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Narrativas possíveis: Sun Kil Moon-”I Watched The Film The Song Remains The Same”

…assim como Mark Kozeleck, eu também assisti ao filme “The Song Remains The Same”, quando eu era um garoto. (I watched the film “The Song Remains the Same”/At the midnight movies when I was a kid”Infelizmente não não foi nos anos 1970 (a canção, mesmo sem sinalizar exatamente isso, dá a entender que ele assistiu à película quando ela saiu) e também não foi em um cinema. Na verdade, foi depois de furar o disco de vinil (a trilha sonora do filme) que me foi apresentado pelo meu pai, em 1996, acho, numa gloriosa e didática fase de entrar nos anos setenta (a tríade Zep-Purple-Sabbath) da pesada; encontrar as referências e os mestres do Queen (o primeiro piloto da série) que eu tanto amava. Imagino que meu pai deve ter se enchido de nostalgia, porque seguramente ele escutava o disco de tabela, várias e várias vezes saindo do som do meu quarto. E é um disco longo, não exatamente bem gravado, e como vim a saber anos mais tarde, não muito apreciado pela crítica rock. O Led carregava a fama de fazer shows irregulares, esse registro, tecnicamente,  dava razão aos depreciadores (que devem ter se calado quando saíram os monumentais “At BBC” e “How The West Was Won”). Mas eu adorava, adorava, adorava, especialmente as que fugiam do cardápio conhecido da época, da estridência hard/blues rock e aprofundavam, pretensiosamente, no campo das experimentações (“What spoke to me most was “Rain Song” and “Bron-Yr-Aur”/And I loved the thunder of John Bonham’s drums/But even more, I liked “No Quarter” low Fender Rhodes’ hum“). Até hoje, quando escuto “Rain Song”, o rosto dela me aparece, como uma espécie de punição, por ter sido tão bobo, tão apaixonado, tão sofrido, tão adolescente- o rosto dela me aparece como ela parecia aparecer em todos os lugares em que eu ia na época. (But from my earliest memories, I was a very melancholic kid/
When anything close to me at all in the world died
/To my heart, forever, it would be tied). Eu tinha quatorze anos, estava perdidamente apaixonado, vestido da mais autêntica melancolia e não tinha ela. Tinha “Rain Song”, e era isso então que a substituía, que tocava o tempo inteiro, que me fazia chorar e chorar e chorar: eram belezas compatíveis. Então o Led, acima do Purple e do Sabbath, era aquela banda que eu ficava desenhando o logo, escrevendo as letras, no caderno de geografia, oitava série, Colégio São Bento.  Até que um dia a professora- Eliane, nunca esquecerei-viu o caderno e invés de me repreender, elogiou; se assumiu como fã também. Óbvio que depois disso se tornou minha favorita, aquela em que eu defendia, em quem eu prestava atenção nas aulas, em quem fiquei encantado: aquele figura meio séria, meio sisuda, sem paciência para as molecagens da galera, na verdade guardava seus melhores toques para quem não fosse tão…moleque. Adultinho como me julgava, caí nas graças dela; ela caiu nas minhas graças e volta e meia perguntava coisas extra-classe (“Gosta de Queen? Rock novo, tipo Nirvana?”). E acho que foi ela quem me falou do filme, que eu tinha de assistir e tals. Se bem me lembro, aluguei na Cristal, uma das melhores locadoras que essa cidade já teve, responsável por uma incrível educação cinematográfica e muito mais- era o equivalente cinema para o “Alta Fidelidade”, só que ao contrário daquele esnobismo chato, o que encontrávamos era uma generosidade e uma paixão muito inspiradoras. Chegando em casa, fita no video cassete, foi um choque. Era uma época em que, me lembro, ficava até tarde com a MTV ligada para assistir algum clipe mais antigo no “Clássicos MTV”, como Massari, E ali estava, a minha disposição, mais de duas horas de Led, non-stop, show no Madison Square Garden, além das viagens dos caras (erradaças, já tinha certo senso crítico na época). Fiquei chapadaço. (“Jimmy Page stood tall on screen/
And I was mesmerized by everything“). Deve ser daí, imagino, que nasceu meu fetiche pela Les Paul, (And though I love the sound of the roaring Les Paul) sonho que ainda não consegui realizar-cheguei perto com algumas Epiphones- mas chego lá. Hendrix à parte, Page segue como meu guitarrista favorito. Mas então, costumo dizer que este ano, 1996, foi um ano bastante simbólico na minha narrativa pessoal. É o ano em que encontrei amigos pra sempre, onde achei minha vocação profissional, onde comecei a pensar o mundo e perceber que o mundo podia, em algum momento, pensar em mim também. Não perdi, graças, nenhum grande amigo (Like when my friend was thrown from his moped/When some kind of a big truck back-ended him/And when the girl who sat in front of me in remedial/Was