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Janelas de Hopper

Coluna publicada no jornal O Tempo em 03/03/2014

Escreveu o filósofo, urbanista e arquiteto francês Paul Virillo em seu magnífico “O Espaço Crítico”, de um profético 1993: “A primeira janela é a porta, a janela-porta, necessária ao acesso e a realidade da residência, já que seria impossível conceber casas sem meios de acesso”. Janelas e portas. Eu sei, são tempos de “espiadinhas” nos reality shows, acesso midiático à carne humana, carnavalizada, superexposta, precificada. Mas temos, ainda bem, referências mais belas em relação ao assunto, como nos lembra o canal televisivo Arte 1, que está exibindo este mês o belo documentário “Edward Hopper e a Tela em Branco” sobre arte e vida do brilhante artista norte-americano.

Minha memória quase imediata em relação a janelas me remete a Hopper, também conhecido como o pintor que melhor representa nossa interioridade, voyeur delicado e genial de nossas intimidades. Acredito que sua “teimosia” em pintar janelas, frestas, destacando a luz do sol editada por molduras que invadem com suavidade e melancolia os quartos pintados por ele são, na verdade, meio de acesso ao que somos.

O corpo, afinal, é a casa da alma, certo Virillo?

Entendo o pânico das pessoas – eu incluído – diante de uma obra ligada a, aham, cof, artes visuais. Aquela porra daquele retângulo emoldurado olhando tiranicamente pra gente e cobrando: “Tenha algo a dizer, fale das minhas cores, dos meus traços, das minhas formas, da minha assinatura”. E a gente ali, tentando decifrar (o quadro e nós mesmos) se perguntando onde foi que erramos. Ah, a alta cultura, os símbolos artísticos elevados, esse fardo pesado que carregamos, que nem os boêmios ingleses do século XVIII, com seus cafés e sua vontade de “espaço público”. Afinal, eles também sonhavam uma espécie de democracia contemplativa.

Pense bem, as canções tem versos, o cinema tem movimento, a vida tem ação. Se prender, surpreso, reconhecido, diante de um quadro, é vida em câmera lenta. É cobrar silêncio no mundo ruidoso em que estamos afundados. É querer concentração em um universo hipersaturado de imagens velozes e estonteantes. Secretamente, gosto de acreditar que a solução de tal “problema” não esteja no coletivo, no que está “fora”: é algo pessoal, intransferível, uma mediação entre o propósito do artista e a vontade do espectador. Bateu ou não bateu, simples assim.

Bem… não é tão simples assim, a gente sabe, e quem somos nós para ignorar as inúmeras, geniais e necessárias contribuições que tantos nos sinalizaram, no sentido de buscar uma apreciação estética abalizada. Mas é bom quando alguém– algum artista, alguma obra, algum instante de apreciação qualquer– consegue elevar e sobressair, sobre nossos sentimentos, qualquer discussão sobre estética, técnica, contexto histórico. Aquela coisa: a melhor arte muitas vezes não se explica, se sente.

Hopper me faz sentir. Com suas janelas que são o campo para a luz, descortina o que somos, profundamente. As mesmas janelas que filtram o brilho do que está fora, encerram uma luz interna, que permite iluminar nossos espaços subjetivos mais sombrios, ocultados por tudo que está lá fora. Como farol menos interessado em sinalizar uma rota de navegação e mais disponível em iluminar aquelas camadas mais profundas, o oceano de significados que guardamos, distantes do mergulhos superficiais: “sunken treasures”, tesouros naufragados, como cantou Jeff Tweedy, do Wilco.

Hopper é, graças, muito reconhecido. Penso se não concordo com o grande escritor e crítico britânico Tony Parsons, que “Nighthawks” (talvez sua obra mais conhecida) é o “maior” quadro feito. Não dá para negar o apelo e a beleza intrínsecas à obra. O olhar macro sobre uma quarteirão, um bar/café/restaurante que nos leva à percepção do quão micro podemos ser, diante do mundo lá fora, além das portas e janelas. Qualquer bêbado e/ou solitário; qualquer ser humano, enfim, pode se sentir autorretratado, na obra-prima citada pelo britânico.

Curiosamente, a obra mais famosa do pintor não é tema de destaque do documentário. Comeram bola, os franceses. Porque outro dia mesmo me emocionei ao notar que, do ponto de vista que a imagem foi focada, parece que, se dentro do quadro, nosso olhar o foca o solitário no bar como se estivéssemos o observando de uma… janela.

