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Saudades, futuro!- Entrevista com David Dines

Crédito: Suellen Pessoa
Crédito: Suellen Pessoa

David Dines. Salvo engano, já tinha gravado com ele uma Sessão Alto Falante, no Ultra, com sua banda de então, a Spooler (que já vinha namorando timidamente por causa de faixas como esta). Me lembro de ficar surpreso no estúdio ao ver e ouvir toda aquela flexibilidade dançável e assumida do grupo, muito bem resolvida, com o baixo do Salomão, a batera do Gustavo e os backing vocals da Suca. Bacana.

(Mas sentia falta das coisas em português, o grande desafio e a maior atração que eles me causavam era isso. E até hoje fico enchendo o David nessa onda…)

Desde que o conheci melhor pessoalmente, em um show na Praça da Liberdade, aprendi a ficar atento ao David. A justificativa para isso já devia estar nos papos que tivemos lá (se bem me lembro, junto com o Fred HC, do Paralaxe, que posso ter apresentado a ele com algo tipo “Esse é você ontem”). Não me lembro exatamente da pauta, mas devia ser algo relativo à glam rock, já que foi nesse papo inicial que nasceu um dos projetos mais legais que já tive a honra de participar, o #Ziggy40.   Período ótimo de ensaios, shows e papos, tudo em torno de um de meus (nossos) assuntos favoritos: David Bowie.

A partir daí, estivemos em contato constante- principalmente eu com a obra dele, projeto solo, várias audições por aqui de “Sdds Futuro”, sua primeira e interessantíssima investida solitária.  Da capa ao conteúdo, disponibilizado aqui, o trabalho é muito a cara do David ( e de sua cara metade, a talentosíssima Suellen Pessoa).  Variado, com muita vontade cosmopolita, alguma ousadia, pitadas pop imperdíveis  e francamente orientado para os quadris. Ainda tenho vontade de voltar a discotecar só pra colocar “Não Me Venha Com Essa de Amor” nas pistas.

Mas o que sempre me chamou à atenção no David é sua capacidade de “ler” muito do mundo contemporâneo ( e depois escrevê-lo a sua maneira), aquele que é formatado, basicamente pela sua geração de vinte e poucos. Concatena com precisão alguns dos vértices formadores que estão por aí, em rede, em arquivo, na rua, nas galerias. Menino atento. De certa forma, David Dines é um “produto” típico no novo século que funciona.

Essa semana soltou uma nova e ótima música, gancho suficiente para batermos um papo aqui no Material. Escute “I´ve Seen Too Much” aí embaixo e se anime para a entrevista logo abaixo…

 

 


 

 “Não vejo mais muito sentido em abraçar apenas uma estética musical hoje. Quero é pegar diversos estilos e fazê-los conversar, mas dentro de uma linguagem simples, ainda que contenha um discurso não exatamente fácil ou agradável”

Entrevista com David Dines

Antes de qualquer coisa: tua escola é o rock? É o pop? Vê fronteiras, assim nítidas? Digo de você menino ainda, começando a se interessar por música…

Minha influência primordial é o pop. Foi a primeira linguagem musical que me cativou, lá pela primeira infância. Lembro de pedir pros meus pais comprarem discos do Michael Jackson, da Madonna, de todo aquele pop fim dos anos 1980, início dos 1990. Carrego aquilo ali no meu DNA musical até hoje. Descobri o rock já na pré-adolescência, via Beatles e o povo da psicodelia 1960s, seguido depois pelo punk rock e os indies todos a partir de uns 13. Mas não que eu enxergue como fronteira. Vou sempre na interseção, no diálogo. Pelo menos, esse é meu interesse. Uma interseção que seja acessível. As zonas cinzas é que me interessam.

Mas seu primeiro projeto, vinha embalado em rock certo? Sua primeira banda, “As Horas”, tô certo?

Era, totalmente rock. O que mais me interessava naquela época, na verdade, era uma linguagem do desconforto. Eu tinha 17 anos, tava me refestelando nos dramas daquele período estranho da vida, então eu queria era falar do mal estar. O rock, a distorção, os tempos inusitados, a estrutura esquisita me pareceu a linguagem apropriada. Hoje rock é meio coisa de velho, né? Engraçado como fossilizou enquanto gênero musical. Tá virando o jazz pras futuras gerações: sinal de bom gosto, mas já sem nenhuma rebeldia.