killed in an accident one weekend) mas me lembro de conquistar, aos 14 anos, uma dimensão meio estranha da vida que carrego até hoje, uma melancolia e um certo senso de fugacidade (viva o processo, e não as conquistas) que pareço carregar até hoje e pra sempre. E claro, teve o episódio da morte do João Paulo, que não foi a morte do João Paulo. Liguei na casa do Luiz, grande amigo, num domingo à tarde. A mãe dele, uma querida, me disse que ele estava num enterro de um amigo, o Paulo, “João Paulo?”, “Isso, João Paulo”. Me desesperei, e ainda não entendo o porque, a primeira coisa que fiz foi pegar uma camiseta do Pearl Jam ( a banda favorita do João) que eu tinha, avisar a minha família e correr para o cemitério, para o velório. Chegando lá, desabado em lágrimas, dei de cara, enquanto caixão descia, com o Luiz, olhando pra mim com uma puta cara estranha, do tipo “O que faz aqui?”. Quando ele me disse que quem tinha morrido era o Paulo, e não o João Paulo, me lembro de rir, MUITO inadequadamente, aliviado. Anos depois acabei sendo vizinho dos pais do Paulo que realmente tinha falecido, e não me esqueço da tristeza do olhar deles quando eu chegava carregando minha filha, ainda bebê. Era muito pesado, e só de lembrar disso já mareio os olhos, porque, já naquela época, eu suspeitava a dor do que seria perder um filho. Chegando em casa liguei para o João Paulo, que, chapado, chapadaço, as usual, me pediu: “Pereira, o dia em que eu realmente morrer, enterra uma mudinha junto comigo”, e agora eu fico pensando onde o João está, e que eu queria muito fazer o que ele me pediu. Aos quatorze anos carregamos coisas que duram pra sempre. Por exemplo um episódio de bullying em que protagonizei- melhor, antagonizei- e que não me esqueço e que não abandono, e que, em definitivo, me situou no lugar onde sempre estive e estou até hoje. Em uma época da escola, a mania era baixar as calças da pessoa que estava tomando água, desarmada, no bebedouro. Pois bem: embarquei nessa e puxei as calças de um moleque, mais novo, que, nesse dia, estava sem cuecas. Foi horrível: o olhar fulminante dele; a sensação quase imediata do que eu fiz; as risadas impiedosas das pessoas em volta. (And when I walked away, the kids were cheering/And though I grinned, deep inside I was hurting/But not nearly as much as I’d hurt him/He stood up, his glasses broken and his face was red). Foi horrível, horrível, e até hoje carrego isso como uma mancha, um limite, uma prova de que não é essa a minha convicção. Me lembro de lembrar claramente desse episódio, como um impulso, anos depois, quando do 2º grau defendi um menino mais fraco contra um valentão na sala de aula, já no colégio Pitágoras, trocando socos com o bully em plena sala de aula, enquanto a professora de inglês, em horror, confundia idiomas.  Mas eu realmente não sei como se sentiu o garoto indefeso no corredor do colégio, calças arriadas à troco de uma prova vazia de minha masculinidade ou esperteza ( e não tinha assistido a “Clube dos Cinco” ainda), e só queria dizer hoje, de coração aberto e ainda envergonhado: ME DESCULPE. (And I was never a schoolyard bully/It was only one incident and it has always eaten at me/I was never a young schoolyard bully/And wherever you are, that poor kid, I’m so sorry). A passagem dos quatorze para os quinze foi absolutamente radical, uma mudança de guarda pessoal/estética/completa onde troquei, em definitivo as centralidades da minha vida: o que era futebol virou música, e com isso apareceram o álcool, as leituras mais complexas, o cigarro, a turma do rock e o contrabaixo que comprei, simbólica e sintomaticamente numa viagem à Disney- viagem cujas memórias mais importantes foram o medo definitivo de montanhas russas e da falta de graça em parques de diversão; a companhia do casal adulto em papos meio desconexos do contexto; e claro, o dia em que roubei um cookie do hotel em Miami, morrendo de medo de ser pego mas morrendo de orgulho de ter uma história transgressora para contar aos amigos e das bitucas de cigarro catadas nos cinzeiros (realmente não se comprava cigarro sendo menor de idade, e ainda se fumava deliciosamente em vôos).  O baixo preto (Epiphone!), de braço longo e grosso,  do tipo “tem que malhar” que me levou para tantas aventuras, que tratei tão mal, carregando sem bag para o estúdio do Toninho lá no alto do Minas Brasil…(“And when I grew older, I learned to play guitar/While everyone else was throwing around a football/Wearing bright colours the school issued them/Parroting passed-down phrases and cheerleading“).  