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“Músicas de estádio para públicos de buteco”- Entrevista com Fábio Góes

credito: Divulgação
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Fábio Góes representa pra mim muito do poder da música- e principalmente um de seus melhores poderes: sua capacidade em unir as pessoas, em congregar, em servir de senha para a criação de um universo próprio entre algumas pessoas.  O mais bacana é que não se trata de um arquivo, de uma pérola que você encontra e fica feliz em compartilhar essa felicidade com outros poucos (e bons) que bateram na mesma ostra certa que você- como tantos artistas, músicas ou momentos que você compartilha com seus poucos comparsas.

Ouvi a obra dele ainda no seu início- quando o espetacular “Sol No Escuro” era mais um entre tantos downloads disponíveis pela rede, sem muita bula ou indicação. Curiosamente, não me lembro como encontrei; mas me lembro para quem mostrei primeiro, maravilhado: Thiago Sá, então meu colega de trabalho na Rede Minas. Seguido de um protocolar “Isso é sua cara”, nos envolvemos juntos com esse disco, trilha de tardes de trabalho e finais de noite bêbados ( posso estar enganado, mas o outro disco que “vivemos” juntos, no mesmo período, foi “For Emma, Forever Ago“, de Bon Iver; espécie de gêmeo do disco de Góes em diversos parâmetros para mim). Ele até entrevistou o Fábio para o site do programa na época, e desde então, creio que mantêm contato e admiração mútua (posso estar enganado, mas acho que o Góes conhecia até a Clap! banda que o Sá mantinha com o Gabão e o César Lacerda).

(E se um dia tiver um clipe do tipo “best of” dos meus momentos com o Thiaguinho, seguramente ele poderia começar ou terminar com nos dois, numa praia em Natal, viagem á trabalho, tentando encarar o oceano uma tarde meio fria por pura fissura mineira, cantando cumplicemente os versos “Nasci pra ser surfista/Do que eu quiser!)

No mesmo período, fiz uma das viagens mais tristes e mais bonitas da minha vida, para uma das cidades mais tristes e mais bonitas que eu conheço, acompanhado de dois grandes amigos, Jennifer Souza e Tetê. Um grande e saudoso amigo tinha recém-falecido, e lá fomos nós para Ouro Preto, de carro. Me lembro que o que de certa forma nos confortava era “Sol no Escuro”. Me lembro da Jenninha ficar particularmente interessada; me lembro dela me dizer tempos depois que ela tinha tirado “o disco todo no violão”.

Hoje a Jenninha mora com o Thiaguinho e é parceira do Fábio. Ela, assim como o Tetê, tiveram uma banda com o Rafa, que nos deixou cedo demais.

E eu fico com a absoluta certeza que o Rafa iria se encantar profundamente com o  “Sol no Escuro” e com a obra do Góes. Possivelmente ia pensar, pleno de sua admiração profunda e séria  pelos poentes, pelas melancolias, pelos clube esquinistas e por Thom Yorke, pela Ouro Preto que ele tanto pertencia: “Esse cara entendeu tudo direito”.

Esse tudo pra mim é também o poder da música.

E antes de mais nada, eu tenho um profundo RESPEITO por isso e por quem é capaz de proporcionar esse tipo de coisa.

(Teria muito ainda a falar sobre o Góes: seu maravilhoso e familiar segundo disco; um show inacreditável visto no Studio Bar em Belo Horizonte; sua versão magnífica de “Um Gosto de Sol”; um topão rápido e carinhoso que nos demos no Sonár em SP, entre o show do Sakamoto e do Mogwai. Mas tudo isso de alguma forma é sombreado e sublimado pelo que foi dito acima)

 


 

 “O que acontece também é que eu tô bem sozinho nesse tipo de música por aqui (…) Mas não existe uma “cena” nessa onda. Na verdade, quase não existe cena nenhuma hoje em dia. É o maior “cada um por si” da história musical brasileira de todos os tempos!”

Entrevista com Fábio Góes
crédito: Divulgação
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A primeira questão talvez seja a mais complicada…Onde você localiza (auto-localiza, melhor dizendo) na música brasileira hoje? Porque é curioso pensar que seu trabalho, apesar de aclamadíssimo pela crítica, não parece circular tanto nos meios atuais- festivais, show independentes, etc?

