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Às margens do Mississipi, sentamos e choramos

JEFF

Lester Bangs escreveu, em 1979:

Van Morrison’s Astral Weeks was released ten years, almost to the day, before this was written. It was particularly important to me because the fall of 1968 was such a terrible time: I was a physical and mental wreck, nerves shredded and ghosts and spiders looming and squatting across the mind. My social contacts had dwindled to almost none; the presence of other people made me nervous and paranoid. I spent endless days and nights sunk in an armchair in my bedroom, reading magazines, watching TV, listening to records, staring into space. I had no idea how to improve the situation and probably wouldn’t have done anything about it if I had.

Astral Weeks would be the subject of this piece – i.e., the rock record with the most significance in my life so far – no matter how I’d been feeling when it came out. But in the condition I was in, it assumed at the time the quality of a beacon, a light on the far shores of the murk; what’s more, it was proof that there was something left to express artistically besides nihilism and destruction. (My other big record of the day was White Light/White Heat.) It sounded like the man who made Astral Weeks was in terrible pain, pain most of Van Morrison’s previous works had only suggested; but like the later albums by the Velvet Underground, there was a redemptive element in the blackness, ultimate compassion for the suffering of others, and a swath of pure beauty and mystical awe that cut right through the heart of the work

Bem, troque “Astral Weeks” por “Grace”, de Jeff Buckley, e, pronto, Bangs descreveu com exatidão tudo que a obra de Buckley significou pra mim. Aliás, certas coisas não são em vão: foi Buckley quem me levou à “Astral Weeks”, tanto devido à resenha de “Grace” escrita por Celso Pucci na Bizz, onde citava a obra prima de Van como referência determinante para “Grace”, quanto à esplendorosa, magnífica, inacreditável versão que Buckley fez de “The Way Young Lovers Do” em seu “Live At Sin-é”.

Ele foi como um portal, um mojo pin, que reunia boa parte dos adjetivos ou metáforas reunidas por Bangs nesse clássico texto: escuridão, luz, redenção, nervosismo, dor, fantasmas, solidão, etc, etc, etc.

O simples fato de escutá-lo, agora, 14 anos depois de sua morte, me enche de lágrimas os olhos.

Buckley se transformou em uma espécie de parâmetro, de diapasão maior e- até hoje- intocável, desde que surgiu. A sensação que tenho é que alguns de meus discos favoritos lançados desde 29 de maio de 1997, data em que ele partiu, tem algum tipo de crédito com ele (“Ok Computer”, do Radiohead; “XO” de Elliott Smith; “Want One”, de Rufus Wainright; “Sea Change”, de Beck; “Pneumonia”, do Whiskeytown e uma longa, longa lista…). É muito, muito difícil, fazer o que Elvis Costello (que sabe tudo de música boa, fã de primeira hora) pediu certa feita, para não transformarmos a história dele em uma história romântica (Porque ele era “muito melhor que isso”, completou Mr Costello).

Ora, como assim? Um menino que tem uma herança meio bastarda de um pai que nunca lhe deu pelota nenhuma (o gigantesco Tim Buckley, de quem herdou a beleza e a oceânica capacidade vocal) vive com a mãe em Los Angeles, tentando fugir desesperadamente de seu inevitável DNA; assume finalmente que seu negócio é música, estuda nas melhores escolas, aparece midiaticamente num tributo ao pai, se muda pra Nova Iorque, grava um dos maiores álbuns de todos os tempos; é afagado pelos maiores nomes da música pop- de Bono, Paul Mc Cartney à Jimmy Page- mas ainda assim não consegue vendagens muito significativas; divide drogas com a viúva da vez, Courtney Love, namora uma de suas musas de infância, Elizabeth Frazer; registra um ansioso segundo disco com Tom Verlaine; insatisfeito, muda para Memphis em busca de paz; morre em um mergulho em um afluente do Mississipi (o rio que banhou toda a música norte-americana) enquanto esperava sua banda desembarcar na cidade para trabalharem juntos, cantarolando “Whole Lotta Love”.

E aí morre afogado.

Não é à toa que Hollywood promete há anos uma versão disso tudo aí.  Do ponto de vista comercial, a história é boa demais para ser verdade.

E, claro, do ponto de vista de quem se apaixonou perdidamente pelo disco lançado em 1995, tem não sei quantas cópias dele (eu devo ter umas seis, em diferentes formatos, CD, box, vinil…) trata-se de uma narrativa ruim demais para ser verdade. Por uma questão central, muito óbvia: Buckley estava apenas começando. Estava pleno de futuros acertos e erros- e mais do que fantasiar uma carreira perfeita, imaculada (coisa que “Grace” garantiu)o que gostaríamos, mesmo, era de poder acompanhar uma carreira. Apenas, sem adjetivos previamente dados. Acima de qualquer coisa, talvez seja essa a maior falta que ele faz.

