folia de novidades, em um trabalho abusadíssimo e considerado por muitos como o ponto alto da banda.

“Por Pouco” (2000) cozinha todos os ingredientes anteriores na medida certa, sem os arroubos apresentados no disco anterior. Hay que endurecer, mas sin perder la ternura, e assim o trabalho se desenvolve, tecendo alguns hits perfeitos que o país ainda não conheceu , como a bossinha “Meu Esquema”, a reprise de “Melô das Musas” do primeiro disco e a versão para “Minha Galera”, de Manu Chao. E o círculo se fecha com a presença de “Mexe Mexe”, balanço inédito oferecido por Jorge Benjor para seus pupilos mais dedicados. Excelente resgate da primeira década de vida do Mundo Livre S/A , a caixa com os quatro primeiros discos da banda chega de forma inesperada, mas absolutamente necessária .Mantendo o frescor criativo que faz destes álbuns a matéria prima de algumas das melhores produções atuais no pop brasileiro, como Mombojó e Wado. É a prova concreta de que quem tem bit ,tem tudo.