Percebo um pouco isso também, mas seguramente temos diferentes percepções quanto a isso, mesmo por uma diferença geracional…Essa tua percepção a respeito de um certo esvaziamento do “estilo” é uma espécie de guia para o teu trabalho hoje?

É um pensamento que tento desenvolver. Não vejo mais muito sentido em abraçar apenas uma estética musical hoje. Quero é pegar diversos estilos e fazê-los conversar, mas dentro de uma linguagem simples, ainda que contenha um discurso não exatamente fácil ou agradável.

Encarar o estranho, já diria Bowie…

Exatamente! Bowie é sempre uma grande inspiração, porque ele nunca seguiu o caminho mais fácil. Ele sempre quis desvendar o desconhecido e se aventurou diversas vezes, mas tentando sintetizar a mensagem ao máximo. Sou geminiano, gosto da fluidez e da multiplicidade. Não quero escolher apenas uma coisa. E eu quero é comunicar, é tocar as pessoas. Se não, nada faz sentido. A relevância da música só existe na interação.

Esse lance de “não quero escolher apenas uma coisa” me parece quase um dever firmado pela geração de vinte e poucos. E é muito legal. Mas concatenar isso na prática, pode dar uma dor de cabeça…Foi muito difícil pra você, depois de bandas, formatar esse projeto solo?

Foi estranho, mas a própria forma como as coisas foram se desenvolvendo levaram ao calejamento que um trabalho solo precisa. Minha última banda se dissolveu de uma forma muito estranha, então sentei no meu quarto durante três meses e tentei desenvolver algo que me representasse, mas que ainda assim houvesse algo de antítese ao que eu fazia antes. Esse trabalho virou o SDDS FUTURO, meu primeiro EP. Estar sozinho, criativamente, abre um mundo de possibilidades, porque você pode realizar tudo o que você sonhar, desde que esteja no seu alcance técnico, sem cerceio criativo de ninguém. Mas também há o risco de virar uma viagem hermética que nunca se realiza. E também o de acabar entrando em caminhos não muito bons por não ter parâmetro. É o grande desafio do caminho do meio. É algo de muita responsabilidade. Não é fácil estar sozinho em cima de um palco e coordenar um espetáculo inteiro. Foi um desafio que me propus e acho que ainda estou encontrando a melhor forma de fazer isso. Ainda me sinto mais confortável tocando com outras pessoas, mas também não quero que isso seja uma amarra criativa. Não sei se eu tô sendo muito contraditório ou incoerente… Hehehe

E quais foram as balizas estéticas principais para formatar o SDDS Futuro?

Eu estava num momento de redescoberta quando criei o SDDS FUTURO. Eu tinha me esforçado muito desenhando a personalidade musical da minha banda até aquele ponto, então quando tudo desmoronou, rolou uma crise de identidade artística. Então comecei a tatear no escuro, catando os pedaços e tentando fazer sentido. Nisso também acho que as músicas dos outros artistas que estão no EP me ajudaram, como um espelho. “Saudade”, que foi composta pelo Leonardo Onerio, do Umrio e do Pontes, é algo que sempre achei que eu poderia ter escrito, desde a primeira vez que escutei, em ritmo de escola de samba. Pela própria cadência, pela melodia. E a mesma coisa com “Old Ways Are Dead”, que foi um presente do Sergio Manto. Dali encontrei força pra me achar criativamente de novo. E acho que as próximas coisas, a partir de “I’ve Seen Too Much”, têm mais força, mais energia yang.

O que você chama de energia Yang?

Um fogo diferente dentro de si. Um ímpeto mais forte. É mais celebração do que dúvida.

Uma coisa que acho notável é seu direcionamento/gosto pela pista de dança, pelo ritmo, desde o Spooler…

A coisa da dança passou a estar presente nas minhas coisas a partir do momento em que eu não quis mais escrever sobre meu mal estar, e sim atacá-lo. Na mesma época em que o Spooler começou, eu virei garçom em um casa noturna e passei a observar atentamente os DJs. Como constroem as dinâmicas de uma noite, como conseguem cativar as pessoas a largar suas inseguranças e dançar… há uma força muito especial nisso.

