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Uma mosca que ainda voa por várias gerações na sopa da MPB: “Toca Raul!”

crédito: Juan Luís Guerra/Divulgação
crédito: Juan Luís Guerra/Divulgação

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Hoje Em Dia em 26/08/2004

Em qualquer bimboca do país que tenha um palco, uma banda tocando e um público espirituoso, esse grito será ouvido. Sim, é uma espécie de praga, mas que não pode de forma alguma resumir a figura de Raul Seixas à uma piadinha qualquer. Apesar de muitas vezes ter sua obra reduzida a fetiche para neo hippies ou malucos beleza de plantão, Raul Seixas representa uma fatia muito mais representativa da música popular brasileira. Foi o fio condutor de uma linhagem que teve poucos seguidores – e boa parte deles equivocados – onde o cancioneiro popular brasileiro tem encontro com o rock n´roll tradicional americano, decodificando assim uma obra personalíssima, um mosaico sonoro de boleros, maxixes, baladas e rocks atrevidos que, se reunidos, apresentam um conjunto coerente e único. Para usar uma imagem, assim como os tantos personagens que assumiu, Raul era uma “com-tradição”, que espelhou nas suas metamorfoses o espírito rebelde de pioneiros como Eddie Cochran e Jerry Lee Lewis, mas com um sotaque brasileiro inédito, carregando consigo uma identificação incrível com o popular que está ali vivendo, esperando a morte chegar, sem maiores esperanças. Uma iconografia marcante, de apelo popular menor apenas se comparado a Roberto Carlos Em suma ele foi muitos em uma pessoa só, por vezes, caricato em excesso, mas honesto com sua própria loucura.

Nas obras de Raul é possível encontrar o novo pulsando em diversas direções, já que, poderia supor, ouviu Lennon criticar que “é fácil viver com os olhos fechados” em “Strawberry Fields Forever” e assumiu que não queria ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Para isso pautou sua obra em uma diversidade rítmica e temática que encontra eco – mesmo que não diretamente – em boa parte da melhor MPB atualmente. Sim, é possível repercutir e enxergar o legado de Raul no menestrel Wander Wildner em “Tu ès O MDC Da Minha Vida”, um pré mangue bit em “Mosca Na Sopa”, o rock safado da Cachorro Grande em “Al Capone”, na poesia urbana de Marcelo Yuka. Porque ele se fartou naquilo que o rock traz de belo: a falta de linearidade, o apelo dionisíaco que faltava a bossa nova ou aparecia apenas timidamente na Jovem Guarda. Era cabra macho em excesso para a carnavalizante Tropicália, mas sensível em canções do amor demais além de cronista afiado do falso milagre nacionalista.

Tudo isso sem pedir licença ou benção para entrar de sola na MPB. Sobreviveu ali como um corpo estranho- assim como o foram Melodia, Macalé, Ben- mas muito bem vindo. E enquanto os Doces Bárbaros estão confortavelmente autenticando eterna primavera, Raul foi enterrado como herói, mesmo não sendo um representante típico da baianidade aclamada por conterrâneos. Talvez porque Raul era maior que a própria Bahia, uma expressão genuína do rock Brasileiro. E agora, alcançados 15 anos de sua morte, por uma série de fatores que se confundem com sua própria obra, o tal roque nacional desbravado por ele pode ter alcançado sua maioridade. Já não é mais uma criança.