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A grande marcha da “vadia”

Resenha publicada no jornal O Tempo em 13/09/2013

A palavra “bitch”– em bom português, “vadia”– ganhou conotações diferentes com o passar dos anos, tanto aqui, quanto lá fora. Antes unilateralmente uma ofensa, o termo ganhou tons relacionados a uma virada de jogo feminina, onde estariam em questão tanto a liberdade de poder ser quem se deseja ser (o mote maior das notórias marchas que aconteceram no Brasil recentemente) quanto a força feminina, ameaçando a soberania masculina, especialmente na música negra norte-americana contemporânea.

Pois Beyoncé mostrou, para um Mineirão embasbacado, que sabe concatenar bem esses novos significados, ainda que eles ao palco com algumas contradições. Durante os 60 minutos de atraso para o início do show – militantes ou não, garotas não dispensam um atraso antes de chegar em qualquer festa, certo? – foi oferecido ao público uma espécie de trailer interminável nos telões. Os tais vídeos se revezavam entre uma mulher consciente, ativa (propagandeando campanhas feministas e contra a fome), e outra claramente vendável, desfrutável ao alcance da grana (comerciais de perfume e marca de roupas).

Ao entrar, marchando epicamente rumo ao palco, ela soltou o grito de guerra “Run The World (Girls)”,um aviso de que quem mandava ali era ela (e foi mesmo). Uma ode à independência feminina, ao empoderamento de meninas e mulheres. Mas, ao mesmo tempo, ela exige o cumprimento da plateia antes de “Baby Boy”: “Say Hey Mrs Carter!”.

Assim como no nome da turnê, sai Beyoncé e entra a esposa, revelada no nome de casada. Uma “vadia” que quer ser o que estiver afim de ser, inclusive uma dedicada mãe e esposa. Como cantou na terceira música do show, “Flaws and All” – “Eu sou uma vadia pela tarde/ Eu não sei porque você me ama/ E é por isso que eu te amo”. E é por essas confissões em hi-tech que o público, encantado, também te ama Beyoncé.

Produção. Mas hoje, sabemos, o artista não tem que ir apenas onde o povo está; tem que vender sonhos. E sim: é de babar a estrutura do show. É tão impactante que às vezes nos esquecemos de suas trocas de figurino (foram nove? Dez?), sempre deixando as famosas pernas ali, ao alcance de nossos olhos.

Mas o que impressiona mesmo é perceber que uma grande cantora sobrevive à parafernália: poderia se tirar tudo da tomada que Beyoncé seguraria nossa atenção no gogó, nos quadris, nas caras e bocas que faz ao cantar e dançar. Beyoncé se contradiz, mas também está com a tradição. Os números mais incendiários, como “Why Don’t You Love Me”, comprovam que a cantora é, de fato, moldada pelas gargantas negras da velha América: em Chaka Khan, em Whitney (justamente) relembrada com “I Will Always Love You”, antes do hit “Halo” encerrar o show.

A dobradinha “Crazy In Love” e “Single Ladies” foi um daqueles momentos que o novo Mineirão vai aguardar para sempre na retina. E aí, amigo, não há photoshop que resolva. O que resolve é talento mesmo.

Outra viagem ao fantástico mundo de Kurt Vile

Kurt Vile é um dos nomes mais interessantes do rock atual, mesclando baladas folk com camadas de pur

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crédito: Matador Records/Divgulgação

Resenha publicada no jornal O Tempo em 15/07/2013

Kurt Vile é um destes achados que, por sorte, encontram sua prateleira no confuso mercado de música atual. Mais do que isso, é quase um pequeno milagre que um autêntico doidão (sua banda anterior se chamava ironicamente, The War on Drugs, em tradução livre, “a guerra contra as drogas”), que saiu da Filadélfia munido de canções tão belas quanto simples, beliscou a parada de sucessos, além de ter ganho o clamor da crítica especializada.

 Se o genial Gram Parsons cunhou a expressão “Cosmic American Music” para definir sua música, nos anos 1970, a chancela veste com perfeição a música de Vile: são pequenos artefatos psicodélicos, mas com a delicadeza das grandes canções folk. Dá para imaginar que ele é o tipo de sujeito que ficava em casa gravando o som do mesmo dedilhado de violão por horas a fio, motivado por algo que seus pais não sabiam que ele carregava em seu bolso.

Mesmo que, no novo álbum, ele cante “Às vezes, quando estou na minha área, você iria pensar que estou chapado/Mas, como eles dizem, eu nunca mexi com essas coisas” (em “Golden Tone”), seu trabalho tem um indiscutível verniz de experiências sensoriais motivadas pelo uso de drogas.

Vile apresenta um tino melódico impressionante, onde, por baixo de toda a argamassa indie, se encontra, sem pudores, sólidos tijolos pop, um Tom Petty aqui, um Waterboys acolá e, acima de todos, Lou Reed, se este não estivesse tão preocupado em soar cínico, antes mesmo de cantar. Antes de qualquer coisa, trata-se de um grande compositor, capaz de tecer canções narcotizantes, daquelas que grudam no HD mental. As gravações simples, sem requintes, apenas adicionam um charme ao currículo do rapaz.

Seu passaporte para o sucesso foi o disco anterior, o belíssimo “Smoke Rings in My Halo”, lançado em 2011. Ali, revelou em dez músicas seu grande segredo: mediar as ambiências tortas de suas canções com dedilhados hipnóticos de violão e vocais entorpecentes, onde a repetição dá o tom. De tanta circularidade, o ouvinte sai com pequenos mantras, muito aderentes, e bem chapado.