Não seria sua revolução se você não pudesse bailar…

EXATAMENTE!  Esse é meu mote, basicamente (risos)

E você é um cara essencialmente noturno? Digo criativamente falando?

Não muito, na verdade. Sou meio que o contrário, aproveito e crio muito mais durante o dia. Mas o dia tem menos nuances, as pessoas são menos interessantes de serem observadas nessas horas. As pessoas se comportam de forma muito mais interessante à noite.

Esse lado voyeur se resolve nas letras?

Sim. Nas letras, nunca é uma coisa só. É o voyeur e a autoanálise sempre misturados, também.Mas, na verdade, essa leva mais recente de músicas têm sido mais primeira pessoa. Talvez eu esteja seguindo um caminho mais autobiográfico, não sei. Ainda tô no processo. Por exemplo, uma das músicas mais recentes que tenho tocado em shows chama-se “This City Is Pushing Me Away”. É um reggae sobre como estava sendo frustrante morar em BH diante de uma série de dificuldades circunstanciais. Curiosamente, o destino acabou me jogando pra longe dela e, numa correria dos diabos, me estabeleci em São Paulo de uma hora pra outra. Vai entender. É o fluxo. “I’ve Seen Too Much” é uma música bem específica também. É muito sobre estar pronto pra enfrentar as dificuldades, sobre resiliência. A ideia dela nasceu quando fui visitar amigos imigrantes em outros países, e vi quão dura é a luta diária deles por manter sua identificação, seu senso de si. São ou acabam se tornando personalidades fortes, na maior parte das vezes, porque as circunstâncias as moldam. Mas pode ser interpretada pra qualquer tipo de dificuldade que se enfrenta na vida, diante da qual não se pode esmorecer. Ela virou meu mantra particular.

Daqui a pouco chegamos em BH-SP, antes quero insistir um pouco na coisa da geração…Como você, particularmente vê definições como ” geração da muita informação e pouco conhecimento”? Digo isso porque, desde a primeira vez que nos conhecemos, já fiquei admirado com sua capacidade de interpretar as coisas de hoje, tendo uma bagagem muito legal das coisas de ontem…O Ziggy de alguma forma materializou isso muito claramente pra mim

Acho que a geração de agora não exatamente tem pouco conhecimento diante de muita informação. Bom, na verdade, se você for analisar proporcionalmente diante do que tomamos contato diariamente, certamente tem, mas não dá pra comparar. O que vejo como sendo forte nessa geração é a coisa de hackear a cultura, de se apropriar apenas daquilo que é relevante pro indivíduo. Lógico que é importante desenvolver repertório, entender e contextualizar o que já foi feito, mas o novo só surge da necessidade e da negação daquilo que não faz mais sentido. Há de se ter respeito, mas exigir reverência de um jovem diante da tradição é meio demais. O Ziggy 40, por exemplo, foi um projeto de gente jovem que respeitava a obra do Bowie, sabia da importância de um clássico. Mas de que adianta uma rebeldia cristalizada na parede? O importante é oxigenar.

É essa linha de pensamento que você de alguma forma sintetiza na ideia de “Sdds Futuro”? Saudade de um certa indolência moderna, e cuidado com nossa febre arquivista?

Sim, também. A gente tem os parâmetros antigos pra nos balizar diante da vida, e de certa forma nós queremos segui-los, mas é impossível. Romantizar o obsoleto e o inútil pode significar a morte do novo, mas a cultura pop se retroalimenta disso o tempo todo. É muito curioso, isso me intriga bastante. Não busco respostas, quero só levantar mais perguntas. Tem outra coisa que me intriga na juventude de hoje também que é a dificuldade de se enxergar um futuro, mesmo que esteticamente. Todas as gerações passadas tinham uma noção de futurismo, que podiam remeter ao minimalismo, ou a uma coisa meio Jetsons, ou outros tipos de visão do que seria a sociedade daqui a algum tempo. Otimista ou pessimista. Hoje é difícil enxergar isso. É como se vivêssemos suspensos num eterno presente, mas a própria noção de presente é ilusória. A gente não sabe o que esperar de daqui a pouco. E, ao mesmo tempo em que precisa negar o passado pra continuar criando o novo, a presença do passado se impõe quando não há futuro à vista. Então surge a coisa retrô, o fetichismo do passado. É muito curioso. E aí a gente se depara com anomalias como o retrofuturismo. Não sei, são coisas sobre as quais costumo pensar e que acabam refletindo na minha obra, de alguma forma.