Todo Tinga tem um pouco de Stuart Hall

Coluna publicada no jornal O Tempo, em 17/02/2014

Um dos textos mais afiados de Stuart Hall, negro, jamaicano, pensador e teórico gigantesco falecido na última semana, “Que Negro É Esse na Cultura Negra?”, expõe com impressionante precisão os tristes dias que correm. Aspas para o mestre: “Para que não pensem que meu otimismo da vontade agora já superou completamente meu intelecto, deixem-me acrescentar um quarto elemento que comete o atual momento. Se o pós-moderno global representa uma abertura ambígua para a diferença e para as margens e faz com que certo tipo de descentramento da narrativa ocidental se torne provável, ele é acompanhado por uma reação que vem do âmago das políticas culturais: a resistência agressiva à diferença; a tentativa de restaurar o cânone da civilização ocidental; o ataque direto e indireto ao multiculturalismo; o retorno às grandes narrativas da história, da língua e da literatura (os três grandes pilares de sustentação da identidade e da cultura nacionais); a defesa do absolutismo étnico, de um racismo cultural que marcou as eras Thatcher e Reagan; e as novas xenofobias que estão prestes a subjugar a Europa”. Dois dias depois de sua passagem, um episódio confirmou que a mente brilhante de Hall ainda vive e viverá por muito tempo.

Talvez seja a dimensão macro dos estádios de futebol, que deixa tudo o mais muito apequenado – mesmo sendo um estádio lixo como aquele em que Cruzeiro e Real Garcilaso jogaram na semana passada, prova fatal do equivocado glamour (aquele, que adora pontuar que os jogadores se preparam para uma “guerra” ao jogar a Libertadores) que se impõe sobre um torneio que, na verdade, cada vez mais amplifica nossas misérias continentais.

Talvez seja a proporção muito covarde que a imagem na televisão explicita a de um sujeito sendo assistido, sendo julgado, sendo ofendido por milhares de outras pessoas. Um tribunal composto pelo pior material que a espécie humana é capaz de fazer. Em foco, um negro que a cada toque na bola recebia hediondas mímicas de símios (gritos, uivos, socadas no peito) de seres humanos que pareciam pouco ter feito para evoluir de tal estágio inicial.

Talvez foi a defesa natural por alguém ofender sua paixão, jogar lixo no seu quintal e mais especificamente em um sujeito tão admirado por grande parte da torcida (parte da qual me incluo) e até de torcedores rivais – vide as espetaculares manifestações de apoio vindas de todas as cores, depois do ocorrido, que não se furtaram em lamentar a situação ao mesmo tempo em que louvavam a postura e a trajetória do jogador.

Mas, creio que as lágrimas de ódio derramadas na inútil madrugada daquela quinta-feira venham da convicção de que o que Tinga passou foi na verdade a exposição à uma arena pública selvagem, bestial, ignorante, indesculpável. E lupa nenhuma dimensiona o tamanho da estupidez.

Muitas vezes essa arena se chama estádio de futebol. E se chama Facebook, se chama rua. Se chama Peru e se chama Brasil. Estamos todos gravitando frágeis nesta arena, despreparados, desprotegidos. Todos: o simpático Tinga ali foi também a vadia hostilizada nas marchas, os assassinatos de gays na Frei Caneca, os peruanos do Brás, as vítimas de assaltos nos bairros nobres, as vítimas da vida nos bairros pobres.

Estamos sozinhos no meio do campo, na base do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, torcendo para que o touro seja Ferdinand. Estamos reféns dos comentários das notícias da TV, nos comentários dos sites mais populares, nos vídeos postados, nos likes discutíveis, num anonimato, ao contrário do previsto, cada vez mais que insiste em revelar um monstro hostil e visível. Um outro gigante que, assassinado a cada bala, a cada insulto, a cada sede de vingança (e não por justiça), só faz crescer.

A humanidade está doente. Ela está enfraquecida, imunidade baixa, propícia para vírus oportunistas como estes que, como Hall nos lembra, estão sempre por aí, ocupando as tribunas dessas arenas. A fragilidade ética, moral em que estamos nos equilibrando é exercício para muitos e bons. O problema é que os donos dos circos são daqueles que não servem nem para limpar a merda dos animais enjaulados. Na real, este animais são eles mesmos. Enquanto estes seguirem vestidos com essa fantasia, todo(s) Tinga ainda guardará Stuart Hall.

