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No centro de uma outra história

crédito: Satolep Press
crédito: Satolep Press

Entrevista com Vitor Ramil, publicada no jornal O Tempo, em 14/07/2013

(Autor de um dos meus discos nacionais favoritos de 2013, “Foi no mês que vem”, a música Ramil foi companhia constante durante todo aquele período. Absolutamente encantadora, uma espécie de descoberta. Com isso em mente, escrevi um texto livre, passional até, sobre o disco, a pedido do querido Marcelo Costa, para o Scream & Yell)

Você nasceu em Pelotas (interior gaúcho), mora aí há muitos anos e inclusive inventou uma cidade imaginária (Satolep), obviamente inspirada na cidade, que aparece com frequência na sua obra. Pelotas é uma de suas musas? Pelotas é importante para mim desde a infância. Ela se cultua bastante, por ter um passado de muita riqueza, uma cultura cosmopolita, numa era em que o Rio Grande do Sul era bem abarbarado. Desenvolvi essa paixão pela cidade com meu pai, que era engenheiro e conhecia os subterrâneos do lugar. Ele me fez ter um olhar amoroso e crítico com ela. “Satolep” é uma Pelotas idealizada. Encontrei uma maneira de falar da cidade, sem bater carimbo para a oficialidade, com um olhar pessoal. Pelotas virou uma questão temática, uma sugestão formal poderosa, o traçado reto das ruas, a arquitetura, que inspira texto e música.

Naturalmente você teve muito contato com música através de seus irmãos, Kleiton e Kledir. Foi difícil encontrar seu lugar? Quando eles moravam em casa tinham personalidades muito fortes, centralizavam muito nossas ações. Minha primeira vez em um palco foi para tocar em um festival com eles, eu era bem novo, 10 anos. E quando comecei meu primeiro grupo, aos 14 anos, eu era bastante inspirado neles. Já na adolescência me afastei um pouco, estava ligado em outras coisas como Milton Nascimento e Egberto Gismonti. Eles sempre foram ligados na música regional gaúcha, às milongas, à música folclórica, eram muito abertos a isso, se tornou uma marca deles. De certa forma radicalizei essa experiência deles, fui fundo, refleti, tentei mudar a maneira de fazer a milonga. Nunca me senti à sombra, as diferenças são bem marcantes. Estar com eles sempre foi estimulante, aprendi cedo muitas coisas.

O que seria a “Estética do Frio”, expressão que você cunhou como um oriente para sua trajetória estética e pessoal? Me interesso pelas questões de identidade, e muitas coisas do Rio Grande do Sul me pareciam entraves, coisas que dificultavam nosso sentimento em relação à brasilidade. Ouvia muito dos mais velhos falarem que tínhamos de ser vinculados ao Uruguai. Cantam o hino do Estado nos jogos de futebol. Essa característica do povo gaúcho por um lado é boa, mas por outro é ruim, porque dificulta-nos perceber a maravilha da nossa brasilidade. Pensei que, elaborando essa questão, seria mais fácil para fazer minha música com substância, segurança e consistência. A expressão “estética do frio” surgiu da reflexão do antropólogo Darcy Ribeiro falando da “grande civilização tropical”. Nós sempre nos sentimos meio à parte dessa noção, essa imagem fala muito pouco de nós. E o frio nos simboliza, acho que é legítimo usar a imagem do frio como metáfora para falar de nós, ela acabou sendo uma maneira nos afirmar por uma coisa que em princípio seria negativa. Ninguém gosta do inverno num país como o Brasil. E eu percebo que hoje olhamos para as coisas daqui com orgulho de nossa geografia. Mesmo as praias frias, pouco atraentes.

É possível perceber, em suas composições, a busca por um universo lírico e musical particular, com afinações diferentes no violão, por exemplo.
Sempre me dividi entre dois universos. Um, de coisas bem simples, como Caetano Veloso cantando “Asa Branca”, coisas simples e belas, que ele sempre fez com maestria. Os acordes maiores, o lado beatle que muito me interessava. E tinha o lado harmônico de Milton, Egberto, um mundo muito complexo e não havia ninguém para me ensinar. Eu queria criar meus acordes daquela maneira, aquele tipo de sensação, um fluxo harmônico. Comecei a fazer isso com a corda solta, diferentes afinações, capo traste até metade do braço do violão. Hoje em dia trabalho com umas 15 afinações diferentes. A canção “A Resposta” tem um violão só para ela.

E Milton, essa grande influência sua, participa do novo disco cantando “Não é Céu”. Talvez seja a participação mais simbólica, mais significativa do álbum. É meu mestre de infância, do começo da adolescência, quando descobri (o disco) “Milagre dos Peixes”. Com ele aprendi a cantar, tinha um corredor com pé direito alto em casa e eu ficava tentando cantar como ele, impostar a voz. Foi importante dar essa volta toda. Ele também gravou “Estrela, Estrela”, e a cantou no show dos seus cinquenta anos.

Com atenção, o jovem ouvinte pode encontrar nuances de, por exemplo, Radiohead na sua música. Eu mesmo sou fã do Radiohead, Nirvana, é uma linha que me interessou muito e percebo que o público jovem alinhou a banda comigo. Tem muito a ver, muitos pontos de conexão: as harmonias esquisitas, a melancolia melódica, a densidade das letras.

Como nasceu a ideia de compilar suas canções, regravando-as em “Foi No Mês que Vêm”? Nasceu através da ideia do songbook, planejada desde fim dos anos 1990. A partir daí pensei: “Quem sabe eu faço um disco marcando o lançamento do songbook, um trabalho que o ilustre. Quinze músicas, voz e violão – que no fim das contas foi metade do que fiz (o disco, duplo, têm 16 canções). Quando fui realizar um show em Lisboa, tocando músicas de várias épocas, o publico veio abaixo, uma loucura. Vi que possuía uma carreira secreta, moro longe de tudo, não frequento a mídia, as pessoas não me conhecem, minhas canções estão perdidas. Talvez era o momento de eu mesmo ver essas canções, fazer a seleção, descobrir que caminho seguir.

Você não se sente isolado- não apenas geograficamente, mas também artisticamente? É a história da ‘estética do frio’: estou à margem de um centro, mas no centro de uma outra história. Não gosto da ideia de ser marginal, de estar fora, mas não tenho um temperamento de fazer social, não me sinto à vontade na TV. Sou solitário, gosto de viver assim e esse tipo de trajetória foi conveniente para o meu temperamento, para fazer meu trabalho com dignidade. Não poderia fazer um trabalho autoral profundo se eu tivesse que me submeter às regras de mercado. Então, se não há espaço ou interesse na minha música, vou criar o meu mundo. Moro aqui, mas me integro com as pessoas, é só ver meu disco.

O álbum, parcialmente produzido com recursos captados através de financiamento coletivo (crowdfunding) realizado na internet, de alguma forma prova isso? O mundo mudou e me favoreceu. Até mesmo a ideia de estar integrado à internet caiu como uma luva. Embora não frequente redes sociais eu acho que o formato que escolhi de vida e de trabalho é muito contemporâneo: fazer o meu disco, ser meu empresário. Passei a me comunicar direto com o público, sem intermediários. Foi muito impactante, mostrou a força do trabalho e foi um grande desafio. Quando o disco saiu, fiquei impressionado com a cumplicidade do público, os shows foram uma loucura. Eu me emocionei, tem tudo a ver com minha maneira de vida. As pessoas se sentem muito comprometidas comigo, elas me escolheram, uma coletividade muito significativa.