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Nostalgia, aqui me tens de regresso

Coluna publicada no jornal O Tempo em 13/01/14

Ser jovem: que roubada. Pela simples razão de que as chances de você carregar um enorme fardo chamado nostalgia, são muito grandes. E claro, sempre existirá uma obra, uma canção, um filme para te lembrar disso. O culpado da vez por tamanho “sofrimento”, no meu caso, é “As Vantagens de Ser Invisível”, película de 2012, que assisti apenas recentemente. É o tipo de história que aumenta ainda mais o peso que sentimos em relação a carregar o passado. Só que, estranhamente, em vez de suar, querendo estacionar esse fardo logo no chão, choramos felizes e satisfeitos por não conseguir largar mão.

O bonito do filme é, basicamente, nos mostrar que, em alguma época, era possível ser invisível, ao mesmo tempo em que podíamos ainda sonhar em sermos heróis– aliás o filme é candidato para o troféu melhor uso da canção de Bowie em todos os tempos. E por que vemos beleza nisso? Seguramente na constatação de que alguém só é invisível hoje se quiser. Ninguém é invisível hoje em tempos de selfies tecnológicos e existenciais. Nem o que passou, é invisível mais: neste sentido não existe coisa mais sintomática que o You Tube, aquele enorme arquivo de imagens e sons que nos faz, o tempo todo nos medicar com doses extras de passado. Pensar/assistir/ visitar/compartilhar algo raro é cada vez mais raro.

Mas a sagaz e apaixonante turma do filme não era notada pelos outros intencionalmente. Eles eram os esquisitões, os diferentes, sublimavam os clichês do sujeito vencedor tipicamente retratados na adolescência norte-americana. A graça é que eles viam vantagem nisso: era uma espécie de heroismo conservar suas individualidades no meio de tantas imposições sociais.

É importante lembrar que o filme é muito mais bacana que esse resumo sem sal que coloco aqui: trata-se de um registro sensível e inteligente para um gênero (teen movies) constantemente idiotizado em outras produções.

Mas semanas após secar as lágrimas derramadas depois de assistir ao filme, me ponho a pensar: esse sentimento de uma certa nostalgia confortável no qual estamos excessivamente inseridos é bom? Vivendo numa sociedade retrô como vivemos, trata-se de um autêntico dilema. A questão é que, com tanto acesso ao que passou, será que conseguimos andar para frente? Não estaremos satisfeitos, estacionados feito Bill Murray no dia da lontra, em “Feitiço do Tempo”, de volta a um passado imodificável?

Porque o que assusta é a constatação de que não é só a tecnologia ou a mídia que nos transporta diretamente para o passado. Não são apenas citações ou referências que vemos em filmes, canções etc. Vivemos tempos em que o pastiche– uma versão nova para uma velha história– captura com precisão sentimentos, subjetividades, que são acionadas a todo tempo.

Aquele tipo de memória que transforma ossos em vidros, que nos transporta para uma série de acontecimentos que, logicamente, não poderiam estar de volta. Mas como, se estão ali, na nossa frente, na série de TV, no filme do cinema, na canção no computador? De certa forma, é uma magia inversa e sádica, e pode apontar uma obsessão com a juventude eterna. Um tema tão clássico que segue, reprocessado, em níveis inacreditáveis como se não pudesse chegar a se tornar um… bem, um clássico, oras.

Queremos ser Dorian Gray, e não o seu retrato– ninguém quer ser maculado e machucado pelo tempo. E um dos efeitos naturais da passagem cronológica é justamente o esquecimento, a perda de algo. Nossa febre por arquivo é um antídoto contra isso. Mas não seria também um veneno? É muito bom ter um John Hughes na Sessão da Tarde para nos lembrar que estamos ali ainda, de castigo em uma manhã na escola; apaixonados pela garota de rosa choque, curtindo a vida adoidado, sendo que na real estamos bem longe disso; pelo menos daquela noção de curtir a vida adoidado.

“As Vantagens de Ser Invisível” é também aquele velho truque: temos saudades dos “melhores piores”anos de nossas vidas, numa analogia prática para a adolescência. Somos seduzidos pelo canto da sereia de filmes como ele e nos afogamos, satisfeitos, em um longo e interminável mergulho na nostalgia. Satisfeitos, procuramos tesouros em barcos naufragados. Me pergunto quando nos satisfaremos com o barco que veleja, instável na superfície do presente. 

Homem

Coluna publicada no jornal O Tempo em 20/01/2014

Tenho quase certeza que foi o Luiz, pai da minha namorada, que do alto da sua sabedoria e gentileza soltou um dia desses, num bar: “A geração de vocês é muito melhor que a minha”. Reclamão que sou, claro que discordei em vários aspectos do que ele falou. Mas, otimista que também sou, concordei também, e atesto isso em pequenas e preciosas coisas.