Tem uma coisa que acho curiosa é que alguns de nossos grandes exemplares de pop mineiro com certas intenções eletrônicas- uma linha que pode ir do Divergência Socialista- Tetine- Paralaxe até chegar em você, carrega uma carga de “pensamento” digamos assim, muito grande. Música eletrônica inteligente, para trocadilhar toscamente. Você se filia de alguma forma com isso?

Hahaha! Não conscientemente. Só fui ter um contato maior com a obra do Paralaxe, por exemplo, quando me aproximei do Fred. Acho genial, mas não foi uma influência. Acho que é uma coisa cultural do mineiro, de ser muito denso, de tentar botar a complexidade do mundo – alegrias, tristezas e tudo no meio – dentro de uma coisa só. Você vê isso na literatura, na música, em quase todas as artes.

Sim

Eu quero sempre sintetizar. Quero sempre entregar o meme daquele pensamento. E deixar a pessoa desenvolver, se ela quiser. Acaba que tudo tem uma grande carga de pensamento, mas você não precisa acessá-la se não for do seu interesse. A superfície também pode ser agradável.
Agora preciso fazer uma confissão, pra falar de música. A primeira vez que escutei “Não Me Venha Falar de Amor”, me lembrei de pop farofa dos anos 1990. Tipo Double You. E AMEI. Como lida com isso? (risos)
Hahahaha
Faz sentido? Tá dentro do jogo também? Pode isso Arnaldo?
Eu acho que sim!
Tem uma vontade ali, um descompromisso, uma solaridade sabe?
Engraçado que foi um conflito que surgiu na gênese dela. Brincando com o teclado, de repente me aparece essa melodia. Aí crio quatro acordes pra acompanhar. E, de repente, me deparo com aquilo e penso: “o que é isso, eu tô compondo um axé? É isso mesmo, Arnaldo?”. Hahahahaha. E aí eu pensei, foda-se, vou terminá-la.
A frase “não me venha com essa de amor” foi a primeira coisa que surgiu pra acompanhar aquela melodia. E toda a música se desenhou quase sozinha a partir daquilo, eu só permiti. Tá certo que tem um pouco do que eu tava vivendo ali na época dentro da letra, mas nada de muito específico.

 

Junto com “Saudade” e a nova, tem uma vocação incrível de hit… Gosta dessa ideia da canção redondinha, do pop perfeito?

Eu gosto. Gosto da repetição, que vai ganhando camadas e mudando de sentido. Gosto de acrescentar elementos pouco a pouco, criar uma harmonia, uma proporção dos elementos. É quase como fazer uma mandala – tem que haver um equilíbrio. É como cozinhar. Não é tanto um desejo de perfeição, mas de harmonia entre os elementos.

Na sua cabeça, existe uma espécie de “template” definido para a música de David Dines? Tipo: “Vou buscar uma pouco do James Blake aqui, isso aqui dos 80´s, uma conexão possível com a MPB…”. No sentido de ter coisas/influências bem definidas- e digo isso no bom sentido, de ficar atento ao que, sei lá, o Silva faz, por exemplo?

Eu fico atento porque eu gosto de saber do novo. Gosto de saber de possíveis contextos e conexões. Mas é algo natural – não sei se é porque algo já naturalizou ou se sempre foi assim. Tenho minha paleta de cores favorita e vou brincando com ela. Às vezes acrescentando uma tinta nova que eu comprei e quero experimentar. Outras vezes pegando um tinta dura e velha de dentro da gaveta, que eu nem lembrava mais que tinha. Nessa linguagem que eu criei pra me representar, eu nem mais sei direito o que me constitui. Tudo o que cruzou o meu caminho, provavelmente. 

E o que BH representa no seu trabalho?