É claro que podemos seguir aquela cínica lógica, de que, depois daquela estréia, seria apenas ladeira abaixo; ele se tornaria um prisioneiro de “Halleluijah” para o resto de seus dias, etc. De certa forma, ” Sketches for My Sweetheart The Drunk”, o disco póstumo de 1998, que supostamente traz rascunhos de seu segundo álbum, confirma isso. Claro, são rascunhos, gravações toscas, mas são composições que em nenhum momento exibem o brilho, a densidade, o poder das canções reunidas em “Grace”.  Ok, temos “Sky Is a Landfill”, temos “Opened Once”; temos, principalmente, “Everybody Here Wants You” e “Morning Theft”. E sobram potências (no sentido de que poderia, vir a ser) maravilhosas canções como “Vancouver”, “I Know We Could Be So Happy Baby (If We Wanted to Be)”, “Nightmare by the Sea”. 

Mas para o fã, o sonhador, aquele em eterno crédito por Buckley ter sido o farol na escuridão, ah meu amigo…TUDO ali era maravilhável, era digno de suspiros.  A tosqueira de “Your Flesh Is so Nice”?  A pancada em “Haven’t You Heard” ? A versão de “Back in N.Y.C.”  que causa repulsa em alguns fãs de Genesis? Nós (sim, sou um deles) queremos tudo. E Jeff nos deu muito: um simples passeio pelo You Tube e é possível encontrar covers afetuosas, canções sem registro oficial,  apresentações inteiras, em qualidade aceitável, de shows mais ou menos clássicos.


 

A dificuldade maior em não transformar a história de Buckley em uma história romântica parte de um princípio muito claro: de todos os mártires dos anos 1990 (Cobain, Smith) ou até mesmo da imensa iconografia mórbida do rock/pop, a dele parece meio…Injusta? Desnecessária? Imbecil? No caso dele, a clássica pergunta da humanidade ( “Por que, meu Deus?”) parece ressoar com mais força, precisão, justificativa. O sujeito que fez “Grace” morre mergulhando num rio.  Mais do que as ligações, hum, emblemáticas, entre a sua biografia e a do pai ( também precocemente falecido) o que fica é aquela sensação esquisita de que os “bons morrem jovens, blá, blá, blá”.

Mimimi? Claro, seguramente. Todos os finais de semana alguém se afoga por aí em alguma água triste e perigosa deste planeta cheio delas. Mas, ei, é para isso também que serve- e que separa-a grande ARTE não? Para lamentarmos sua ausência, sua perda. O parágrafo de Bangs sobre “Astral Weeks” emociona justamente porque posiciona o disco como algo muito maior que um disco: são pedaços formadores de nossa subjetividade, uma superfície física, material que nos traduz de forma tão interior, quase espiritual: você não vê, você até toca (graças ao nosso amor tátil pelos discos, cd´s…) mas você sente.

É a nossa vida,  ou pelo menos um momento significativo dela, repleta de escuridão, de dor, de olhares vazios, editada, narrada pelo propósito artístico de alguém que possivelmente nunca chegaremos a conhecer. E esse alguém oferece uma espécie de redenção, uma compaixão por esta situação, uma compreensão que ninguém mais tem naquele momento. “Grace” é pleno de visadas assim: do título até as delicadas linhas de guitarra; das letras às interpretações apaixonadas das suas qualidades puramente musicais que poderiam encher livros e livros…

Mas não estamos falando de “qualidades musicais”, mesmo que seguramente Buckley tenha se tornado um “músico dos músicos”,  um “artista dos artistas”, com um arco de influência de longuíssimo alcance- não me esqueço da cena de “Tudo Acontece em Elizabethtown” de Cameron Crowe, onde a personagem de  Kirsten Dunst orienta Orlando Bloom em seu mapa de viagem, para, em Memphis, fazer suas “preces para Jeff Buckley”.

Estamos falando daquelas obras que, resumindo o papo de Bangs, salvam vidas. Mais que a estréia do Velvet, mais do que “The Bends” ou “Ok Computer” ou “Touro Indomável” ou “O Estrangeiro” ou Cobain, ou Legião Urbana ou Hopper, ou aquele Cruzeiro de 2003 ou “Clube dos Cinco”, ou “Magnólia” ou Kerouac, Hemmingway, Almodóvar, este e aquele, talvez seja “Grace” a obra pela qual mais sou grato.

E quando nosso carro entrou em Memphis, há alguns anos atrás, foi em Buckley que pensei, não em Elvis, Martin Luther King ou Otis Redding.

Pensando em tudo isso, é muito, muito difícil não ficar enlutado por Buckley, não lembrar disso a cada 29 de maio. Ele não nos deu a chance de se humanizar, de fazer discos realmente ruins,  de cometer cagadas na mídia, de sublimar a história romântica e se tornar um bosta como todos nós somos. Talvez seja o único artista no mais alto posto da minha coleção que conseguiu manter essa aura.

Mas a que preço: um mergulho à toa num rio…

Os 10 anos sem Jeff Buckley, aqui