Penso nisso ao lembrar da história escabrosa da última semana, um argumento triste e deprimente que derrubaria de pronto a tese de meu sogro. Kaique Augusto Batista dos Santos, de 16 anos, morreu na capital paulista na semana passada. Kaique foi encontrado sob o viaduto Nove de Julho, no centro de São Paulo. Desfigurado. Sem os dentes. Com uma barra de ferro atravessada na perna, segundo depoimentos dos familiares. O que indica que ele não morreu; ele foi morto, ele foi violentado, ele foi roubado do direito (e do dever!) maior que ele e todos nós temos: viver.

Sua morte foi registrada como suicídio pela polícia. Para contestação da família e de todos aqueles que consideram justa toda forma de amor. Para aqueles que – sem meias palavras – deveríamos ser todos, não outros. Porque o outro sou eu, o outro somos nós.

Nós, que sabemos que esse menino foi morto por ser gay. Esse menino, que não virou homem, que foi morto por, simplesmente, ser.

É o lado cruel de uma espécie de anacronismo que vivemos na contemporaneidade: ao mesmo tempo que buscamos valores que faziam das gerações anteriores as nossas, melhores, como a maior ocupação do espaço público e a busca por uma desacelaração cordial do tempo, assistimos antigos valores saindo da terra, como sementes maléficas, como o despertar de uma brutalidade, de uma ignorância que sempre esteve aqui. É claro que certas coisas nunca foram devidamente enterradas.

O que me leva a reclamar, a me indignar, a despertar em mim mesmo sentimentos gêmeos de brutalidade e revanche. Mas o que, otimista que sou, me leva desesperadamente a buscar rastros de uma humanidade que, tenho certeza, estão por aí.

Um deles caiu nos meus ouvidos no fim do ano passado. Trata-se de uma canção de uma banda mineira, independente, chamada Lupe de Lupe. Um grupo de meninos jovens, em seus vinte e poucos anos e que parecem ter como lição ler o seu tempo, musicalmente. O que de cara me interessa.

“Houve um tempo em que nós dois éramos feito unha e carne / Houve um tempo em que nós dois éramos inseparáveis / E por isso imbatíveis”, começa cantando o vocalista Vitor Brauer, imagino, fazendo referência a um amigo que morava com ele no interior (“Nascidos numa cidade construída na boca do inferno”). Naquela relação, surge a descoberta: “Quando você assumiu que era gay, eu nem liguei, eu nem liguei / E na hora eu nem pensei, mas pior /Eu nunca me importei”. A informação é encarada com o que parece ser uma naturalidade (“Os pássaros voam alto no céu, os peixes mergulham profundamente no mar / E o que nos resta a fazer é empurrar / Todos os limites da extensão do nosso próprio olhar”) , mas meio incômoda (“Sem nenhuma malícia pra ver, nós fomos nos separando / Achando que era tudo natural, tudo natural”). Esse incômodo parece virar algum tipo de certeza (“Feito homens cegos e um elefante, nós te julgamos e te analisamos / Mas hoje eu sei, hoje eu sei, que eu errei. Nascidos num lugar em que se quebra regras pra sobreviver / Eu não quebrei a pior das regras, eu não quebrei”)

Arrependido, os versos finais da canção são de tirar o fôlego – e vale muito a pena conferir a interpretação hipnotizante da banda: “25 anos sem beijar um homem / 25 anos pra chegar e te dizer / Que se eu tivesse beijado um homem, esse homem seria você”).

O nome da canção é “Homem”. Aquele que Kaique desgraçadamente não chegou a ser, aquele que me vejo com alguma nitidez, aquele que, se tudo der certo, será a busca e a base das próximas gerações. Homem em seu sentido mais amplo, que deveria, afinal ser um único.

É a coisa mais bonita que li/escutei em muito tempo. É obra de artista. É também um presente que ganho desta geração posterior a minha, e é também a constatação de que a voz da geração anterior se prova sábia: os versos, a força, a coragem, a raiva, a indignação dos meninos me asseguram que, sim, eles são melhores. Que a geração de Kaique, homens do porvir, pavimentem um futuro ainda melhor. E que dias trágicos como esses fiquem onde já deveriam estar: no passado.

