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A auto estrada mítica de Jack Kerouac

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Música. A imagem captura o escritor ouvindo rádio, um dos veículos em que conseguia saciar sua intensa relação com o jazz da época

crédito da foto: John Cohen/Getty Images

Reportagem publicada no jornal O Tempo em 25/11/13

O santo nome de Jack Kerouac – tantas vezes usado em vão em manobras pop pouco interessantes – circula de forma diferente e, na medida do possível, livre, nas páginas de “O Livro de Jack”, lançado este mês pela editora Bibilioteca Azul.

Trata-se da reedição da obra, lançada originalmente em 1978, lá fora. O formato adotado por esta biografia, calcado nos depoimentos orais, garante um perfil extenso e pouco censurado do escritor norte-americano, autor de um clássico de certa forma fundante de um braço da contracultura sessentista, “On The Road”, e membro central de uma geração literária (a Beat Generation) que, no inverso da frase de Neruda, foi viver e abriu os livros – escritos por eles mesmos, claro.

Cláudio Willer é um dos maiores especialistas na obra do escritor no Brasil. Autor de “Geração Beat” (2009), além de tradutor de Allen Ginsberg e do “Livro de Haicais”, do próprio Kerouac, elogia a proposta do livro, de mapear Kerouac através de outras vozes. “Como Kerouac é autobiográfico, a obra complementa o que ele escreveu, sobre si mesmo e sobre todas aquelas pessoas”, diz. “A bibliografia sobre Kerouac cresceu muito, de 2000 para cá. Ensaios focalizando o autor e outros específicos, detendo-se no texto, complementam-se, somam-se. Tem para todos os gostos: abordagens mais sociológicas, mais formalistas, crítica genética”, lembra. “O Livro de Jack” mantém uma importância seminal em relação à (hoje) extensa bibiliografia de Kerouac. “Serviu como guia para o que foi feito depois, e tem o atrativo de trazer depoimentos de quem esteve lá”, diz Willer.

A obra inspira pensar qual o lugar de Kerouac hoje, seja no cânone literário – já que muitas vezes fama do sujeito supera a fama obra –, seja como espécie de figura mítica, que continua rondando as inquietas atuais gerações. Chama atenção em relação a lançamentos como esses a noção de jogar luz sobre Kerouac, não apenas como escritor, mas também como espécie de ícone. “Observe o que Gary Snyder diz, em ‘O livro de Jack’: ‘Jack era, em certo sentido, um mitógrafo norte-americano do século XX’. Por isso, seus episódios e personagens se tornariam ‘parte da mitologia dos Estados Unidos na qual estava trabalhando.’ O mito se projeta na realidade, transformando-a”, diz Willer.

A ideia do mito sempre rondou os interesses do escritor. “A perambulação pelas estradas, os contatos com novas culturas, mostram a busca por uma América mitológica”, elenca o escritor e compositor Chico Amaral. “Corresponde às visões que os pioneiros tinham do paraíso, a vastidão de terra. E recusando o que era contemporâneo, o “american way of life”, a ideia de um destino previamente traçado, comum nos anos 1950”, ilustra Amaral.

Essa recusa se transfigurava em narrativas e linguagens diferentes. O poeta Wilmar Silva, sublinha o espírito livre do escritor como fundamental para seu fazer literário. “Era uma literatura de verdade e de liberdade”, acredita. “Um grande campo de reflexão sobre a literatura, sobre os limites dos gêneros literários. Ele tinha isso no sangue, a ousadia e a rebeldia de forma natural. O desejo de transpor para a literatura uma verdade, estavam cansados do estilo parnasiano, lírico. Eram personagens, sujeitos deles próprios”, avalia.

“Jack Kerouac foi um homem muito sensível e com um desejo de liberdade irrefreável”, diz o escritor Leonardo Alvarenga, cujos versos presentes em “Espasmo”, sua estreia poética lançada este ano, possuem débito afetivo com a obra de Kerouac. “Teve uma educação católica que o fez buscar por um tipo particular de ‘santidade’ – no livro descreve a perda de seu irmão, Gerard, morto ainda criança, como um santo. Quando adulto, acabou se interessando por budismo, sem jamais deixar de ser católico, e acirrou a sua noção de que toda vida era ‘sagrada’ e que deveria ser vivida da forma mais esplendorosa possível, como em uma epopéia”, conclui.