Eu diria, primeiramente, a frustração criadora. O ambiente estranho e limitante que acaba motivando as pessoas a criarem algo pra mudar o seu ambiente – especialmente quando se anseia por grandes coisas. Mas também alguns valores, como a generosidade, e também uma melancolia que permeia as alegrias todas. Mineiro é bicho intenso. Ser adolescente em Belo Horizonte foi um tanto quanto estranho. Mas, conforme o tempo foi passando, fui enxergando as coisas boas que essa cidade proporciona a quem vive. E agora, longe daí (ainda que nem tanto), eu tendo a romantizar mais esse lado. É um caldeirão cultural importantíssimo pro país. O desafio é romper as fronteiras, como sempre. E até por isso andamos em círculos, quando estamos aí. Uma autoestima meio esquisita.

É engraçado, o papo de artistas por aqui sempre recaí um pouco na coisa de “transpor as montanhas”…É quase um clichê da impossibilidade mineira…

O potencial da cultura mineira é de grandiosidade, e todo mundo sabe disso. Mas o lance é querer dar o salto no escuro, o que a zona de conforto de BH às vezes nos dissuade.

Uma coisa que acho inseparável do seu trabalho solo é sua relação com a Suca…Creio que até isso levou vocês agora para São Paulo né? É um lance meio simbiótico artísticamente, certo?

Sim, total. É uma relação que começou na arte e foi adiante. Ela é meus olhos na minha música. Tudo o que é de visual do meu projeto tem que passar pelo crivo dela. Apesar de eu ter um repertoriozinho do que gosto e não gosto, eu acredito no bom gosto e no fazer dela. E é uma relação de apoio mútuo contínuo, em todos os âmbitos. Eu vim pra SP pra estar com ela, dar apoio num momento de transição. E ela me apoia de outra forma. É um pelo outro. Tem um amigo nosso, o Scott MacLeay, um fotógrafo canadense, que diz que nós somos o Lou Reed e a Laurie Anderson um do outro

Sensacional definição! É bacana demais ter esse diálogo constante, em nível criativo e pessoal não é?

É realizador num nível inimaginável! É uma relação de igualdade, de parceria, de afeto em todos os âmbitos. Ela é meu alicerce.

Para ir fechando…Como você apresentaria sua música para um estranho?

A-ha! O famoso pitch de elevador! Hehehehe Isso foi um exercício que eu fui desenvolvendo em alguns treinamentos pelos quais passei no último ano, como com a Rafaela Cappai, da Espaçonave. Acabei pondo isso em prática lá no Midem, mas acho que não tá perfeito ainda. Eu diria que é um pop “eletropical” – um misto de pop clássico com algo intangível que é inegavelmente daqui. E, no meio, histórias de luta, de esforço, de desejo e de afeto.

Depois do “Sdds Futuro”, temos o novo single, e depois dele…?

Provavelmente mais singles, ou em EP, ainda não sei direito. Continuo produzindo novo material e quero saber mesmo é de seguir o curso deles, sem saber onde vão me levar…Ando experimentando com diversas coisas. Tenho um trap em português, um dub… altas coisas em andamento. Mas o processo me interessa mais do que o resultado. O resultado tem que ser o aprendizado, sempre.

Essa liberdade, hoje, de ver o processo e não necessariamente visar o “produto” é uma espécie de marca, mas pode ser bastante angustiante também, não?

Eu sentia uma angústia maior de entregar um produto. Porque eu sempre me fodia de cobranças internas, mais do que as externas todas. Entrava numas viagens até meio bizarras, como, por exemplo, de escolher tracklist antes de ter todas as músicas do projeto. E, a partir daí, compor novas músicas pra caberem como faixa 4 ou faixa 7 desse disco, por exemplo. Esse pensamento mais sistêmico, de fluxo, é mais natural pra mim, me ajuda no processo criativo. Eu me sinto mais livre nesse contexto, sem pensar em um produto específico. É um apanhado de canções. A única coisa que quero é que todas sejam boas. Eu tenho um desejo de tornar esse projeto multimídia também, mas ainda tá no caminho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“No final do dia é difícil não ver Morrissey como o maior arquiteto da queda dos Smiths”: Entrevista com Tony Fletcher, autor de “A Light That Never Goes Out”, biografia dos Smiths