 

Comentário a respeito de Belchior

Coluna publicada no jornal O Tempo em 06/01/2014

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu múrri, mas esse ano eu não morro! Feliz ano novo pra você também, Belchior, que escreveu esses imortais versos nos anos 1970 e, como nos informa a belíssima reportagem de Marcelo Bortoloti, publicada na edição on line da revista “Época” da última semana, agora está solto no mundo, nômade, um móvel que não para de se deslocar. Daqui do Nordeste, tão descrito em seus versos, o sol na cabeça (a felicidade é mesmo uma arma quente, John!), mando saudações. E aproveito para agradecer, já que seu “Alucinação”, tua obra-prima de 1976, foi um dos “meus” discos de 2013. Me lembro bem: noites e tardes em Belo Horizonte nas manifestações, para no dia seguinte, passar pelo centro para ir trabalhar, tentando entender tudo aquilo que estava acontecendo, te ouvindo cantar.

Você nunca foi sedentário mesmo: impressiona os deslocamentos de visões que impõe em sua lírica, especialmente nesse disco. Entrecruzam-se versos como “a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter”, já que o negócio era “nunca fazer o que o mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar”, para logo na música seguinte, você listar carinhosamente o preto pobre, os humilhados do parque com seus jornais, o rapaz delicado e alegre que canta e requebra (é realmente demais!) e os dois policiais, cumprindo “seu duro dever e defendendo o seu amor e nossa vida”. E logo depois, avisava para que alguém não cantar vitória muito cedo, nem para levar flores para a cova do inimigo, já que “as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo e podem fazer renascer o mal antigo”.

Que ano foi 2013, cantado por você, Belchior. Para mim, para todos e para você que, como nos informa a reportagem, singrou mares inquietos, até chegar em Porto Alegre. E por lá seguir, caos no cais, nau estacionada mas sem rumo, entre filosofias, galos, abrigos, vinhos, quintais e calotes. Acompanhado de uma moça, Edna Prometheu (nem a ficção inventaria um nome como esse, vamos combinar), que você conheceu em 2005, e com/por ela largou tudo – família, fama, filhos, carros, carreira – para escrever uma nova história no papel (uma versão popular do clássico literário “Divina Comédia” de Dante, obsessão eterna) e uma nova estória na vida.

Ao que tudo indica, uma Yoko para o seu Lennon, certo? Acontece. E só o tempo irá dizer qual o protagonismo ou a qualificação ela que assume nessa história toda. Mas salta aos olhos a declaração de um amigo seu, que acompanhou o desenrolar inicial deste enredo meio maluco.
“Eles juntaram as utopias”, disse o artista plástico José Roberto Aguilar. Beleza. Como disse Slajov Žižek , não podemos perder os olhos dela, das utopias. E pode-se até não concordar com o jeito meio bonachão, ultracarismático do pensador esloveno. Pode-se até não entender, passar raiva com a explosiva mistura de Marx e Lacan que ele desenvolveu em alguns de seus sedutores artigos e livros. Mas nesse ponto, de mirar o impossível, é … bem… impossível, não erguer o copo em sua direção. Porque no fim das contas, é o que nos resta: sejamos razoáveis, sejamos otimistas, miremos o que nunca vamos conseguir. Taí uma boa meta para o próximo ano, junto àqueles quilos a perder, os cigarros a apagar, buscar o melhor sono para o maior sonho.

Utópico que sou, sigo te ouvindo e sigo interessado em alguma teoria, em alguma fantasia ou um algo mais, Belchior. Espreguiçado sob o atlântico, temperei peixes e camarões com as suas alucinações e as de Gilles Deleuze e Felix Guattari e seus “Mil Platôs”. Ótimas companhias de viagem nessa viagem. Acredito que você, Belchior, um dos grandes filósofos de nosso cancioneiro, deva conhecê-los. E quiçá se reconhecer, quando eles escrevem sobre mapas e não decalques; sobre rizomas e não raízes, conexões, deslocamentos, sobre fugir das territorialidades endurecidas. Será que você também descobriu que não podemos ser os mesmos e não podemos viver como os nossos pais? Penso que você deve ter lido – e entendido – quando eles escrevem que o rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga.

Pode ser que a psicanálise – aquele analista, amigo seu – sirva como um ponto de apoio para você futuramente, como diz alguém na reportagem. Mas o que esses franceses sugerem parece possível para te interpretar: se apoiar diretamente sobre uma linha de fuga que permita “explodir os extratos, romper as raízes e operar novas conexões”. E veja a sincronia, quando eles sugerem que esta linha de fuga pode ser traçada a partir de uma percepção alucinatória!

Portanto, quero desejar, antes do fim, um ótimo novo ano e que vocês, nessa trip meio Bonnie & Clyde, meio Mallory & Mickey, mas pulverizando obstáculos existenciais e buscando a utopia, apreendam o delírio com coisas reais. E falando em linhas de fuga, finalizo estas mal traçadas dentro do avião, sob trevos, tocas, paralelas e paisagens, a muito mais de 100km/h. Sem medo. Mas tome cuidado, Belchior. Não com você, que imagino não ser perigoso. Mas com viver, que é o grande perigo. Que venha 2014.