Ou seja, sua obra pode ser vista também a busca pelo sagrado, no equilíbrio com o profano. “A tentativa de se alcançar a beleza e a santidade, tanto é que o próprio termo ‘beatnik’ joga com o sentido ‘beatitude’”, afirma Alvarenga.


Um modelo comportamental

“O Livro de Jack”, recém-lançada biografia oral sobre o escritor norte-americano Jack Kerouac, é mais uma tentativa de dar conta da história do mítico autor. O que, claro, apenas reforça sua presença e importância para a cultura popular do último século. “A figura dele exerce um fascínio na cultura mundial, pessoas como (o cineasta alemão) Wim Wenders remetem a ele. Kerouac representa bem um espírito de rebeldia americana, de desobediência civil”, explica o escritor e compositor Chico Amaral.

Ainda no campo do cinema, o brasileiro Walter Salles, que dirigiu uma aguardada e disputada versão cinematográfica da obra mais emblemática do escritor (“Pé Na Estrada”, de 2012), é quem assina o prefácio do livro. Como ele escreve, com a obra temos a “rara oportunidade de conhecer as múltiplas e mais obscuras facetas de um homem incomum, que viveu entre culturas e teve um profundo impacto sobre todos aqueles que o conheceram intimamente”.

E o impacto de Kerouac atravessou a intimidade e principalmente, as gerações. A noção de contracultura é bastante devedora de Kerouac, inclusive dentro dos meios institucionalizados da arte, como aponta o poeta Wilmar Silva. “Naquele momento, Kerouac e a geração Beat são provas incontestáveis sobre a possibilidade de ir contra uma arte instituída. Porque aí, sim, é possível produzir uma obra por excelência, de ruptura, que consegue de fato ser o espelho do momento”, acredita.

O legado de Kerouac atuou como uma espécie de consciência crítica em uma época em que diversos valores passaram a ser questionados, em escala social. Quando Bob Dylan escreveu versos como os que constam em “It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry” (“Eu viajo em um navio cargueiro, baby. Não posso comprar uma emoção”), certamente ele estava sintonizando, uma década depois, o legado do homem que escreveu “On The Road”. “Você pega um livro dele como ‘Vagabundos do Dharma’, parece até um título do Dylan, é a cara dele”, faz referência Amaral. “Eles trouxeram esse interesse pela cultura oriental, por exemplo, que depois seria relido pelo pessoal dos anos 1960. Estes pilares do existencialismo já estavam nos beats”, diz.

E foi através de seus “herdeiros”, por exemplo, que muitos entraram em contato com sua obra, como o escritor Leonardo Alvarenga. “Quando ouvi falar em Jack Kerouac pela primeira vez, eu tinha 19 anos, em uma época em que não havia internet. No meu caso, a ‘indicação’ foi de um ídolo. Eu estava lendo uma biografia do Jim Morrison e lá dizia que um tal de ‘On the Road’ havia sido, segundo os biógrafos, um livro importante na formação de Morrison, então pensei: deve ser um livro fantástico”, lembra.

RitmoMas se Kerouac foi inspiração para a geração rock’n’roll, se inspirava em outra pulsação: o jazz. Devoto do ritmo ainda segregado racialmente, seu faro pela novidade o levava, apaixonadamente para as rotas dos clubes do gênero. “Era onde estava a transgressão”, situa Amaral. “Charlie Parker era uma divindade para esses caras, o bebop. Ouvi dizer que ele comparava Parker com Marcel Proust, seu ídolo literário, devido às longas frases. Ele começa a buscar uma escrita dotada de espontaneidade quase como improviso, verdadeira e visceral”.

E essas modulações de ritmo, suadas, urgentes, do jazz acabaram transparecendo de forma radical em sua escrita. “Kerouac desenvolveu métodos de escrita em que o improviso também era importante, escrevia como em uma ‘jam session’, explorando novas possibilidades do ‘fluxo de consciência’”, aponta Alvarenga. “Esse estilo diferenciado e original foi aprimorado com o tempo, mas já estava presente em ‘On the Road’, mesmo com as ‘correções’ impostas, às quais ele teve que submeter o texto original”, acrescenta.


