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Falso Ingênuo

Texto publicado na edição de 23/05/2015 do caderno Pensar, do jornal Estado de Minas

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Que coisa terrível era uma boa educação se produzia o tipo de cabeça que despreza o entretenimento e as pessoas que o valorizavam”. O pensamento do personagem Dennis, produtor e diretor de programas de comédias da BBC nos anos 1960, quando se vê confrontado com a intelectualidade da esposa infiel, de certa forma sumariza uma porção generosa do ethos literário do britânico Nick Hornby, além de mostrar que, a centralidade da mídia- ou uma percepção espessa da noção de pop no mundo contemporâneo- volta à baila em seu novo romance, “Funny Girl” (Cia das Letras). Percebido pelo Guardian como um tributo do escritor à “era de ouro” do entretenimento leve, “Funny Girl” vai além da celebração: escancara novamente debates que se situam engenhosamente opacos na obra do escritor, travestidos de ordinariedade. Hornby se posiciona no campo literário, como um dos melhores comentaristas do embate entre alta e baixa cultura, embate este que as membranas cambiáveis do mundo contemporâneo frequentemente tentam esconder e estilizar, mas que ele, com toda razão, faz questão de trazer a tona.

 

O duelo amoroso travestido de intelectual (e vice versa!) travado entre Denis e o amante de sua esposa (um acadêmico comentarista da mesma BBC) é apenas uma das tantas peças que fazem de “Funny Girl” (mais) uma apaixonada e apaixonante defesa do escritor ao que podemos chamar aqui de sensibilidade pop. Afinal, os romances de Hornby pretendem-se, ao modo realista, uma janela transparente, que dê a ver o mundo contemporâneo que, como, já havia proposto a pop art cinquentista e sessentista, não pode ser descrita e compreendida sem os artefatos da cultura midiática. E é a partir desta cultura, hegemonicamente instaurada no mundo de hoje, que o autor recolhe algumas noções possíveis da ideia de uma cultura pop. Esses objetos espalhados cotidianamente pelo mundo também dão conta de quem somos, do que somos: modelam e modulam uma sensibilidade particular. Nossas escolhas também definem o que somos.

 

O que ele faz, portanto, é dar voz a este contexto, em suas possibilidades e contradições. A visada sob a construção de uma série cômico-televisiva – “Barbara (e Jim)”- soa formativa quando percebemos que esse formato de produção audiovisual, de Big Bang Theory à House Of Cards, talvez possua hoje uma voz que nunca falou tão alto no mundo do entretenimento. Um dos aspectos mais adoráveis e instigantes de “Funny Girl” é justamente sua escolha por ambientar essa análise nos bastidores de um programa de comédia, protagonizado pela sonhadora e sagaz garota nortista Barbara e por um grupo de jovens comunicadores – o galã desorientado Clive, o gay modernérrimo Bill, o romântico Tony e o inseguro Dennis- onde a narrativa acaba desvendando, deliciosamente, um período onde os Stones, os Beatles, a mini-saia e as pulsões sexuais eram definitivamente a pauta da vez. Dedicado a esse caráter “biográfico” da época, o livro recorre até ao uso de imagens, fotos que complementam e imploram a proximidade da ficção com o real, ambientando a Londres dos anos 1960 como um espaço vibrante (swinging), cheio de possibilidades. A época de ouro da cultura pop, o diapasão comportamental que de muitas formas não guia até hoje.

 

Mas desta vez Hornby resolve encarar como a mídia é construída, e não apenas como ela é percebida, pelo sujeito contemporâneo. Aqui no Brasil, encanta ainda mais esse enquadramento, por podermos notar que a comédia (talvez um dos gêneros mais diminuídos na estrutura formativa da cultura pop) alcançou nos últimos anos um espaço e uma importância na mídia como há tempos não acontecia. Portanto, acompanhar as desventuras de Dennis, Bill, Tony Clive e Barbara de certa forma nos conecta ao sucesso, ou ao entendimento da gênese deste sucesso, de produções como Porta dos Fundos, do “nascimento” da stand up comedy no país, de atores como Tatá Werneck ou Paulo Gustavo. Não soa estranho, quando ao final do romance, o grupo que fez história na BBC nos anos 1960 ser celebrado por um jovem produtor, que pretende os conectar com a era dos espetáculos online, da multiplicidade etária e sexual, e estranhamentos à parte, todos embarcam nesse novo mundo. De certa forma eles são os pioneiros, pais ou avôs de boa parte dos personagens apresentados por Hornby em muitos de seus outros romances.