Pois é cara, não sei não. Acho que tem um pouco de culpa minha também, de não estar 100% disponível pra esse lado da minha vida, até porque ele não paga conta nenhuma, muito pelo contrário (risos).
Mas gosto de pensar que meus discos ocupam algum lugar na minha geração. E adoraria conseguir viajar mais com eles,
Na rebarba dessa questão: sua música me parece um excelente exemplo de “pop adulto” ( se é que podemos usar essa categoria) pronta para rádios FM que transitam entre a MPB e o pop mais sofisticado contemporâneo…Compartilha dessa visão? Consegue ver esse alcance no seu trabalho e, se sim, te incomoda muito o fato de não ter acesso maior a um público consumidor/ouvinte potencial por esta via mais tradicional?
Claro que concordo com você. Mas até agora não rolou muito rádio, e eu adoraria que rolasse.Tocar no rádio sempre foi motor de muita coisa na carreira dos artistas no Brasil. Mas, salvo poucas excessões, ou paga ou não toca.Jabá, e ponto final. Aí não vai ser num som mais elaborado que alguém vai apostar a essa altura do campeonato, claro.
E a rádio me parece uma das últimas fronteiras a serem quebradas pela tecnologia. A hora em que os rádios dos carros forem wireless, o dial vai pro espaço. E ai cada um vai escolher que web rádio quer ouvir, ou que playlist de que site, enfim. E ai as regras do rádio vão mudar.Ai talvez apareça uma rádio que reflita esse nicho que você se referiu. Não dá pra saber o quão abrangente será isso, mas vai rolar c certeza.
Ao mesmo tempo, muita gente conhece sua música através da publicidade, você fez trilhas bem populares para o inconsciente coletivo…Já parou para pensar nessa relação, de certo modo, dicotômica?
É raro quando você consegue colocar na publicidade algo realmente do seu universo. Normalmente as coisas acontecem já muito balizadas por aprovações prévias de referências e tal. Mas de vez em quando rola uma chance de botar algo mais seu. De qualquer maneira, o meu filtro esta sempre presente no que eu faço, claro. E isso conecta com um estilo comum aos discos também, assim como com as trilhas de filmes e séries que faço.
Me lembro de te encontrar no Sonár em São Paulo, saindo emocionado do show do Sakamoto e curioso para ver o Mogwai. De certa forma, dois exemplos de arquitetura sonora bastante ousadas, brilhantemente fora de certas convenções. Teu arco de interesse abrange muito disso- esse pensamento pouco convencional da música, um senso de liberdade? Como você aplica isso na sua música?
Hoje em dia eu faço muito música pra imagem, trilhas de filmes e séries. E essa é uma linguagem muito livre, muito sensorial.
Especificamente naquele dia, eu estava vivendo uma noite absurda nesse sentido. Espero que você tenha visto também!
Costumo dizer à amigos que “Sol No Escuro”, seu primeiro disco, facilmente vai ganhar o status de pequeno clássico geracional, aquela etiqueta “cult” que pode ser boa ou ruim- depende especialmente do seu ponto de vista. Fico incomodado de pensar que, de certa forma, é um disco que nasceu numa época favorável- um período interessante para a música independente, mais dialógica com a MPB clássica, digamos assim- mas que de repente pode ter ficado um pouco à sombra da movimentação da época (Novos Paulistas, etc)…Faz sentido essa minha queixa?
Pode ser. Mas não acho de fato que tenha havido uma sombra em relação aos “Novos Paulistas”. Um pouco porque essa história não me parece que teve muita força histórica; me pareceu mais “capa de Ilustrada” do que qualquer outra coisa. O que não diminui o trabalho da galera, só não acho que foi realmente um “movimento”. O que acontece também é que eu tô bem sozinho nesse tipo de música por aqui. O Silva me parece estar fazendo coisas muito lindas, e que eu até acho que transitam num universo que eu também gosto e tento transitar. Mas não existe uma “cena” nessa onda. Na verdade, quase não existe cena nenhuma hoje em dia. É o maior “cada um por si” da história musical brasileira de todos os tempos! Existe sim um formato “banda indie” que acaba sendo mais aceitável rapidamente, e se você é bom nisso, se a banda é boa, ela rapidamente tá tocando nos festivais todos.
Mais do que isso, “Sol No Escuro” passa a impressão de um trabalho solitário, mais do que isso, de um universo meio seu, particular, fechado, quase como uma espécie de método mesmo- a despeito da participação da Céu, por exemplo, no disco. Você gravitou num universo bastante particular ali?
É um disco pessoal sim. Muitas noites sozinho fazendo. E não pertenço mesmo a nenhum grupo, apesar de ser amigo de toda a galera. Muito porque hoje em dia não tenho tempo de me juntar por ai e compor, tocar, etc. Trabalho muito. Outra porque gosto de trabalhar mais sozinho. E tenho que arcar com o bônus e ônus dessa condição.
Como nasceu esse disco, Fábio? Eram canções acumuladas a muito ou nasceram como um projeto? O template para o álbum- instrumentação acústica, temas introspectivos- foi pensado previamente?