Carreguei ele por muito tempo, e de certa forma, carrego até hoje. Optei- ou o mundo,  a vida- optou por mim, em estar de um outro lado, portanto, nunca tive um contrato de gravação, uma carreira musical ou algo do tipo. Mas esse baixo de alguma forma foi a porra do portal, um símbolo poderoso, que justifica muito de cada coisa que fiz até aqui. (I got a recording contract in 1992/And from there, my name, my band and my audience grew/And since that time, so much has happened to me).  Hoje, mais de quinze anos depois- ou seja, o mesmo tempo vivido até então- percebo que, mesmo tendo realizado coisas bacanas, cujo fio remonta à essas memórias, ainda sou o mesmo menino, trancado dentro do quarto, tentando tirar alguma coisa daquelas quatro cordas do baixo- cheguei a fazer aulas na Pro-Music, como o grande, gigantesco, Paulinho Carvalho (os adjetivos só chegam agora; na época era apenas um professor mala que me enfiava uma porrada de escalas na base do ” se vira” e saia pra fumar um cigarro). O mesmo garoto intimidado pela grandeza das coisas. O mesmo cão sem dono que Beto Brant foi filmar anos mais tarde.  E é isso aí. (But I discovered, I cannot shake melancholy/For forty-six years now, I cannot break the spell/I’ll carry it throughout my life and probably carry it down/I’ll go to my grave with my melancholy/And my ghost will echo my sentiments for all eternity). Conviva-se com os fantasmas, trate-os com algum carinho e alguma auto-ironia, de certa forma nunca podemos mesmo quebrar esse feitiço.  Fazem anos que não assisto “The Song Remains The Same”, e tenho certeza que quando isso acontecer, algumas coisas serão as mesmas; as fagulhas no olhar ao ver Jimmy Page, mágico e misterioso, John Paul Jones silencioso e taciturno, as estridências sexuais de Robert Plant- o melhor cantor de rock pra sempre- e os bumbos cardíaco-acelerados de John Bonham irão me transportar novamente para alguma tarde cinzenta de 1996, onde aquelas imagens e aquela música faziam do mundo/meu quarto um lugar mais possível de se aguentar: um campo de sonhos, moldado pela música e pelas possibilidades que ela oferece.  Mas as coisas mudam, as coisas mudaram e sei que nunca mais terei aquela sensação virgem, única, de ser apresentado à algo do qual vou carregar para sempre na minha vida. (“And now when I watch “The Song Remains the Same”/The same things speak to me that spoke to me then/Except now, the scenes with Peter Grant and John Bonham/Are different from when I think about the dust that fell upon them“). A poeira dos dias é implacável,e penso nela quando penso no Luiz, o mesmo amigo do caso do enterro errado. Como eu sinto falta daquele garoto que assistia magnetizado “The Song Remains The Same”, eu sinto muita falta do Luiz, meu grande parceiro daquele período, um cara cuja coragem e franqueza que parecia, aos meus olhos, simplesmente ignorar a existência de sentimentos como melancolia. Luiz era e é uma força da natureza, que hoje está morando bem próximo a ela, se conectando com sentimentos muito grandiosos, de um tamanho que ele é mesmo capaz de carregar. Ainda quero vistá-lo, não o vejo há muito, lembrar e me inspirar por tudo isso, mostrar essa música pra ele e agradecer. (“
I got a friend who lives in the desert outside Santa Fe/And I’m going to visit him this Saturday/Between my travelling and his divorces/And our time not being what it was/It’s been fifteen years since I last saw him/He’s the man who signed me back in ’92/And I’m going to go there and tell him face to face,”Thank you.“). Porque de todas as pessoas que de alguma forma acreditaram que aquele adolescente com a auto estima nos pés poderia pelo menos saber lidar com isso de uma forma mais potente, ele foi o primeiro, o grande incentivador. Seja nos engradados absurdos de cerveja que bebíamos, nos duelos passionais que tínhamos em torno da música, nos duetos apaixonados que fazíamos eu com meu baixo e ele com a guitarra dele, que combinamos de comprar na mesma época, porque iríamos formar uma banda- e formamos- e por saber, desde cedo, que aquilo ali formataria meu caminho sempre. Ele sabia que eu não largaria a música, que ela seria protagonista na minha existência; eu sabia que a música era apenas a porta de entrada para todo um universo que ele foi desvelando, seja no futuro curso de filosofia, seja nas suas escolhas tão loucas e tão precisas, tão acertadas. Ele de certa forma escolheu a vida em formato puro, de peito aberto; eu pareço ter escolhido a vida em formato música, a ideia de uma existência através dela. Eu me acho medroso perto dele. Ele falaria que eu estava errado em pensar assim, e me encheria de conforto. Porque eu assisti ao filme “The Song Remains The Same”. E de alguma forma escolhi morar ali dentro, para todo o sempre. (“For helping me along in this beautiful musical world/I was meant to be in”)