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É estranho! É divertido! É dançante! É o Mordeorabo!

Coluna Esquema Novo, publicada no jornal Estado de Minas em 06/07/2006

Quem avisou pela primeira vez foram dois amigos, Guto e Vítor, falando de uma novíssima banda que apareceu no campus da UFMG, dando ênfase aos adjetivos dançante e instrumental. Depois foi o Claudão, proprietário do Bar A Obra, uma das maiores incubadoras de boas novidades musicais da cidade, que aprovou a qualidade de um bando de moleques que “tocam muito”, formando um dos grupos mais promissores da cidade.

Quando Fred 04, do Mundo Livre S/A, confidenciou ao Terence (que também escreve neste espaço) no último festival Bananada, em Goiânia, que só faria o próximo show da sua banda em Belo Horizonte se estes mesmos guris fizessem a abertura, eu mesmo já tinha assistido ao Mordeorabo o suficiente para formar uma própria opinião. E acrescentando mais um no bolo de elogios: eles têm um senso de humor adorável!

A começar pelo batismo. O pop nacional é pródigo em nomes cretinos, mas até alguns amigos mais liberais acharam estranho quando convidei os para ir conferir o Mordeorabo. Mas o quarteto formado por Bruno Corrêa e Raphael Righi nas guitarras, Max Duarte no baixo e Pedro Hamdan na bateria, não é tão assanhado assim. Há cinco anos eles começaram a tocar no estúdio do Murillo Corrêa( pai de Bruno ) registrando algumas vinhetas instrumentais. ”Num desses CDs, desenhamos um BICHO, clara a intenção, dentes procurando abocanhar o rabo”, explica Pedro. No espaço que sobrou no objeto, profeticamente foi escrito “Todas as versões mordeorabo”.

As estranhezas – e os diferenciais, moeda valorosa no pop hoje em dia – não param por aí. Para os mais curiosos, decifrar os títulos de músicas instrumentais, sem informações de texto, é um desafio tão interessante quanto escutar as próprias. Mas entre um baixo que lembra os bons tempos do Police, uma guitarra que pode colocar a pista para ferver com a precisão de um Franz Ferdinand e uma bateria jazz – e isso tudo em uma única música – é um verdadeiro enigma descobrir o porque de canções batizadas como “Ninguém se Despediu Do Casal Gay” e “Sunga, Sunga, Sunga”. Segundo a banda, as músicas ganham nome à medida que vão tomando corpo. “Sunga Sunga Sunga”, por exemplo, “nada mais é que a repetição (por três vezes) da COISA que o baixista usava por baixo das calças”, durante um ensaio. “Já outras têm a graça moldada pelo tempo, qual falésia arrepiada pela lambida das ondas, sussurros do vento…!”.

Falésia arrepiada? Para tentar facilitar uma descrição sonora do grupo, tentemos um rótulo, redutor como quase todos: o de música instrumental, “dançável”, cheia de quebra de ritmos e que, bingo! , mesmo assim pode ser perceptível como música pop de fácil alcance. É possível capturar entre o público fiel que comparece aos shows (“banda de muitos amigos, graças a Deus”, garantem) insuspeitas reboladinhas e até algumas tentativas de corinhos, acompanhando uma frase da guitarra. “Até hoje, não sentimos falta de um vocalista. Como as coisas foram sendo feitas, natural que o espaço duma eventual cantoria fosse preenchido por um gemidinho de guitarras, um soluço de baixo, um ricochete de bateria…! Mas, confesso: tenho ganas de cantar, quase um sonho” revela o baterista.

Normalmente a gente sempre deseja que os sonhos de alguém se realizem. Mas nesse caso, vale quase torcer contra. Afinal, pouca gente pode tirar uma onda falando que algumas das melhores músicas pop produzidas em sua cidade não tem letras nem vocais. E justamente por isso despertam a curiosidade de muita gente

Racionais MC´s na transversal do tempo

Reportagem publicada no jornal Hoje Em Dia, em 01/12/2004

(Um dos shows mais interessantes de todos: Racionais MC´s, com o então recém lançado, hoje clássico, “Nada Como Um Dia Depois De Outro Dia”. Apresentação marcada para as 23h. Subiram no palco quase às 03h…)

“Tem que fortalecer, o rap tem que fortalecer”. Não era um pedido, ou discurso. O que o autor da frase acima proferia era uma ordem, uma conclusão lógica de um pensamento que segundos antes tinha feito referência a todos os pilares básicos da construção social: a família, a religião, a moradia, a segurança.