Acúmulo de músicas. Fui tentando, até que achei o tipo de arranjo pra elas. Ai o disco saiu.
 O segundo álbum parece chegar de outra forma: aberto em sonoridade e no próprio trabalho, com Kassin produzindo algumas faixas por exemplo. Foi um movimento intencional, no sentido de você necessitar isso?
Fazer o disco tem que ser desafio. E me pus esse de buscar outras coisas. Naturalmente as músicas já eram mais energéticas, já pediam outra cara. Foi procurar, achar, e realizar.Mas o Kassin não produziu não, ele apareceu e tocou com a gente em algumas faixas.
Outra coisa curiosa é um certo imaginário biográfico que a audição dos dois discos em sequencia pode causar: no primeiro, ouvimos um homem traçando caminhos meio soltos, “o surfista”. No segundo, vemos claramente o pai de família satisfeito e surpreso, já meio nostálgico da rua do passado ou preocupado com questões mais globais…Citando Lou Reed, você se sente “growing up in public“?
Por um lado sim, porque fazer as músicas faz bem pra mim, com elas eu entendo e aplaco questões minhas. Por outro, sei que aquele “eu” de uma música pode ser qualquer um. A identificação que você é capaz de sentir com uma canção passa necessariamente pela experiência que aquele compositor conseguiu traduzir ali, não é? Ai tanto faz que fez. A música é de quem quiser tê-la.Isso me conforta, me desprende das músicas. Porque na outra moeda disso, eu vivo uma preguiça homérica de compartilhamento de vida em redes sociais, que beira a ojeriza.
 “O Destino Vestido de Noiva” exibe timbragens, batidas, estruturas extremamente bem trabalhadas, coisa que quem parece, por trás de uma certa fissura “clube esquinistica”, encontrar conexões com o novo rock do Grizzly Bear ou do National, para ficar em dois exemplos. Faz sentido essa minha leitura?
Opa! Se faz! Principalmente porque a considero um tremendo elogio.
Focando um pouco no Clube Da Esquina, porque é uma passagem meio inevitável para mim, que moro aqui e percebo que você é um dos “estrangeiros” que, digamos, melhor entenderam o espírito da coisa (não que sejamos detentores de alguma verdade, claro). Me lembro de ficar absolutamente impressionado com sua versão de “Um Gosto de Sol” para a Sessão Alto Falante que gravamos, e que depois foi para o show.Quando você entrou em contato com essa música mineira e o que ela representa pra você?
Muito, cara.  É talvez a faceta da música brasileira que mais me emociona. Principalmente aquela essência do Clube.
Tive ai uns dias com a Jenninha do Transmissor, e com o Thiago Sá, e num dia em que sentamos com piano e violão, saiu uma música que me arrepio só de lembrar! Tem coisa nessa terra ai muito séria.
Mas tenho que te dizer que tem pouquíssimas pessoas que me lembro de terem comentado minha versão pra “Um Gosto de Sol”.
O que vai caracterizando meu isolamento de que você tanto falou até agora. Mas fico felizaço de saber que você curtiu, de verdade.
Isso nos leva a sua conexão com o Transmissor e especialmente com a Jennifer…Ela se deu através desses parâmetros também, de referências próximas? Quem quem mais seu trabalho se conecta, na música brasileira contemporânea, no sentido de você escutar algum artista e falar, “Hum, existe um pensamento semelhante no sentido de fazer música”?
A Jenninha me procurou um dia, porque tinha escutado meu disco numa viagem de carro muito particular. E me escreveu uma carta.
Passamos a ser amigos dali em diante. Musicalmente inclusive, claro.
Ela é boa demais, o Transmissor é uma baita banda, enfim, só alegria.
O que podemos esperar do próximo disco? Já está gravando, ou pelo menos pensando em alguns diapasões estéticos, alguns guias composicionais que poderia revelar?
O disco tá quase pronto. Tô começando a cantar ele agora. Faltam detalhes de várias músicas, mas já tá dando pra ver a praia. Até o fim do ano acaba. Ele está mais forte do que o “Destino”, mais intenso, mais sujo. Tô bem feliz. Vai ser disco bom de tocar ao vivo. Tá sendo produzido pelo Duda, baixista do Lobão, meu amigo de longa data, amante das velharias analógicas. Nossa piada interna é o nome fantasia dele “Músicas de estádio para públicos de buteco” (risos)
Para fechar: dá para imaginar tua vida sem música? Se não, podemos ter certeza que você seguir gravando teus discos por aí- no sentido de respeitar os teus prazos, as tuas vontades? E é esse o grande diferencial, a grande vantagem da forma de produção musical hoje em dia?
Cada vez mais eu tô apoiado na criação de música. Não rola de estar focado numa produção fonográfica, fazer discos autorais, etc.
Eles são o hobby caro da minha vida. E pra pagá-los eu felizmente faço muita música pra imagem. E muitas me deixam muito feliz e contente. Você viu essa série “Latitudes”, que rolou ano passado?
Pois então, esse foi daqueles projetos que valem por um disco!