Uma banda que não lançou um disco ruim- os xiitas podem falar que não lançaram UMA MÚSICA sequer ruim. Uma reunião de amigos que ao contrário do que cantaram, pareciam conseguir paz, amor e harmonia, de verdade. Um rockstar comum, espontâneo, não estudado. Um guitar-hero satisfeito em ficar em segundo plano. Uma banda que cultivava valores muito caros, principalmente no pouco virtuoso e espiritual circuito do rock…

Os mitos são construídos, geralmente, com superlativos, estórias que se fundem em histórias. O mito é o lugar da Grandeza, assim mesmo, em maiúscula. Independe do factual, do acontecimento acontecido, do real; é o lugar do onírico.

Bem, os Smiths foram um mito. Foram um sonho que a gente teve e continua tendo, desde que aquela bateria sequinha anunciou os primeiros versos de “Reel Around The Fountain“, em 1984 e que, ainda hoje, soam impressionantemente, hum, reveladores. A banda se tornou uma espécie de crença universal (entre seu séquito de seguidores) que dispensa, na maior parte do tempo, a construção de uma questãozinha bem simples: a verdade.

Ou pelo menos uma versão muito bem construída dela. E essa foi a missão central- cumprida com méritos- de Tony Fletcher na biografia “A Light That Never Goes Out” ( Ed. Best Seller).

LIVRO

 

O título da obra  é sintomático por jogar luz sob a luz, iluminar alguns cantos escuros , como as infâncias em Manchester, a relação Moz/Marr; o uso de drogas por parte de Andy Rourke; a obsessão com a fama, o sucesso e o dinheiro; a desconfiada aliança com Geoff Travis da Rough Trade; a (a)sexualidade de Morrissey; as alianças internas e cambiáveis no grupo; a gênese de algumas obras-primas e, finalmente, o frustrante e, sinceramente, patético fim do grupo.

O livro cumpre também um dos papeis mais importantes de biografias musicais, que é servir como tradução do que realmente importa, as canções, a obra do grupo. Fletcher não deixa muito espaço para fofocas; ou melhor, não deixa espaço para percebermos os fatos ocorridos como fofocas, através de excelente apuração e um texto apaixonado, mas objetivo. Tudo que está escrito parece se relacionar intimamente com o curto e eterno legado artístico do grupo.

Em suma: quer entender de onde vem o ódio em “The Headmaster Ritual”?  O arranjo barulhento de “The Queen Is Dead”? Como Marr montou o clássico riff introdutório de “How Soon Is Now?” ? O que Moz quis dizer com a, digamos, científica “Some Girls Are Bigger Than Others”? Está tudo no livro, uma espécie de bíblia smithiana, que mapeia os caminhos mitológicos do grupo com perfeição.

Talvez o maior favor que Fletcher fez aos fãs e admiradores seja ter construído uma obra que, mais do que impressionar pela parruda pesquisa, pelo texto brilhante, pela apuração cuidadosa e pelo interesse geográfico e histórico, consegue “destruir” alguns mitos para fazer nascer um outro, ainda maior e mais factível, digamos assim.

É uma coisa muito engenhosa: mesmo expondo com crueza e precisão alguns dos “podres” das internas no grupo, ainda assim Fletcher consegue manter a aura, o poder de atração e o valor de culto que inscreve os Smiths como um dos GRANDES.


Quando penso na importância dos Smiths, sempre me lembro de uma irônica e agridoce coincidência que eles partilham com outras das maiores bandas da história da música pop.  “I Won´t Share You”,  a última faixa de “Strangeways, Here We Come”, último disco de inéditas do grupo,  funciona para o quarteto inglês como “The End” ( “E no final o amor que levas é igual ao que deixas“), ou “Oh!Sweet Nuthin” ( “O doce nada…Você ainda não conseguistes nada“) ou “Riders On The Storm” ( “Nesta casa fomos criados/Neste mundo fomos jogados/Como um cão sem um osso/Um ator atuando sozinho“) funcionaram para os Beatles, o Velvet Underground e os Doors, respectivamente.