O mais interessante de “Waking on a Pretty Daze” (Gravadora Matador Records), seu novo álbum, talvez seja o desapego de Vile quanto a tudo isso, e a mão firme que ele mantém em suas escolhas. Seria possível imaginar que, depois de tanta bajulação, ele limparia seu som, cortaria seu cabelo, arrumaria uma banda melhor.

Mas não: ele segue sua trilha à margem e comete mais um ótimo trabalho, repleto de climas e nuances. Coleciona épicos de bolso, como a faixa título, “Too Hard”, e “Goldtone”, além de belezas inquestionáveis como “Pure Pain” e a ótima “Shame Chamber”. Um disco livre e solto, imperdível para os dias que correm.

Nosso camp máximo e bem resolvido: Roberto Carlos ao vivo

(Candidato a texto favorito, pelo menos entre os publicados durante minha passagem pelo Tempo. Razões várias: apesar de ter escrito sobre ele algumas vezes, especialmente na época do lançamento de sua biografia, nunca tinha visto Roberto ao vivo; estava muito afundado e encantado em leituras de Sontag na época; sei bem da importância do homem para a cultura brasileira, além de, naturalmente, ser uma admirador de sua obra. Especialmente quando o “rei” baixa a guarda e se mostra menos “o cara”, menos herói e mais simples mortal- não à toa escolhi a música acima para ilustrar este post.  E acho que justamente por isso, mudei o título original da matéria (“Roberto Carlos é “o cara”) para este post. A matéria que puxou a resenha é esta aqui)

Resenha publicada no jornal O Tempo  em 27/05/2013

A ensaísta norte-americana Susan Sontag escreveu, em 1964, um influente artigo, chamado “Notas sobre o Camp”. Nele, apontava a ascensão de uma nova sensibilidade, o camp, uma espécie de brega aceitável. Cá para nós, onde a indecisão é o regime, o camp já deitava e rolava há tempos – e nem a bossa nova foi capaz de varrer nossa natural barangália pelo tapete. Ao ver Roberto Carlos subindo ao palco, em pleno 2013, em um ginásio lotado, introduzido por uma intervenção da orquestra, cheio de cerimônia kitsch, é difícil não pensar: ele é nosso camp máximo e bem resolvido.

Com um pequeno “detalhe”: ele é muito, muito maior do que isso. E nem a tradicional péssima acústica do seu castelo local, o Mineirinho (que não é uma brasa; é fogo, é dureza), conseguiu esconder isso. Vê-lo interpretar canções como “Lady Laura” ou“Mulher Pequena” é carimbar um furo no passaporte da brasilidade; são preciosas sínteses do que é viver por aqui; por causa da Jovem Guarda, do romântico, do apostólico e, evidentemente, por causa do lado brega – que felizmente já assumimos como coisa nossa. Não é síndrome terceiro-mundista, não é arroubo patriótico: é só uma sensibilidade, como diria Sontag.

Os milhares de súditos fiéis estão ali – estranhamente desanimados –, fazendo o coro em delay, as vozes que ecoam microssegundos depois do rei cantar. Senhoras com a escova em dia, rapazes bem trajados, a mãe daquele amigo de infância que não vemos há tempos… Show de Roberto é a missa matinal de um domingo, uma tradição que insiste em permanecer.

Tem seu valor? É óbvio! É necessário até. Levamos muito tempo para entender que, na lupa, a distância entre Caetano, Wando e, sei lá, “Anna Júlia”, não é tão grande assim. Todos fazem parte de um grande pacote colecionável chamado “canção brasileira”, cuja figurinha mais versátil é ele, Roberto Carlos.

Pode pegar todos: no show, fica claro que nenhum artista é mais “nossa cara” que ele. Transforma um gibi da infância no cão que sorri latindo (“O Portão”); discorre charmosamente sobre o sexo cotidiano (“Côncavo e Convexo”), transfigura um hino de igreja numa linda canção pop – ou seria o contrário? – (“Nossa Senhora”).
Ninguém mais consegue ser o hitmaker do puteiro (no pout-porri “sensual”), da festa de final de ano da firma (no pout-porri “rock”) e dos camarotes de astronômicos preços espalhados pelo ginásio ao mesmo tempo. Converte os milhares e intermináveis gritos de “Roberto, eu te amo” em discursos do tipo “sou igual a vocês”. Mas os recém-conquistados ombros largos não escondem: é o super-herói que não se deixa errar, que faz um show programático e profissional.

“Esse Cara”, na verdade, é ele mesmo. Por mais que uma senhora na plateia dê a real depois do discurso do rei: “Esse cara só existe na novela”. E nas primeiras fileiras, o que se vê é o público filmando o cantor com celulares, olhos vidrados no telão.“Camp é a resposta ao problema de como ser um dândi na era da cultura de massa”, escreveu Sontag. O dândi é como um pôr do sol: mantém o calor final de um tempo que está morrendo, escreveu o poeta. Então, o show de Roberto é puro exercício de dândismo, é camp em estado bruto. E nem o remix de Memê (bem 1994, diga-se) em “Fera Ferida” resolve essa angústia.

Seguimos sonhando com um Rick Rubin conduzindo o rei como fez com Cash; com um disco de inéditas para valer. Ah, bicho, fazer como Erasmo em “Rock n’ Roll”, mora? Renovar. Talvez o que falta ao rei é a calibragem certa na democracia. E talvez esse Roberto já esteja ali no show, na pausa voz e violão de “Detalhes”. Basta ele próprio perceber isso.