Precisamos falar sobre drogas

Coluna publicada no jornal O Tempo em 27/01/14

Em algum momento entre a agulha encontrando a veia, e o conteúdo da ampola, divinamente entrando no corpo, aquele glorioso micro segundo onde se sente a dor indo embora, ficou fácil demais entender porque as pessoas usam drogas. Eu incluso, claro, com meu tabaco, minhas cervejas, meu Puran T4 e neosaldinas muito ocasionais, além de umas porcarias que a gente acaba lendo ou escutando de vez em quando.

No caso, o que me chapou foi uma dose maravilhosa de um analgésico muito do comum, que singularmente fez desaparecer a dor insuportável que eu sentia devido a (mais) uma maldita crise de pressão ocular, dor que desta vez fez o favor de ir conhecer cada centímetro possível da minha cabeça. Sensação semelhante tive quando alguns dias mais tarde (e o nome disso é inferno pós-astral, anotem) quando o dentista espetou outro remédio na gengiva e, feito varinha mágica, fez desaparecer aquele sofrimento que barrava meu sono há dias.

E alguns ainda minimizam o poder da curiosidade: saí do hospital doidinho para conhecer morfina, potente e legendário analgésico.

Drogas: há quanto tempo fiquei sem admirar vocês? Eu, que sempre recusei aquele “remedinho de dor de cabeça” para curar a ressaca? Que passei a vida inteira na base da homeopatia e só fui conhecer uma rotina de medicações industriais quando, aos vinte e tantos, o hipotireoidismo chegou? Que tantas vezes recusei aquela ida suspeita ao banheiro da festa, aquela pílula que te acende, aquele quadrinho que derrete e te leva pra longe? Me rendi, momentaneamente e maravilhado, aos poderes da química. Bem vindo aos pós-trinta anos!

Drogas são a anestesia da alma. Enfermeiras supremas. Lícitas ou não, lúcidas ou não, simples e complexas ou não, feias, bonitas, tristes ou alegres. Ou não. Não são a única forma de curar todos os males. Não são sempre estritamente necessárias. Mas estão aí, disponíveis e sedutoras, para gente se esbaldar, e ninguém faz questão de esconder já que são usadas, citadas, apologizadas em uma porcentagem faraônica de produtos da indústria cultural, midiática e da informação.

A culpa é de quem? A culpa é da gente, oras. Do rico, do pobre, do direita e do esquerda, do ateu e do religioso, de todos. Do avô que tomava a cachacinha que passou o lenço para o filho cheirar lança perfume que influenciou o neto a experimentar outras coisas que o tataraneto ainda vai descobrir graças ao poder da ciência, da indústria farmacêutica e da curiosidade dos doidões– do chá de fita cassete à Timothy Leary– amém. Da avó que tomava religiosamente o remedinho para a dor de cabeça e a filha aprendeu que todos os males da neta se resolviam na farmácia que gerou uma tataraneta meio triste e distraída que precisava de um tarja preta para, digamos, socializar.

Nada mais careta– ou seja, anti-drogas– que essa escadinha geracional tosca que propus. O que sei, claro, é que existem usos e funções. De todos os tipos. Alguns já estão logicamente aceitos e entronizados na gente. Outros ainda estão em aberto, e enquanto isso, pagamos, todos, um preço absurdo por esta questão que vem malhada antes da gente nascer.

E se a culpa é de todos, a culpa então é de ninguém, e talvez não seja uma questão de culpa. Talvez seja uma questão de educação, orientação, possibilidades, oferecimentos, entradas e saídas melhor sinalizadas. Porque parece brincadeira quando alguém se surpreende com o alto consumo de crack no Brasil. Parece brincadeira quando alguém se surpreende com os sedutores comerciais de cerveja. Parece brincadeira quando alguém se surpreende com um helicóptero cheio de cocaína voando por aí.

E claro, parece brincadeira quando se surpreendem com o aumento no consumo de anti-depressivos no Brasil. Toda cura para todo mal, versão tradicional e família.

O que não é brincadeira é o tanto que, na real, na real mesmo, não levamos nada disso a sério. Falar em drogas é se render ao simplista campo da hipocrisia da qual todos nós estamos inseridos, ainda mais preocupados em enfiar o dedo na cara dos outros e deixar a outra mão livre para empurrar um remedinho qualquer goela abaixo. É fácil se livrar desse paradigma? Não, mas viver também não é, meu chapa. E viver sem as drogas, assumo, derrotado, é pior ainda.