Era o começo do fim: com os primeiros versos de “O Homem Na Estrada”, o locutor se despedia de uma platéia absurdamente em silêncio depois de quase duas horas de um estranho misto de concentração liturgica e messianismo pop. O autor da frase é Mano Brown, o maior letrista da música popular brasileira nos últimos dez, quinze, vinte anos…Um textos mais ricos e impactantes do Brasil recente ,cujos maiores achados dialogam pau a pau com outras grandes obras musicais de contestação social/política nacional.

Narrador em carne viva, cuja acidez fora percebida e tornada artigo de primeira necessidade em 97, quando o grupo que comanda soltou nas ruas da classe média “Sobrevivendo No Inferno”, autêntico manual da selva marginalizada pelo neoliberalismo global, cortesia do governo Fernando Henrique Cardoso. A partir dali encurtaram-se as distâncias entre o grande público e uma outra realidade baseada em fatos reais . O trabalho dos paulistas virou grife para “mauricinhos” abastados ,onde possuir um exemplar do disco garantia um brevê para circular nas ruas ;fetiche acadêmico para aqueles em busca de uma bela tese sobre os “excluídos” da sociedade, etc.

Impulsionou a produção do rap brasileiro focalizado na crítica social, abrindo alas para que novos nomes como Sabotage e Xis não fossem recebidos como corpos estranhos dentro da grande mídia. Então o rap hoje se faz palatável, deglutível para farto consumo de quem antes se situava como alvo- de cor e de situação- e que na semana passada semi-lotou o Lapa Multishow em busca dos poéticos fragmentos de uma realidade que só poderia, a princípio, ser conhecida a distância, no conforto do som no carro, embalando pesquisas na Internet.

Agora os Racionais já não são referência única. Nos últimos dois anos, enquanto os paulistas lançavam “Nada Como Um dia Após O Outro”  o demorado sucessor de “Sobrevivendo…” , já se destacava uma outra solução vigente para um gênero em busca da batida perfeita com Marcelo D2 , num ritual cujo profissionalismo e (saudáveis) tendências comerciais não encontram rima com a força bruta dos Racionais. Ou até mesmo um abusado outro lado da moeda representado por Ramon Moreno, cuja alcunha De Leve desafiava com marra a validade do discurso-burocrático da “violência-periferia-racismo” tão explícito em Mano Brown , Eddy Rock, Ice Blue e KL Jay em seu segundo disco “O Estilo Foda-se”.

Um desfecho que se apresentava como uma espécie de defesa até, a declarações equivocadas dos paulistas( “O Ronaldinho tá de Ferrari? Tem que seqüestrar pra acabar com essa putaria.”) e posturas que superaram a fina linha entre a defesa e o ataque gratuito, preconceituoso e ignorante. Hoje, a cena é outra, mais repleta de personagens coadjuvantes e sem saber quem protagoniza tudo. Reflexo talvez da lógica do mundo pop, onde demorar cinco anos para lançar um novo trabalho pode sair caro demais.

No palco do Lapa Multishow, boa parte destes embates se tornaram visíveis: a postura simpática e quase sorridente de um Mano Brown que na mesma BH foi acusado de incentivar o racismo durante uma apresentação, e que agora discursava contra o preconceito e a violência, indo de encontro com parte do novo repertório, onde fala-se até em um “Estilo Cachorro”, pautado basicamente na diversão sexual entre manos e minas, sem maiores julgamentos morais. Mas que volta e ainda encontra força suficiente para passar um pito na cena rapper local e para retomar a missão de que há muita história para ser contada ainda.

O rap tem fortalecer, ordena Brown. Mas como? Para onde? Em plena metamorfose, é possível que ele não saiba responder. É o fim do começo e tudo mudou :já se passaram sete anos e ainda não se sabe ao certo se os Racionais chegaram até onde poderiam – e queriam –chegar, questão essa que pode ser amplificada a todo rap nacional. E talvez seja esse questionamento que encerre uma época onde o rap era novidade , uma alternativa ao padrão. Já não é mais. Mas a resposta para a questão acima pode ditar os rumos para o gênero nos próximos anos. Vai valer a pena esperar, Racionais capítulo 5, versículo próximo.