É aquele epitáfio, que intencionalmente ou não, resumem de certa forma a passagem destes grupos por aqui. E se a frase no túmulo dos Fab Four dizem muito da amorosa missão deles por aqui; se o recado final de Lou Reed transcreve o status perseguido por sua banda durante o tempo que durou e a revelação solitária de Morisson quase explica seu fim, sua incompreensão com a vida, a canção dos Smiths se arquiteta sobre um tema perfeito para (os fãs da) banda.

Life tends to come and go
That’s OK
As long as you know
Life tends to come and go
As long as you know
Know, know, know, know, know
Know, know, know, know
Oh …I won’t share you, no

I won’t share you

I’ll see you somewhere
I’ll see you sometime
Darling …

O verbo usado por Morrissey, “compartilhar”, ganha mais peso ainda se pensarmos no que foi, no que significou a banda que ele criou com Johnny Marr em um encontro quase romântico no início dos anos 1980. Num mundo tão “compartilhável” como o de hoje, a afirmação de Morrissey na faixa não poderia ser mais sintomática: os Smiths, para seus fãs, eram uma banda não compartilhável: era uma paixão única, de extremo pertencimento, que os fariam lutar contra o resto do mundo por isso.

Cada fã tem alguma história, alguma batalha pessoal vencida em nome do grupo. Me lembro de uma entrevista de Brett Anderson, do Suede, para Tony Parsons, onde ele dizia: “Eu realmente sentia que os Smiths eram uma armadura para me ajudar a enfrentar a vida. Eles tinham um poder e uma presença que não se limitavam a um cara afeminado se oferecendo com flores que saíam do bolso de trás. Era muito mais sexual, mais sinistro  e muito mais real que isso. Os machões do mundo o detestavam e tentaram atacar seus pontos fracos. Mas para mim eles não tinham pontos fracos”.

(E me lembro também de eu mesmo ser um moleque de 13, 14 anos, exibindo para os meus amigos metaleiros as coletâneas da banda. Ou quando descolei uma camiseta do grupo na extinta e saudosa Pop Rock, ali no Centro.”Coisa de viado”, me diziam, em tom, mais ou menos, de brincadeira. O que será que estes putos achariam disso aqui hoje? Eles tinham Venom, Morbid Angel ou Deicide no lado deles. Mas Morrissey e Marr estavam do meu. E para mim eles também não tinham pontos fracos. E, assim como Fletcher, ainda vejo a banda como “a light that never goes out”)

E Fletcher não “trapaceia”: assume que também é um grande admirador dos Smiths,  e que foi este o combustível, mais do que a curiosidade jornalística, para tecer a obra. Particularmente, como leitor, prefiro assim.

Generosamente,  ele compartilhou conosco seu amor pela banda.


 

“Nunca haverá um retorno. Mas se houvesse , eu não gostaria de vê-lo . Foi bom do jeito que estava “

Entrevista com Tony Fletcher, autor de “A Light That Never Goes Out”
crédito: Best Seller (divulgação)
crédito: Best Seller (divulgação)

 

Um aspecto que se destaca no início do livro é a análise histórica que você fez de Manchester. Desde o início da construção da obra , você suspeitou de que você tinha que desvendar Manchester para desvendar os Smiths ?

Sim. Manchester é uma cidade musical única , e eu tinha a sensação de que muitas pessoas , especialmente (mas não meramente) fora do Reino Unido,  não sabiam muito sobre a sua história. Eu queria entender o papel que  Manchester tinha, através da Revolução Industrial, na diáspora irlandesa, e na história musical antes da formação dos Smiths .

É impressionante pensar que hoje em dia, muitas vezes, a gerência ou o empresário é tão ou mais importante do que a própria banda ; e como um grupo como os  Smiths (obviamente pessoas que sabiam da importância dessa operação) não souberam lidar com isso. É esta ausência de uma gestão mais forte o grande pecado na trajetória do grupo? Porque você acha que eles lidaram muito mal com essa questão?