 Kerouac é pop

Várias canções fazem referências diretas ao ícone beat

“Jack Kerouac”, Gang 90

“Cleaning Windows”, Van Morrison

“3 Minute Rule”, Beastie Boys

“Hey Jack Kerouac”, 10.000 Maniacs

“Para Kerouac”- Jennifer Souza

Ode às groupies

Publicada na coluna Esquema Novo, no jornal Estado de Minas, em 27/07/2007

Alguns leitores deste espaço reclamaram que deixamos passar em branco o dia mundial do rock. Talvez seja pelo fato de que esta não é exatamente uma coluna exclusivamente sobre rock, ora bolas. Mas enfim, é ele quem volta à pauta esta semana, celebrando uma figura essencial. Para quem não sabe, há exatamente uma semana, 13 de julho, comemorou-se o dia mundial do rock. Essa arte bastarda. Afinal, até hoje é possível discutir sua paternidade – Elvis? Chuck Berry? Algum pioneiro apagado pelo tempo? Aliás, quantas velinhas foram apagadas nesse aniversário? Quantos anos têm o rock?

O que se sabe é que, junto com seu nascimento, se bobear até antes, vieram as groupies. Não é exatamente uma profissão, uma labuta libidinosa das mais antigas. Segundo a Wikipedia, trata-se de um homem ou uma mulher que busca contato físico e/ou emocional com uma pessoa famosa-notoriamente grupos musicais, daí o termo. Como até roqueiras tarimbadas, como Joan Jett, já reclamaram da falta de representantes masculinos na categoria, são elas, as groupies, parte do combustível fundamental para manter acesa a chama (e outras coisas) do mundo rocker. Sem machismos ou julgamentos de valor.

O crítico inglês Tony Parsons, em seu excelente “Disparos Do Front Da Cultura Pop” perfila em um artigo essa figura com muito bom humor: “Sabe como a garota do rock apaga as luzes depois de fazer sexo? Fechando a porta do carro!”; “O sonho de toda garota do rock é fisgar uma estrela e se tornar uma comportada dona de casa”; entre outras máximas. Pode acreditar: são declaradas por quem caiu na estrada com algumas das bandas mais clássicas dos anos setenta, e quando a figura da groupie ficou mais estilizada.

Quem também afirma a posição, mesmo que pela negação, é a personagem Polexia, no filme Quase Famosos -um ótimo retrato de época que foi dirigido por outro que conheceu de perto os anos dourados do circo roqueiro, Cameron Crowe. A mocinha uma engraçada definição.”Não somos groupies, somos band-aids, ajudantes de bandas. Amamos tanto determinados grupos que chega a doer”.O remédio para tamanho sofrimento era encontrado com facilidade nas camas de hotéis ou backstages de qualquer músico famoso da época.

Aliás, as groupies de “Quase Famosos” tiveram seus trejeitos baseados em personagens reais dos anos 70, como Pamela Des Barres. Mick Jagger, Jimi Hendrix, Jim Morrisson: alguns dos maiores mitos do estilo tiveram uma conversinha mais íntima com ela, que eternizou suas conquistas no clássico livro “I´m With The Band”. Este ano, do alto de seus experientes 58 anos, Pamela está lançando “Let´s Spend The Night Togheter”, onde retrata lendas como Bebe Buel e Cyntia Plaster Caster.

Músicos jovens confidenciaram a este escriba que têm a impressão que elas podem estar se tornando uma raça em extinção. Sepultar essa instituição sagrada seria cair no abismo fácil, o de romantizar os velhos tempos. Já presenciei (não vivi, é claro. Sou o inimigo, o jornalista!), seja no Acre ou aqui, cenas de backstage e gandaias em hotéis dignas de qualquer biografia rocker respeitável. Geralmente, envolvendo grupos que buscam capturar em sua música – e em suas roupas, e em suas condutas – o velho espírito setentista, a tal mitologia da estrada onde tudo é permitido.

Mas com nosso capenga star system de celebridades instantâneas, onde qualquer mané é alçado ao posto de deus dourado que os cachos de Robert Plant demoraram anos para conquistar, além da indispensável postura do sexo seguro e a infantilização crescente do nosso rock, tem sido cada vez mais raro encontrar as seguidoras – e é essa a linha que distingue as groupies das tietes. Como garante uma amiga, anos de serviços prestados a causa na cena mineira, “não estão faltando groupies. Está faltando é rock mesmo”. E lá foi ela para a pista de dança ao som de um saudoso “I Can´t Get No (Satisfaction)”.