 

Curioso pensar que, durante esse hiato literário (desde 2011), o escritor apresentou sua faceta criativa mais distante do pop, assinando roteiros cinematográficos ora mais elegantes ou tradicionais (“Educação”, de 2009) ora mais gráficos e fortes (“Livre”, de 2014). E agora ele volta com o que talvez seja o aceno mais carinhoso que ele tenha feito em toda sua carreira à chamada indústria do entretenimento, onde bons elementos da ótica hornbyana se espalham pela obra: o reconhecimento de si em algo formatado pela indústria do consumo (a obsessão de Barbara por Lucille Ball), o romance realista como dispositivo ideal para narrar grandes histórias, o entretenimento leve como um pano de fundo “teórico” complexo, uma meta defesa, típico jogo hornbyano, através de um romance leve, travestido de ingênuo. E historicamente, essa ambigüidade, esse caráter duvidoso presente nas grandes obras pop, nos deixam irresistivelmente tentados a filiar a obra de Hornby como um objeto pop em si: denso, potente, pleno de significações abertas, “disfarçada” em um romance simplório, mas que guarda em si o fator trickery da cultura popular apontado por John Fiske, a capacidade de significação que vai além das leituras fáceis ou aparentes.

 

Como escritor ficcional, Hornby parece buscar o que James Woods chama de vida animada, lifeness, a vida na página, a vida que ganha uma nova vida graças a mais elevada capacidade artística. E a existência que Hornby espelha é mediada pelo pop, e, nesse sentido, ele avança, como um comentarista social, buscando em sua trajetória literária traduzir o sujeito contemporâneo, ficcionalizando o cotidiano e dimensionando uma possível sensibilidade pop através de seus enredos, seus personagens, seus diálogos. Dos elementos formativos da cultura pop, Hornby “defendeu”, ou reportou muitos, com sedução e precisão. O esporte (futebol em “Febre de Bola”, skate em “Slam”), música (“Alta Fidelidade”, “Juliet Naked”) mídia e comunicações (“Um Grande Garoto”). Deu-se particularmente mal quando fugiu desses temas (“Uma Longa Queda” e “Como Ser Legal”, obras menores) e talvez tenha condensado brilhantemente sua “luta” no conto “Jesus Mamilo”, da coletânea de contos “Falando com o Anjo”, sem contar o sensível e biográfico “31 Canções”.

 

Temos, portanto, arte, mídia e literatura atuando como reflexo da vida, capturando o presente, e produzindo ou espelhando estruturas autopoieticas. Seja pela urgência de um relato da realidade, seja pela ambiguidade por vezes irônica, por vezes densa, essas noções em caleidoscópio formatam uma possível ótica pop. E essa ótica se apresenta como uma cartografia necessária para se entender o que somos (e como o somos) no aqui e agora. Se em “Juliet Naked”, seu último romance, ficava um pouco a dúvida de que o escritor queria crescer, amadurecer, em “Funny Girl” ascende outra vontade: a de olhar com carinho para o passado, como que buscando uma espécie de lastro histórico, como se somente com isso poderíamos celebrar as conquistas de hoje. Não é um romance sobre a era da inocência, talvez o contrário: sobre como o sujeito começa a perder ela, e entender que somente assim seria capaz de jogar, em condições mais ou menos iguais, o jogo da mídia. Hornby dá voz, todo o tempo, a sujeitos supostamente “ingênuos”- especialmente a protagonista Barbara- mas os percebendo e os dotando de uma perspicácia que, acreditamos, seria essencial para entender o período e entender a própria condição de jogar com o pop. No fundo da discussão, Hornby nota que não há marionetes, nem em relação ao público, nem em relação a quem faz.