Em primeiro lugar, sempre houve gestores empresariais que eram tão importantes quanto o artista: pense em Coronel Tom Parker com Elvis, ou Brian Epstein com os Beatles , Andrew Loog Oldham com os Stones , em seguida, Malcolm McLaren com o Sex Pistols. Eu acho que com os Smiths essa questão começa a dar errado a  partir do momento em que Joe Moss (empresário mais importante na história da banda) renunciou; ele saiu do barco ao mesmo tempo em que as coisas ficaram loucas para  eles, tudo acontecendo muito rápido, não lhes dando tempo para parar e pensar. Mas também ele também sucumbiu à falta de vontade de Morrissey para confiar em uma figura gerencial. Eu acho que esse foi o “grande pecado “, como você coloca ; é difícil não chegar a essa conclusão se quer escrever ou ler a biografia dos Smiths. E isso é uma grande vergonha .

Eu acho que os leitores possam apreender o livro como uma espécie de clássico romance: uma incrível história de ” paz, amor e harmonia” , ilustrado pela relação entre Moz e Marr , que termina tragicamente em uma briga, uma disputa, que parece boba , infantil . E você, como escritor, parece assumir essa frustração também. Mostrar este final infeliz com fidelidade era uma de suas principais missões ?

Bem, eu estava tomando cuidado para não recontar livro de Johnny Rogan “Morrissey e Marr : The Severed Alliance” , que, a partir de seu título , vira o foco para as lideranças dos Smiths, em relação à exclusão dos outros integrantes. Mas é  esta, claramente , a narrativa, a condução do livro. E você está certo em dizer que a disputa parece “boba ” e ” infantil”.  Nesse sentido , é como romper com um amante ; às vezes você não consegue lembrar qual era, afinal, o último argumento, a gota d´água, exceto que ele era mais um entre tantos outros – e que, apesar de que você até gostaria de começar tudo de novo, o melhor é só se lembrar dos bons momentos que tiveram juntos e seguir em frente com sua vida.

No final do trabalho, você assume certa proximidade com Johnny Marr ; proximidade que você não tem com Morrissey . Este foi o aspecto mais difícil , como escritor e apurador , mostrar  e equilibrar os dois lados, igualar seu ponto de vista, tendo em conta que foram as divergências entre os dois que também levaram ao fim do grupo?

Claro . Observação justa. Johnny Marr foi muito cooperativo com os meus esforços para escrever este livro ; Morrissey não. Eu não queria deixar essa nuvem meu julgamento , mas havia muitas outras coisas ditas sobre Morrissey, ou que ele disse para si mesmo. que tornou difícil de ser tão simpático como eu gostaria de ter sido com ele. Eu acho que Morrissey trouxe à música pop um talento desmedido , uma habilidade incrível para o lirismo poético, e um verdadeiro carisma ; ele continua a ser “one of a kind“, único. E Johnny Marr está longe de ser irrepreensível, inocente, na trajetória dos The Smiths . Mas no final do dia, é difícil não ver Morrissey como o maior arquiteto da queda dos Smiths

Outra grande questão se destaca : é um trabalho volumoso (630 páginas na edição brasileira ), para uma carreira musical que durou um tempo muito curto . Este tamanho de algum modo dá a dimensão da importância dos Smiths e a mitologia em torno do grupo ? Depois de publicá-lo, você percebe que você ainda tem dúvidas ?

Sim e não. Eu disse praticamente tudo o que eu queria dizer com o livro. Tem havido alguma discussão subseqüente sobre se deveria haver um epílogo , e eu entendo aqueles que sentem que terminou um pouco abruptamente. Mas, mesmo depois de ter lido própria autobiografia de Morrissey, não há realmente nada que eu iria voltar atrás e mudar substancialmente .

Pergunta inevitável : depois de tanto tempo , você foi se inclinando fortemente no trabalho do grupo, que você acredita pessoal na possibilidade de um retorno , um retorno? Você gostaria de assistir isso? Acredita que seria muito inconsistente com a trajetória dos Smiths , uma espécie de uma traição ?

Cada entrevistador brasileiro tem feito esta pergunta (Nota do Editor: culpe a nossa carência, Tony!) . Nunca haverá um retorno. Mas se houvesse , eu não gostaria de vê-lo . Foi bom do jeito que estava .

Para fechar: seu top 5 dos Smiths?

Ele muda todos os dias… Hoje seria este:

“The Boy With The Thorn In His Side”

“The Headmaster Ritual”

“Asleep”

“Ask”

“Miserable Lie”

 

Mais: Morrissey ao vivo em Belo Horizonte, aqui.